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Conversando com o Pediatra

Parte I — Promoção e prevençãoCapítulo 11 de 46

Vacinas

Da varíola à dengue: os pediatras explicam calendários, reações e dúvidas comuns sobre vacinas, uma das páginas mais bonitas da história da medicina.

  • AutoriaÁlvaro Machado Neto, Carlos Gonçalves de Oliveira, Eliane Buarque de Freitas Machado, Elizabeth Azoubel, Jailson de Barros Correia, Ney Marques Fonseca e Otelo Schwambach Ferreira
  • Leitura35 min · 7,289 palavras
  • No livropáginas 286–313
  • Conversa45 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

Em perguntas e respostas, os pediatras esclarecem as dúvidas mais comuns das famílias sobre imunização. O capítulo lembra conquistas históricas, como o fim da varíola e a poliomielite praticamente erradicada, e apresenta novidades como a vacinação contra a dengue no SUS e a vacina contra o vírus sincicial respiratório aplicada na gestante. Explica os calendários do PNI, da SBP e da SBIm, o papel do CRIE, as vacinas combinadas, quando adiar a vacinação e o que fazer em caso de atraso, além de tratar de tétano, HPV, rotavírus, gripe e raiva.

Boa parte das respostas aborda reações e precauções: vermelhidão no local, a ferida do BCG, febre, “sarampinho”, desmaio e alergia ao ovo, muitas vezes com o conselho de avisar o médico. Há ainda orientações sobre o cartão vacinal, a vacinação contra a covid-19 e a cultura antivacina. O capítulo reúne os calendários nacionais da criança e da gestante e termina com a teoria da higiene, a “sujeirinha” que pode ajudar a amadurecer a imunidade.

Para quem: Para famílias que querem manter o cartão vacinal em dia e entender, sem susto, as reações mais comuns às vacinas.

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Por séculos, a varíola fez sofrer e matou muitas pessoas pelo mundo afora. Hoje não existe mais graças à vacina. Tétano, hepatite A, difteria, sarampo, rubéola, parotidite (caxumba), gripe (influenza), febre amarela, infecções graves pelo agente da tuberculose e outras bactérias como pneumococos, meningococos e hemófilos do tipo B são exemplos de doenças evitadas através da imunização. Uma forma de diarreia que pode ser grave e até fatal, causada pelo rotavírus, também é evitável pela vacina. Até mesmo alguns tipos de câncer, como o do colo uterino (causado pelo HPV) e o do fígado (quando causado pelo vírus da hepatite B) são também evitáveis por imunizantes amplamente disponíveis.

A poliomielite (paralisia infantil) — que causou mortes ou incapacitou pessoas por toda a vida — foi praticamente erradicada do mundo graças à vacinação, embora o risco de sua reintrodução não esteja descartado devido à queda das coberturas vacinais.

Mas as recentes vitórias contra a covid-19 ressaltam, mais uma vez, de forma inequívoca, o papel das vacinas no controle de infecções que acometem o ser humano. Os imunizantes contra a covid-19 já fazem parte do calendário vacinal de crianças brasileiras a partir dos 6 meses de idade.

E tem mais. O desenvolvimento científico tem permitido uma rápida introdução de novas vacinas seguras e altamente eficazes. A Organização Mundial de Saúde já relata, por exemplo, o grande impacto da imunização contra a malária (recomendada para regiões de alta endemicidade na África), prevenindo dezenas de milhares de mortes a cada ano, especialmente de bebês de países pobres. Um marco histórico!

No Brasil, vimos recentemente o Sistema Único de Saúde (SUS) iniciar a vacinação contra o vírus da dengue, protegendo crianças e adolescentes das regiões mais afetadas do país e contribuindo para arrefecer uma das maiores epidemias da nossa história recente. Temos duas vacinas contra a dengue licenciadas no Brasil: uma indicada para pessoas infectadas anteriormente pelo vírus e outra que pode ser usada tanto por pessoas que já tiveram a doença quanto por quem nunca teve. No momento desta última revisão do texto impresso, maio de 2025, destacamos, ainda com respeito às arboviroses, a aprovação pela Anvisa da vacina contra o vírus chikungunya (para pessoas acima de 18 anos).

Outra grande novidade é a incorporação ao SUS da vacina contra o vírus sincicial respiratório A e B. Aplicado na gestante, o imunizante protege bebês contra a bronquiolite, uma doença respiratória pediátrica — presente em todo o mundo — que pode ser grave, especialmente em prematuros. A estratégia de proteção desses pacientes inclui ainda o uso do nirsevimabe nos bebês de risco. De forma complementar à vacina, o nirsevimabe é um anticorpo monoclonal (ou seja, um anticorpo específico) que protege a criança de forma rápida, eficaz e segura.

Assim, como vemos, os avanços científicos em vacinação são muito dinâmicos e a leitura deste capítulo deve ser complementada com o material virtualmente disponibilizado e pelas atualizações dos calendários oficiais de imunização.

Não se conhece na prática médica alopática, homeopática, fitoterápica, indiana (ou ayurvédica), chinesa ou de qualquer outro tipo, um procedimento que tenha uma relação custo / benefício tão favorável quanto a vacinação.

O que pretendem os calendários de vacinação?

Os calendários pretendem orientar médicos, enfermeiros, cuidadores e usuários sobre: as vacinas disponíveis; o número de doses para cada produto; as idades em que devem ser aplicadas as doses iniciais e as subsequentes e outros dados. São transcritos no conteúdo virtual acessado por QRCODE vários calendários para a vacinação das crianças e dos adolescentes: do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

O programa do PNI é a proposta do governo federal para todas as crianças brasileiras e as vacinas estão disponíveis nos postos de saúde pública. Os calendários da SBP e o da SBIm incluem vacinas recomendadas pelos especialistas, que podem ou não estar disponíveis no SUS. Ainda existem calendários específicos para a vacinação dos prematuros, adultos, idosos e mulheres, como pode ser visto nos sites do PNI e da SBIm.

O programa do Ministério está defasado?

O Ministério da Saúde do Brasil oferece um dos mais modernos programas de vacinação do mundo. É importante citar o controle da paralisia infantil no país, que é um exemplo reconhecido internacionalmente. A oferta, na rede pública, das vacinas contra o rotavírus, pneumococo, meningoco, HPV tetravalente, poliomielite inativada, catapora e hepatite A, por exemplo, demonstram a amplitude e atualização do calendário do PNI. Os imunizantes disponíveis nos postos públicos são uma excepcional conquista da nossa população e vacinar as crianças é uma atitude louvável e recomendável. Fazer uso das vacinas que o Ministério da Saúde oferece nunca deve ser motivo de lástima ou de constrangimento.

As clínicas de vacinação privadas podem oferecer alguns imunizantes ainda não disponíveis na rede pública. Por exemplo, apresentações formuladas para diminuir o número de injeções necessárias, coberturas de alguns subtipos menos comuns de vírus ou bactérias ou que apresentam menor incidência de eventos adversos. As famílias que forem vacinar seus filhos na rede privada devem sempre procurar informações sobre a idoneidade das clínicas.

E se a criança precisar de uma vacina que não existe nos postos?

O Ministério da Saúde mantém um programa especial chamado Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE), o qual disponibiliza vacinas existentes e licenciadas no mercado para crianças e adultos com necessidades especiais, mesmo que não estejam disponíveis no calendário oficial. O site do Ministério da Saúde oferece os endereços desses centros em várias localidades do país. Assim, por exemplo, a DTPa (acelular), indicada para casos especiais, como nas crianças convulsivas, está disponível no CRIE.

Quais as principais diferenças entre os calendários?

Quase todas as vacinas existentes nas clínicas privadas estão disponíveis também na rede pública, ainda que possam variar quanto à sua apresentação, por exemplo. A SBP e a SBIm fazem suas recomendações com base na análise dos seus especialistas e as publicam nos seus respectivos calendários.

É importante lembrar que as vacinas da rede privada são incorporadas mais rapidamente aos calendários vacinais e, de certa forma, estimulam a introdução desses produtos também na rede pública. A incorporação de novos imunizantes no calendário público demanda estudos populacionais e de impacto econômico. No calendário nacional do PNI, o Ministério da Saúde também leva em conta critérios de priorização, como a gravidade e a frequência daquela doença na população, além do custo-efetividade das vacinas, ou seja, quais os melhores resultados atingidos pelo preço mais adequado. Nunca é demais relembrar que o calendário vacinal público do Brasil é reconhecido em todo o mundo como um dos mais completos e é motivo de orgulho para todos nós.

É seguro juntar várias vacinas num único produto?

Os estudos científicos autorizam isso. A vacina hexavalente, a qual associa seis vacinas, é um bom exemplo. As pesquisas demonstram que a proteção obtida contra as infecções é muito boa e os efeitos colaterais não são mais intensos. Somando-se a essas vantagens biológicas há também as operacionais (menos idas ao serviço de saúde e menos “agulhadas”) e econômicas (menor custo). Por isso, verifica-se que é mais vantajoso usar produtos que associem vários imunizantes. Além da aplicação da vacina hexavalente, as crianças de dois meses devem ser vacinadas contra o rotavírus (por via oral) e contra o pneumococo (injetável).

Quando não devemos levar as crianças para vacinar?

Há duas situações bem distintas:

  • As crianças com doenças agudas importantes devem ser vacinadas após a cura. É prudente postergar a vacinação se existe: febre alta com ou sem diagnóstico definido; infecção respiratória aguda (asma, sinusite, otites, bronquites, pneumonias e outras enfermidades que exigem tratamento antibiótico ou outro tratamento especial); doença aguda do tubo digestivo (com vômitos e diarreia); ou qualquer outro quadro agudo que pode ter algum significado especial (como urticária e convulsão recente). As doenças sem febre ou outros dados importantes – resfriados, faringites, amigdalites, dermatites e outras – não devem interferir no calendário vacinal. Mas é sempre bom rever o tema com os pediatras.
  • As crianças com algumas doenças crônicas que estão sendo investigados e/ ou tratadas merecem uma orientação especial dos pediatras. Estão nessa categoria os portadores de asma que estão recebendo corticoides; outras doenças respiratórias crônicas; dermatites crônicas, muitos delas sendo tratadas com derivados da cortisona; doenças renais crônicas como os com a síndrome nefrótica e com nefrite; doenças neurológicas como a paralisia cerebral e os quadros convulsivos; doença cardíaca como as más formações; doenças hematológicas como as anemias importantes, as leucemias e as enfermidades relacionadas a elas; tumores em qualquer local do corpo. Há doenças crônicas que não perturbam a vacinação, mas há outras em que ela deve ser modificada e cabe aos médicos assistentes definir o que fazer.

O que fazer quando retardamos a aplicação da vacina?

A aplicação das vacinas pode ser feita alguns dias antes ou alguns dias depois da data marcada. As grandes antecipações e os grandes atrasos devem ser evitados. No entanto, o corpo humano guarda as informações da vacinação anterior – é a chamada memória imunológica – e não há necessidade de repetir as vacinas anteriormente aplicadas quando houve algum atraso na aplicação das subsequentes. O importante é vacinar e cumprir o programa vacinal. Ou seja, o fundamental é dar o número de doses programadas para cada vacina.

Existem duas vacinas contra a paralisia, a oral e a injetável?

Sim, mas houve recentíssima modificação deste cenário.

A Vacina Inativada contra a Poliomielite (VIP) é uma vacina injetável, usada de rotina hoje em todo o mundo, inclusive no Brasil. Oferece excelente proteção contra esta terrível enfermidade. A VIP inativa o vírus, o que significa que ele não causa a doença. Ao receber a vacina, o organismo produz anticorpos que o protegem contra a poliomielite.

Já a vacina oral contra poliomielite (VOP) parou de ser utilizada no Brasil em novembro de 2024, deixando muitas saudades. A “gotinha”, como era carinhosamente chamada a VOP, foi fundamental na erradicação da poliomielite no Brasil. Além das doses de rotina, a VOP foi largamente utilizada, por décadas, nas campanhas e dias nacionais de vacinação.

A mudança para a VIP foi motivada por recomendações internacionais e pela necessidade de garantir uma cobertura vacinal mais alta em todo o país. A VIP já era usada nas três primeiras doses da vacina contra a poliomielite, que são aplicadas aos 2, 4 e 6 meses de vida. Agora, o reforço aos 15 meses também é realizado com a VIP, dispensando a necessidade da dose de reforço aos 4 anos.

Falem mais sobre as campanhas contra a paralisia infantil

O objetivo dos dias nacionais de vacinação contra a poliomielite era vacinar, em cada etapa da campanha, 95% dos menores de cinco anos, de forma a contribuir efetivamente para manter o Brasil livre da poliomielite. Foi essa a melhor forma de estabelecer proteção coletiva contra a doença e a disseminação do vírus vacinal no meio ambiente.

As campanhas controlaram a paralisia infantil do nosso país. Em 1989, foi registrado no país o último caso da doença e, em 1994, o Brasil obteve o certificado internacional de erradicação da transmissão do poliovírus selvagem. Um fato novo, com relação a vacinação contra poliomelite foi o aparecimento de mutações no vírus vivo da vacina oral (VOP), que se dissemina pelas fezes e pode começar a circular na comunidade. Esses vírus mutantes podem produzir a doença com paralisias musculares de gravidade semelhante à do vírus selvagem. Assim, a mudança da recomendação da VOP pela VIP também representa mais segurança no controle da doença.

Por que a vacina de tétano é indicada para as grávidas?

O tétano é uma doença transmissível que apresenta duas formas de ocorrência: acidental e neonatal. O acidental ocorre após ferimentos contaminados com material rico de bactérias que causam a doença (fezes de animais, por exemplo). O tétano neonatal é causado pela contaminação quando o cordão umbilical é seccionado com instrumentos cortantes não esterilizados ou quando são usados materiais contaminados (teia de aranha, pó de café, fumo, esterco) no curativo. Esta última forma de tétano, extremamente grave, é evitada por meio da vacinação das gestantes durante o pré-natal. A mãe vacinada transmite seus anticorpos protetores para o filho que, assim, fica protegido. A proteção é transitória e aos dois meses de idade todas as crianças devem receber a vacina específica.

Nos últimos anos, o tétano neonatal está praticamente controlado, graças à vacinação rotineira das gestantes, prática universal adotada nos cuidados pré-natais. O tétano nas crianças também está sob controle. É frequente que os adultos esqueçam de fazer os reforços a cada 10 anos. Esta prática é essencial e todos devem estar alertas.

E quando tomar a vacina contra o tétano após os ferimentos?

A bactéria que causa o tétano está presente em 20 a 65% das amostras de solo. Desse modo, toda ferida contaminada com terra, sobretudo a existente em propriedades rurais, onde há abundância de excrementos animais, deve ser considerada perigosa. Como a vacinação rotineira contra o tétano oferece uma proteção elevadíssima, a orientação sobre o que fazer nos pacientes com ferimentos depende da pergunta básica: “a pessoa ferida é ou não é corretamente vacinada contra o tétano?”

O que é o HPV? Como é transmitido e por que vacinar?

HPV significa Papiloma Vírus Humano. Existem vários tipos deste vírus e alguns podem causar câncer do colo do útero (assim como de laringe e de pênis). Os HPV causadores de câncer (tipos 16-18-31-45) são responsáveis por mais de 80% dos casos de câncer de colo de útero. Os tipos 6 e 11 causam as verrugas genitais. O vírus é transmitido normalmente por via sexual. Assim, é uma infecção sexualmente transmissível (IST). A prevenção mais eficaz contra a infecção pelos HPVs que ocasionam câncer é através da vacinação. O uso de camisinha diminui a possibilidade da transmissão durante a relação sexual e a mulher que teve ou tem atividade sexual deve realizar exame ginecológico preventivo periodicamente. A maior liberdade sexual e o início da atividade sexual na adolescência fazem com que a disseminação deste vírus seja extremamente frequente entre os jovens de todo o mundo. Isso transforma a questão da infecção pelo HPV num grande e global problema de saúde pública.

Existem, atualmente, dois tipos de vacinas contra o HPV mais utilizadas. A tetravalente, disponível na rede pública e privada, e mais recentemente a vacina nonavalente (9 sorotipos), na rede privada. Ambas conferem excelente nível de proteção contra os tipos mais comuns de HPV causadores de câncer.

Mulher que já teve infecção pelo HPV pode ser vacinada?

A infecção é causada apenas por um tipo e as vacinas possuem mais de um tipo viral. Assim, as pessoas infectadas devem ser vacinadas.

É necessário fazer a pesquisa de HPV antes de tomar a vacina?

Não é necessário o exame prévio de papanicolaou (ou testes novos, chamados testes moleculares) para as adolescentes ou mulheres que decidirem fazer uso da vacina contra HPV.

É importante vacinar os homens?

Sim, tanto para protegê-los diretamente quanto para diminuir a transmissão do HPV. A vacina quadrivalente está disponível gratuitamente para meninos de 9 aos 14 anos no SUS.

O que é o rotavírus?

O rotavírus é um dos mais importantes agentes causadores de diarreia e de óbitos em crianças menores de cinco anos em todo mundo. É a principal causa de internamento de crianças nos países desenvolvidos. A maioria das crianças se infecta nos primeiros anos de vida, porém os casos mais graves ocorrem principalmente até os dois anos de idade. Conhecendo a gravidade e os custos com tratamento, o Ministério da Saúde introduziu a vacina no calendário público de vacinação.

Por que a vacina contra rotavírus não deve ser aplicada fora dessa idade?

A vacina contra rotavírus não deve ser aplicada fora das faixas etárias preconizadas. A razão para isso é que foi observado que a aplicação em crianças acima dos limites de idade está diretamente relacionada ao surgimento de um problema intestinal grave, a invaginação intestinal, levando, em alguns casos, até a necessidade de cirurgia. É possível que no futuro essa posição seja modificada ou que outros produtos sejam desenvolvidos para suplantar a limitação atual.

Por que a vacina de gripe muda de um ano para outro?

As pesquisas anuais que envolvem o vírus da gripe em todo o mundo indicam que é possível prever quais cepas circularão no inverno subsequente. É essa a razão pela qual a OMS muda as cepas virais da próxima vacina para cada hemisfério do planeta.

A gripe é uma doença universal acometendo de forma mais grave as crianças pequeninas, os idosos e as pessoas que apresentam alguns tipos de comorbidades. Nesses grupos, é frequente a necessidade da hospitalização e, às vezes, a evolução é grave com mortalidade elevada.

Como existem muitos tipos de vírus da gripe e também ocorrem mutações frequentes é necessário ficar atualizando e modificando a composição das vacinas anualmente. Lembrando que as vacinas protegem contra as formas graves da doença e a pessoa vacinada pode contrair a gripe por outros tipos sorológicos não contemplados no imunizante. Resumindo, quem recebe a vacina contra gripe não está livre de contrair a doença, mas certamente está protegido das formas graves.

Como é a prevençao da raiva?

A raiva é uma doença viral grave, geralmente fatal, com poucos relatos de pessoas que conseguiram sobreviver. Apesar de não muito frequente, existem 45 casos comprovados da doença segundo o Ministério da Saúde, no período de 2010 a 2022. As orientações essenciais são:

  • A penetração do vírus ocorre através da pele ou das mucosas por mordedura, arranhadura ou lambedura, mesmo não existindo necessariamente agressão. O morcego é um importante transmissor da raiva, pois pode infectar bovinos, equinos e morcegos de outras espécies. Todos esses animais podem transmitir a raiva para o homem. Em zona urbana, o principal transmissor é o cão, seguido do gato. Em zona rural, é o morcego. Os animais silvestres (macacos, mesmo os “inocentes” saguis, raposa, onça, ratos selvagens e outros) são os reservatórios naturais do vírus e propiciam a contaminação dos animais domésticos. Os roedores (ratos domésticos e hamsters) não participam da transmissão da enfermidade. Mesmo com essa listagem disponível, é sempre importante consultar os pediatras quando as crianças, os adolescentes ou os adultos são agredidos por um animal.
  • É importante não tocar em animais estranhos, feridos e doentes; perturbar animais quando estiverem comendo, bebendo ou dormindo; separar animais que estejam brigando; entrar em grutas ou furnas e tocar em qualquer tipo de morcego (vivo ou morto); criar animais silvestres ou tirá-los de seu habitat natural; difundir preconceitos ou informações sem ter certeza da sua veracidade ou sem conhecer a fonte.
  • As recomendações seguintes devem ser rigorosamente obedecidas mesmo que o animal agressor tenha sido corretamente vacinado contra a raiva: lavar imediatamente o ferimento com água e sabão; procurar com urgência o Serviço de Saúde mais próximo para que seja avaliada a indicação do soro e/ou da vacina; nunca interromper o tratamento preventivo sem ordem médica; não matar o animal que agrediu; deixá-lo em observação durante 10 dias, para que se possa identificar qualquer sinal indicativo da raiva; dar água e alimentação ao animal que deve ser preservado num local seguro, para que não possa fugir ou atacar outras pessoas ou animais; voltar imediatamente ao serviço de saúde para informar se o animal adoecer, morrer, desaparecer ou mudar de comportamento; procurar sempre o serviço de saúde quando um animal apresentar comportamento diferente mesmo que ele não tenha agredido ninguém.

Quais as reações indesejáveis das vacinas?

Cada vacina apresenta algumas reações. E é comum observar doenças na mesma época da aplicação das vacinas que nada têm a ver com o produto usado na vacinação. Então, como saber se a febre é produzida pela vacina ou pela roséola, que é uma das doenças febris mais marcantes e que ocorre entre seis meses e dois anos, período em que a criança recebe várias vacinas? As mesmas dúvidas aparecem em outros momentos. Só a análise caso a caso pode tentar responder. E o assunto é tão importante que, nos países mais desenvolvidos, há registros nacionais sobre as reações observadas após a aplicação de vacinas e há critérios rígidos para responder ao questionamento. As autoridades do setor, no Brasil, estão tentando coletar informações sobre os eventos adversos das vacinas. Certamente, precisamos criar a cultura de que esses eventos sejam comunicados aos médicos para que os dados possam ser registrados e analisados nacionalmente. Só o médico, após analisar o que o paciente apresenta, tem condições de afirmar se existe provável ligação entre a vacina e a reação apresentada.

Vacina “estragada” pode dar reação?

Falaremos de vários aspectos envolvidos na questão:

  • Vamos começar com o seguinte exemplo. A vacina Sabin contra a paralisia infantil contém vírus vivos modificados, atenuados, que imunizam contra a infecção. Este delicado vírus para se manter vivo e para imunizar precisa de uma série de cuidados especiais. E nós, os brasileiros, somos testemunhas da maior estratégia universal de vacinação com a Sabin e presenciamos o extraordinário esforço para que tudo funcione bem. Vimos várias demonstrações dos cuidados para a manutenção da vacina viva, com os frascos sendo conduzidos em geladeiras especiais, com prazos definidos, com mobilização até do exército, polícia, marinha e aeronáutica para que tudo ocorra nos “conformes”. Então, a vacina deve chegar viva e ser aplicada viva para funcionar, inclusive num igarapé do Amazonas, por exemplo.
  • Cada produto biológico tem prazo de validade definido e conservação padronizada. E na conservação, a chamada “cadeia de frio”, é o item mais importante e que se transgredido pode resultar na perda de potência da vacina.
  • O principal problema da vacina Sabin e de outros tipos que foram malconservadas é a perda de potência com o risco de fracasso da vacinação. E, pelo menos teoricamente, qualquer produto que não foi adequadamente conservado ou que foi usado fora do prazo de validade, portanto, uma vacina “estragada”, tem maior chance de causar fenômenos indesejáveis.
  • Como norma geral, toda vacina deve ser muito bem conservada, com rigor técnico, com controle; deve ser usada no prazo de validade; deve ser manuseada por gente competente e aplicada em serviço qualificado.

Antigamente as crianças tinham mais reações?

Sim, é verdade. O aprimoramento dos processos utilizados na produção das vacinas permite hoje aplicar apenas o componente que produz a imunidade e não aplicar aquela parte responsável pelas reações indesejáveis. Isso é notório com a vacina contra a coqueluche que antes continha o corpo total da bactéria responsável pela doença e atualmente contém apenas o componente imunizante. Antigamente, a vacina era celular e agora é acelular. Vejam que maravilha. Ao invés de ministrar todo o vírus ou toda a bactéria, mesmo que atenuados, como era antes, é possível vacinar apenas com o componente que interessa. Isso significa aplicação de menos produtos e ocorrência de menos efeitos indesejáveis. Outros detalhes importantes como o conhecimento sobre a importância da conservação, a fiscalização dos órgãos responsáveis pelo controle dos postos de vacinação e a maior conscientização sobre o valor de uma série de outros aspectos também produziram redução desses eventos indesejáveis. Agora, mais do que antes, o aumento dos efeitos protetores e a redução dos probleminhas causados favorecem grandemente o uso dos imunizantes como medida protetora.

A técnica da aplicação é tão importante assim?

A má técnica de aplicação pode causar reações indesejáveis e isto é marcante com certos produtos como o BCG. Então, é importante que o profissional que aplica o imunizante seja bem capacitado e experiente. O uso de material de boa qualidade também irá contribuir para diminuir a dor e outras reações.

A aplicação da vacina na coxa dá menos reação que no braço?

Não, as reações são as mesmas. Tecnicamente, é aconselhável, em crianças com menos de dois anos de idade usar a coxa para vacinas com aplicação profunda intramuscular. Nessa idade, é na coxa que é encontrado o músculo de maior massa o que diminui a possibilidade de acidentes na aplicação. Em crianças maiores, deve-se usar o músculo do braço. A aplicação de injeções na nádega não é recomendável pelo risco de atingir um nervo importante.

O local da aplicação na minha filha ficou duro e vermelho!

Vermelhidão, calor, endurecimento, inchação e dor no local das vacinas injetáveis são muito usuais e resultam da ação irritante dos componentes do imunizante. A frequência das reações locais aumenta com a aplicação das doses subsequentes. Recomenda-se o uso de compressas frias para tratamento destas reações locais.

Tentei dar o BCG no bumbum, mas não aceitaram!

O BCG é rotineiramente feito no braço direito, no nível inferior do músculo deltoide. O uso desse local tem por finalidade facilitar a identificação da cicatriz em avaliação da atividade de vacinação e limita as reações ganglionares da região axilar. A aplicação em qualquer outro local do corpo aumenta o risco de efeitos indesejáveis. Quando a recomendação de aplicar na região deltoide não puder ser seguida, deve-se registrar o local da administração no cartão de vacinação.

Por que o BCG provoca aquela ferida no braço das crianças?

O BCG injetado na pele produz reação lenta, demorada, que passa por várias fases, e que é essencial para que o organismo se proteja contra a doença. Para que ela funcione, tudo isso tem que ocorrer. E, ao final, fica a cicatriz típica. A aplicação correta do BCG é intradérmica e produz uma cicatriz pequenina.

Vi criança que ficou com um caroço feio no lugar do BCG!

Normalmente, a reação local da vacina é lenta e benigna, variando de pessoa para pessoa. As complicações da vacinação BCG são pouco frequentes. A maior parte resulta de má técnica como aplicação profunda, inoculação de dose excessiva e contaminação. As complicações mais comuns são os abscessos no local da aplicação, a úlcera de tamanho exagerado e os gânglios. Mas se a aplicação for profunda (no subcutâneo) por pessoa inexperiente, ou por outro motivo, toda a sequência de eventos naturalmente observados fica diferente. Também ficam diferentes as lesões que se tornam mais exuberantes. A cicatriz também será maior, às vezes muito maior.

Quais são as vacinas causam reação febril? Por que isso ocorre e o que fazer?

As vacinas que causam febre com maior frequência são a vacina pentavalente/ hexavalente, contra sarampo, febre amarela, pneumococo, hepatite B, tríplice viral e meningite. A febre é indicação de que os mecanismos de defesa do organismo estão sendo acionados, que o corpo está reagindo e não indica gravidade. A febre pós-vacinal ocorre poucas horas após a aplicação e dura entre um a dois dias. Algumas vacinas, como a tetra viral, provocam uma reação febril que pode aparecer entre o quinto e vigésimo dia após a aplicação. Se a febre é baixa, menos de 38,5°C e a criança está bem, ativa, esperta, comendo, o antifebril pode ser dispensado — basta dar líquidos em abundância e observar. Caso a febre seja mais alta que 38,5°C ou a criança esteja decaída, irritada ou se há outro motivo especial para medicar, dê o remédio para febre e oferte muitos líquidos.

É melhor dar o remédio antes da vacina?

Recentemente foi constatado que o uso do antitérmico antes da aplicação da vacina poderia interferir na resposta de proteção da mesma, diminuindo a produção de anticorpos. Por esse motivo a prática foi abandonada, restringindo-se hoje apenas, antes da aplicação contra a meningite B, por ser mais reatogênica.

Ouvi que a vacina do sarampo causa um “sarampinho”!

Cerca de 5% das pessoas vacinadas pela primeira vez contra o sarampo poderão apresentar um sarampinho, sete a dez dias após a vacinação e com duração de dois a quatro dias. Mas atenção que isto também pode representar roséola ou outra doença. Então é sempre prudente avisar ao médico.

E a da catapora pode dar uma “cataporinha”?

Muito raramente isso pode acontecer. Até um mês após a vacinação podem surgir lesões semelhantes à catapora no local onde a vacina foi aplicada. Essas lesões podem surgir também em outros lugares do corpo (de duas a cinco lesões). Mas pode ser impetigo ou outro problema. Fale com o médico.

Eu tomei vacina contra hepatite B e fiquei com dor de cabeça!

Raramente ocorrem reações como dor de cabeça, mal-estar, fadiga após a administração da vacina contra hepatite B. Essas queixas podem depender de outro problema. É sempre bom avisar ao médico.

A vacina contra a paralisia infantil pode causar a doença?

No Brasil e em outros países onde a paralisia infantil ou poliomielite está erradicada, há uma tendência a ligar os casos de problemas neurológicos ocorridos após a vacinação à vacina com o vírus vacinal. É importante falar que isso só ocorre quando a vacina aplicada é a oral que usa vírus atenuado, mas vivo. Não se sabe exatamente o que ocorre. É possível que o vírus enfraquecido da vacina possa sofrer uma modificação e tornar-se agressivo causando doença. O problema não ocorre com a vacina inativada que usa vírus morto. Esta é uma das razões da adoção da vacina contra a paralisia infantil com vírus mortos nos programas vacinais do mundo todo. A doença após a vacina contra a poliomielite pode ser devida a outras causas. O médico sempre deve ser avisado.

Vacina pode dar convulsão?

Pode. A convulsão é uma reação rara da vacina pentavalente/hexavalente, que pode ocorrer até 72 horas depois da aplicação. Geralmente, é acompanhada de febre. Esta convulsão não deixa sequelas a curto ou a longo prazo. Algumas doenças também causam convulsão e só o médico pode distinguir o que é causado pela vacina ou por outro problema.

A vacina contra a raiva pode causar doença neurológica?

A antiga vacina que era usada para prevenir a raiva continha tecido nervoso e podia desencadear reações neurológicas. Mas essa vacina não é mais usada no Brasil. A que se usa atualmente é a vacina de cultivo celular que é altamente confiável e que não produz problemas no sistema nervoso. A raiva continua sendo doença fatal em quase 100% dos casos. Então, mordedura de cão ou de outro animal que transmite a raiva merece muita atenção.

Tem gente que fala que teve mais gripe após a vacina!

A vacina não causa gripe nem qualquer reação grave. Nela só existem vírus mortos, os quais não são capazes de provocar doença. A confusão entre resfriado e gripe é que gera essa dificuldade de entender o que a vacina contra a gripe objetiva. Os resfriados são causados por muitos e diferentes tipos de vírus. Eles não causam grande desconforto, apenas dor de garganta, coriza e curam em dois ou quatro dias. E a vacina contra a gripe não os evita. A gripe é causada pelo vírus influenza e é uma doença com manifestações mais intensas (dor de garganta, obstrução nasal, tosse frequente), tem início súbito com febre alta, dores musculares e mal-estar generalizado e pode ser grave e se complicar levando a uma pneumonia, chegando até a ser fatal. É essa doença que a vacina previne.

Soube que uma moça desmaiou após tomar vacina!

Algumas poucas pessoas passam mal, desmaiam após coleta de sangue ou em outras situações como ver uma pessoa com um ferimento. Isso também pode ocorrer após a vacinação. Indivíduos ansiosos e que tem medo de injeção podem ter o problema, chamado lipotímia (desmaio) após a imunização. Isso acontece particularmente em adolescentes e adultos jovens. Não é grave, embora seja desagradável. Para evitar, deve-se manter a pessoa sentada ou deitada por 15 minutos após a vacinação. Mas só o médico ou outro profissional devidamente qualificado pode separar uma reação simples (desmaio) de outra mais importante (choque anafilático). É por isso que é ideal que o ambiente para aplicar vacinas disponha de oxigênio, de alguns medicamentos para enfrentar essas urgências e de profissionais que saibam agir na situação.

Meu filho é alérgico a alguns produtos. Ele pode se vacinar?

Algumas vacinas são preparadas em cultivo no ovo de galinha e os indivíduos que apresentavam alergia às proteínas do ovo não eram aconselhados a receber essas vacinas. Com a purificação cada vez maior no preparo das vacinas, isso não constitui mais contraindicação ao uso da vacina contra gripe.

No caso da vacina tríplice viral (sarampo), só há a recomendação de que seja aplicada em ambiente hospitalares, se a criança apresentar reação grave ao uso do ovo. Em caso de alergia leve ao ovo, a vacina tríplice viral pode ser aplicada com segurança. Quando a vacina contra febre amarela, permanece a contraindicação para quem tem alergia ao ovo.

A vacina contra rubéola pode causar defeitos no feto?

A rubéola que acomete a mãe no primeiro trimestre de gravidez tem alta chance de produzir defeito no feto. Nunca se demonstrou que a vacina contra esta infecção causasse o problema. Mas, por prudência, não se indica vacina com vírus vivos (sarampo, rubéola, papeira, catapora, SABIN e febre amarela) na mulher grávida e também se recomenda que após uma dessas vacinas a procriação seja evitada por no mínimo um mês.

Existem outras reações não citadas nas nossas perguntas?

Existem relatos muitos raros de baixa de plaquetas e outros eventos muito raros. Muitos pesquisadores não aceitam esses eventos extremamente incomuns como relacionadas às vacinas. É importante desenvolver a cultura de comunicar todos os eventos que ocorram após a aplicação de uma vacina. O pediatra deve fazer a avaliação inicial e decidir se vai comunicar aos órgãos de controle.

Antes da vacinação, é bom avisar se a criança teve convulsão, febre após a vacina, alergia a ovo e outros problemas relacionados à vacinação?

Isso mesmo. Os serviços mais modernos de vacina, em todo o mundo, obrigam que o cliente seja entrevistado por médico ou por outro profissional da área de saúde, devidamente qualificado, antes da vacinação. A entrevista é guiada por um questionário com perguntas dirigidas para tornar a vacinação mais segura e com menos efeitos adversos. Gravidez, febre quando tomou vacina, convulsão febril ou por outra enfermidade, alergia a ovo e várias outras questões fazem parte da rotina.

É importante o registro do lote da vacina usada?

É essencial que seja anotado na carteira vacinal da criança o máximo de dados dos produtos empregados para que se possa, a qualquer momento, verificar o que ocorreu em caso de reação inesperada e/ou inexplicada. Produto usado, fabricante, lote, prazo de validade, vacinador e data da aplicação são informações mínimas que devem ser registradas na carteira. Existem organizações internacionais que cuidam da segurança das vacinas e nós todos podemos colaborar para que o conhecimento sobre o tema evolua continuadamente. É importante falar com o médico e avisar ao serviço de saúde do município, do estado ou mesmo do país, quando houver alguma coisa estranha após a vacinação.

Qual a importância do cartão vacinal?

O cartão vacinal é um documento importante e deve ser guardado por toda a vida. Assim, é prudente colocar a carteira em uma capa plástica. É útil agendar as vacinas a serem tomadas em grafite e utilizar caneta de tinta apenas para as vacinas que já foram aplicadas. A carteira vacinal:

  • Ajuda o profissional a tomar decisões importantes. Quando as crianças se acidentam, os médicos perguntam sobre a vacinação contra o tétano. Quando existe a possibilidade de varicela (ou catapora), eles perguntam sobre a vacinação.
  • Deve, junto com as curvas de crescimento, as prescrições medicamentosas e os exames realizados, fazer parte da documentação pessoal; documentação que é mostrada aos outros profissionais que examinarem as crianças.
  • Deve acompanhar as crianças em suas viagens. As de intercâmbio cultural e / ou educacional exigem o preenchimento de uma ficha cadastral detalhada onde constam os dados vacinais passados.
  • É um documento que atesta a importância que os familiares dedicam à saúde dos filhos.
  • Deve ser copiada (xérox) ou os dados devem ser transpostos para uma planilha eletrônica (computador) face à importância dos registros.

Como procedermos se perdemos a carteira vacinal?

Essa infelizmente é uma situação comum. Mas devemos cuidar para reverter essa impressão que nós da área da saúde temos de que os familiares valorizam pouco o documento. Quando o cartão vacinal for perdido, adotem as seguintes providências: tentem buscar mais uma vez nas gavetas onde são guardados os “perdidos”; compareçam aos serviços que vacinaram as crianças e tentem recuperar o máximo de dados; usem a memória se os itens anteriores não foram ou se foram apenas parcialmente bem-sucedidos e informem aos profissionais sobre o passado vacinal das crianças; evidentemente, as informações devem ser precisas e são úteis quando as mães têm absoluta certeza do que foi feito; não é prudente informar baseado no “eu acho” ou no “parece”. Quando vocês têm segurança do que foi feito e do que falta é aceitável compor uma carteira baseada nesse método e providenciar apenas as vacinas não dadas até então; mas se vocês têm dúvidas, é mais seguro vacinar as crianças.

O Ministério da Saúde oferece uma série de informações úteis sobre o assunto no endereço http://www.saude.gov.br e lembramos o que disse o Dr. Plotkin, um dos mais importantes pesquisadores sobre os benefícios produzidos pelas vacinas: “O impacto da vacinação na saúde da população mundial é extraordinariamente grande. Com exceção da água potável, nenhuma outra modalidade, nem mesmo os antibióticos, tiveram maior efeito na redução da mortalidade e no crescimento da população”.

E como fica a questão da vacinação de crianças contra a Covid-19?

A pandemia da covid-19 foi um evento universal que abalou profundamente a assistência médica em todos os países do globo.

À princípio falou-se em mais uma gripe, produzida por um vírus já conhecido nos meios científicos, mas a evolução dos fatos mostrou uma situação muito mais grave, com alta mortalidade na maioria dos países. O Brasil teve a tristeza de presenciar mais de 700.000 óbitos, além do caos que se instalou em toda a rede hospitalar.

Nos primeiros meses da pandemia parecia que as crianças seriam poupadas, ou porque estavam recolhidas, com o fechamento das escolas, ou porque não seriam susceptíveis ao vírus. Com o passar do tempo e o surgimento de novas variantes virais, as crianças também começaram a ser atingidas, ainda que com menos gravidade. Mesmo assim, tivemos um número significativo de óbitos na infância, além do surgimento de um quadro chamado de Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIMP), com evolução mais complicada e geralmente necessitando de internação em terapias intensivas.

Nesse cenário confuso, de uma doença desconhecida e com numerosos óbitos, muitos procedimentos e medicamentos foram testados, até que se conhecesse melhor a forma como o vírus agredia o organismo.

Surgem então as primeiras vacinas contra a doença, em janeiro de 2021. A partir daí estabeleceu-se uma grande polêmica sobre a eficácia das mesmas e de possíveis eventos adversos relacionado ao uso em crianças, notadamente casos de miocardite e pericardite.

Com o passar do tempo foi se consolidando a opinião de que, mesmo sem evitar a doença, as pessoas vacinadas eram acometidas de formas mais leves, e esses eventos adversos mostram-se em número não significativo e com boa evolução em todos os casos. Hoje, todas as academias de pediatria, o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) dos Estados Unidos, a Sociedade Brasileira de Pediatria, já dispõem de subsídios para indicar com segurança a vacinação de crianças de forma rotineira. Infelizmente, houve a politização de um tema científico o que dificultou um consenso universal com relação ao uso de vacinas e ao tratamento da virose. O acesso universal a internet tornou a discussão mais difícil, com a participação de pessoas sem a devida qualificação para contribuir na solução do problema. Esperamos que o passar do TEMPO, traga as respostas que necessitamos, sempre sob a visão da CIÊNCIA.

Os movimentos antivacinas, que sempre existiram, municiaram-se de notícias falsas e sem base científica, para dificultar ainda mais o processo de adesão à vacinação.

Espera-se que, com o progredir nas investigações e o descobrimento de vacinas cada vez mais eficientes, possamos manter essa doença sob controle. Atualmente, as vacinas contra a covid-19 já fazem parte do calendário nacional de vacinação de crianças a partir dos 6 meses de idade.

Como agir em relação ao crescimento da cultura “anti- vacina”?

Essa é uma questão antiga que existe desde o momento em que foi lançada a primeira vacina contra a varíola. A partir daí essa posição contra as vacinas só tem aumentado e atingiu patamar absurdo durante a pandemia. Sofismas, mentiras, argumentação totalmente equivocada passaram a disseminar temor grande em usar vacinas, que contaminou até o uso de imunizantes tradicionais. A única forma de combater essa situação é com o conhecimento científico, ouvindo a opinião de pessoas realmente qualificadas, assim como instituições de pesquisa que se dedicam a estudar o assunto. Não é tarefa fácil, mas é uma obrigação de todos, pais e profissionais da área de saúde, procurarem estudar e discutir o tema em bases científicas. Afinal de contas, não podemos macular uma das páginas mais bonitas da história da medicina — a vacinação.

11.1Calendário nacional de vacinação

Figura 1Calendário nacional de vacinação da criança.Fonte: Ministério da Saúde (2025).
Figura 2Calendário nacional de vacinação da gestanteFonte: Ministério da Saúde (2025).
Quadro 1Histórico de vacinação prévia contra tétanoFonte: Ministério da Saúde (2025).
Quadro 2Calendário de vacinação 2024/2025
Figura 3Quadros do Calendário de Vacinação da criança, do adolescente, da gestante e do prematuro de acordo com as recomendação da Sociedade Brasileira de Imunização.

11.2Vacinas: a “sujeirinha” que faz bem ou a teoria da higiene

O tema é inquietante e causa espanto. Há quem denomine o assunto de “vitamina S”. S de “sujeirinha”.

A sujeira pode ser benéfica?

A higiene não pode ser negligenciada. A higiene do corpo, dos alimentos, da água, dos dejetos e do ambiente é extremamente importante para a saúde. Muitas enfermidades desapareceram ou foram drasticamente reduzidas devido a medidas higiênicas. Um bom exemplo é o desaparecimento da cólera, em vários países, pelo tratamento adequado da água e pelo destino apropriado dos dejetos humanos. Então, “sujeira” não, higiene sim. O que o título sugere é que uma “sujeirinha” pode ser benéfica.

Não entendi! Gostaria de mais informações!

Há alguns anos, vem se investigando as razões para o aumento da incidência das doenças alérgicas. Há dados informando que 30 a 35% da população dos países industrializados, com estilo de vida dos países ocidentais, sofre com doenças de cunho alérgico. As explicações até então expostas para tentar justificar o aumento dessas doenças — exposição a poluentes ambientais, às causas de alergia, moradias inadequadas, urbanização, sedentarismo e outras — não convenceram. Novas observações foram feitas e fizeram nascer a teoria da higiene.

O que a higiene tem a ver com aumento das doenças alérgicas?

Vamos apresentar alguns dados curiosos:

  • Na Alemanha mais pobre, a oriental, a ocorrência das enfermidades alérgicas é menor que a da parte ocidental, a mais rica. Num país africano, a população que não teve sarampo, pois estava vacinada, apresentou mais alergia do que a que sobreviveu ao sarampo.
  • Foi também observado que recrutas italianos que tiveram contato natural com o vírus da hepatite A tinham menos alergia.
  • Crianças japonesas que com teste de Mantoux (para tuberculose) fortemente positivo apresentaram menos alergia. Em um país europeu, a tuberculose na infância reduziu a ocorrência de asma.
  • Foi evidenciado que certos componentes bacterianos (endotoxinas) da poeira dos colchões de crianças de áreas rurais protegiam contra a rinite e a asma alérgicas, desde que a exposição tenha sido nos primeiros anos de vida.

Mas qual a conclusão ou conclusões dos estudiosos?

O sistema imunológico necessita de estímulos. Os vírus, as bactérias, os vermes, produtos dos animais e vários outros elementos da natureza são os estímulos para o amadurecimento imunitário. Assim, parece que os excepcionais níveis de asseio e de higiene alcançados por alguns países podem estar privando a população do contato com os estímulos. A higiene, vacinação, disponibilidade de água potável e de esgotamento sanitário, uso dos antibióticos protegem, mas podem dificultar o contato das crianças com estímulos infecciosos leves que são importantíssimos. A “sujeirinha” e uma virose leve de vez em quando podem ajudar. Quando faltam esses estímulos, o sistema imunológico “desocupado” vai produzir as doenças alérgicas. E isso é chamado teoria da higiene. Há dúvidas sobre o assunto. No Brasil, onde há muita pobreza e pouca higiene, há alta frequência das doenças alérgicas, inclusive nas crianças que moram em favelas.

No Recife, as crianças tomam banho nos canais imundos!

Essas crianças foram tão estimuladas por vírus, bactérias, parasitos, toxinas e outros produtos que a imunidade que desenvolveram as capacita a enfrentar desafios como esse. Dá para pensar mesmo que as crianças pobres e que enfrentam tais desafios são de um outro mundo, não longínquo e sim de um mundo que está ao nosso lado. Essa teoria da higiene é mais um mecanismo que usamos para enfatizar a importância de a criançada ter contato com a natureza, brincar ao ar livre, nas praças, na praia, nos jardins, no campo, de evitar o sedentarismo e o excesso de TV.

A meninada que vive nas fazendas adoece menos?

É exatamente isso que alguns pesquisadores constatam e que a teoria da higiene tenta explicar. Observações de vários locais do mundo mostram que as crianças criadas no campo, em fazendas e granjas, em contato com animais, com plantas, com os pés descalços, em contato direto com a terra, têm menos doenças alérgicas que as criadas em ambientes urbanos.

É bom ter um cachorrinho em casa?

A única restrição é quando for demonstrado que há alguém na casa com alergia aos produtos do cão. Nos dois primeiros anos de vida, o contato com o cachorrinho pode ajudar a amadurecer a imunidade e alegrar a criançada. Está bem demonstrado que o mais importante estímulo para o desenvolvimento da boa imunidade é um produto das bactérias (endotoxinas) que existe em grande quantidade no intestino dos animais – vacas, cavalos, porcos, gatos e cães. As toxinas estão presentes na poeira doméstica e no ar das casas em que a higiene não é excessiva. Inaladas ou engolidas, as toxinas, atuam como potentíssimos estímulos para a maturação da imunidade. Essa é a “sujerinha” benéfica.

As vacinas podem fazer mal?

Os benefícios das vacinas são um marco na história da humanidade. O que não podemos esquecer é o conjunto de vantagens que as vacinas nos proporcionam. As crianças que receberam todas as vacinas e que têm contato com praças, jardins, fazendas e granjas, que brincam no ambiente externo da casa em contato com terra, que botam uma “sujeirinha” na boca, que têm a oportunidade de adquirir parasitoses intestinais, que brincam com animais e que são expostas a outras condições salutares de vida terão sua imunidade bem desenvolvida. E são mais felizes. O que a teoria da higiene tenta explicar é que as crianças vacinadas e que vivem trancafiadas em apartamentos, sem contato com a natureza, sem convívio com animais, sem oportunidade de adquirir parasitoses intestinais podem ter sua imunidade menos ajustada a esses estímulos e mais tendentes a apresentar as doenças alérgicas.

Lembrem-se sempre de que o papel de vocês é mais importante que o do médico e dos remédios no manejo das doenças alérgicas. E também percebam a importância, para a criançada, da vida ao ar livre, da luta contra o sedentarismo, dos esportes, das brincadeiras, da participação de uma turminha de amigos, do exercício da liberdade de criar e de ter as próprias experiências e de vários outros aspectos não só importantes para prevenir e/ou controlar as alergias, mas também para formar o indivíduo mentalmente sadio.

Essa proposta educacional visa a auxiliar o médico na sua missão insubstituível.

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