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Conversando com o Pediatra

Parte I — Promoção e prevençãoCapítulo 10 de 46

A filiação por adoção

Do desejo de adotar à conversa sobre a origem: especialistas, pais e filhos adotivos falam com franqueza sobre afeto, verdade e os caminhos legais da adoção.

  • AutoriaOtelo Schwambach Ferreira e Suzana Sofia Moeller Schettini
  • Leitura75 min · 15,779 palavras
  • No livropáginas 249–285
  • Conversa14 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

O capítulo parte da ideia de que a adoção é uma forma legítima de fundar uma família, ancorada nos laços afetivos, mas com especificidades que precisam ser reconhecidas e elaboradas. Os autores discutem as motivações para adotar, o luto pela infertilidade, a “gestação psicológica” dos pais, o lugar da família biológica na história da criança e os desafios da adoção de crianças maiores e adolescentes, destacando os Grupos de Apoio à Adoção e o suporte no pós-adoção.

Em tom pessoal, o psiquiatra Ernst Christian Gauderer, apoiado na Academia Americana de Pediatria, defende contar à criança, desde cedo, que ela é adotada. As perguntas e respostas tratam da expressão “filho do coração”, de como falar da mãe biológica, da convivência com irmãos que são filhos biológicos, de direitos como licença maternidade, nome afetivo e plano de saúde, do Sistema Nacional de Adoção e da adoção por casais homoafetivos. Fecham o capítulo depoimentos de profissionais, pais adotivos e filhos adotados, além de extensa lista de leituras.

Para quem: Para quem pensa em adotar, para pais e mães adotivos e para profissionais que acompanham famílias formadas por adoção.

adoçãofiliação adotivarevelação da origemadoção de crianças maioresGrupos de Apoio à AdoçãoSistema Nacional de Adoção

Se outrora, “a partir das crenças populares, a adoção era considerada um desvio da norma universal, a qual seria a filiação genética e consanguínea” (Ladvocat, 2002, p.31), atualmente, é reconhecida como uma outra possibilidade de fundar uma família que, se não conta com os vínculos consanguíneos, está legitimamente fundamentada nos laços afetivos.

Concordamos com o pensamento de Ceccarelli (2002) quando afirma que as famílias são sempre construídas e os filhos sempre adotivos; o que define família são os investimentos afetivos, com as suas vertentes de ternura, de erotismo e também de agressividade.

Por outro lado, não podemos perder de vista as especificidades que fazem parte do contexto adotivo. Temos que reconhecer que a família adotiva traz algumas características especiais que não devem ser negadas, mas, ao contrário, assumidas integralmente. A adoção segue um caminho que lhe é próprio; existem diferenças que precisam ser compreendidas, elaboradas, assumidas e integradas no processo como um todo. “A maior parte delas decorre do fato de que a criança chegou à família por um caminho diferente do habitual. Além disso, existem dois casais parentais, o que não é usual na nossa cultura e, às vezes, difícil de entender pela criança” (Levinzon, 2004, p.25).

As pessoas recorrem à adoção pelos motivos mais diversos. Levinzon (2004) cita as seguintes razões, a partir de sua experiência clínica: a esterilidade de um ou ambos os pais; a morte anterior de um filho; o desejo de ter filhos quando já se passou da idade em que isto é possível biologicamente; as ideias filantrópicas; o contato com uma criança que desperta o desejo da maternidade ou paternidade; o parentesco com os pais biológicos que não possuem condições de cuidar da criança; homens e mulheres que anseiam por ser pais, mas não possuem um parceiro amoroso; o desejo de ter filhos sem ter de passar por um processo de gravidez, por medo desse processo ou até por razões estéticas. Schettini (1998) acrescenta ainda o desejo de ter companhia na velhice; o medo da solidão; o preenchimento de um vazio existencial; a tentativa de salvar um casamento; a possibilidade de escolher o sexo da criança.

Para a maioria dos pais adotivos, entretanto, a ideia da adoção nasce da necessidade de reparar um transtorno biológico, onde a natureza impediu que os filhos fossem gerados pelas vias naturais. Dessa forma, a partir da frustração na tentativa de ter filhos, começa-se a pensar na possibilidade de suprir a lacuna da maternidade-paternidade, valendo-se da capacidade de outras pessoas de procriar, a fim de, através da adoção, ter seus próprios filhos (Schettini, 1998).

As representações de família que veiculam na sociedade ainda estão baseadas na filiação consanguínea e imaginam a relação pais-filhos como decorrente deste tipo de vínculo. Há uma crença social de que os melhores pais para uma criança são seus pais biológicos, quando no contexto de adoção, paradoxalmente, esses últimos são considerados incapazes de assumir a criança. Ao mesmo tempo, quando a adoção ocorre pelos meios legais, os pais adotivos precisam provar que estão capacitados para serem bons pais, ao passo que na filiação biológica não é necessário provar nada para ninguém.

Weber (2001) afirma que a cultura dos laços de sangue é tão presente que faz com que as pessoas acreditem que estes laços são os únicos “fortes” e “duráveis” por serem “naturais” e “verdadeiros”. Quando se comparam famílias adotivas e não adotivas, geralmente são utilizadas as expressões: família adotiva versus família natural; ou filho adotivo versus filho verdadeiro, denunciando o preconceito por detrás das palavras. Nesse entendimento preconceituoso, o filho adotivo não seria nem “natural”, nem “verdadeiro”. Assim, por questões culturais, a ênfase exacerbada na consanguinidade faz surgir no imaginário coletivo a fantasia de que a condição biológica garante por si mesma a formação de uma relação parental.

Muitos pais adotivos se referem a seus filhos como sendo os “filhos do coração”, na simbologia de que os filhos foram gerados pelo afeto. Essa metáfora, embora aparentemente apropriada, poderia ser uma forma de escamotear a história da origem sexual da criança, dessexualizando-a ou escondendo a existência de genitores, conhecidos ou não, que fazem parte da origem sexual da criança, pois, fora da condição de adoção, por mais que se ame seus filhos, não se emprega tal metáfora. Os motivos que levam os pais a tal atitude não apontam para a negligência ou desamor, pois o lugar dos pais dado pelo patrimônio genético, nesses casos, fica separado do lugar outorgado pela cultura. Nas famílias cujos filhos são biológicos, as figuras dos genitores e dos pais coincidem, enquanto na situação de adoção, genitores e pais são distintos, gerando, muitas vezes, nestes últimos, dificuldades em lidar com a história anterior da criança e com essa divisão (Queiroz, 2001).

Na perspectiva do filho adotivo, Schettini (1999) pondera que “ser filho do coração”, para algumas crianças, é uma maneira anormal de ser filho. O uso desse simbolismo para contar a história da adoção repercute nas crianças de uma forma inversa à pretendida pelos pais. Elas se sentem inferiores às outras que “nasceram da barriga”. Para o adulto, ser filho do afeto é mais rico e profundo do que ser apenas filho biológico. As crianças, porém, pelo seu concretismo, ainda não fazem essa distinção com clareza, razão por que ainda fazem restrição a serem “filhos do coração”.

Se os pais adotivos conseguirem assimilar, integrar e elaborar as especificidades do processo adotivo, assumindo-se como “verdadeiros pais”, conseguirão desenvolver uma boa relação parental e um ambiente acolhedor para seus filhos, onde estes poderão perceber-se aceitos e compreendidos incondicionalmente nas suas diferenças e peculiaridades. Consequentemente, o seu desenvolvimento ocorrerá livremente e o processo educativo transcorrerá com naturalidade.

A literatura e a prática clínica evidenciam que há uma forte correspondência entre as dificuldades dos pais e a resposta comportamental dos filhos. Observa-se que muitos pais adotivos, inseguros no seu lugar de pais, passam mensagens ambivalentes aos seus filhos adotados, os quais, em decorrência, apresentam dificuldades para perceber a sua família como “verdadeira e natural”. Os preconceitos sociais e as pressões advindas de familiares também contribuem para reforçar essa percepção. Na maioria das vezes, as dificuldades não estão no filho adotado, mas nos pais que o adotaram ou nas pessoas que o cercam, com suas atitudes preconceituosas.

Diniz (2001) afirma que os filhos não terão problemas se os pais adotivos não os tiverem, e maus pais adotivos também seriam maus pais naturais. É a partir do desempenho da relação parental que se organiza a experiência da criança e a qualidade de seu vínculo. Como em qualquer relação entre pais e filhos, se os pais adotivos vivem a adoção de forma perturbada, isso poderá resultar em um efeito prejudicial no filho.

Levinzon (2000) enfatiza que a adoção não pode ser responsabilizada por tudo o que ocorre de anormal com a criança ou com os pais. Segundo a autora, a adoção fica como pano de fundo para um emaranhado de relações pessoais e familiares que, às vezes, pode determinar patologia. “É mais preciso afirmar que as fantasias relativas à adoção se entrelaçam com os complexos meandros do psiquismo” (p. 23).

10.1As especificidades da adoção

É importante que se traga à luz as especificidades da adoção, trabalhando-as preventivamente em espaços de discussão e reflexão, onde as diferenças possam ser elaboradas e, assim, integradas na constituição da identidade parental dos pais adotivos. “A negação das diferenças aponta para uma dificuldade em lidar com a realidade, e para temores inconscientes que não encontram um lugar de expressão” (Levinzon, 2000).

Quais são as especificidades da adoção?

O ciclo vital da família adotiva, diferentemente de famílias biológicas, funda-se a partir da perda dos laços primários de uma criança que vai necessitar de uma nova família para desenvolver-se como filho e como pessoa. Por outro lado, considerando-se o contexto da infertilidade, um casal enfrenta a desilusão por sua incapacidade biológica de gestar e precisa abrir-se a uma parentalidade afetiva para acolher um filho nascido de outros. É o encontro de duas impossibilidades: a criança não pode permanecer no contexto em que nasceu; o casal não pode dar à luz um filho. “Mesmo com intensidades dolorosas diversas, a criança foi privada de um vínculo real e o casal teve que renunciar a uma aspiração natural” (D’ Andréa, 2002, p. 242).

O período de gestação de um filho oferece oportunidade para os pais irem se constituindo nas novas identidades: a de pai e a de mãe. “A parentalidade é a capacidade psicológica de exercer a função parental, ou seja, ter a competência de ser pai e mãe suficientemente bons para seus filhos” (Morales, 2004, p.195). Na adoção, entretanto, a constituição da identidade parental demanda do casal um processo de identificação com os novos atributos através de uma gestação psicológica.

D’Andrea (2002) destaca que uma das primeiras dificuldades com as quais se depara um casal que manifesta o desejo de adotar um filho é a reconstrução do espaço mental para o filho que virá. É um exercício bastante difícil, pois nada sabem a respeito desse filho, nem a respeito de suas características físicas, nem a respeito de sua história. “Dar novamente vida às fantasias, ao desejo e às aspirações, permite ao casal reconstruir aquele espaço de intimidade, encontro e projeto de vida que o obstáculo da esterilidade havia congelado” (D’Andrea, 2002, p.238).

Para Dolto (1981, p.13), “um ser humano, desde a sua vida pré-natal, já está marcado pela maneira como é esperado, pelo que representa em seguida, pela sua existência real diante das projeções inconscientes dos pais”. Isso também está presente na “gestação psíquica” dos pais adotivos, no tempo de espera pelo filho a ser adotado. Tudo o que é dito, sonhado e imaginado sobre o filho adotivo será determinante na constituição de sua subjetividade.

No caso de casais com problemas de infertilidade, antes de encaminhar-se para a adoção, há a necessidade de elaborarem o luto do filho biológico que não pode nascer. Essa elaboração é diferente para homens e mulheres: a mulher terá que fazer o luto da gravidez e o homem o da continuidade de sua linhagem, pois projeta no filho sua continuação, a continuação da linhagem e do patrimônio genético (Hamad, 2002).

A aceitação da própria incapacidade de procriar implica uma redefinição da identidade pessoal, da relação de casal, do projeto conjugal e das relações com a família ampliada. Para D’Andrea (2002), se “assumir a diferença” é a primeira condição para configurar-se a opção pela adoção, o primeiro passo do percurso de um casal no caminho da adoção é assumir a “própria” diferença. Segundo o autor, esse movimento implica renunciar ao filho natural e separar-se das fantasias que projetaram; reconstruir um pacto afetivo, escolhendo voluntariamente cuidar de um filho nascido de outros; envolver o sistema familiar ampliado na reorganização da vida, reconstruindo um clima afetivo de acolhimento. “Esses são alguns compromissos essenciais que permitirão ao casal transformar a ‘falta’, o ‘vazio’ do luto pela esterilidade em desejo de realizar o trabalhoso projeto de uma ‘procriação afetiva’“ (D’Andrea, 2002, p.238).

O desejo de ter uma criança deve ser em função da necessidade natural de procriar; deve ser uma decisão pessoal refletida e amadurecida e não uma satisfação das pressões sociais e familiares. Para Morales (2004), pessoas que procuram a adoção como método de solução à infertilidade não estão aptas para exercer a paternidade, pois oferecerão ao filho uma situação de inexistência psíquica. A criança está sendo unicamente desejada para resolver um problema do casal, o que certamente desembocará em dificuldades ao longo do seu processo educativo.

Em virtude da excessiva valorização da capacidade de procriar, homens e mulheres com problemas de infertilidade ou esterilidade, na maioria das vezes, são acometidos de sentimentos autodepreciadores, tais como fracasso, baixa autoestima, culpa, vergonha, humilhação, inferioridade, inutilidade e frustração. Podem se sentir defeituosos e moralmente arrasados.

Quando apenas um dos membros do casal adotante é infértil, o membro fértil terá que assumir a esterilidade do outro, renunciando à sua capacidade de procriar. Esse é um processo bastante complexo e insere um luto muito doloroso: abdicar de sua possibilidade de transmissão genética e de imortalidade através de um filho em função da impossibilidade do parceiro. Para que a renúncia possa acontecer, é necessário haver um vínculo afetivo muito consistente entre o casal, que priorize a relação interpessoal em detrimento da busca de realização puramente individual. Caso contrário, o cônjuge fértil poderá nutrir sentimentos ambivalentes em relação ao projeto de adoção, ora aprovando-o, ora rejeitando-o.

O casal adotante precisa estar implicado de igual forma no projeto adotivo. É necessário que cada um avalie a sua posição com relação ao projeto de adoção, que traz subjacente o desejo inconsciente que cada um tem por seu parceiro e pela criança. Segundo Hamad (2002), são os desejos recíprocos que ligam um homem a uma mulher que inscrevem, nessa dinâmica a dois, a abertura para a criança, tornando-a sujeito de seu desejo.

Observa-se, muitas vezes, uma disparidade entre a demanda de filho por parte da mulher e do homem. É bastante comum que o desejo de adotar parta da mulher, e seu cônjuge, a princípio resistente, acaba concordando na tentativa de evitar uma frustração ainda maior. Na verdade, ele não está realmente engajado nesse desejo. Giberti (1994) assinala que a adoção envolve a transformação de uma decisão individual em decisão conjunta. Entretanto, mesmo quando aparentemente a decisão é conjunta, apenas um dos membros do casal pode estar nela implicado – o outro, apesar da manifesta concordância pode, de fato, não estar comprometido com a escolha. Na prática, há exemplos de adoções que se efetivam unilateralmente, apesar de legalmente representadas por um casal.

Por outro lado, a gestação adotiva é compartilhada de forma mais igualitária pelo casal, pois os dois parceiros entram de igual forma na adoção; o filho é esperado de forma simétrica por ambos. O pai se sente mais participativo no processo, pois também pode gestar emocionalmente o seu filho. O exercício da maternidade e da paternidade adotiva confere a ambos o mesmo poder, pois a gestação não é exclusividade do corpo feminino.

Um outro aspecto a ser considerado refere-se à origem biológica da criança a ser adotada. A história de sua vida passada representa uma parte peculiar de sua identidade, que não pode ser anulada, mas que precisa ser aceita e integrada à nova filiação adotiva. A família biológica precisa deixar de ser percebida como um fantasma persecutório e adquirir a visibilidade necessária para ser integrada na experiência adotiva. Reprimir ou desestimular a curiosidade do filho sobre a sua origem biológica é abrir espaço para a construção de espaços de segredo. Será estabelecida uma dinâmica familiar permeada de não-ditos, de temas a serem evitados e, consequentemente, um contexto relacional que limitará os espaços da filiação recíproca. Se prevalecer a dinâmica competitiva (família biológica má versus família adotiva boa), os filhos adotados “poderão sentir-se no meio de duas famílias, como reféns entre o biológico e o afetivo” (D’Andrea, 2002, p.240).

Se, ao contrário, os pais adotivos, confiantes na sua relação afetiva com os filhos, puderem ajudá-los a integrar a família biológica à sua história, atribuindo-lhe a devida importância na parte inicial da vida, indispensável para a condição atual, então a filiação dupla poderá ser vivida de maneira integrada. Uma relação parental verdadeiramente ancorada no afeto não terá dificuldades em comunicar ao filho sua origem, porque a considerará uma etapa natural na construção do vínculo adotivo (D’Andrea, 2002).

É na medida em que o luto da esterilidade é elaborado que a adoção pode ser contada como qualquer história de criança, criada numa relação normal com seus pais. Não há revelação; há uma história que é vivida, que é construída, que se conta no dia a dia à medida que acontece. Dessa forma, o que chamamos revelação da história da criança no campo da adoção perde sua razão de ser.

Em contrapartida, caso os pais não tenham elaborado o luto da gravidez biológica, falar da origem do filho não só representará tornar explícitas questões não resolvidas do casal, bem como colocará em dúvida o seu posicionamento frente à criança, à identidade dela e seu próprio papel enquanto pais. A tendência é, com o passar do tempo, assumir cada vez mais o caráter de “revelação”, gerando muita ansiedade e angústia, seja em relação ao fato de quando e como deverá acontecer, seja por medo de que a criança deixe de gostar dos pais ao saber da verdade por outros (D’Andrea, 2002).

Na maioria das vezes, o desejo de adotar um recém-nascido insere a expectativa de tornar a família a mais parecida possível com a natural e traz a esperança de que o filho se apegará mais facilmente, pois não terá uma história prévia de eventuais sofrimentos, como frequentemente acontece nas adoções de crianças maiores. “O desejo de ter uma criança ‘des-historificada’, sem passado, muitas vezes esconde o medo do casal de se defrontar com a história e o medo de que a família natural do filho influencie negativamente a relação futura” (D’Andrea, 2002, p.239). Efetuar a adoção em locais distantes pode ser visto “como uma espécie de atalho e uma solução para exorcizar esse medo, na esperança ilusória de poder ‘libertar-se’ do passado da criança através da distância” (D’Andrea, 2002, p.239).

Quanto maior for a idade da criança, maiores serão as lembranças e os sofrimentos a serem elaborados por ela. Quanto maior o tempo de espera pela adoção, tanto maior serão as fantasias que a criança nutrirá, os pensamentos de ansiedade, medo, dúvidas e expectativa que a acompanharão. D’Andrea (2002) afirma que este tipo de adoção exige que os pais adotivos saibam reconhecer e acolher como riquezas os três dotes dos quais a criança é portadora: seu corpo, seu nome e sua história. Se essas características puderem ser acolhidas, os pais estarão reconhecendo a outra parte de sua identidade, tão importante para a sua constituição psíquica. “Atando os laços do passado com os do presente, introduzirão a criança em sua própria rede familiar, tornando-a a continuadora de sua própria história familiar” (D’Andrea, 2002, p.244). Reconhecendo-se na história da criança, os pais adotivos poderão identificar-se com o seu sofrimento e elaborar, junto com ela, o luto pela perda sofrida.

É fundamental, pois, a identificação e elaboração dos componentes inconscientes que acompanham os pais ao encaminharem-se para a adoção. A prática clínica confirma que motivações inconsistentes para a adoção, fantasias e mecanismos de defesa se identificam claramente na qualidade do vínculo que se estabelece entre os pais adotivos e a criança. Se houver possibilidade de identificar-se esses ingredientes e compreender os conflitos que deles se originam, é possível evitar-se que se transformem em conflitos insolúveis, em verdadeiros nós, que podem colocar em risco a saúde mental da criança a ser adotada.

É necessário que os pais adotivos compreendam a sua dinâmica psicológica para que possam ter condições de estabelecer uma relação saudável com os seus filhos. Somente a partir dessa compreensão, estarão aptos a decidir conscientemente, podendo enfrentar com maturidade todos os momentos de ansiedade, angústia, dúvidas e benefícios que irão permear o processo adotivo. Nesse sentido, uma preparação emocional prévia dos candidatos à adoção torna-se relevante e imprescindível. É inegável que o ato de adoção traz em seu contexto inúmeras implicações psicológicas que precisam ser trabalhadas.

Winnicott (1953/1997, p.115) afirma que “a história da adoção, quando transcorre bem, é o de uma história humana comum e ela apresenta perturbações e contratempos que fazem parte da história humana comum, em suas infinitas variações”.

No Brasil, não temos estudos longitudinais da evolução de crianças adotivas. A maioria dos autores internacionais que fizeram esse acompanhamento mencionam que elas se desenvolvem normalmente e referem a tranquilidade dos pais como sendo de fundamental importância nesse processo.

Para Levinzon (2000), o desenvolvimento psicossocial e afetivo da criança adotada está atrelado a muitos fatores, entre os quais ela destaca, sobretudo, a atitude dos pais adotivos — quase sempre perfeccionistas e ansiosos quanto ao seu futuro — e também à situação da criança em si, enquanto adotada.

Vários autores sinalizam que não há uma patologia específica da adoção (Schettini/1998, Levinzon/2000, Diniz/2001). Assumidas e elaboradas as especificidades do processo adotivo num sentido geral, as dificuldades no processo educativo dos filhos adotados têm de ser compreendidas e tratadas como questões familiares normais. Nas palavras de D’Andrea (2002), a relação adotiva terá um caráter evolutivo se souber alicerçar-se no reconhecimento das semelhanças tanto quanto na valorização das diferenças.

Finalmente, corroboramos o pensamento de Bettelheim (1988, p.11) quando afirma que, para que os pais “sejam bastante bons”, deverão ser capazes de se sentir seguros na sua condição de pais e em sua relação com os filhos. Seguros a ponto de, embora cuidadosos com o que fazem em relação aos filhos, não fiquem ansiosos demais com isso e não se sintam culpados por “não serem pais bastante bons”. A segurança dos pais quanto a serem pais tornar-se-á a fonte do sentimento de segurança do filho em relação a si próprio. Segundo o autor, “criar filhos é um esforço criativo, uma arte mais do que uma ciência”. E isso independe do fato de os filhos serem biológicos ou adotivos.

10.2Adoção de crianças maiores

A sociedade contemporânea tem ampliado de forma muito abrangente o debate envolvendo as questões que dizem respeito à filiação adotiva. Os esforços conjuntos de muitos atores no cenário social têm contribuído sistematicamente para a consolidação de uma nova cultura de adoção. As famílias adotivas vêm adquirindo visibilidade. O processo adotivo transpassa a penumbra da clandestinidade na medida em que novas luzes são lançadas sobre mitos e preconceitos outrora estigmatizantes.

Em virtude da grande metamorfose que se processa nas configurações familiares da atualidade, as possibilidades de adoção apresentam-se sob novas e múltiplas formas e em diferentes contextos. Famílias monoparentais, homossexuais ou reconstituídas dão uma constante e demandam novos olhares.

O paradigma atual da adoção está centrado em encontrar uma família que atenda às necessidades da criança e não uma criança para atender o desejo de adultos que querem formar sua família. A adoção, hoje, tem como principal objetivo atender à necessidade do adotando, assegurando à criança e adolescente um lar adequado para o seu desenvolvimento integral.

Nesta perspectiva, atualmente encontramos muitos pretendentes que se disponibilizam para a adoção de crianças maiores e adolescentes, grupos de irmãos, outras etnias e crianças com demandas especiais de saúde. Essas adoções exigem dos pretendentes uma grande disponibilidade afetiva e flexibilidade para submeter-se a um preparo para adoção consistente, que será fundamental para o exercício da maternidade/paternidade consciente, ancorado na realidade das necessidades de crianças e adolescentes que chegarão com históricos de sofrimento e traumas.

Além dos cursos de preparo para adoção, é importante a frequência aos Grupos de Apoio à Adoção (GAAs) antes, durante e após o processo, onde haverá troca de experiências e aprendizado vivencial sobre o universo adotivo. No Brasil, temos cerca de 250 GAAs, sendo 11 em Pernambuco. Os GAAs se propõem a ser espaço gestacional para aprofundar o preparo para a adoção, amadurecer as percepções sobre o projeto adotivo, oferecendo oportunidades de convivência com famílias que já adotaram e suas experiências de vida, bem como apoio e orientações no pós-adoção, trazendo uma maior tranquilidade e segurança aos pais recentes.

O suporte no pós-adoção é essencial para a superação dos desafios do processo adaptativo entre pais e filhos. A chegada dos filhos inaugura os pais e pode desencadear sentimentos de ansiedade, insegurança e incapacidade frente aos impactos na constatação do filho real e suas demandas. Quanto maior for a idade das crianças ou adolescentes adotados, maiores serão as lembranças e os sofrimentos a serem elaborados: separação da mãe ou da família biológica, separação de figuras de apego na instituição de acolhimento, fantasias de família e de pais ideais, traumas vivenciados na história anterior (maus tratos, negligência, abuso, abandono).

Os pais adotivos de crianças maiores e adolescentes precisam ter a resiliência necessária para suportarem o longo percurso do processo adaptativo à nova cultura familiar. Os filhos e sua história pregressa precisam ser acolhidos com paciência e maturidade, entendendo-se que a vinculação afetiva é construída no dia a dia da convivência. Torna-se extremamente importante conhecer o máximo possível de detalhes sobre a história anterior para que se possa compreender os comportamentos dos filhos durante a fase de adaptação/vinculação à nova família. Existem fases características nessa categoria de adoções: dificuldades adaptativas (regras/limites/ alimentação/escola); necessidade de “testagem” do afeto parental com crises de rebeldia, agressividade e desrespeito; regressões psicológicas; conflitos de lealdade em relação à família biológica; dificuldades em “aceitar a aceitação” (Schettini).

O período necessário para a transição de uma história familiar para a outra levará o seu tempo. É preciso ter em mente que os filhos não podem ser culpabilizados pelos comportamentos que apresentam na chegada a nova família, pois são parte da cultura da família anterior. É preciso tranquilidade por parte dos pais adotivos, entendendo-se que os filhos precisarão desaprender comportamentos inadequados e, ao mesmo tempo, aprender a nova cultura familiar. Não pecar pelo excesso de expectativas, evitando-se um excesso de rigidez para não acentuar a baixa autoestima dos filhos e exacerbar a sensação de menos valia. Os comportamentos precisarão ser corrigidos com afeto e perseverança, quantas vezes for necessário, comemorando as conquistas e os aprendizados positivos em escala maior do que pontuando os erros e as faltas.

Na nossa experiência clínica, podemos afirmar que é possível adotar-se crianças e adolescentes em qualquer faixa etária, em qualquer condição de saúde, desde que os novos pais sejam movidos por um real desejo de filiação e estejam verdadeiramente preparados para essas adoções.

A adoção é um fenômeno composto de muitas complexidades, envolvendo aspectos jurídicos e psicológicos profundos. Será apenas o trabalho conjunto — revestido de boa vontade e atitude adotiva — de todos os atores envolvidos no processo, que poderá garantir maiores chances de sucesso. A soma dos esforços de todos e cada um será o caminho a ser trilhado para fazermos renascer a esperança para muitas crianças e adolescentes sem família.

Todos os textos, publicados na primeira edição do Conversando com o pediatra, são mantidos nesta segunda edição, por recomendação da Dra. Suzana Schettini que neles reconhece noções que devem ser preservadas.

10.3Colaboração do psiquiatra de crianças e de adolescentes, Dr. Ernst Christian Gauderer

Texto reproduzido da primeira edição do Conversando com o pediatra.

Meu filho é adotado. Quando e como contar?

Inicio transcrevendo o comunicado da Academia Americana de Pediatria sobre Adoção: “Os pais devem, desde cedo, antes da idade escolar, contar aos seus filhos que eles são adotados. Eles devem considerar o estágio do desenvolvimento mental e a capacidade de compreensão das crianças. As discussões iniciais e as subsequentes devem ser ajustadas à maturidade delas. Os pais adotivos podem ser ajudados por um profissional como o pediatra. Ele tem treinamento para executar a tarefa e, assim, ajudar a orientar a família”.

Geralmente, crianças com idade de 4 a 5 anos sentem a adoção como um fato positivo e especial, uma reação comum devido ao pensamento egocêntrico dessa faixa etária. Isso também evita que saibam da sua adoção acidentalmente através de outros. Melhor evitar os termos escolhido ou especial porque o uso deles tem feito algumas se sentirem pressionadas e a quererem mostrar boas qualidades em demasia. Na metade da infância, ou seja, na idade de 6 a 8 anos, as crianças podem ficar curiosas a respeito das circunstâncias exatas relacionadas à adoção. Elas podem, nessa época, vivenciar a adoção como algo desfavorável, já que são diferentes de outros filhos, que vivem com pais biológicos. O profissional deve assegurar aos pais adotivos a normalidade desses sentimentos e encorajá-los a responder sincera e honestamente às perguntas de seus filhos quando surgirem. Não é raro um adotado querer saber porque foi abandonado. Algumas vezes, pais adotivos não têm consciência de que seus filhos possam questionar a esse respeito. Por outro lado, a criança pode não querer fazer perguntas porque sente a ansiedade de seus pais a respeito da adoção e, devido a isso, preferem calar.

Quando as crianças amadurecem, podem querer procurar seus pais biológicos. A tendência dos pais adotivos é de suprimir indagações e informações nesse sentido e de se sentirem rejeitados. Isso é compreensível.

O profissional, especialmente o pediatra, pode e deve ajudar, discutindo este problema com a família”

Esse comunicado lança muita luz sobre o assunto que é polêmico, mas eu gostaria de fornecer mais alguns elementos baseados na minha vivência.

Começo a relatar a experiência com um dito popular: “a mentira tem pernas curtas”. É muito a propósito o que pensa a Academia Americana de Pediatria sobre a questão de se informar ou não uma criança de sua adoção. É surpreendente, na nossa prática, a quantidade enorme de pais que nos procuram solicitando resposta para a pergunta: “devo ou não contar ao meu filho que ele é adotado?”. A citada academia, refletindo o pensamento científico atual, deixa bem claro que não só deve a criança saber que é adotada, mas vai bem mais além, explicitando que é obrigação e dever do profissional se envolver nesse assunto e ajudar objetiva e realisticamente os pais.

Vale a pena discutir o porquê do medo ou insegurança dos pais de informar aos filhos quanto à adoção. Todos nós, pais, temos medo de perder os nossos filhos de uma maneira ou de outra, seja, por exemplo, através de uma doença ou, mais tarde, através de um casamento. O medo nos ameaça e é exatamente contra isto que tentamos lutar. A diferença, porém, é que, quando nosso filho biológico de 4 anos nos olha e diz que vai sair de casa, que vai fugir de casa ou que vai para a casa da avó, temos a certeza de que ele foi produto nosso. A paternidade não está sendo questionada ou posta em dúvida. Já com pais adotivos, isso não ocorre. Soma-se a toda essa insegurança, a dor de não serem os pais biológicos. Claro que essa insegurança é normal, natural e saudável. Além disso, por nos incomodar, obriga-nos a refletir e a ponderar. “Será que meu filho tem razão em querer sair ou fugir de casa devido à atitude que eu tomei? Será que a minha postura não foi radical demais? O que devo fazer para não o perder?”.

Essas indagações nos obrigam a reformular nossa abordagem com consequente e provável acerto. Os pais de filhos adotivos continuam com essa insegurança, fantasiando que, talvez, essas crianças encontrem pais melhores do que eles, mais capazes, que deem algo que eles não possam oferecer.

Por que isso ocorre? É simples. A esses pais foi negado algo inalienável, biológico, que é capacidade de reproduzir. Temos a capacidade de respirar, pensar, sentir e também de reproduzir. Pouco ou jamais nos questionamos a esse respeito. Já esses pais se veem e se sentem alijados dessa capacidade reprodutiva. Desenvolvem, consequentemente, toda uma sensação de perda, de pesar, e de uma consequente e eventual depressão. Recompõem-se e decidem adotar alguém, mas a sensação de incapacidade reprodutiva, se não for bem resolvida, discutida, trabalhada, continuará a incomodar, gerando incertezas.

Quando meu filho André, aos 4 anos de idade, exclama: “você não é meu pai”, ele não chega a ameaçar a minha segurança de pai e de paternidade, pois é facílimo notar que ele não passa de um modelo atualizado e melhorado de mim, seu pai. O mesmo, obviamente, já não acontece com pais que têm filhos adotivos, pois esses se sentem feridos num ponto nevrálgico: não tiveram filhos. Assim, enquanto posso dizer para o André “apesar de você estar com raiva de mim e, por isso, achar que não sou seu pai, eu sou e continuarei sendo seu pai”, é possível que o mesmo não possa ser dito com tanta naturalidade pelo pai adotivo a seu filho adotivo. A consequência é importante, pois ao passo que meu filho irá sentir a minha firmeza e segurança, apesar de sua raiva, se sentirá confortado quanto às dúvidas. Já o filho adotado sente a insegurança desse pai ou mãe, o que obviamente exacerbará a sua própria insegurança.

Desenvolve-se, assim, um círculo vicioso de insegurança com consequentes problemas na área emocional, chegando, inclusive, em certos casos, a se criarem problemas de comportamento. É comuníssimo, na minha prática, observar pais adotivos com nítida dificuldade de colocar limites adequados para seus filhos, fazendo-lhes as vontades, dando-lhes presentes em demasia ou, de outras formas, tentando ser melhores do que realmente são. Em outras palavras, uma nítida dificuldade em dizer não, em transmitir a mensagem de que “um não” pode ser sinônimo de amor e não de rejeição.

“Se meu filho me contesta e afirma que não sou pai dele, na realidade o que é que ele quer?”. Quer que eu deixe bem claro para ele, apesar do clima de briga e hostilidade, que continuo amando-o, ou seja, continuo assumindo plenamente o meu papel de pai. Cabe a mim passar essa mensagem para ele e deixá-la bem clara. Aliás, eu diria que isso é a “pedra de toque” de uma boa educação: deixar bem claro para a criança, principalmente numa situação de crise ou de atrito, que “eu gosto de você, estou fazendo isso exatamente porque gosto de você”. É algo que fazemos com pouca frequência. Somos muito hábeis em criticar pejorativamente, em “pichar”, em ralhar com nossos filhos, com nossos amigos ou colegas. Ao passo que é difícil para a maioria das pessoas fazer um elogio, dizer uma palavra de carinho ou de estímulo. Certas pessoas têm, aliás, quase um hábito de observar em outros apenas os seus defeitos, ao invés de notar também suas qualidades e virtudes. Depois elas se questionam o porquê de um relacionamento não dar certo.

Nós todos temos nossos momentos de dúvida, se deveríamos ou não ter tido esse ou aquele filho. Nos pais adotivos, essa indagação é muito maior e mais intensa, pois o esforço que empreenderam para ter essa criança foi bem maior. Consequentemente, a dúvida dói neles muito mais. Devido a todos esses fatores, o medo de serem rejeitados por esse filho é também mais intenso e mais presente, porém não procede porque, para uma criança, em última análise, não faz a mínima diferença se foi adotada ou não. O que ela deseja e quer são coisas muito básicas e fundamentais que têm a ver com carinho, afeto, cuidado, respeito e amor. O resto são detalhes.

Costumo dizer: “criança é criança, mas não é burra”. Ela vê no álbum da família, que a mãe não está barriguda, sabe de histórias dos pais procurando um filho, escuta comentários. As negativas dos pais, nesse sentido, só servem para intensificar a insegurança, destruir a confiança, aumentar a curiosidade e criar um clima de inquietante silêncio. Já ouvi de dezenas de crianças, cujos pais me consultaram para discutir o tema, a observação: “eu já sabia há bastante tempo que eu era adotado”. As crianças mais velhas, inclusive, comentam: “pena que meus pais tenham tanta dificuldade em falar sobre isso” ou “não vou deixar de gostar deles por causa disso, é claro”.

Para falar com uma criança sobre a sua condição de adotada, deve-se levar em consideração: idade, maturidade, capacidade, percepção, nível de funcionamento socioeconômico da família e outros aspectos. A mãe adotiva comumente resume tudo isso na seguinte frase: “todas as crianças nascem da barriga das suas mães. Você, meu filho, nasceu da barriga de uma outra mulher e também nasceu do meu coração. Você, meu filho, veio do meu coração!”.

10.4Outras dúvidas sobre adoção

A citação “filho do coração” não é enganosa?

Vejam que a resposta dada pelo texto do Dr. Gauderer não omite o fato de a criança ter nascido do útero de outra mulher. A imagem “veio do meu coração” é simbólica como também o é uma outra resposta “você veio do meu afeto, do meu amor”. Não entendemos que exista equívoco ou informação enganosa em se falar assim. Evidentemente, a criança que pergunta tem que ser informada, repetidamente, quantas vezes perguntar, que foi outra mulher que a gerou.

Como responder a uma criança adotada que pergunta por que a mãe biológica não ficou com ela?

A resposta não pode macular a imagem da mãe biológica. Portanto, nunca usar imagens depreciativas nem responder de forma que permita à criança adotada criar uma má imagem sobre a mãe biológica. Imaginem o que poderá passar pela cabeça de uma criança adotada que, ao perguntar sobre isso, recebe uma resposta assim: “ela não quis ficar com você” ou “ela era muito pobrezinha e não podia cuidar de você”. A primeira não diz nada e pode fazer a cabecinha da criança pensar em rejeição e coisas desse tipo. A segunda é obviamente depreciativa, pois ela provavelmente conhece filhos biológicos cuidados por pais pobres. Seguramente, a resposta tem que incluir elementos que elevem a mãe biológica. Algo desse tipo pode ser pensado: “sua mãe estava com muitas dificuldades e pediu para eu cuidar de você” ou “ela estava muito doente quando você nasceu e solicitou que eu cuidasse de você”. Evidentemente, a resposta tem que ser coerente e a explicação tem que ser a mesma ao longo do tempo. O pai adotivo não deve dar uma explicação e a mãe adotiva outra totalmente distinta. Quando a adoção foi em consequência da morte da mãe, a resposta fica mais fácil e deve registrar exatamente o que ocorreu.

Como proceder quando a criança adotada tem irmãos que são filhos biológicos dos pais adotivos?

É possível que nos confrontos do cotidiano um filho adotado seja agredido pelo biológico com o “você não é filho do meu pai. Você é adotado”. Evidentemente, não existe discurso que resolva isso. Ambos os pais têm que censurar o filho natural que assim procede para tentar evitar a repetição do fato. Têm que mostrar ao filho adotado, com atitudes contínuas, repetidas, que não existe discriminação no lar. O filho natural e o adotado devem receber o mesmo tratamento material e comportamental de modo que não exista a possibilidade de se caracterizar distinção entre eles.

Os filhos e os pais adotivos precisam de assistência psicológica?

É provável que antes ou mesmo logo após a adoção uma entrevista dos pais com um profissional que entenda do assunto possa ajudar. Nessa oportunidade, várias questões práticas e a melhor maneira de resolvê-las poderão ser discutidas. Muitas dificuldades poderão ser evitadas se tudo for bem encaminhado desde o início. Mas é pouco provável que tanto os pais quanto os filhos adotivos se beneficiem com a assistência psicológica rotineira. Quando surgirem dúvidas ou problemas, sobretudo quando o pediatra achar conveniente, o psicólogo poderá ser chamado a participar.

A criança pode opinar sobre a sua adoção?

Informa o estudioso e advogado de questões familiares, professor doutor Sílvio Neves Baptista, que após os 12 anos de idade as crianças podem ser chamadas a opinar sobre a adoção. Além do consentimento dos pais, os menores com idade acima de 12 anos devem dizer se aceitam ou não a adoção.

Gostaríamos de saber algo sobre a função social da adoção.

A adoção exerce importantíssimo papel social. Existem muitas crianças e adolescentes precisando de lares estruturados, amor, proteção, educação, alimentação, vacinação, cuidados adequados com a saúde, lazer, estimulação adequada e outros itens importantes para atender às suas necessidades básicas. No Brasil, o Conselho Nacional de Justiça, através do SNA (Sistema Nacional de Adoção), informa que há cerca de 4.000 crianças e adolescentes acolhidos aptos a serem adotados no país. Desses, aproximadamente 2,3 mil têm dificuldades para encontrar pretendentes interessados em sua adoção: são crianças maiores, adolescentes, grupos de irmãos ou, ainda, com doenças ou deficiências. Existem em torno de 50 mil em instituições de acolhimento, que ainda não estão liberadas para adoção porque as suas famílias de origem ainda estão sendo trabalhadas na tentativa de viabilizar a reintegração familiar.

Os brasileiros valorizam tanto o assunto que, em 1996, em Rio Claro-SP, foi eleito o dia 25 de maio como o Dia Nacional da Adoção. Seis anos depois, nasceu oficialmente o Dia Nacional da Adoção, através da aprovação da Lei Federal n° 10.447 – 09/05/2002. A partir dessa data, todos os anos, as associações e grupos de apoio à adoção, em diversos estados do Brasil, realizam atividades comemorativas, que também visam a despertar o olhar da sociedade sobre a adoção e o direito de crianças e adolescentes à convivência familiar e comunitária. Há muito a ser feito para que a adoção cumpra um papel socialmente mais relevante no Brasil.

Onde encontrar Grupos de Apoio à Adoção?

No Recife, existe a Associação Civil Pró Adoção e Convivência Familiar e Comunitária GEAD RECIFE, que se dedica ao acolhimento de pretendentes à adoção e pais adotivos, oficialmente, desde 1997. Realiza duas reuniões mensais: uma com foco no período do pré-adoção e outra no pós-adoção, com o objetivo de oferecer apoio e orientações para as famílias já constituídas. E ainda o Serviço de Orientação à Filiação Adotiva (SOFIA), da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), que oferece atendimento psicoterapêutico tanto para pretendentes quanto para filhos e pais adotivos.

Em Pernambuco, atualmente, trabalham 11 Grupos de Apoio à Adoção (GAAs). Os GAAs pernambucanos são todos associados à APEGA – Associação Pernambucana de Grupos de Apoio à Adoção, que contribui para assegurar que todos atuem de forma unida e coordenada, em parceria com o TJPE (Coordenadoria da Infância, Vara da Infância e Juventude) e Ministério Público.

A filiação por adoção tem sido um tema muito relevante na contemporaneidade tendo sido objeto de muita atenção e estudos. Em termos de Brasil, são notados cerca de 250 Grupos de Apoio à Adoção, distribuídos nas cinco regiões brasileiras. No site da ANGAAD – Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção (www.angaad.org.br), é possível encontrar-se todos os endereços e contatos dessas entidades.

Tenho lido que o Brasil avança no campo da adoção de crianças. O que tem realmente ocorrido?

São apresentados alguns aspectos da nova lei brasileira sobre a adoção, de julho de 2009, que torna o nosso país um dos líderes mundiais na abordagem do tema. A nova legislação foi recebida como uma vitória pelos grupos de apoio à adoção e pela Associação dos Magistrados do Brasil, que, há anos, vinham lutando para melhorar a realidade dos muitos meninos e meninas que vivem em casas de acolhimento à espera de uma família.

Sobre os abrigos, a nova lei:

  • Fixa prazo de até dois anos para destituição judicial do poder familiar em casos de violência ou abandono, o que acelera a colocação da criança para adoção.
  • Limita o tempo de permanência das crianças nos abrigos em no máximo dois anos e, preferencialmente, em endereço próximo ao da família.
  • Determina que a cada seis meses a permanência da criança no abrigo seja reavaliada e que a possibilidade de reintegração familiar ou colocação em família substituta seja decidida o mais rápido possível.
  • Permite que entidades que tenham programa de acolhimento possam receber crianças e adolescentes sem a prévia determinação da autoridade competente, com a obrigação de comunicar o fato em até 24 horas para o juiz da Infância e da Juventude.

Sobre os vínculos, a lei:

  • Prioriza o direito de crianças e adolescentes à convivência familiar e amplia a noção de família para parentes próximos com os quais convive e mantém vínculos de afinidade e afetividade.
  • Determina que os irmãos não sejam separados, ressalvada a comprovada existência de risco de abuso ou outra situação que justifique plenamente a excepcionalidade de situação diversa.
  • Exige a preparação prévia dos pretendentes a pais adotivos.
  • Prevê que crianças indígenas e quilombolas sejam adotadas dentro de suas próprias comunidades.
  • Prioriza a adoção nacional e estabelece que a adoção internacional só será possível em última hipótese.
  • Estipula que o prazo máximo para a conclusão do procedimento de adoção será de 12 meses, depois de iniciado o estágio de convivência.

E sobre a assistência aos adotados, ela:

  • Determina que gestantes ou mães que manifestem interesse em entregar seus filhos para a adoção receberão amparo da Justiça para evitar riscos à gravidez e abandono de crianças em espaços públicos.

O Sistema Nacional de Adoção (SNA) está funcionando?

Sim, está. O Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento foi desenvolvido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e tem abrangência em todo o território nacional, ampliando as possibilidades de adoção entre os pretendentes e crianças/ adolescentes. Uma vez habilitado pela Vara da Infância e Juventude, o pretendente é inserido no sistema SNA e sua inscrição será válida em todo o território nacional (caso opte por adotar em outros estados pela procura nacional). O sistema fará uma procura da criança/adolescente por meio do perfil indicado no momento da habilitação. Outra novidade do sistema é que o pretendente poderá realizar um pré-cadastro no site https://www.cnj.jus.br/sna/.

Vejam alguns dados concretos sobre o que está acontecendo no Brasil. Desde 2019, o SNA já viabilizou mais de 12,4 mil adoções. De janeiro a agosto de 2022, foram registradas mais de duas mil adoções pelo sistema. Dessas, 47% eram pardas, 39,3% brancas e 10,3% negras. Das crianças adotadas, 550 tinham até 2 anos de idade e apenas 51 tinham de 14 a 16 anos. Há também cerca de 32.000 famílias sem ou com filhos biológicos que se dispõem a adotar crianças para vivenciar a experiência da paternidade e da maternidade.

A Busca Ativa Nacional é a medida mais recente adotada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para facilitar a adoção de crianças e adolescentes que não têm o perfil desejado pela maioria dos pretendentes cadastrados no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA). Com o investimento do CNJ na evolução tecnológica da ferramenta, pessoas e famílias cadastradas para adoção conseguem localizar informações pessoais, fotos e vídeos de crianças e adolescentes que enfrentam dificuldades para serem adotados. De acordo com estatísticas apresentadas pelo CNJ, em 2022, no seminário Adoção e acolhimento familiar: desafios, 62 crianças e adolescentes localizados por busca ativa já estavam com o processo de adoção iniciado.

A mãe adotiva tem direito à licença maternidade?

Em 2016, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que não pode haver diferença na licença maternidade concedida à mãe biológica e à adotante: ambas têm direito a, no mínimo, 120 dias. A decisão foi no julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 778889 (Tema 782 da repercussão geral). O STF considerou que não se pode discriminar o tempo de licença maternidade entre mães biológicas e adotantes nem em razão da idade da criança adotada. Para a Corte, devem ser resguardados os princípios da dignidade humana, da igualdade entre filhos biológicos e adotivos, da doutrina da proteção integral e do princípio da prioridade e do interesse superior da criança/adolescente.

Os filhos adotivos precisam aguardar o término do processo de adoção para usar o sobrenome dos pais adotivos?

O uso do nome afetivo por crianças e adolescentes em processo de adoção, atualmente é permitido em alguns estados, inclusive Pernambuco, antes da sentença final e da mudança no registro civil. A conquista desse direito significa passar a usar outro nome ou só o sobrenome dos pais adotivos em escolas, planos de saúde, clubes e outras instituições sociais mesmo com o processo de adoção ainda em trâmite. (LEI No 16.674, de 21 de outubro de 2019, em Pernambuco).

É possível incluir o filho adotivo em plano de saúde?

Ao receber a guarda provisória para fins de adoção (independentemente da idade do filho), os pais adotivos terão 30 dias para solicitar a sua inclusão no plano de saúde da família. Essa inclusão deverá ser concedida imediatamente e sem qualquer carência que o pai/mãe titular do plano já tenha cumprido. Recomenda-se fazer o pedido de inclusão por escrito para evitar negativas injustificadas. (Legislação necessária: Lei no 9.656/98, art. 12, II, b e VII).

É possível a adoção de crianças por casais homoafetivos?

Não existe nenhuma proibição sobre a possibilidade de casais homoafetivos adotarem crianças. O reconhecimento da união estável homoafetiva, em 2011, facilitou e abriu as portas para o novo conceito de família. Desde 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) permite que casais do mesmo sexo adotem crianças.

Informações complementares e importantes sobre adoção:

Os links citados a seguir trazem informações valiosas para quem estiver interessado em iniciar no caminho da adoção.

Como habilitar-se para adoção em Pernambuco:

https://www.tjpe.jus.br/web/infancia-e-juventude/adocao-nacional

Habilitação para adoção em Recife:

Associações e grupos de apoio à adoção em Pernambuco:

E se quisermos ler mais sobre o tema. Onde encontrar?

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SOROSKY, A.; PANNOR, R. The Adoption Triangle. Anchor, 1979.

WIEDER, H. On being told of adoption. Phychoanalytic Quarterly, v. 46, p. 1, 1977.

WOLFF, S. The life of the adopted child. Archi. Diseases Childhood, v. 49, p. 166, 1.

E- books

A seguir, alguns exemplos de livros digitais (e-books), alguns deles gratuitos.

O que saber antes e depois de ter filhos, Luiz Schettini (versão digital)

https://www.jurua.com.br/bv/conteudo.asp?id=29690&pag=1

Acolhimento Familiar — Características, vantagens e como funciona. Saiba tudo! https://geracaoamanha.org.br/ebookaf/

Guia da adoção

https://geracaoamanha.org.br/adocao/

3 vivas para a adoção

https://www.angaad.org.br/portal/livro-digital-3-vivas-para-adocao/

7 passos para a adoção, Letícia Camargo

https://www.angaad.org.br/portal/e-book-7-passos-para-a-adocao/

10.5Depoimentos de nossos colaboradores

  1. “A paternidade e a maternidade adotivas precisam ser internalizadas. Isso é um processo subjetivo. Quando o autor do texto fala na insegurança e na ideia de que poderiam ser pais melhores se fossem biológicos, penso que aí se esconde a fantasia que esse filho poderia ser melhor se fosse biológico. Dessa forma, a elaboração da impossibilidade de gerar uma criança precisa ser bastante trabalhada para que esse sentimento não seja projetado na criança. Aproveito para opinar sobre a expressão ‘filho do coração’. Para mim, soa preconceituosa. A criança adotiva é filha. Filho é filho. A diferença é que ela foi fecundada por um outro homem e gerada por uma outra mulher. Esse fato tem que ficar bem claro para toda família. A família que recebe a criança não pode rivalizar com esses pais biológicos, porque lhe deram a vida e eles não. Isso sim tem que ser valorizado para a criança desde sempre. Houve aí um desejo triplo para que ela tenha nascido. Desse homem que a fecundou (mesmo que o desejo tenha sido momentâneo por essa mulher), desejo da mãe que a gerou e lhe deu vida e o desejo da própria criança em nascer e permanecer viva. E podemos acrescentar o desejo dessa nova família em ter este filho. Concordo que a verdade seja falada para a criança desde cedo. Chego inclusive a admitir que quanto mais cedo melhor. Desde bebê. Isso facilita o relacionamento entre pais e filhos. Cada casal encontrará a melhor forma de fazê-lo. Acredito no valor do trabalho psicanalítico em qualquer situação em que o desejo e fantasias dos pais estejam dificultando o surgimento do desejo da criança, da sua singularidade como ser. Se em determinada situação de adoção ficar claro que está ocorrendo esta dificuldade, um trabalho analítico será de fundamental importância, pois, como vimos, existem elementos fortes de frustração, rejeição, preconceitos, rivalidade que permeiam a adoção. Quando essa parte está bem resolvida, dará espaço para o amor e seus limites.”
  2. “Muito interessante a parte do texto que fala da ferida dos pais em não terem tido filhos e suas consequências na educação e na relação geral com o filho adotivo. O que ocorre é que há uma ferida narcísica nos pais — que se relaciona à autoestima deles — e, em alguns casos, pode ter como consequência uma rejeição inconsciente à criança ou à verdade sobre a adoção, pois ela representa uma constante e indesejada lembrança de que os pais adotivos não puderam exercer a função de gerar e reproduzir. É importante que o profissional esteja ciente desta dinâmica psíquica para poder ajudar os pais a verbalizarem seus medos e frustrações e impedir a repetição de um ciclo vicioso de projeções. É excelente a colocação que dar limite é dar amor. Isso precisa ser repetido inúmeras vezes para os pais se comprometerem verdadeiramente na educação dos filhos. Importante ressaltar que, algumas vezes, não existe uma resposta objetiva sobre a razão ou as razões pelas quais a mãe biológica não ficou com a criança. Nessa circunstância, deve-se dizer também a verdade, nem que seja para afirmar que não se sabe a resposta, mas, ao mesmo tempo, dar dados reais para a criança poder construir suas hipóteses e dar sentido à sua história. Obviamente, há um tempo mais indicado para determinadas informações (caso essas sejam questionadas especificamente), levando-se em conta a maturidade emocional da criança. No entanto, não se deve preencher lacunas de informações que ainda não se quer dar com mentiras. Acredito que seja interessante enfatizar que uma criança não necessariamente precise de tratamento psicológico apenas pelo fato de ser adotada. Isso não faz dela ou dos pais candidatos naturais à psicoterapia. Um psicólogo pode vir a ajudar muito nas orientações, mas, repito, não há a indicação de um tratamento compulsório. Uma criança pode ser filha biológica e necessitar de acompanhamento terapêutico e outra pode ser filha adotiva e não necessitar. Penso também que hoje em dia seja ponto pacífico que dizer a verdade sobre adoção é o único caminho correto. O que pode ser colocado em discussão é a melhor maneira de fazê-lo. No meu entender, isso dever ser feito naturalmente e não esperar o momento de comunicar a “grande verdade”, dando ao fato um mistério e caráter tal que o transforme num tabu. A verdade sobre sua vida deve ser experimentada, vivida e compartilhada com a criança desde o primeiro momento. Assim, como se fala corriqueiramente sobre o parto, o dia do nascimento com os filhos biológicos desde nenéns, pode-se e deve-se falar com a criança sobre sua história de adoção, o momento em que a viu pela primeira vez, a espera, a chegada na família etc. O termo “filho do coração” é uma maneira de expressar o carinho pela criança, mas é bom se ter o cuidado para não adjetivar esse papel. Como foi muito bem enfatizado, filho é filho e ponto final. Não precisa haver distinção se é adotado, biológico, do coração, do útero. Ser adotado não tem que ser o que definirá a vida e o papel dessa criança.”
  3. “Trabalho no SOFIA (Serviço de Orientação à Filiação Adotiva) e saliento que alguns pontos do texto chamam atenção pela pertinência, como é o caso da “obrigação” dos pais de contar ao filho sua condição de adotivo. De fato, é direito da criança saber sua origem (isSo sem contar que o registro da separação com a genitora já se deu e está inscrito em seu inconsciente). O que tenho visto na clínica é a dificuldade em ‘revelar’ (é diferente porque se escolhe um momento especial para conversar com a criança ou adolescente sobre a questão). Por aí, passam fantasias de abandono e rejeição dos próprios pais. No entanto, quando se fala em adoção, é preciso refletir sobre o processo de filiação considerando o significado de adoção e o desejo de adotar. É preciso saber o que está (ou esteve) por trás do discurso de adotar, qual foi a motivação para além das justificativas conscientes. É comum chegarem ao SOFIA pais adotivos que se encontram com algum tipo de dificuldade com seus filhos (baixo rendimento escolar, desobediência, medo de revelar ao filho sua condição de adotado) sem se darem conta de que a origem desses problemas pode estar num frágil processo de filiação. Nesses casos, fica claro, através de uma escuta clínica, a diferença de discurso de quem adotou e foi adotado na condição de filho e pai, daquele que ‘pegou para criar’, mas não filiou, não se colocou à disposição verdadeiramente como pai ou mãe daquele indivíduo. A pertinência em refletir sobre o significado da adoção permite identificar as diferenças entre cuidar e filiar no processo adotivo e esse dado tem nos mostrado que em adoções onde o processo de filiação se deu satisfatoriamente, não há com o que se preocupar.”
  4. “Depois de quatro tentativas sofridas e frustradas de fertilização in vitro, resolvemos adotar. Essa foi uma decisão com apoio total de nossas famílias. Primeiro, veio a garota que encheu nosso mundo de alegrias e de experiências apenas possíveis para a vivência da maternidade e da paternidade. Nós ficamos tão realizados que nos esquecemos de vez o assunto do tratamento para engravidar. Tínhamos muito medo de enfrentar o processo legal, mas, por outro lado, não queríamos de forma alguma fazer a adoção ‘à brasileira’. Demos então entrada no processo legal e foram quase dois anos de muitas preocupações. A maior delas era o medo de perder a criança. Essa insegurança era terrível e só foi sanada com a decisão final do juiz favorável a nós. Aos três anos, a garota começou a nos pedir um irmãozinho. E aí começamos a pensar em aumentar a nossa já realizada família. Não chegamos a colocar nosso nome em nenhuma instituição para adoção, porém comentamos com algumas pessoas que estávamos dispostos a adotar mais um. Nos nossos planos, seria mais um, mas nos planos de Deus seria uma dupla. E assim, na quinta-feira que antecedeu o carnaval de 2008, com a chegada dos gêmeos, de dois meses e meio, nossa família ficou completa. Como era de se esperar, nosso carnaval foi animadíssimo. Houve desfile de mamadeiras, fraldas sujas, chupetas e muito choro. Mais uma vez, entramos com o processo de adoção legal, porém dessa vez foi mais rápido, cinco meses. Acreditamos que essa diferença de tempo se deu pelo fato de que, no caso da menina, não se sabia quem era a genitora e, no caso dos gêmeos, ela era conhecida e participou do processo. Não adotamos para fazer caridade. Adotamos porque queríamos filhos e essas crianças precisavam de pais, de amor, de um lar. O assunto adoção é tratado em nossa família com naturalidade e pretendemos que eles sejam conscientes das histórias deles. Nosso objetivo é amá-los, educá-los e fazê-los felizes.”
  5. “Conto um pouco da grande experiência que tive para dizer que todos sejam transparentes e que informem sempre a realidade a seus ‘filhos de coração’. Isso é, digam sempre a verdade sobre a origem deles e não neguem nunca o que sabem. Já era mãe de três filhos, quando Jesus colocou nos meus braços uma linda criança do sexo masculino. Para nós, foi uma grande alegria. Sempre coloquei que ele era meu ‘filho do coração’ e que os outros irmãos eram meus ‘filhos da barriga’. Ele recebeu a mesma criação, carinho, amor que os outros receberam. Nunca houve distinção entre eles. Sempre estive tão segura de que deveria passar para ele todos os dados que eu conhecia sobre a sua origem que guardei a sete chaves, por muitos e muitos anos, uma folhinha de caderno com o nome da mãe e do pai, a data de nascidos 10 anos de idade, ele indagou com muita veemência sobre sua mãe biológica. Eu sabia muito pouco sobre ela. Com o passar dos anos, a cobrança aumentava da parte dele querendo saber sua origem. Depois de muito sofrimento, resolvi entregar para ele o pequeno papel com as informações sobre sua família biológica. Não nego que foi muito dolorido para mim. Sabia que ele estava infeliz. No ato da entrega, disse-lhe: ‘espero que esteja contribuindo para sua felicidade’. Não tive coragem de ir com ele buscar a outra mãe que era tão importante para o meu filho. O meu marido o acompanhou e finalmente aconteceu o encontro com a mãe biológica. Ele era um homem de 23 anos. Deixamos muito à vontade para escolher o que fosse melhor para ele. Acho que pouca coisa mudou. Segundo ele, reconhece que somos seus verdadeiros pais.”
  6. “Sou adotado e relato aspectos da minha história para tentar ajudar aos que adotaram ou que pretendem adotar. E pretendo, sobretudo, que os adotados, como eu, entendam a beleza, mas que também entendam as dificuldades que cercam a vida do ser adotivo. O primeiro aspecto a relatar é que estou seguro ao afirmar que a adoção envolve todos os sentimentos e emoções da relação pais e filhos naturais e envolve ainda, de forma particular, alguns outros sentimentos: solidariedade, amor ao próximo, angústia, dúvida, incerteza, dor, entre outros. São sentimentos que envolvem as duas famílias envolvidas e, de uma forma muito especial, o adotado.

Sofri bastante durante 23 anos da minha vida, não por ser adotado, mas sim por não saber das minhas raízes. Recordo que quando os médicos perguntavam se existia algum tipo de doença na família, minha mãe adotiva ficava calada e, após alguns instantes, pedia que eu me retirasse para conversar a sós com o doutor. A partir dessa e de outras evidências, comecei a desconfiar que eu era adotado. Creio que isso começou lá pelos 10 a 12 anos. Sabia que tinha algo estranho no ar, só não sabia ao certo o quê.

A partir disso, comecei a “puxar” o assunto com minha família para ver se descobria algo. Numa conversa com meus pais, eles me falaram que eu era adotado e me contaram por alto como cheguei à casa deles. Soube que, com dois dias de nascido, minha mãe biológica simplesmente me deixou na maternidade e desapareceu. Quando descobri isso, parecia que tinham enfiado uma faca dentro do meu peito. Ficava sempre me perguntando qual a razão de uma pessoa abandonar o filho. Sentia-me ‘um lixo’ ao saber que a mulher que me carregou durante nove meses no útero me abandonou. Passei a me considerar o ‘patinho feio’, sempre inferior a todos. Passei a travar batalhas diárias dentro do meu eu. Fiquei rebelde, passei a brigar com todos para chamar atenção e para avaliar se eu ainda estava abandonado. Pessoas que me amavam passaram a me evitar. Pessoas que eu não esperava que me amassem aproximaram-se para confortar minha dor. Nunca gostei de comemorar o meu aniversário. Para muitos, esse é um dia muito feliz, de alegria, de comemorações, de festejos. Para mim, não. Para mim, era o pior dia do ano. Eu não sabia se realmente tinha nascido naquele dia. Ficava me perguntando por onde estava a mulher que me colocou no mundo, se ela pensava em mim naquele dia, se ela sofria como eu. Minha família tentava fazer festas surpresas, chamar amigos. Mas não tinha jeito. Era um dia somente meu e de muita dor.

Aos 18 anos, fui morar no Rio de Janeiro a fim de estudar artes cênicas, que era meu sonho. Passei três anos e meio fugindo de mim mesmo, interpretando uma vida que não era minha, mas só assim eu não sofria por ter sido abandonado. Retornei ao Recife, se passaram alguns anos e aí conheci uma garota que se tornou minha namorada. Essa garota não entendia o porquê do meu jeito de tratar as pessoas que se aproximavam de mim a fim de me amar. Mas meu medo sempre foi o mesmo. Eu ficava com receio de me apegar às pessoas que poderiam me abandonar como fez minha mãe biológica. Quando falei com a minha namorada sobre o assunto, tirei um peso das minhas costas. Ninguém sabia da minha história a não ser eu e minha família.

A partir disso, a minha garota começou a me dar forças para ir atrás da minha mãe, conhecê-la, saber o porquê que ela fez isso tudo. Meu maior medo era o que eu podia escutar dela. Sabia que poderia escutar coisas boas e ruins. Lutei comigo mesmo e consegui forças para ir ao encontro da minha história.

Numa sexta-feira, meu pai chegou de viagem. Esperei ele jantar e pedi algo, um indício qualquer, que pudesse me levar até minha família biológica. Ele me deu um papel com o endereço e o nome completo dos meus pais genéticos. Que alívio, eu tinha pelo menos o nome. Aquilo para mim já era uma vitória. Não consegui dormir pensando no momento de encontrar meus familiares biológicos.

Sábado de manhã, caí no mundo em direção a eles. Fui até Ipojuca e chegando à delegacia de lá percebi que estava errado, pois minha família era do município de Joaquim Nabuco e por ser já tarde não seria interessante prosseguirmos viagem. Retornei ao Recife e, no domingo cedo, corri para uma usina de Joaquim Nabuco onde meu pai biológico tinha trabalhado. Colhi o máximo de informações e um cidadão disse que pelo sobrenome tinha um senhor que morava ali perto. Fui até esse senhor dizendo que era jornalista e queria encontrar o seu Luiz (nome do meu pai). Após 10 minutos de conversa, ele me passou o nome de um engenho ali próximo onde morava o primo do seu Luiz. Nesse engenho, me passei por jornalista do programa Profissão Repórter da Rede Globo a fim de encontrar o seu Luiz para conversar. Eu portava uma câmera e as pessoas muito humildes me deram todas as informações necessárias. Consegui, enfim, o endereço e o apelido que minha mãe biológica tinha. Agradeci e corri em direção a ela.

Chegando ao município de Palmares, percebi a gravíssima devastação causada pela enchente ocorrida em 2010. Tentei encontrar dona Marilene e nada, ninguém a conhecia. Até que me sentei e, orando, pedi a Deus que se aquilo fosse me aliviar fizesse com que a gente se encontrasse. Levantei-me e vi um rapaz, numa moto, vindo em minha direção. O motorista me perguntou o que eu fazia ali. Quando contei que estava em busca de uma senhora chamada Marilene, ele disse que ela morava ali perto. Só podia ser um sinal de Deus. Agradeci e chegando perto perguntei a um casal se conhecia quem eu procurava. Uma senhora me levou até aquela mulher que seria minha mãe.

Subi um morro e pude perceber ela brincando com duas meninas. Quando bati o “olho” percebi que era ela. Apresentei-me como jornalista e disse que queria fazer uma reportagem. Ela me convidou a entrar na casa e comecei a ‘entrevista’. Disse que estávamos fazendo uma reportagem sobre adoção e que sabia que ela tinha deixado um filho na maternidade. Nesse momento, ela começou a chorar e explicou a razão e falou o quanto se arrependia daquilo.

Até que eu disse que poderia fazer o encontro deles, se ela quisesse. Foi quando ela respondeu: “é a coisa que peço a Deus todos os dias, antes de eu morrer me encontrar com ele”. Nesse momento meu coração doeu e disse: “abrace-me, então, que esse momento chegou. Sou eu, seu filho”. Muita emoção, choro e mais choro. Conheci minha avó, meus irmãos, enfim, minha família.

Hoje tenho contato telefônico com eles e ainda tenho dificuldade de me acostumar com esses novos fatos, coisa que ainda não aconteceu. Mas a dor e a dúvida foram embora. Percebo ser outra pessoa.

E digo, sem dúvida, a adoção é uma dádiva divina para muitas crianças e para muitos familiares que adotam. E digo ainda que existem pais maravilhosos como os que me adotaram e cuidaram para que nada me faltasse. Pais que cuidaram inclusive do mais importante: guardar as informações essenciais para que eu encontrasse e completasse a minha história real.”

VII. “Sou filha adotiva e relato aqui alguns fatos da minha história que quero compartilhar. Falo sobre minha experiência e sobre os ônus e bônus que envolvem uma adoção. Começo relatando a origem da minha família adotiva. Sou filha única de um casal que, há muitos anos, por consequência do destino, perdeu três filhos. Ainda muito abalada, minha mãe foi aconselhada por minha avó paterna a adotar uma criança. Lembro-me bem dela relatando o quanto foi difícil aquele dia. Era domingo. Chovia muito e seu coração palpitava de ansiedade e medo. Sim, medo. Do inesperado, do novo. Chegando ao hospital onde eu estava, deparou-se com uma criança saudável, que tinha apenas um dia de vida e, como pertences, apenas uma chupeta rosa, doada por uma enfermeira. Pegou-me nos braços e sentiu que tinha uma responsabilidade para a vida inteira no seu colo.

Após todos os protocolos, levou-me para casa com a missão de amar, cuidar e educar alguém que eles desconheciam. Junto a meu pai e minha avó materna, foram cuidando de mim com muito afeto. Devido à dor que já haviam passado, a perda dos outros filhos, me observavam continuamente, durante a noite, sentindo os batimentos do meu coração, para ter certeza de que aquele pequeno órgão não parava de bater. Com muita luta no dia a dia, foram moldando meu caráter, em meio às dificuldades que a vida trazia, fosse financeira ou de outra forma. Sempre fizeram o melhor por mim. Na época, minha mãe trabalhava na casa de uma psicóloga que sempre se dispôs a ajudar e a orientar quando surgissem as dúvidas sobre minha verdadeira origem.

Cresci sabendo que era filha do coração. Até certa idade, isso para mim era normal, pois entendia quase nada sobre tudo aquilo. E foi a partir dos 12 anos que começaram a surgir diversas dúvidas em minha mente. Às vezes, tinha vergonha de tentar esclarecer com meus pais por puro medo de magoá-los. E assim passaram-se os anos. Desde então, em todos os meus aniversários, eu acordava pensativa sobre minha “outra” família. Contudo, não posso esquecer o ano de 2000, quando fiz 15 anos, a data mais esperada da minha vida. Uma data linda, onde minha família e os amigos esperavam para festejarmos. Porém, no meu íntimo, não era essa a sensação que eu tinha. Foi um dos dias mais difíceis que já vivi. As dúvidas rondavam minha mente. Passei o dia com uma pergunta fixa no coração: será que minha mãe legítima lembra que hoje eu estou completando 15 anos? E assim foi o dia. Longo e eu sempre pensativa.

A partir daí, não consegui mais esconder a minha curiosidade sobre minha família. Sempre tinha dúvidas do tipo: será que minha mãe mora aqui? Será que ela está viva? Será que tenho irmãos? Como será meu pai? E passei a perguntar aos meus pais adotivos se eles sabiam algo sobre minha família. Minha pesquisa não teve êxito O que eles sabiam era muito pouco e não me levava a lugar nenhum.

O tempo passou e guardei todas as ansiedades, dividindo-as apenas com o travesseiro. Até que em 2006, com 21 anos, fui procurada por uma mulher que dizia ser minha irmã legítima. Falou que foi criada com mais dois irmãos e que sempre soube que sua mãe havia abandonado uma filha. Disse que sempre almejou encontrar essa irmã. Buscou até que conseguiu o máximo de informações possíveis e me encontrou. Através dela, soube notícias da minha mãe e do restante da família. Um ano depois, tomei coragem e, apoiada pelos meus pais adotivos, decidi ir ao encontro da minha mãe legítima, que mora no Rio de Janeiro. A caminho desse encontro, fui acometida por um turbilhão de sentimentos. Ansiedade, medo, curiosidade, euforia, raiva e tristeza me acompanharam durante todo o percurso. Já na chegada, no momento do encontro, o inesperado aconteceu. Eu não consegui sentir nada. É como se o meu espírito houvesse congelado por alguns minutos. Ela me recebeu com um abraço tímido e eu mal conseguia me mover. Meu corpo ficou estático. Por um bom tempo, não consegui olhar em seus olhos.

A família inteira aguardava para me conhecer. Aos poucos, fui vendo como eram numerosos os meus familiares genéticos. Esquivei-me da minha mãe o máximo que pude, não deixei espaço para ela se aproximar. Adiei a conversa que desejei ter minha vida inteira. Mas como já esperava seria inevitável e chegou o dia de olharmos uma nos olhos da outra e falar tudo que sentíamos. Ela me contou como foi toda sua vida, das dificuldades que teve durante a gravidez, os motivos que a levaram a me deixar na maternidade. Justificou-se de várias maneiras. E eu não consegui dizer uma só palavra. Nada saía. Meus lábios pareciam ter colado e ela não me cobrou resposta. Parecia ter compreendido o que eu sentia naquele momento.

Depois disso nunca mais nos falamos, não nos procuramos mais, e apesar do meu silêncio naquele momento, eu saí dali aliviada, sem nenhum ressentimento ou angústia. Minha alma parecia mais leve e toda essa experiência, o melhor que aconteceu, foi ter conhecido minha irmã, minha sobrinha e minha avó, pelas quais alimento um amor puro e fraterno. Somos grandes amigas. Temos uma relação carinhosa. Até parece que nunca estivemos separados por tanto tempo.

Contudo, continuo minha vida com minha família adotiva. É uma relação regrada a muito amor e companheirismo. E estou aliviada por saber sobre minha origem e muito grata a Deus pelo destino que me foi dado. Tenho convicção de que não seria tão feliz se não estivesse com meus pais adotivos. Eles são os meus maiores tesouros. E concluo com as palavras do padre Fábio de Melo: “não coloque um ponto final nas suas esperanças. Ainda há muito o que fazer..., ainda há muito o que plantar e o que amar nessa vida’.”

Para concluir é notório que a abordagem da temática da adoção não é uma tarefa fácil, tão pouco pragmática para qualquer profissional. A adoção merece ser vista em seu necessário caráter multidisciplinar, seja na área jurídica, na psicologia, na saúde ou nas ciências sociais.

A adoção deve ter uma reflexão diferenciada sobre os diversos atos do homem e da mulher na sociedade, pois, ela nasce efetivamente daquilo que há de mais profundo na essência humana, que é a possibilidade de transformar um sentimento em um ato da razão. Sua premissa parte do desejo de uma pessoa ou grupo de pessoas de iniciar ou ampliar o seu universo familiar em um processo que revisita o passado, vivencia o presente e imagina o futuro — adoção é para sempre.

Quando falamos de adoção, inevitavelmente falamos de ética e moral, f de cultura e de valores sociais, de vínculos afetivos, de cuidados, de preconceito e superação, de verdades e mentiras, de conflitos, de responsabilidades, de afeto e amor.

Esse caráter diferenciado e multifacetado do desejo de ter filhos é o que alimenta o debate dialético do tema de forma mais ampla, que tenta unir as partes e compreender o todo — a criança, a família, a comunidade. É fundamental que instrumentos legais estejam em consonância com o tempo histórico vivenciado, mais fortes e consolidados, a fim de garantir os direitos de quem adota e de quem é adotado; que os profissionais consigam perceber a singularidade do ato da adoção, com o “olhar” atento e cuidadoso de não “compartimentar” aquilo que é tão simples e tão complexo para qualquer família, seja ela constituída biologicamente ou socialmente, que é o desejo de exercer uma maternidade e uma paternidade.

É também importante ficarmos atentos à desinstitucionalização de crianças e adolescentes que estão em unidades de proteção, nos abrigos propriamente ditos, para não remetermos os nossos debates para o âmbito do assistencialismo, dos estigmas e das crianças em situação de pobreza. O “papel social” da adoção deve pautar-se nas próprias características das relações humanas. No encanto, na descoberta, na aproximação, na ansiedade da espera, no aprendizado contínuo, na amizade, no abraço apertado e no diálogo. Para que não haja distinção alguma do lugar que originou a criança ou o adolescente, se do ventre de uma mulher ou de um espaço institucional.

Assim, o caminho percorrido para a adoção deve ser propício para o encontro de uma família em um espaço chamado de lar — onde se vive e se mora —, sabendo que todos trazem dentro de si, com toda a pluralidade, a construção de sua própria história.

10.6Leituras recomendadas

Adoção:

SCHETTINI FILHO, Luiz. Adoção – origem, segredo, revelação. 2. ed. Recife: Edições Bagaço, 2014.

SCHETTINI FILHO, Luiz. As dores da adoção. Curitiba: Editora Juruá, 2017.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Compreendendo o filho adotivo. 4. ed. Recife: Edições Bagaço, 2012.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Compreendendo os pais adotivos. 3. ed. Recife: Edições Bagaço, 2013.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Doce Adoção – A essência. Recife: Edições Bagaço, 2001.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Pedagogia da adoção – criando e educando filhos adotivos. 3. ed. Curitiba: Editora Juruá, 2017.

SCHETTINI FILHO, Luiz; SCHETTINI, Suzana Sofia Moeller (Org.). Adoção: os vários lados dessa história. Recife: Edições Bagaço, 2006.

SCHETTINI, Suzana Sofia Moeller. Filhos por adoção: um estudo sobre o seu processo educativo em famílias com e sem filhos biológicos. 2006. Dissertação (Mestrado) – Universidade Católica de Pernambuco, Recife, 2006. Disponível em: http://tede2.unicap.br:8080/handle/tede/234.

Relações familiares e interpessoais:

SCHETTINI FILHO, Luiz. A coragem de amar. Recife: Edições Bagaço, 2014.

SCHETTINI FILHO, Luiz. A coragem de conviver. 4. ed. Curitiba: Editora Juruá, 2018.

SCHETTINI FILHO, Luiz. A criança de 6 a 10 anos na família e na escola. 2. ed. Recife: Edições Bagaço, 2013.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Amor perdido de amor – As relações afetivas na família. Recife: Edições Bagaço, 2000.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Antes e depois de ter filhos – o que é preciso saber. Curitiba: Editora Juruá, 2022.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Carão com carinho. 2. ed. Recife: Edições Bagaço, 2019.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Como melhorar a concentração da atenção. 2. ed. Recife: Edições Bagaço, 2012.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Conversa de pai. Recife: Edições Bagaço, 2005.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Entre o dito e o não dito – uma pedagogia do viver. Recife: Edições Bagaço, 2011.

SCHETTINI FILHO, Luiz. O amor nosso de cada dia. Organização de Suzana Sofia Moeller Schettini. 2. ed. Recife: Edições Bagaço, 2008.

SCHETTINI FILHO, Luiz. O amor que a gente sente – impróprio para adultos. Recife: Edições Bagaço, 2003.

SCHETTINI FILHO, Luiz. Pedagogia da Convivência. Curitiba: Editora Juruá, 2015.

SCHETTINI FILHO, Luiz; FRANÇA, Amaro. Pedagogia da Ternura. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.

SCHETTINI FILHO, Luiz; FRANÇA, Amaro. Educação em Pauta. São Paulo: Editora Paulinas, 2021.

SCHETTINI FILHO, Luiz et al. Diálogos educacionais. Recife: Editora Ramalhete, 2018.

SCHETTINI, Suzana Sofia Moeller; SCHETTINI FILHO, Luiz. Educar com afeto – do nascimento aos 6 anos. 2. ed. Recife: Edições Bagaço, 2014.

Desenvolvimento, cuidados com a criança, aspectos emocionais:

A educação da criança, à luz da investigação psicanalítica. Melanie Klein e outros. [S.l.: s.n., s.d.].

A criança e o seu Mundo. D. W. Winnicott. [S.l.: s.n., s.d.].

Amor e liberdade na educação da criança. Cesar Pernetta. São Paulo: Fundo Editorial Byk – Procienx, 1983.

DARE, Christopher; EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). Seu filho de seis anos: orientação psicológica para os pais. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

DAWS, Dilys; EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). Seu filho de um ano: orientação psicológica para os pais. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

HARRIS, Martha; EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). Seu Filho de Onze Anos: orientação psicológica para os pais. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

HARRIS, Martha; EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). Seu Filho de Doze a Quatorze Anos: orientação psicológica para os pais. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

HARRIS, Martha; EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). Seu filho adolescente: orientação psicológica para os pais. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

HEGELER, Sten. Pedro e Carolina: uma criança pergunta sobre nascimento e sexo. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

O que toda criança gostaria que seus pais soubessem. Lee Salk. [S.l.: s.n., s.d.].

O’SHAUGHNESSY, Edna; EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). Seu filho de oito anos: orientação psicológica para os pais. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

O’SHAUGHNESSY, Edna; EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). Seu filho de nove anos: orientação psicológica para os pais. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

O’SHAUGHNESSY, Edna; EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). Seu filho de dez anos: orientação psicológica para os pais. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

OSBORNE, Elsie L; EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). Seu filho de quatro anos: orientação psicológica para os pais. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

OSBORNE, Elsie L; EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). EQUIPE DA CLÍNICA TAVISTOCK (Londres). Seu filho de cinco anos: orientação psicológica para os pais. Rio de Janeiro: Imago, [s.d.]. (Série Mini-Imago).

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