Atualmente, observa-se um aumento significativo no número de crianças criadas por pais separados, solteiros ou casais homoafetivos. Nessas configurações familiares, os filhos podem ficar mais expostos a vulnerabilidades de ordem biopsicossocial. A separação dos pais, por exemplo, costuma gerar nas crianças um sentimento profundo de perda, muitas vezes vivido como irreparável. Trata-se de um processo que impacta seres em pleno amadurecimento físico e psíquico, que, com frequência, não aceitam facilmente um novo arranjo familiar. Muitas lutam para preservar a sua família original, e não aquela reconfigurada com madrastas ou padrastos — por mais que essas novas figuras sejam bem-intencionadas. A dificuldade de abordar o tema abertamente com os filhos tende a complicar ainda mais a convivência e a superação desse desafio.
A discussão sobre famílias monoparentais envolve religião, moral, sociedade, saúde e justiça, o que a torna complexa. No entanto, essa realidade existe e pode impactar a saúde física e emocional das crianças, por isso o assunto precisa ser discutido.
Em muitas dessas famílias, as crianças passam mais tempo com babás do que com os pais — assim como no hospital a enfermeira, por acompanhar mais de perto, tem uma influência direta no paciente. Essa convivência intensa com a babá traz marcas, positivas ou negativas, que podem durar a vida toda, o que reforça a relevância do tema.
Em qualquer configuração familiar nova, a criança precisa de suporte adequado — seja dos pais biológicos ou não, dos familiares ou da escola. A influência de babás, pediatras e outros cuidados também deve ser considerada com atenção. Esperamos que estas reflexões ajudem a guiar quem convive com crianças nessas situações.
Por fim, abordamos a adoção, um tema muito especial para quem cuida da saúde infantil. Por razões óbvias: para uma criança que ganha uma família — seja com pai e mãe, dois pais, duas mães ou apenas um deles —, algo que muitos adotados nunca tiveram, a experiência é indescritível.
9.1Filhos de pais separados
Planejamentos frustrados, acordos interrompidos, sonhos desfeitos, conversas e carinhos que não se repetem, certezas despedaçadas, alegrias perdidas, presenças ausentes, sons inaudíveis, perdas de todo tipo, questionamentos variados e muito mais é o que ocorre nos lares onde as uniões desfeitas acontecem.
Todos sofrem. Os filhos são os que padecem mais intensamente as dificuldades comportamentais, psíquicas e, algumas vezes, até materiais decorrentes da separação dos pais.
A problemática causada à saúde física e psíquica das crianças pode não ser percebida com facilidade. Enquanto brincam, correm, pulam, gritam e sorriem, nós, adultos, podemos pensar que inexiste qualquer sofrimento. É comum ouvir os pais atuais, sobretudo, daqueles que não são filhos de pais separados, afirmarem categoricamente que seus filhos estão muito bem, não estão sofrendo e estão da mesma forma que estavam antes da separação do casal.
É verdade que, nos tempos atuais, os filhos de pais separados convivem com colegas na mesma situação. A ocorrência da situação aumentou muito e, entre 2004 e 2005, o divórcio aumentou 15,5% no Brasil. Recentemente, nos tempos da pandemia, as buscas por divórcio dispararam.
Mesmo que a existência de muitos coleguinhas filhos de pais separados possa parecer servir de bálsamo e amenizar a dor, a separação dos pais não deixa de causar um sentimento de óbito para os filhos. Os laços que se rompem, as mudanças radicais que ocorrem em casa, no contexto social e/ou financeiro e até o convívio com outras pessoas que passam a participar da vida das crianças, como os novos parceiros, significam um novo mundo com muitas adaptações a serem vivenciadas por seres que estão amadurecendo física e psiquicamente e que são incapazes de mudar e de aceitar docilmente as imposições que a nova estrutura impõe.
As crianças não aceitam facilmente o novo modelo e lutam pela manutenção da sua família e não da outra formada por estranhos, madrastas e padrastos, por melhores pessoas que sejam. Além dos mais, não é fácil falar com os filhos sobre o assunto, antes e mesmo depois de a separação ser consumada, o que complica ainda mais a convivência com o problema.
É melhor a separação ou o “teatro” de pais e mães que não se entendem?
Uma separação bem planejada e executada, na qual os pais se comprometem a criar os filhos em conjunto, mesmo na nova condição, e assim agem ao longo de muitos anos, é o melhor ambiente para as crianças crescerem do que o “teatrinho” vivido por alguns casais que não estão vivendo em harmonia. As crianças percebem o desamor, a falta de carinho, a desatenção, as palavras ásperas, a ausência de diálogo e outros problemas que caracterizam o casal que não está bem. Por outro lado, uma separação atribulada, mal pensada e mal vivida, é uma encrenca para os filhos e é difícil opinar sobre o mal menor entre isso e a encenação montada pelo casal que vive separado debaixo do mesmo teto. Assim a rotura do vínculo, se bem planejado, pode causa menos dificuldades do que a vida em um lar sem harmonia, sem entendimento.
O que é uma separação bem planejada e bem executada?
Conceitualmente, é aquela que traz menos problemas para os filhos e para os adultos envolvidos, inclusive os avós e titios. É a que traz menos encrencas, pois elas sempre existirão. Quando o casal decide romper os laços conjugais há necessidade de muito entendimento e diálogo para traçar uma estratégia que evite que os familiares e, sobretudo, os filhos sofram danos maiores. Os conselhos dos pediatras, dos psicólogos, dos religiosos e as discussões nos encontros de casais podem ser usados para definir a estratégia a ser usada. Isso inclui, evidentemente, a comunicação do fato aos filhos. Também inclui o compromisso do pai e da mãe marcarem presença, juntos, sempre, para cuidar dos filhos após a separação. Há muitos mecanismos para se conseguir isso. A teoria, o discurso, a palavra, são menos importantes que a prática. As crianças de pais separados precisam mesmo é do exemplo. O casal, mesmo na condição de ex-marido e ex-mulher, nunca deve se caracterizar como ex-pai ou ex-mãe. Eles devem continuar a ser pai e mãe, devem continuar comprometidos com os filhos e demonstrar isso na prática, no cotidiano, por anos e anos, sem quebra de sequência, de modo confiável.
Existe separação bem-sucedida?
Embora raras, existem. O principal aspecto é que os casais estabeleçam regras para uma convivência civilizada. Neste projeto devem ser incluídos os eventuais novos/as parceiros/as. É apenas uma questão de civilidade e bom senso. Apesar de “apenas”, é raro. Mas a realidade é que a maior parte das separações sempre gera sequelas e talvez seja mais apropriado falar de separação menos traumática. É muito difícil, mesmo diante do grande aumento da incidência de separação de casais na atualidade, até mesmo para as pessoas de elevado nível sociocultural, considerar “bem-sucedida” qualquer separação. Observa-se que o casamento de um filho ou filha de casal não separado com moça ou rapaz filho de casal separado sempre preocupa o primeiro par. Talvez em menor intensidade se os pais dos nubentes (os dois casais) forem separados. Mesmo assim, restam dúvidas: qual foi a “melhor” separação?
Quando e como falar aos filhos?
O ideal é começar a abordar o tema naquela fase do planejamento em que o assunto está bem maduro. Se não está maduro, não adianta expor os filhos a sofrimentos desnecessários Sempre evitar discussões, brigas e agressões na presença das crianças. Quando o casal tomar a decisão firme e irreversível de se separar, os filhos devem ser comunicados. O melhor é comunicar o fato em conjunto. É possível que uma conversa amigável no ambiente que a criança conhece, por exemplo, sua casa, seja o mais indicado. Não é fácil dizer com que palavras isso será feito nem a idade mínima que os filhos devem ter para ouvir essa notícia. Mas tem que ser feito pelo casal, calmamente, com muito amor e um nível aceitável de emoção. Evidentemente, a dramatização deve ser evitada. Uma maneira de introduzir o assunto é falando de algo que a criança já pode ter notado: que os pais já não conversam tanto entre si, que não se sentam mais perto um do outro etc. Obviamente, estes exemplos vão variar conforme a idade da criança, acreditamos que após os 3 ou 4 anos de idade as crianças devem ser avisadas. As palavras para um adolescente evidentemente são diferentes das ditas a uma criança de quatro anos que, por sua vez, diferem das ditas para um garoto de 8 anos. Os adolescentes devem ser informados, pois eles já conhecem o assunto, que papai e mamãe não continuarão juntos, mas, que eles continuarão sendo cuidados pelos dois, com o mesmo carinho, com a mesma atenção. Os pequenos deverão receber uma notícia diferente, talvez com palavras desse tipo, se for o pai a se retirar do lar: “papai vai morar em outra casa, mas, vem te pegar toda manhã para levar à escola. Papai vai ver o seu jogo de futebol”. Seguramente, não precisa ser enfatizado que esses compromissos devem ser cumpridos. Se isso não for possível, é melhor que não sejam prometidos. As crianças não devem incluir nos seus sonhos, nesse momento, o que não pode ser concretizado.
O que deve ser omitido considerando a idade dos filhos?
Seguramente, não deve ser dito que o papai ou a mamãe está com uma namorada ou um namorado e essa é a razão da separação. Como também não deve ser informada outra razão de foro extremamente íntimo como é o desacerto sexual. Falem que o papai, se for ele que está saindo, está triste naquela casa, que o papai e a mamãe acham que não é legal dormir na mesma cama e coisas assim. Algumas coisas podem e devem ser omitidas, mas evitando-se sempre o uso de mentiras, pois mais tarde a criança irá perceber que foi enganada e perderá a confiança nos pais, algo essencial. A presença de sintomas ou desajustes temporários varia de acordo com as características das crianças (incluindo idade) e os contextos em que ocorrem as separações.
Qual a importância de preservar a imagem do pai e da mãe após a separação?
Esse é um dos segredos da separação bem-sucedida. Tudo deve ser feito pelo casal para preservar a imagem de cada um. Mãe não deve falar mal, minimizar, aviltar e macular a imagem paterna. Pai também não. Ao contrário, cada um deve agir para preservar e mesmo elevar a imagem do outro. Infelizmente, não é isso que se observa por aí. O que se vê é mãe rotulando o pai de “cabra safado” e de outras pérolas qualificativas e o pai chamando a mãe de “bruxa” e de outros adjetivos até mais terríveis. Isso é um absurdo. Não deve acontecer. Também é comum a mãe denominar a companheira do ex-marido de “p...” o que é outro descalabro. Mas o mais importante para que as crianças e os adolescentes mantenham uma boa imagem dos pais é o cotidiano, a prática, não o discurso. Já falamos, mas repetiremos outras vezes. Os dois, pai e mãe, devem manter vínculos estreitos e constantes com os filhos. Mesmo os que se afastaram da casa devem acompanhar de perto a rotina dos filhos. Devem estar sempre presentes. Será tarefa muito difícil, ou mesmo impossível, que a imagem de um pai palpável, próximo, constante, confiável caia por terra devido às palavras do outro cônjuge.
O que é a alienação parental?
A alienação parental é o ilícito quando um dos pais, habitualmente o que fica com a guarda dos filhos, difama e avilta a figura do outro pai e o excluí do convívio com as crianças usando artifícios de todo tipo. Frequentemente, os avós e as outras pessoas que estão mais próximas das crianças, habitualmente parentes do pai que detém a guarda, participam desse processo de exclusão, de alienação. Agindo assim, a justiça, sabiamente, tenta preservar a imagem e a presença dos dois pais como extremamente valiosas para a vida emocional dos filhos e aplica penalidades quando o crime de alienação parental é demonstrado. O assunto é tema da lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em agosto de 2010, que pune pais e mães que tentam colocar seus filhos contra o ex-parceiro. A nova legislação prevê multa, a ser definida pelo juiz, acompanhamento psicológico ou perda da guarda da criança. Para demonstrar como a justiça brasileira está tratando a relação dos pais com os filhos, em 2012, o Superior Tribunal de Justiça (STF) condenou um pai a pagar uma vultosa quantia a título de indenização por abandono afetivo de uma filha. A ministra relatora foi extremamente feliz ao enfatizar que “amar é faculdade, cuidar é dever”. Há dois projetos sobre o assunto tramitando no congresso nacional.
As crianças são usadas como “garoto de recado”. Qual a opinião de vocês?
Aqui está uma das maiores broncas da separação. Realmente, com certa frequência, pais e mães separados usam as crianças como “garoto de recado”. As mensagens enviadas para os outros ou outras são habitualmente depreciativas, críticas e até reclamações sobre falta de dinheiro. É lamentável que isso ocorra. Com certa frequência, a mãe usa a criança para agredir a companheira do ex-esposo. Ou a companheira desse homem também faz isso tentando agredir a ex-esposa do seu atual companheiro. Novamente, repetimos que isso é um absurdo. As crianças devem ser respeitadas. Elas não devem ser portadoras de qualquer tipo de mensagem. Isso as faz sofrer e participar ainda mais ativamente das dificuldades emocionais que a separação causa. Quando for pertinente, o adulto é que deve procurar o outro adulto, “olho no olho”, e debater o problema. Aproveitar-se das crianças (ainda mais de filho ou filha) para ferir ou difamar outras pessoas (fazendo dela uma arma) é um ato amoral, antiético e de extrema perversidade.
E se eles perguntarem o porquê do papai não voltar para casa?
Arrume uma resposta, mas não minta. Diga que papai e mamãe resolveram assim ou digam que o papai não foi embora. Fale que ele está dormindo numa outra casa, mas que estará sempre presente. Demonstre isso. Mostre que você está sempre junto, levando e buscando na escola, levando ao parque ou à praça, indo ao horto, ao cinema, às reuniões da escola e assim por diante.
Os pais devem deixar que o juiz defina sua relação com os filhos?
O envolvimento do juiz na separação deveria ser restrito às questões materiais, que também poderiam ser resolvidas sem essa intermediação. Infelizmente, nós observamos a interferência do juiz de família e de advogados para todo o lado a fim de definir a participação do casal nas questões afetivas, comportamentais, psíquicas. É hora de perguntar que medidas o juiz usa para definir quantas horas semanais os filhos de um casal separado precisam de convívio com o pai? Como ele sabe das necessidades emocionais da criança X e as da criança Y? Como ele avalia as necessidades afetivas do pai e da mãe? Como ele consegue acompanhar a dinâmica emocional da criança Z que está vivendo uma fase difícil e precisa de mais apoio psíquico? Certamente, o juiz apenas sabe que são importantíssimas as participações paterna e materna. Ele deveria apenas recomendar no seu despacho: “Tenha o máximo contato com seus filhos. Leve-os à escola, ao cinema, ao parque. Compareça à escola para verificar o desempenho escolar e compareça às reuniões de pais e mestres. Acompanhe seus filhos ao médico. Nunca os abandone”. Assim, nos parece uma estupidez delegar ao juiz essa função que, infelizmente, é necessária face aos conflitos gerados pela separação que chegam a impedir ou limitar o sadio convívio filhos-pais ou filhos-mães. Evidentemente, esse nosso entendimento de que a participação do judiciário deve ser minimizada pressupõe que os pais e as mães envolvidos sejam emocionalmente sadios, psiquicamente estáveis.
Diante da dificuldade, o judiciário é chamado a participar. Não é?
Quando o casal não consegue dialogar, quando há inimizade que parece insuperável, o advogado ajuda a intermediar os entendimentos. Existem profissionais que possuem dons essenciais para atuar nessa situação habitualmente conflituosa. É evidente que o profissional não é capaz de fornecer um “manual dos separados”, mas ele pode auxiliar nas questões financeiras, na solução dos conflitos mais comuns e aconselhar sobre a necessidade de diálogo quando percebe que a tendência para a desagregação é muito grande. Ele pode até servir de portador de “recados” do ex-marido para a ex-mulher, para tentar evitar que essa missão seja dada às crianças. Evidentemente, outras pessoas, um amigo comum, um religioso e até o pediatra podem servir para amortecer as angústias e para reduzir a natural tendência de ocorrerem gritos e tapas.
Em que idade a criança pode opinar sobre com quem deseja conviver?
Do ponto de vista biológico, é difícil acreditar que antes dos 10 ou 12 anos as crianças/adolescentes tenham maturidade para exercer uma escolha desse tipo. Do ponto de vista judicial, como nos informa o professor Silvio Neves Baptista, um dos mais qualificados e experientes juristas em direito da família no Recife, a lei não estabelece idade para a criança decidir. A decisão é sempre judicial, depois de ouvir o menor, e não há limite de idade, tendo sempre o juiz o cuidado de verificar se a criança não está sendo manipulada por um dos pais.
Como apresentar o outro parceiro ao filho?
A ruptura entre os pais biológicos foi o desastre maior, já ocorreu. Simplesmente apresentar como meu namorado ou minha namorada, sem muitas explicações, sem muitas justificativas, pode parecer simples, mas não é. Há que se esperar o melhor momento. O processo tem que ser preparado pelo novo casal até prevendo broncas, atitudes agressivas e intensa rejeição. E esperar que o tempo amadureça a relação entre o novo companheiro ou companheira com os filhos da antiga união. Não pode ser um processo forçado, com data marcada, esperando amor à primeira vista. Evidentemente, há uma estratégia sadia de captar a confiança das crianças na qual a paciência, a tolerância e o amor, bem como outros ingredientes que podem ter faltado na relação anterior, sejam aspectos importantes da receita. Excesso de presentes, como é observado, não é um caminho recomendável. Também é aconselhável apresentar o(a) próximo(a) companheiro(a) apenas quando for uma relação mais estável e que indique que vai durar, para não correr no erro de apresentar uma lista de namorados aos filhos, o que dificulta a criação de vínculos com os mesmos e transmite uma ideia de instabilidade afetiva dos pais.
O que fazer quando o filho rejeita o parceiro e recusa o convívio?
O primeiro aspecto é reconhecer que ele tem o direito de recusar o convívio com o novo parceiro ou parceira. Habitualmente, essa rejeição, com o passar do tempo e com as atitudes sadias do pai ou da mãe biológicos e do companheiro ou companheira, tende a ser minimizada e há casos do nascimento de verdadeiras paixões entre filhos adotivos e madrastas ou padrastos, passada essa primeira e sofrida etapa da rejeição. A meta do padrasto ou da madrasta é a conquista. O bom senso diz que isso deve ser conseguido com compreensão, tolerância e paciência. Ficando-se atento para a criança não usar seu “veto” como forma de controlar a vida dos pais. Nesse caso, é importante também observar se há algo mais que a criança está querendo comunicar, mas não encontra outra forma de se expressar, como por exemplo, a pouca atenção destinada a ela.
Como falar sobre o segundo casamento e chegada do novo filho?
Da forma mais natural, sem rodeios, sem mentiras. É aconselhável tolerar a reação negativa, que é legítima, natural e sempre transitória. Com palavras amorosas e atitudes pacientes, com a prática do conviver harmonioso e carinhoso, as dificuldades desaparecem. Novamente, falamos que mais importante que o discurso, é a continuação do companheirismo harmonioso, equilibrado, convincente, é a tolerância, o amor e a atenção, também exercidos de forma contínua, que desmancham todas as rejeições e atitudes negativas.
Quais as consequências que a separação causa na saúde das crianças?
Essa questão é extremamente importante. Os filhos, e até os adultos, podem reagir à separação com distúrbios comportamentais, psíquicos ou psicossomáticos. Problemas da alimentação (anorexia ou bulimia), do estômago e do intestino (vômito, cólica, diarreia), do sono (insônia), da pele e das vias respiratórias (eczema e asma), da escola e da atividade física (queda do rendimento escolar e desportivo), das vias urinárias (“xixi” na cama), do psiquismo e do comportamento (rebeldia, agressividade, tristeza, exacerbação do hábito de roer as unhas e até depressão) são descritos como decorrentes da separação. O pediatra é o melhor conselheiro quando um ou mais desses problemas forem notados. Há casos em que os médicos precisam da ajuda de psicólogos experientes, como na constipação intestinal psicogênica, de difícil tratamento.
Forneçam mais informações sobre os problemas de saúde que acontecem!
Vamos recorrer a um estudo da Dra. Vera Regina R. Ramires, em Maringá, que demonstrou reações psicológicas de acordo com a faixa etária:
- Crianças de 5 a 6 anos: desejo/fantasia de reunir a família; separação sentida como uma tormenta; conflitos de lealdade e vivência dos próprios conflitos; sentimento de desamparo.
- Crianças de 8 a 9 anos: ansiedade; sentimento de perda e dor intensa; fantasias de abandono e conflito no processo identificatório; dificuldade de aprendizagem; distúrbio de comportamento; sintomas decorrentes de conflitos anteriores à separação; angústia, sentimento de insegurança e abandono.
- Crianças de 10 a 13 anos: aceitação da nova união dos pais; atitude de cuidado e proteção dos pais (responsabilidade que lhes confere sentimento de raiva); baixa autoestima, depressão, sentimento de culpa, raiva e tristeza.
Qual o papel do pediatra e do psicólogo?
O pediatra e o psicólogo são os profissionais mais próximos à família, sobretudo, o primeiro, para ajudar na crítica do processo de separação e na busca por um ambiente saudável de maneira que as crianças cresçam emocionalmente sadias. O pediatra é consultado com frequência sobre as dificuldades que a separação está causando e é chamado a verificar os danos físicos e emocionais nas crianças. É ele que com frequência indica e dialoga com o psicólogo sobre as providências a adotar. O pediatra é o profissional que tem mais contato com os pais, inclusive pelo preconceito que ainda existe em procurar profissionais da área psi, ele, em geral, será o primeiro a ser procurado e avaliará se há necessidade de um acompanhamento terapêutico para a criança. O fato de haver tal encaminhamento pode facilitar a continuidade da boa relação do médico com os pais e a criança, já que ele não se envolverá tão particularmente e intimamente no processo do casal. É o pediatra que deve chamar o casal para, numa ou muitas conversas reservadas, sem a participação das crianças, tentar estabelecer um convívio sadio e favorável ao desenvolvimento sadio das crianças. Outras pessoas, como os religiosos, também podem ser úteis na busca por um esquema favorável apesar das dificuldades que a separação impõe.
Como a escola deve se portar?
Uma das consequências da separação é o prejuízo do rendimento escolar. É bom que os professores saibam dessa condição para entender e ajudar nessa fase que pode complicar o andamento da educação das crianças. Elas ainda podem se tornar agressivas com seus coleguinhas e apresentar outros distúrbios comportamentais e psíquicos, antes descritos, como consequência da separação, que também precisam ser entendidos pelos professores.
Filhos de pais separados serão adultos problemáticos?
Não obrigatoriamente. Depois do trauma inicial e se os pais separados conseguem manter diálogo acerca dos filhos, se a presença dos dois é marcante, carinhosa e contínua, em todos os aspectos da vida dos filhos, se as novas famílias estruturadas após a separação também mostram equilíbrio, sensatez e carinho com as crianças, o equilíbrio emocional é readquirido e elas poderão ter adolescência e vida adulta normais. Na situação contrária, onde o conflito e a disputa imperam, é possível antever prejuízos de longo prazo.
É possível falar-se em prevenção da separação?
A prevenção é difícil porque implica mudança no convívio social, que depende de inúmeras variáveis. A separação de casais formalmente constituídos, ou não, é fato comum e crescente em todo o mundo ocidental. A pergunta “você continua com a mesma mulher (ou com o mesmo marido?”) faz parte do repertório entre pessoas que não se veem há anos. Segundo o IBGE, de 1993 a 2003, o número de separações judiciais aumentou 17,8% e o de divórcios 44%. Mesmo assim, apesar de cada vez mais corriqueira, deve haver prevenção que, no sentido estrito da palavra, significa evitar o mal, o prejuízo, o ato falho, pois a separação, seja ela informal, judicial ou através de divórcio é exatamente isso: algo indesejável, que precisa ter meios de prevenção. Afinal, se trata de um relacionamento entre parceiros que estão em crise e não conseguem resolvê-la. Nos Estados Unidos, proliferam os Programas de Ajuda a Casais, como o Encouraging Marriage and Discouraging Divorce (http://www.heritage.org/library/backgrounderpdf/bg).
Pelos efeitos que provoca na família e na sociedade, a separação deixou de ser uma decisão pessoal para tornar-se uma questão de saúde pública. Os programas de ajuda são importantes porque abordam amplamente as diversas circunstâncias que levam à separação, pois essa é uma questão única para cada dupla que se separa. Mesmo assim, é possível relacionar causas, o que é essencial para a prevenção. Podem ser citadas: casais que se uniram na adolescência, união entre pessoas de diferentes níveis socioeconômicos e culturais, união entre filhos de pais separados, relações extraconjugais (60% entre os homens e 40% entre as mulheres), motivos psicológicos como nascimento de filhos, surgimento de rotinas, amadurecimento desigual do casal, entre outras. (http://www.;abcdasaude.com.br/artigo.php?147).
A prevenção, no entanto, depende de mudança no comportamento social e isso, todos sabemos, não é fácil. Conceitos tradicionais de educação doméstica como obediência aos pais, respeito às pessoas mais velhas, gentileza, altruísmo, etc., caíram em desuso. Foram substituídos pela irreverência (chegando até ao desrespeito), pela ausência de hierarquia, o que leva à disputa entre pais e filhos, talvez para dar a sensação (falsa, mas “moderna”) de igualdade. Esse fenômeno não só concorre para os distúrbios de conduta das pessoas jovens. As pessoas mais velhas, diante da perspectiva de se igualar aos filhos e aos amigos dos filhos, estão apresentando dificuldade em envelhecer, assumir a idade. É cada vez mais frequente se ver pais e mães “sarados”, indo à academia de ginástica. O que é ótimo, afinal, mens sana in corpore sano. O que causa preocupação é vê-los assumir o comportamento dos jovens, no qual não faltam as gírias, o modo de vestir e o enorme esforço para a equivalência física e mental. Essas pessoas podem ter aproveitado muito bem a infância, a juventude e a maturidade, mas estão na iminência de perder a velhice, a última etapa, com tudo de bom e de lindo que ela tem.
E a religião? É importante quando se fala em prevenção?
Claro que sim! Ou pelo menos deveria ser. O Brasil não é o país (pelo menos numericamente) mais cristão do mundo? Cristo jamais pregou a separação. Ele pregou justamente o contrário: a tolerância, o perdão, o amor. É muito difícil assumir os preceitos de Cristo. O Dalai Lama confessou-se admirador dos ensinamentos dele e disse não entender por que os cristãos não seguem a sua doutrina. Se a seguissem, certamente haveria grande redução na incidência de separações.
9.1.1Participação de cuidadores e dos consultores
Pergunta O que fazer quando, após a separação, a criança demonstra um excesso de apego à mãe ao ponto de não querer ficar com mais ninguém? Não aceita ficar com a babá nem com os avós. Joga-se no chão quando não colocada no braço e pede o meu colo o tempo todo. Quando estou no trabalho comporta-se bem, mas quando chego, ela chora, pede atenção o tempo todo.
Resposta do pediatra Sua criança está tendo o comportamento esperado para quem sofreu a “perda” de um ente querido. A separação deve funcionar na cabecinha dela e, na de todas as outras, de uma forma muito simples: meu pai foi embora e eu não posso perder a minha mãe. É isso que deve justificar o comportamento que você cita que é o esperado de um ser afetivo como é a sua criança e como somos nós frente a uma situação de perda. O que você e todos os outros adultos que a cercam podemos e devemos fazer é levá-la para brincar com outras crianças, encher a vida dela de alegrias que só as crianças sabem dar, tirá-la da frente da televisão e da vida pouco estimulante e depressiva e dar colo livremente quando ela quiser. Essa fase deve passar em pouco tempo. Nada de censura, explicações, teorias, blá-blá-blá. Dê carinho e espere.
Resposta da psicóloga 1 Não sei a idade da criança nem outros dados que são importantes para uma análise mais acurada. Assim, falo genericamente. Pode parecer chocante ou cruel o que vou dizer, mas, às vezes (muitas vezes), as crianças usam de manipulação e sabem bem como aproveitar as oportunidades para conseguir o que desejam e/ou “punir” os pais. Elas notam a angústia materna causada pela separação e pelo fato de ter que deixar os filhos em casa e ainda notam as atitudes superprotetoras o que é tudo muito comum numa situação de rompimento da união do casal. E usam esse momento de fragilidade das mães para agredi-las e/ou conseguirem sua atenção ou a do genitor que já não convive diariamente com ela.
Quando cito tais aspectos, não estou menosprezando o sofrimento das crianças frente à separação parental, mas apenas tento alertar que, em alguns casos, as manifestações de sofrimento delas são desproporcionais às manifestações de preocupação e até de sofrimento das mães.
A situação relatada me fez pensar nisso, pois foi dito que na ausência da mãe o comportamento da criança é completamente distinto, continua a ser o mesmo de antes da separação. O que seria esperado é que o comportamento “viscoso” dirigido à mãe também estivesse relacionado, obviamente em menor grau, a todos os outros personagens da cena cotidiana da criança, o que parece não ter ocorrido nesse caso.
Em alguns casos, também percebo que as crianças sofrem em demasia apenas para realizar os desejos das mães ou dos pais, caso convivam com esses últimos, que pretendem responder a uma demanda social ou atingir a(o) genitor (a) que “deixou o lar”. Aqui, apenas tento ressaltar o que não costuma ser dito. Mas é importantíssimo lembrar sempre que as crianças de pais separados estão vivenciando um “luto” e digo ainda que o mecanismo que me parece mais eficaz para resolver a questão é o diálogo honesto. O que precisa ficar bem claro para as crianças, que têm o egocentrismo como característica marcante, e ainda são pouco moldadas pelo social, é que elas não foram culpadas de nada e nada poderão fazer para que as coisas sejam diferentes. A decisão de uma separação está muito aquém de terceiros, apesar de, às vezes, não parecer. A fantasia de ser culpada ou de que poderia ter feito algo para impedir o rompimento é muito comum na cabeça dos pequeninos e precisa ser desfeita.
É sempre fundamental ressaltar que elas sempre serão muito amadas. Isso deve ser dito e redito verbalmente e não apenas “demonstrado” como muitos acreditam. As crianças têm o pensamento primário, concreto, e precisam não só sentir, mas também ouvir de seus pais o quanto elas são importantes e amadas independentemente de qualquer coisa.
Resposta da psicóloga 2 As respostas, do pediatra e da psicóloga, são excelentes, pois permitem aos pais, naturalmente culpados, exercerem o tão necessário “limite” e não favorecerem a criação de pequenos tiranos que podem, inconscientemente e no “direito” deles, se aproveitarem de uma culpa captada nos pais fragilizados para fazer valer todas as suas vontades. Também aproveito para reforçar que a conversa, o diálogo, o “blá-blá-blá” é fundamental. Mesmo que se imagine que a criança não está entendendo nada, ela está, ao menos, percebendo que há um interesse em explicar-lhe as coisas e está se criando as bases para o diálogo e a verdade, duas experiências que infelizmente parecem estar cada vez mais em desuso hoje em dia.
Pergunta O que fazer se a criança mostra um certo afastamento da mãe quando sabe que foi ela quem quis a separação? Não diz nada, mas nas brincadeiras morde, belisca, puxa os cabelos e mostra outros sinais de revolta?
Resposta do pediatra Veja que outro exemplo extraordinário de ser afetivo que é a criança que você descreve. Ela simplesmente está dialogando com você e mostrando o desagrado com a situação criada. Vez ou outra, não muitas vezes, se a criança tiver uma idade que pode compreender o que ocorreu, que pode te ouvir, fale naturalmente as razões que levaram à separação e deixe-a falar também. Mas se a criança tiver poucos anos de vida, deixe as explicações para o futuro.
Resposta da psicóloga 1 Novamente, respondo genericamente. Há que se respeitar o momento das crianças e também verificar se as mães que estão vivenciando essa fase difícil não mudaram o modo de enxergar e se relacionar com elas. Por exemplo, é importante ver se as mães não ficam mais atentas ao comportamento das crianças e sem querer acabam percebendo como problemático um comportamento usual. É possível, com atenção, observar se o comportamento delas mudou, ou não, ou se o que mudou foi à interpretação dos que as cercam. Assim, dá para admitir que cenários de um comportamento corriqueiro passam a ser vistos de forma diferente e estão relacionados à separação dos pais.
Novamente, ressalto a magnitude do diálogo franco. Nesses momentos, nada melhor do que olhar nos olhinhos do filho e dizer: “você está chateado com a mamãe?”, “você está triste?”, “a mamãe não está entendendo porque você está machucando a mamãe. Eu estou machucando você?”. Esses questionamentos diretos mostram a seus filhos que vocês percebem que eles estão sofrendo, que podem contar com vocês e que não serão repreendidos ou incompreendidos por isso. É assim que se constrói um canal livre para diálogos que é imensamente importante durante todas as fases da vida que vocês dividirão juntos.
Participação de outra cuidadora (27/3/23)
“Acredito que o tema deste capítulo pode render longas e profundas conversas, afinal a complexidade das relações familiares é dos temas mais delicados e exige dos responsáveis muita habilidade e uma sincera determinação em buscar as melhores alternativas no trato de situações conflituosas apresentadas no cotidiano. Nesses cenários, várias podem ser as origens dos conflitos, seja a dificuldade/incapacidade do diálogo, a indiferença quanto à assunção das responsabilidades próprias da parentalidade ou, ainda, as disputas em torno dos filhos, de maneira explícita ou velada e sutil, a ponto de produzir o danoso efeito da alienação parental — em um tal contexto, não podemos minimizar as consequências sobre as crianças e adolescentes.
O caso da experiência familiar do meu filho, infelizmente, é atravessada por algumas dessas questões. Sou uma mulher de 33 anos, fui casada, ambos desejamos a gravidez e meu filho nasceu quando eu contava com 27 anos de idade. A separação aconteceu quando ele tinha apenas 8 meses. Difícil decisão, tomada após muito sofrimento e repetidas reflexões acompanhadas, profissionalmente, em sessões de análise, uma vez que — e principalmente —, envolvia um filho de apenas 8 meses de idade. Lamentavelmente, o período de sofrimento tornou-se muito mais extenso, desta vez em razão das dificuldades paternas em conseguir se dispor a um mínimo diálogo, seja comigo, seja com toda a família materna, com a qual meu filho tem importantes relações afetivas, inclusive com padrinhos e primos. Cuidar e estar atenta às situações que envolvem meu filho contou, e ainda conta, com uma série de episódios e situações extremamente desafiadoras.
Não sem dificuldades, decidi assumir de coração aberto o que veio “fora da curva” nos planejamentos da vida — se não fizesse isso, as tristezas me imobilizariam. Me guio sempre pela certeza de que, independentemente do cenário conflituoso que se coloque, meu compromisso será sempre o de sustentar, com amor e toda dedicação, a função materna que me cabe e promover para meu filho tudo aquilo que entendo ser saudável organicamente e emocionalmente, dentro do que esteve e está ao meu alcance.
Meu filho tem uma vivência parental literalmente cindida, infelizmente, por razões que acredito que aqui não devam ser expostas. Em um contexto de cisão como esse, há muitas questões que nos escapam e desafios que se apresentam, seja através de falas e conversas trazidas pelas crianças que, por vezes, revelam histórias difíceis de administrar (acredito na grande importância da criança se sentir livre para expressar suas questões e preocupações na fala, de modo espontâneo e “desdramatizado”), seja através da formação de sintomas que se expressam através do corpo (doenças) e do comportamento.
Sobre esses aspectos que nos escapam, certamente o mais complexo e delicado de contornar é a prática da alienação parental — seja ela deliberada ou como efeito das dificuldades dos pais — porque ela pode acontecer, inclusive, nas entrelinhas e através de mensagens contraditórias recebidas pela criança ou adolescente. Digo das entrelinhas porque nem sempre a alienação parental é praticada de maneira verbalizada, mas através de expressões, de mecanismos velados que gradativamente vão dando consistência aos seus efeitos. Nesse sentido, não dá para subestimar a fina percepção que as crianças têm do estado emocional dos pais e os efeitos sofridos pela prática de uma alienação parental que pode se manifestar desde mecanismos sutis, meros desacordos ou desafetos de um responsável em relação ao outro, até as falas mais explícitas de degradação da imagem de modo a erodir a relação parental existente entre a criança e a(o) outra(o) genitor(a), o que, evidentemente, gera uma condição de insegurança afetiva e de angústia para os(as) filhos(as), podendo levar à diferentes formações sintomáticas — especialmente se, além da alienação, a criança for “ensinada” a silenciar e a trancar o que deveria ser livremente expressado.
A essa altura do campeonato, imagino que não necessariamente haverá solução com desfecho positivo e definitivo em todas as histórias de conflitos familiares. Nossa experiência me leva a crer em um trabalho continuado de superação das adversidades na medida em que elas vão se apresentando e, especialmente, um trabalho de proteção e fortalecimento do meu filho através de diferentes iniciativas, seja qual for o nível de complexidade do cenário posto. Certamente, há histórias familiares nas quais os seus integrantes encontram saídas saudáveis e definitivas para os desafios colocados e muitas se recompõem de maneira harmoniosa — conheço algumas e uma delas se intitula, inclusive, como “família tentacular”, dada as recomposições das relações e a união entre todos os parentes em torno da prioridade que lhes é comum: a do bem-estar das crianças. Contudo, nem sempre as coisas caminham nessa direção…
Para as famílias imersas em situações conflituosas, penso que há uma série de ferramentas decisivas, nas quais devemos sempre apostar, tanto para as crianças, quanto para os adultos — a propósito, acredito que a origem das dificuldades dos(as) pequenos(as) vem, majoritariamente, desses últimos. Aqui, falo um pouco do meu percurso com meu filho (juntamente com minha família) e das iniciativas tomadas em relação às referidas ferramentas. Uma delas é o próprio acompanhamento do(a) pediatra, que imagino ser, muitas vezes, desafiado a avaliar a saúde da criança e decifrar as suas queixas com um olhar que vai do fisiológico ao psicológico — afinal, o tema deste capítulo está relacionado à própria condição da saúde mental. Nesse laço da medicina com a psicologia, penso que outra ferramenta decisiva se apresenta: o acompanhamento psicológico para os(as) filhos(as). Acredito verdadeiramente que ter um espaço próprio, no qual a criança possa se manifestar livremente, à parte das intervenções maternas e paternas, é decisivo para o amadurecimento saudável nas realidades de conflito familiar. E, não apenas a criança, mas também um espaço no qual pais e mães que se implicam responsavelmente no acompanhamento podem ser orientados sobre a forma mais adequada de abordar determinados assuntos com os(as) filhos(as) e se conduzir na educação destes(as). É certo que, a despeito de todos os cuidados, muitas vezes o nó do conflito não desata e, nesse contexto, surge a ferramenta também do Poder Judiciário. Ainda que o tempo para enfrentar as dificuldades colocadas a uma criança seja distinto para a pediatria, para o psicólogo (a), e para o direito de família, cabe ao(à) magistrado(a) responsável por casos de separação e/ou alienação parental, atuar com empatia, construir uma percepção sobre a gravidade do “adoecimento” da família ou de um de seus membros e definir as soluções compatíveis com o risco ao qual a criança pode estar submetida — inclusive à luz das avaliações dos profissionais da medicina e da psicologia.
Falo sobre essas ferramentas porque todas elas fizeram e continuam fazendo parte da vida do meu filho. Para ele, foi e tem sido de imensa importância poder contar com pediatra, psicanalista e profissionais da advocacia sensatos(as) e qualificados(as), seja na atuação e/ou na relação com meu filho.
Neste relato, cabe reconhecer que este percurso não acontece sem sofrimento, pois, mesmo guiada pelo investimento no desenvolvimento saudável do filho, muitas vezes me deparo com situações que se caracterizam mais com um cenário de minimização do dano. Para mim, é inaceitável que uma criança arque com o ônus de problemas que são dos adultos. Ao mesmo tempo, o cuidado com a saúde física e psíquica do meu filho não me permitem desanimar, mesmo diante de situações adversas. O mais difícil é constatar que, efetivamente, está nas mãos dos adultos se disponibilizarem a transformar o cenário, se determinarem ao enfrentamento do que são as suas questões pessoais e se implicar num processo educacional em benefício do filho, com a real priorização dos cuidados e do bem-estar da criança - que hora vai exigir concessões maternas, hora paternas, viabilizando uma relação que deveria ser de co-responsabilidade entre os pais e mães.
Aprendi com meu filho, minha família e amigos(as) que a troca e apoio mútuo são indispensáveis nos cuidados que temos com nossos filhos — isso nos dá mais chances de acertarmos. E a opção pela alegria e pelo bem viver é algo precioso que precisamos estar atentos para transmitir na formação dos nossos filhos.”
Vocês devem ter sentido nossa dificuldade em responder às questões formuladas, nossa incapacidade de fornecer uma fórmula para conduzir o debate. É muito mais fácil para nós fazermos um encontro para tratar das diarreias, das amigdalites e de muitas outras doenças. Mas pensamos que algumas ideias apresentadas podem ser úteis para minimizar as agressões às crianças.
9.2Filhos de mães e de pais solos: famílias monoparentais
Uma das mudanças notadas na composição familiar, nas últimas décadas, é o extraordinário aumento da frequência de famílias compostas exclusivamente por um dos pais e filhos. A maioria das famílias monoparentais é comandada por mulheres. A fertilização in vitro (FIV) favoreceu de forma marcante a ocorrência dessa composição familiar.
Na Inglaterra, uma de cada quatro famílias com filhos é composta por apenas um pai ou uma mãe e seus filhos. Apenas 9% dessas famílias monoparentais são de homens e filhos. Nesse país, 47% das famílias com apenas um dos pais são consideradas pobres, o que repete a experiência internacional de que as famílias monoparentais têm alto risco social.
No Brasil, não encontramos dados sobre o assunto. A observação do cotidiano mostra que a temática é relevante também por aqui. A realidade do Brasil preocupa. A gestação não programada, portanto, com risco de a família ser composta apenas por mãe e filho, ocorre com alta frequência em adolescentes.
O tema que adentra valores da religião, da moral, da sociologia, da saúde psíquica e física, da justiça e de outros aspectos da nossa vida não é simples de ser debatido. O fato é que a situação existe e causa alguns problemas de saúde física e psíquica nas crianças. Portanto, apesar das dificuldades, o tema precisa ser debatido.
Nossa proposta de trabalho reservou um espaço para abordar o tema e enfocar primordialmente a problemática de saúde das crianças que podem estar relacionadas à falta da função do pai ou da mãe no contexto familiar. Evidentemente, não existe uma “receita de bolo” para todos os casos. É possível relacionar e debater sobre princípios gerais que devem e podem ser aplicados e é isso que nos interessa.
A nossa discussão enfocará as famílias monoparentais lideradas pelas mulheres que, biologicamente, engravidam (hoje até via FIV), gestam, parem, amamentam e, por isso tudo, estão mais ligadas a seus filhos do que os homens. Mas abordará também as famílias uniparentais lideradas pelos pais, homens, que pelo menos buscam dar a mesma atenção e cuidar tão bem das crianças como, via de regra, fazem as mamães.
Como a lei trata esse assunto?
Embora não seja nossa proposta abordar aspectos diferentes da saúde, citamos que a Constituição de 1988 mudou o conceito que a legislação do início do século 20 tinha sobre a família. O conceito antigo era altamente restritivo e produziu muitos malefícios aos adultos e às crianças envolvidas nas famílias monoparentais. A atual Constituição enumera três tipos de famílias que merecem a proteção jurídica e do Estado: as advindas do casamento, as oriundas da união estável e as caracterizadas pelas relações de um dos pais com seu filho, a uniparental. Assim, não há dúvidas de que a mãe ou o pai solteiro, viúvo, separado ou divorciado, que vive com o seu filho ou filha, é uma família com direitos e deveres assegurados, como outra qualquer. Não há diferença jurídica entre as famílias constituídas por um casamento em que homem e mulher cuidam dos filhos e as compostas apenas pelo pai ou pela mãe e as crianças. Essas noções sumaríssimas são fornecidas para lembrar a vocês que o risco social que pode produzir danos à saúde das crianças dessas famílias pode ser minimizado pela atual proteção jurídica. E vejam que a união entre homossexuais está sendo vista de uma forma muito mais natural do que era há décadas.
Quais os problemas que afetam as crianças no ambiente monoparental?
Os problemas são de ordem social e/ou psicológica:
- A experiência mundial mostra que os filhos de famílias monoparentais estão em maior risco de adoecer em consequência da condição social desfavorável. Essa condição ocorre mais no caso das mães solteiras adolescentes e ainda mais se a condição econômica delas já era desfavorável antes de ter a criança. Os principais problemas de saúde dependem dessas circunstâncias e não do fato de a família ser uniparental. As crianças têm maior risco de morar em casas insalubres, sofrer problemas nutricionais — como anemia e desnutrição — ter mais infecções como a tuberculose e as parasitoses intestinais, ter mais desajustes emocionais, ter contato com o crime e ter educação menos qualificada.
- Mesmo quando não são importantes os problemas sociais, há dificuldades emocionais a serem evitadas e enfrentadas. Ainda existe muita discriminação, desinformação e práticas errôneas que afetam a vida emocional da criançada e dos seus pais nessa condição. De uma forma genérica, a ausência do pai é menosprezada e a falta dele é um dos principais geradores de dificuldades. Seguramente a ausência da mãe, também subestimada, causa ainda mais problemas. É inquestionável que homem e mulher que geraram um filho devem ter compromisso com a sua formação para ser um cidadão com futuro, perspectivas e, obviamente, com a sua manutenção e saúde. A forma com que as mães ou os pais que sozinhos cuidam e educam materialmente e afetivamente os filhos vai influenciar muito no comportamento deles. A influência é tanta que, genericamente, pode-se afirmar que se eles forem cuidados e informados sobre a situação, de forma planejada, apropriada, serão crianças e adolescentes normais, mas se isso não ocorrer muitos problemas de saúde poderão ser gerados.
- Quando o filho nasceu da FIV, que custa algum dinheiro e já seleciona os clientes, são menos comuns os problemas sociais decorrentes da débil estrutura econômica da família. As mulheres que optam pela FIV têm elevado poder aquisitivo e “cabeça-feita”.
Como agir para prevenir os problemas?
A máxima “cada caso é um caso” é extremamente válida. Espera-se que qualquer formulação geral para evitar os problemas observados em todas as situações deve contemplar:
- Estrutura material que garanta moradia, alimentação, acesso ao serviço de saúde, educação, lazer e outros itens para reduzir ou abolir o risco social que ameaça a criançada das famílias monoparentais. É esse o espírito das pensões a que as crianças têm direito e a razão que faz com que os juízes das varas de família sejam tão rigorosos no seu cumprimento.
- Conhecimento da verdade, explicações simples, mas confiáveis para os que perguntam pelos papais ou pelas mamães que existem nas casas dos coleguinhas. Se desde o início tudo for falado com clareza e simplicidade à medida que as inquietações dos filhos sobre o assunto são sentidas, poucas dificuldades eles terão para entender porque as suas famílias são diferentes das dos amiguinhos. Eles entenderão que os papais e as mamães namoraram e que eles nasceram desse namoro. É importantíssimo que as mamães e os papais definam repetidamente que elas queriam ter a alegria de curtir a maternidade e a paternidade e eles nasceram. As crianças nunca devem ter dúvidas sobre os sentimentos dos pais na fase em que foram geradas e também devem ser dadas explicações convincentes sobre a razão da ausência do pai ou da mãe no contexto familiar. Alguns conselhos gerais como os expostos no capítulo Filhos de pais separados ajudam a seguir os caminhos a serem percorridos.
- Evitar as fantasias enganosas do tipo “seu pai viajou”, “seu papai já morreu” ou pior a transferência da paternidade para os avós é fundamental. Isso vale para a adoção e também para quando a justificativa da família monoparental for a viuvez. Falar a verdade e nada de “faz de conta”.
- Informação precisa e no tempo certo. Quando o nascimento do filho resultou de uma FIVs e o esperma usado foi de banco e não é possível indicar o pai, isso também deve ser informado. Escolha o momento certo, a idade certa, as palavras certas, a emoção certa, o ambiente certo para informar a verdade. Isso é válido para todas as situações.
- Confiança de que se tudo for encaminhado como manda o “figurino”, a situação habitualmente termina com o entendimento e com a aceitação do que ocorreu, principalmente quando a turma já é maior ou adolescente, sem prejuízos para a saúde emocional.
Mas como contar e em que momento?
Como já foi dito em outros capítulos que tratam de assuntos correlatos, isso vai depender muito do amadurecimento das crianças e de como as mães, os pais e os outros familiares envolvidos enfrentam o assunto. A importância do tema justifica a repetição de conceitos já emitidos. Lá vão algumas observações:
- A “regra de ouro” é a verdade deve ser dita, a mentira e a fantasia são sempre as piores soluções. Ao longo da vida da criança surgirão inúmeras oportunidades para falar da maternidade e da paternidade. É importante falar da figura paterna ou materna, dizer os seus nomes, informar onde eles moram, falar das profissões que exercem, relatar sobre as suas famílias e sobre seus outros filhos, se existentes. Dialogar com o máximo respeito e nunca de forma depreciativa.
- Outro aspecto é que as informações devem ser dadas de forma muito natural, sem emocionalismos exacerbados e de forma convincente. É terrível que uma criança hoje saiba que seu pai é José e amanhã seja informada que é João. Existem momentos críticos como o dia dos pais, com todos os apelos de marketing. É difícil administrar uma época como essa, mas nada é impossível. Se os pais convivem, fica melhor. Se não convivem, é mais difícil. As mães podem orientar as crianças no sentido de fazer algo para os papais ausentes — isso é feito, em geral, na escola — e, adicionalmente, podem sugerir que elas escolham alguém para dar a “lembrança” ou que guardem para quando conhecerem os papais, deixando claro, para os que podem entender, que isso pode não acontecer.
- Entre 9 e 12 anos, as crianças tendem a pensar nos opostos bom/mau e correto/ incorreto e é importante explicar-lhe que não há nada de excepcional numa família em que falta na casa o pai ou a mãe. É importante destacar como é comum as famílias monoparentais. É sempre muito importante falar sobre os pais ou as mães ausentes de maneira que atendam às questões suscitadas, de forma que elas se orgulhem deles e que possam dizer aos coleguinhas os seus nomes e o quanto eles são bons.
- Nos casos em que as mães enfrentam sozinhas a maternidade e que os meninos/as nunca conheceram os pais ou nunca estabeleceram vínculo afetivo com eles, é difícil criar uma imagem positiva e de bondade que as orgulhe. Mas vale lembrar que a oportunidade de conviver com um modelo favorável a uma boa qualidade de vida material e afetiva para os filhos não se esgota na figura paterna. É possível que, na vida diária, meninos e meninas tenham acesso a outros modelos, tanto masculinos como femininos, que ofereçam a eles excelentes oportunidades para serem felizes e se estruturarem como adultos equilibrados.
Alguns conselhos especiais para as mães?
Repetimos que, embora em tese, estamos abordando os problemas das famílias uniparentais “tocadas” pelas mulheres ou pelos homens, seguem alguns conselhos “ideais” que podem ser teóricos, mas são verdadeiros:
- Enfrentar a situação e todas as dificuldades com coragem, estoicismo e esperança de que os filhos poderão verdadeiramente se transformar em pessoas úteis, produtivas e felizes.
- Evitar se colocar como vítimas. Na fertilização natural os filhos não são gerados por um só. Cabe a dois a responsabilidade de evitá-los, quando não desejados. O mercado oferece muitos métodos anticoncepcionais eficazes. Portanto, se a gravidez aconteceu, não foi falha ou desejo de um dos parceiros e isso deve ser racionalizado.
- Procurar não falar mal dos pais ou mães biológicos ausentes. O arrependimento é um direito de todos e, muitas vezes, os pais mudam de ideia e procuram os filhos ou esses, mais maduros, buscam pelos genitores que com frequência não se negam e até têm muito prazer de manter contato com eles. Isso será dificultado se as mães ou os outros familiares tiverem criado imagens negativas e depreciativas dos pais. Toda e qualquer imagem e impressão sobre os pais deve partir das crianças e não das mães ou dos outros familiares. Na maioria das vezes, existe mágoa, raiva e esses sentimentos devem ser guardados pelas mães e jamais repassados para os filhos.
- Proporcionar às crianças as informações necessárias sobre os diferentes tipos de família e, em particular, sobre as famílias monoparentais. Transmitir aos filhos a noção firme que é absolutamente normal essa configuração familiar e de que é possível alcançar todos os mesmos direitos e deveres que qualquer outra. Através de uma pauta previamente estabelecida, é possível sugerir que elas falem a respeito dos muitos tipos de configuração familiar: famílias nas quais convivem filhos/as, pai, mãe e avós, outras de pai, mãe e filhos/as, algumas nas quais convivem os filhos/as unicamente com o pai ou que podem ser constituídas a partir de maternidade ou paternidade biológica, adoção, morte de um dos cônjuges, separação, divórcio ou anulação do vínculo enquanto casal.
- Tentar não buscar apressadamente um outro companheiro ou companheira com a intenção de resolver suas necessidades afetivas a fim de “normalizar” sua situação como família e proporcionar ao seu filho/a uma figura paterna ou materna. Como se o fato de encontrar uma outra pessoa o mais rápido possível fosse a garantia para a solução de todos os problemas. O sensato é pensar que um novo relacionamento é uma opção, não uma solução. Para que as pessoas possam se vincular afetivamente, é necessário que as relações se desenvolvam ao longo do tempo e que as pessoas desejem assumir conscientemente alguns compromissos. As mães solteiras e os pais solteiros podem, perfeitamente, educar sozinhas os seus filhos/as com resultados bastante satisfatórios.
Não posso nem dizer que o pai é feio?
Mais uma vez, repetimos que estamos abordando as duas situações: famílias monoparentais tocadas pela mãe ou pelo pai. O respeito à figura paterna ou materna é pilar muito importante para a saúde afetiva dos filhos das famílias monoparentais. Não há dúvidas sobre isso. Alguns estudos indicam que os meninos pertencentes às famílias nas quais a figura paterna não está presente são menos competitivos. Eles se interessam menos pelos esportes, são mais dependentes, mais agressivos, têm problemas de disciplina e, inclusive, enquanto são pequenos, podem ter problemas de identidade sexual. As meninas nessa mesma situação geralmente têm dificuldades para relacionar-se com pessoas do sexo oposto e podem inclusive tornarem-se mulheres que definam sua felicidade em função do êxito obtido com os homens. Por outro lado, foi demonstrada, de maneira consistente, que um dos melhores preditores da adaptação das crianças com relação à separação é a capacidade da mãe na hora de enfrentar os problemas e também de continuar encarregada da educação dos seus filhos/as.
E os avós e as tias? Como devem agir?
O papel desses e dos outros familiares é agir apoiando, ajudando, não criticando, não interpretando ou oferecendo soluções irreais. Evidentemente é importante que também atuem no sentido de reduzir o risco social ajudando na oferta de condições materiais e afetivas. Se a ausência for a do pai, o vovô poderá servir como referência masculina. É evidente que deve haver uma clara e consciente disposição do cumprimento desse papel (pelo vovô) para que funcione. Se os avós e titios agem normalmente em relação a filhos adotados, por que razão rejeitar netos ou sobrinhos nascidos do corpo dos seus descendentes? Infelizmente, ainda existem muitos preconceitos que são baseados não no afeto, mas na preocupação moral. Com frequência, os parentes estão mais preocupados com a “imagem” da família em relação ao que os outros vão dizer. Deveriam dar exemplos e distribuir todo seu amor e afeto, venham de onde vierem as crianças. Cabe aos pais e às mães conversarem com seus parentes mostrando que o caminho do amor é muito mais forte e saudável do que o da rejeição fundamentada por falso moralismo.
E as professoras, como devem proceder?
Os professores devem ser orientados a não diferenciar o tratamento dado a todas as crianças. Eventos como Dia das Mães e Dia dos Pais podem provocar dificuldades especiais e a coordenação do colégio deve se planejar com antecedência para conduzir a questão. O ideal é que o corpo docente da escola esteja envolvido na tarefa de mostrar que existem famílias em que os pais ou as mães não estão presentes. As crianças das famílias monoparentais nunca devem ser excluídas das festividades. Evidentemente, é esperado que os professores nunca discriminem nem atrapalhem por qualquer ação a vida das crianças dessas famílias.
Em termos de saúde, o que muda quando o filho é de mãe solteira?
Há algumas questões particulares. Muitas vezes as mães desconhecem doenças da família dos pais e essa é uma informação importante para ajudar no diagnóstico de alguns problemas. Afora as doenças citadas de cunho social, as principais dificuldades são as de ordem psíquica e afetiva. Não existem muitos estudos sobre o tema, mas a prática indica que surgem distúrbios do sono (insônia e outros), do apetite (anorexia, ingestão alimentar excessiva e obesidade), da escolaridade (não cumprimento das obrigações escolares) e do comportamento (rebeldia, irritabilidade, entre outros) como consequência ou relacionados a essa condição. Evidentemente, esses problemas são mais notados quando o assunto não é tratado de forma adequada. As dificuldades, de início, predominante na esfera psíquica, podem atingir a física. Episódios de asma, de dermatite, de gastrite, de diarreia, e outros podem ser mais frequentes nas crianças de famílias uniparentais. Mas isso não está claro e é muito difícil de ser demonstrado.
E a fertilização in vitro (FIV)?
A FIV é outra forma de ser mãe e permite, inclusive, o anonimato do pai, o que é legal em alguns países. Nos últimos anos, aumentou de forma notável o número de mulheres solteiras que conceberam através da FIV. Dados pesquisados indicam que apenas 30% das crianças concebidas com esperma doado conhecem a identidade do pai. A decisão por esse tipo de fertilização, com esperma desconhecido, tem que levar em consideração os riscos e as surpresas genéticas. Já foi relatado caso de um único doador transmitir uma enfermidade grave a cinco filhos, nascidos de quatro casais. Esses filhos têm 50% de chance de transmitir a doença para seus filhos. As mães que recorreram à FIV o fizeram voluntariamente, opcionalmente, conscientemente. Assim, as dificuldades surgidas com a condução da família devem ser menores do que as observadas na mãe solteira que engravidou de forma inesperada e não planejada.
E os pais solteiros?
As famílias uniparentais lideradas por pais, por viuvez ou outro fator, são menos comuns do que as lideradas pelas mães. Notam-se mães que admitiram não ter o utópico e discutível instinto materno e simplesmente deixam a responsabilidade da criação com os pais. As orientações para esses casos são praticamente as mesmas. Sinceridade, afeto e nada de influenciar a criança no sentido de ferir a imagem da mãe. Afeto só pode ser “medido” com o convívio.
E quando os avós não aceitam essa situação?
Fica obviamente muito mais fácil encarar a responsabilidade com, pelo menos, o apoio moral dos pais. Nessa condição e apesar da ausência materna ou paterna, as crianças estarão cercadas de carinhos dos tios, avó, bisavós e por aí vai. Claro que sempre existirá a ausência paterna ou materna, mas na medida em que os avós e os outros familiares entendem a situação e participam dos cuidados com as crianças, inclusive oferecendo a sua moradia, ficará muito mais fácil dar um futuro decente para elas.
Aceitar, tolerar e amar pode não ser fácil.
Infelizmente, existem casos de moralismo exacerbado, quando as famílias das mães e dos pais que cuidam dos filhos sem o outro parceiro não admitem e até insinuam que teria sido melhor não ter tido a criança, que teria sido melhor um aborto. Tudo isso em nome da “moral e bons costumes”. Cabe às mães e aos pais que assumem sozinhos suas crianças lutar contra essas e outras rejeições, tentando ao máximo “suprir” os filhos de todo carinho e atenção, sem enchê-los de mimos ou de falta de limites. É importante levantar que a “culpa” materna ou paterna leva, muitas vezes, a uma orientação educacional equivocada, quando os pais que cuidam sozinhos dos filhos “pretendem” e acreditam que poderão resolver os problemas afetivos com excessos de presentes e de liberalismo. Isso se aplica a todas as situações que produzem famílias uniparentais.
Os religiosos podem ajudar?
Podem. O catolicismo tem uma posição clara sobre o assunto e o Catecismo Católico admite que “uma criança é um dom” e não pode ser considerada como um objeto de propriedade. O dogma fala bem da importância das crianças que não são propriedade de A nem de B. São um dom, um bem e, como tal, devem ser cuidadas. Seguramente, as religiões devem encampar essa visão. Se não o fizerem, estão erradas, devem mudar. Certamente, os religiosos com cabeça aberta, de “cuca fresca”, podem auxiliar os familiares, mães, pais, avós, tias, a entender melhor a situação das famílias uniparentais, a aceitar a situação e a cooperar para que as crianças se desenvolvam em ambientes favoráveis.
E os pediatras, psicólogos e psiquiatras?
Eles também são uma fonte importante de apoio e de tomada de decisões. Os pediatras, habitualmente mais envolvidos com o cotidiano das crianças e dos seus familiares, são os que melhor conhecem a dinâmica emocional envolvida e que podem ser conselheiros e críticos úteis. De uma forma ideal, eles é que deveriam indicar e acompanhar o trabalho dos outros profissionais, por exemplo, dos psicólogos.
Como vocês concluem?
Vocês devem ter sentido nossa dificuldade em responder às questões formuladas, nossa incapacidade de fornecer uma fórmula para conduzir o debate. É muito mais fácil para nós fazermos um encontro para tratar das diarreias, das amigdalites e de muitas outras doenças. Mas pensamos que algumas ideias apresentadas podem ser úteis para minimizar as agressões sofridas pelas crianças.
9.2.1Colaboração de cuidadores
Os idealizadores da primeira edição do Conversando com o pediatra colocaram o tema em debate para saber se os familiares concordariam, ou não, com a inclusão do texto num livro que pretende rever assuntos de saúde. Vejam algumas das respostas:
“Acho que o tema deve ser abordado. A situação discutida é cada vez mais crescente em nosso meio e inquestionavelmente pode trazer consequências à saúde das crianças.”
“Francamente não acho que o assunto deva ser incluído no livro, até porque situações monoparentais são achadas nas mais diversas condições sociais. E muitas crianças com pai e mãe dentro de casa sofrem todos os problemas de saúde descritos para os pobres filhos de situações monoparentais.”
“O tema pode até ser debatido, se for do interesse, mas, com certeza, uma criança nascida de fecundação in vitro, mesmo que sem pai, não estaria sujeita aos desmandos das condições ambientais em que vivem as famílias pobres. Não vejo a criança em situação monoparental como sujeita a um risco maior de doenças físicas e, emocionalmente, isso ainda é discutível.”
“Acho que o tema, apesar de interessante, não possui qualquer correlação com o título do livro. O fato de um indivíduo ser filho(a) de mãe/pai solteiro não implica problemas de saúde das crianças e dos adolescentes, podendo até mesmo parecer algo discriminatório. Sou filha de mãe solteira e tal fato não trouxe, em absoluto, qualquer problema com a minha saúde, ainda que mental. Por isso, acho que o texto não deve fazer parte do livro, salvo se houver alguma parte relativa a anexos ou algo parecido.”
“Em uma das respostas, a pessoa afirma que o fato de ser filho de mãe solteira ‘não implica problemas de saúde’. E a medicina psicossomática? E a cobrança nas escolas, principalmente nas épocas de apelos comerciais como o dia dos pais? Ela afirma que é filha de mãe solteira e ‘que isso não trouxe problemas de saúde, ainda que mental’. Achei curioso esse ‘ainda que mental’, como se a saúde mental fosse menos importante, quando ela é a principal. Creio que ela está equivocada e acredita que não tem problemas. Eu mesma carreguei essa certeza porque minha mãe se separou quando eu tinha 4 anos. Depois de bem madura é que vamos perceber o ‘buraco’. O filho da fecundação in vitro pode também não saber nunca quem é o pai, mas não existe aí um sentimento muito importante que permeia a maioria dos filhos de mães solteiras: a rejeição do pai.
Eu, quando decidi que seria mãe, mesmo solteira, sabia que carregaria o peso dessa decisão sozinha. Nunca me coloquei como vítima, como é dito nesse capítulo, ninguém faz filho sozinho. Ela sempre soube que foi fruto de um amor muito bonito, mas que o pai não queria mais ter filhos. ‘Minha conversa com ela foi muito boa, nossa relação idem, mas não há quem impeça que a criança em algum momento se toque que existe uma pessoa no mundo que não quer conhecê-la, que não quer saber dela e esta pessoa é seu pai’. Isso não deve ser nada fácil na cabeça de alguém, principalmente de uma criança.
Eu achava que era onipotente, que minha filha não iria precisar de pai nenhum, que pai era apenas um condutor de espermatozoide. Quanta ignorância meu Deus! Não fui filha de mãe solteira, mas minha mãe se separou quando eu tinha 4 anos de idade e não convivi com meu pai. Durante muito tempo, eu dizia toda orgulhosa que não fez falta. Mais uma vez: santa ignorância! Claro que deve ter feito falta só que nunca encarei uma terapia. Um pai é importantíssimo, por pior que seja e existem até estudos sobre isso.
Não desestimulo quem queira ser mãe solteira, mas acho que se deve ter consciência de que não se trata de brincadeira de boneca.
No dia em que o meu companheiro decidiu assumir a paternidade da minha filha, ela ficou numa felicidade sem limite. Ela saiu mostrando para todo mundo aquela ‘nova’ certidão de nascimento. Aparentemente, era uma ‘menina bem resolvida’, mas essa reação mostra o quanto esse “bem resolvida” era discutível.
Da mesma forma que foi abordado ‘filhos de pais separados’ e ‘adoção’, por exemplo, creio que esse capítulo cabe sim. Só estou achando-o meio ‘duro, seco, pesado’. Não sei explicar. Acho também que é fundamental a opinião de um bom profissional da psicologia ou psiquiatria e também de psicossomática.
Não é para ser feito ‘drama’, entende? Mas não dá para ignorar. Conheço uma pessoa que teve dois filhos, um na chamada produção independente e outro de uma relação estável. O primeiro é uma pessoa muito mais leve, solta, alegre, carinhosa, ama a vida e o segundo é uma pessoa reservada e de difícil relacionamento.
Dei esse exemplo apenas para deixar claro que não acredito que necessariamente a criança que seja filha de mãe solteira vá ser um eterno adulto num divã de um psiquiatra. Mas o fato deve ser tratado, principalmente quando se trata de camadas sociais mais elevadas onde cada vez mais isso é uma opção. A mulher deseja ter um filho, pode ter esse filho e não quer um compromisso com ninguém.
Mas para finalizar, acredito que esses tópicos aqui apresentados provocaram uma ‘polêmica’ altamente sadia em torno da publicação ou não do capítulo. Acredito que foi sadia porque demonstrou mais uma vez que cada caso é um caso, que onde existem questões que envolvam moral ou religião, ou qualquer tipo de juízo de valor, sempre existirão diferenças e elas enriquecem o diálogo e, certamente, também refletirão na criançada.
Temos que lembrar ainda que duas colegas de colégio podem estar na mesma situação monoparental e terem orientações completamente diferentes. Desde cedo, elas aprenderão a conviver com essas diferenças. Por vezes, cedo demais, mas na maioria, creio que na idade em que já dá para entender as coisas, principalmente nos dias de hoje no quais novelas e filmes mostram tudo de forma muito clara.”
“Achei muito boa a introdução desse tema no livro e a equipe está de parabéns pela iniciativa. Pais e mães solteiras existem, isso é um fato, então não há por que evitar falar sobre eles. Tenho sabido de livros nas escolas que tratam do tema naturalmente para nos prevenirmos e tratarmos suas consequências desfavoráveis. Achei o texto claro e direto, não vi o que acrescentar ou criticar. A colocação das narrativas pessoais dá a clara noção de como o assunto é polêmico.”
“Não ficou claro para mim a distinção entre famílias monoparentais de baixa renda e aquelas que foram fruto da decisão do genitor(a), especialmente na descrição das doenças correlacionadas. Penso que os dois casos são diferentes e poderiam ser diferenciados no texto.”
“Na condição de psicóloga, com muito tempo de vivência clínica, destaco que o tema aborda questões pertinentes e de grande importância. As informações e afirmações são, sobretudo, mais da área da saúde mental do que da saúde física. Destaco alguns aspectos:
A questão dos valores hoje é tão séria que me arisco a considerar que as dificuldades e mudanças não param na gestação não programada (e muito séria) de adultos e de adolescentes pobres, mas chegam aos lares mais abastados onde, mesmo existindo o casal, o homem é quem está assumindo tarefas domésticas e cuidados com os filhos. As mulheres afastam-se comodamente de sua atuação e entregam aos pais: alimentação, banho, acordar a noite, etc. As mulheres preferem academias e salões de beleza.
Com relação à condição monoparental, eu vejo que psicologicamente a resolução emocional dessa nova família vai depender das saídas que a triangulação edipiana oferecer. Em outras palavras, a substituição dos pais biológicos (pais ou mães) por outras figuras, que eu chamo de resolução transferencial, implica a ocorrência de importantes ajustes internos nas crianças envolvidas no processo. Nunca podemos esquecer que, ao lado do processo de educação, é importantíssima a semente que as crianças trazem em qualquer tipo de situação. E só se desenvolve o que está contido na semente original. Cabe aos pais, a escola, a sociedade apenas o estímulo;
Do ponto de vista econômico, concordo no risco social maior e no adoecer por conta de condições desfavoráveis. Desconfio que numa situação planejada e pensada, em certos contextos familiares, poderão ocorrer resultados mais satisfatórios, mas não necessariamente resultarão em crianças e adolescentes ‘normais’ como o texto cita. Além disso, o normal é sempre uma abstração.
Pergunto se os filhos nascidos da FIV, por serem fruto de mães com maior poder aquisitivo e de “cabeça-feita”, estão protegidos contra os problemas que ocorrem nas gestações não planejadas. Nessa situação, FIV, muito do sucesso ou do insucesso pode ser creditado aos segredos genéticos.
Acredito que em qualquer situação o mais importante é a verdade: responder o que for perguntado com a linguagem própria para cada fase. Não fantasiar.
Discordo que as explicações dadas a turma maior (adolescentes) sejam mais convincentes. Quanto mais cedo, melhor.
Não concordo com a sugestão de que a criança escolha outra pessoa para dar a lembrança do pai e pior é guardar para o futuro (que futuro?).
Se a criança for crescendo na verdade e na simplicidade dos fatos, ela viverá a ausência de um dos cônjuges com naturalidade e passará isto adiante. Claro que a escola poderá ajudar bastante.
Acho simplista a questão, e muito complicada para se afirmar, se as crianças terão ou não problemas de identidade por conta da criação paterna. Concordo que quando pai e mãe afrontam com naturalidade os problemas, diminui a complexidade.
Acho pouco prudente apontar mais dificuldades nos filhos de famílias monoparentais. O básico é o bom trato do dia a dia com as sérias questões que se apresentam, a personalidade equilibrada dos pais, o seu discernimento diante das dificuldades e, acima de tudo, o bom senso.
Não entendi por que o pediatra seria o coordenador do acompanhamento do trabalho de outros profissionais. Ele pode indicar, dialogar, mas o comando é dos pais, pois cada vez mais, eles farão menos;
Vejo, apesar das observações, que as ‘dicas’ relatadas no texto são interessantes.”
O texto é parte de um projeto educacional e não substitui a avaliação individual pelo médico e/ ou pelo psicólogo.
9.3Filhos de pessoas LGBTQIA+
“Foi com alegria que recebemos o convite do pediatra de nossos bebês para falarmos um pouco sobre a nossa família em um capítulo dedicado às famílias LGBTQIA+ nessa nova edição do Conversando com o Pediatra.
“Foi com alegria que recebemos o convite do pediatra de nossos bebês, para falarmos um pouco sobre a nossa família em um capítulo dedicado às famílias LGBTQIA+ nessa nova edição do Conversa com o Pediatra.
Somos Lígia e Eliara, mães de Elis (1 ano), Caetano (2 anos) e Christian (16 anos). Quando decidimos nos casar, muitas das nossas conquistas ainda eram extremamente recentes. Foi no ano de 2011 que o Supremo Tribunal Federal aprovou, por unanimidade, a união de casais do mesmo sexo como entidade familiar, atribuindo ao casal LGBTQIA+ os mesmos direitos de um casal heterossexual, entre eles, o direito a adoção, herança, pensão, seguro saúde, conta conjunta, entre outros.
Famílias homoafetivas sempre existiram. Durante milênios fomos invisibilizados e marginalizados. A luta árdua, dolorosa e contínua contra o preconceito aos LGBTQIA+, vem conscientizando a sociedade sobre nossos recentes direitos civis.
Por definição, uma família é composta por duas ou mais pessoas, que possuem grau de parentesco ou laços afetivos, que convivem na mesma casa, formando um lar.
Somos uma família composta por duas mães, duas crianças e um adolescente. Assim como nós, existem tantas outras: famílias compostas por dois pais; famílias monoparentais, pessoas trans; famílias compostas por pessoas não binárias; famílias extensas ou ampliadas; famílias tradicionais, etc.
Ao se tratar da decisão de ter um filho, é inerente à função do cuidador prover segurança, amor e carinho para o desenvolvimento dos seus pequenos. Nosso gênero ou sexualidade não interferem no desempenho dessas funções. Não é relatado na comunidade científica déficit de desenvolvimento infantil atrelado a orientação sexual e gênero dos cuidadores. Isso posto, nada mais obstante de relatarmos que o convívio com famílias plurais sempre foi natural em todas as sociedades.
A pluralidade de configurações familiares é muito grande, ainda assim, enfrentamos diariamente algumas situações que poderiam ser evitadas como, por exemplo, a Declaração de Nascido Vivo (DNV), que ainda consta apenas o nome da genitora. Formulários médicos e escolares, documentos como o passaporte ou CPF, que reproduzem o modelo de família tradicional, excluindo todas as outras possibilidades de configurações familiares.
Uma mudança simples nos sistemas e formulários resolveria o problema. Nem toda criança tem pai, nem toda criança tem mãe. Mas toda criança tem um ou dois responsáveis legais, ainda que este seja o Estado.
Também sentimos a necessidade de uma reflexão, em especial, dos profissionais de educação e da saúde. Toda família possui as suas especificidades, é importante para todas se sentir acolhidas, escutadas e seguras nestes ambientes.
Abordar a temática das múltiplas possibilidades de famílias em todos os ambientes, contribui para uma diminuição do preconceito e aumento do respeito às diferenças. Somos responsáveis por fazer do mundo um lugar melhor para os nossos filhos, nós e nossas famílias existimos, ignorar a nossa existência nos livros, na mídia e na sociedade é perpetuar um histórico de violências, embaraços, bullying e sofrimentos não necessários e as vezes cruéis para vivência de pessoas tão inocentes.
É necessário o entendimento de equidade sobre nós: duas mães, dois pais, avós, tios, só pai, só mãe, irmãos e primos. Acordamos, sim, em ter todos os deveres de uma vida em família. Contudo, os cuidadores e as crianças precisam se sentir iguais na sociedade. Não há diferença para o amor e a dedicação para nossos pequenos! Precisamos refazer nossos conceitos e se desfazer os pré-conceitos, para vivermos em um lugar mais justo e tranquilo para todas as famílias. A vida é trabalho, amor e carinho. O resto corremos atrás.
O que gostaríamos de relatar é que: Está tudo bem! Somos felizes e realizados como família... toda a nossa família. Temos exatamente tudo: dificuldades, muito trabalho, repensamos o conceito de paciência, grandes alegrias, largos sorrisos, gostosos beijinhos, infinitos chamegos, dengo em excesso e amor, muito amor!”
