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Conversando com o Pediatra

Parte I — Promoção e prevençãoCapítulo 12 de 46

Doença no adulto: prevenção antes da concepção, na vida intrauterina e na infância

As chances de chegar sadio aos 100 anos se constroem cedo: o que fazer antes da concepção, na gestação e ao longo da infância.

  • AutoriaJoão Guilherme Bezerra Alves, Ney Cavalcanti de Albuquerque e Otelo Schwambach Ferreira
  • Leitura18 min · 3,678 palavras
  • No livropáginas 314–323
  • Conversa17 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

O capítulo defende que a saúde do adulto começa a ser construída muito cedo: antes da concepção, na vida intrauterina e, sobretudo, na infância. Em perguntas e respostas, os pediatras apresentam dez passos para quem planeja engravidar, como cuidar da saúde mental, comer bem, manter o peso, atualizar as vacinas, tomar ácido fólico e evitar fumo, álcool e drogas. Mostram também que o feto sente, aprende e guarda memórias, e que doenças cardiovasculares, obesidade e diabetes podem ter origem na vida fetal.

Os pilares da prevenção incluem amamentação, alimentação com pouco sal e açúcar, combate ao excesso de peso, atividade física diária, prevenção de maus hábitos e o exemplo da família. O texto trata ainda da medida da pressão arterial, dos exames de glicose e colesterol, do peso das experiências emocionais, da prevenção de alguns cânceres e do acompanhamento pediátrico regular. Uma seção final discute quando e como tratar o colesterol alto em crianças.

Para quem: Para casais que planejam ter filhos e pais que querem formar, desde cedo, hábitos que protejam a saúde na vida adulta.

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Neste capítulo, debateremos os cuidados que devemos adotar antes da concepção, na vida intrauterina e, sobretudo, na infância, para que o ser humano tenha maiores chances de chegar sadio aos 100 anos ou mais.

A prevenção tão cedo não é utopia?

Isso não é crença. Não é utopia. É cientificamente demostrado que a prevenção de certos problemas de saúde, alguns graves e letais, começam muito cedo, até antes da geração do ser humano. Vamos dividir as ações em: antes da concepção, na vida intrauterina e na infância.

Como podemos agir antes concepção?

As orientações antes da concepção são da maior importância e podem garantir muita saúde ao concepto para o resto vida in útero e fora dele. As orientações podem ser resumidas nesses dez passos:

  1. Saúde mental — Para o casal, um ambiente tranquilo, com menos estresse, ansiedade e sentimentos depressivos, influenciará positivamente em toda a gestação, no parto e na vida toda do concepto. Saúde mental é o modo de como pensamos, sentimos e encaramos o mundo. Devemos sempre nos sentir bem e valorizar a nós mesmo. Em caso de necessidade, procure ajuda o quanto antes.
  2. Dieta saudável — A orientação para uma alimentação saudável (frutas, verduras, cereais integrais, laticínios, ovos, carne branca, menos sal, açúcar, gordura) da futura gestante contribuirá para um feto e uma criança com mais saúde, base para um adulto saudável.
  3. Atividade física — Praticada de forma regular e contínua, antes, durante e após a gravidez, favorecerá a prevenção de doenças crônicas, tanto na mãe como no seu filho por toda a vida.
  4. Manter o peso ideal — Evitar excesso de peso ou obesidade é uma atitude fundamental para evitar muitos problemas durante a gravidez, o parto e por toda a vida, tanto na mãe como no concepto.
  5. Vacinas — Verificar se as vacinas estão todas atualizadas, pois uma gestante imunizada evitará muitas doenças infecciosas e graves.
  6. Fumo, álcool e drogas — Nem pensar, pois levam danos irreversíveis ao feto que se perpetuam durante toda a vida.
  7. Controle de enfermidades — No caso da futura gestante ter alguma doença crônica como, por exemplo, diabetes ou hipertensão, deve manter essas doenças bem controladas antes da gravidez para evitar complicações futuras. Aqui há necessidade da ajuda médica.
  8. Ácido fólico — O ácido fólico é uma vitamina B muito importante para evitar defeitos congênitos do cérebro e da medula cerebral — estruturas que se formam logo no começo da gravidez. Quem está pensando em engravidar deve tomar ácido fólico todos os dias (400 mcg).
  9. Aprender com a família — Conversar com os pais, avós e parentes em geral, sobre doenças existentes em familiares. Falar com o médico já que, no caso da existência de algumas doenças, pode haver necessidade de um aconselhamento genético.
  10. Prevenção da violência — Apesar desse tema ser complexo, não deixa de ser uma realidade nos dias de hoje e tem repercussões de uma geração para outra. O ideal é que a violência seja encarada de forma preventiva. Caso seja identificado algum risco, seja dentro de casa, no trabalho, escola ou algum outro ambiente, procurar ajuda de imediato.

Como poderemos intervir na vida intrauterina para termos mais saúde lá na frente?

A relação do feto com o meio ambiente, não só representado pelo corpo materno, mas com muitos outros aspectos ambientais, não é assunto só de poeta, de pensador.

Hoje, cientificamente é conhecido que a vida fetal não é inerte. Pelo contrário, é uma época de grande aprendizado para o feto, que já apresenta memória e guarda esses ensinamentos para o resto de sua vida. Ele também já tem seus sentidos (tato, paladar, olfato, audição e visão) parcialmente desenvolvidos e consegue sentir e reagir a tudo que lhe rodeia e envolve.

Por exemplo, estudos recentes demonstram que o feto reconhece a voz de sua mãe, sente quando ela acaricia a barriga, percebe o cheiro e o aroma do que a sua mãe se alimenta — algumas moléculas do alimento alcançam o líquido amniótico e o estimulam, tanto pelo o olfato como o pelo paladar pela deglutição do líquido amniótico. Sendo assim, uma gestante está agindo corretamente, ensinando e investindo no futuro de seu filho, quando acaricia sua barriga, conversa, canta, conta estórias para seu filho ainda no ventre.

O feto consegue captar as reações maternas e as vivencia. A tristeza da mãe pode deixar o feto melancólico, o estresse pode agitá-lo. Essas e várias outras reações do feto vão sendo gravadas e podem repercutir ao longo da vida. Mais importante ainda, ele percebe e grava quando é bem-vindo, amado e desejado. Quando sente que é rejeitado, isso significa graves problemas emocionais ao longo da vida. Por tudo isso, a gravidez é uma fase de extrema importância para o desenvolvimento psicológico do ser humano e deve ser uma etapa da vida em que as mães devem curtir muito seus filhos, antes mesmo de nascerem, e demonstrarem o grande amor que lhe devotam.

Afora tudo isso, também é um conhecimento recente que as doenças que matam mais no mundo — as doenças cardiovasculares (infarto, AVC, hipertensão), a obesidade, a diabetes — podem ter suas origens na vida fetal. Por exemplo, um feto mal alimentado, seja por problemas maternos ou da placenta, procura poupar o desenvolvimento do órgão nobre, o cérebro, porém às custas da supressão de nutrientes para os outros órgãos. Isso faz com que determinados órgãos, como os rins, pulmões, pâncreas, não se desenvolvam de forma completa. Por essa razão, esses órgãos não desempenham sua plena função e não atingem a idade inicialmente programada pela mãe natureza, provocando mortes precoces. Os estudos demonstram claramente que as pessoas que tiveram restrição no seu crescimento fetal por carência alimentar e nasceram com baixo peso apresentam maior risco de problemas no coração, obesidade, diabetes e mesmo de outras enfermidades, que ainda estão sendo estudadas.

E como agir na vida intrauterina para a prevenção de doenças após o nascimento?

Aí vão os pilares básicos das ações preventivas:

Alimentação adequada

Há vários itens importantes:

  • Começar com uma alimentação saudável na gravidez: frutas, verduras, legumes, cereais integrais, laticínios, carne branca e magra, peixes, ovos.
  • Amamentar ao peito. A primeira coisa é dar de mamar, sem qualquer outro alimento, durante os seis primeiros meses de vida.
  • Nunca abusar do sal e do açúcar. Em nossa sociedade, ingerimos 5 a 10 vezes mais sal e açúcar do que precisamos. Esse hábito vem da infância. Se acostumamos uma criança desde os primeiros anos de vida a comer com pouco sal e pouco açúcar, ela não vai reclamar, pelo contrário, vai protestar se aumentamos a quantidade de açúcar ou de sal em sua dieta. Isso está comprovado pela ciência, quanto maior a quantidade desses sabores básicos, o doce e o salgado, na dieta de uma criança, mais ela vai saborear o açúcar e o sal. As papilas gustativas, presentes em nossas línguas, que determinam os sabores básicos (doce, salgado, amargo e azedo), são estímulo-dependentes e se diferenciam na infância, em especial nos primeiros anos de vida. Por isso, a idade ideal para se formar bons hábitos alimentares é na infância. O excesso de sal na dieta, além de dar mais trabalho aos rins, aumenta a chance de pressão alta em indivíduos predispostos. O açúcar, idem. Além de gastar o pâncreas e favorecer o aparecimento de diabetes na vida adulta, contribui para criar excesso de peso e promover cáries dentárias.
  • Estimular o consumo de frutas e outros vegetais. Além das vitaminas, eles oferecem sais minerais, potássio, cálcio, ferro e fibras, que facilitam o funcionamento do intestino. Também evitam que o organismo absorva gordura em excesso. Hoje também se sabe que frutas e outros vegetais ajudam na prevenção de câncer. Atenção, pais, a OMS orienta a todos uma ingestão de 400g de frutas e verduras diariamente, pois com essa única medida, o risco de câncer do trato digestivo, desde a boca até o ânus, diminui em 40%.
  • Evitar excesso de gordura (colesterol). Nos churrascos, desestimular o consumo da gordurinha da picanha ou da costela do porco. Idem para os excessos de alimentos do tipo fast food, como os hambúrgueres, bacon, batatas fritas. Está bem comprovado que as carnes ultraprocessadas, ou seja, modificadas industrialmente com adição de vários produtos químicos, como o presunto, a salsicha, a linguiça, o bacon, o salame, a mortadela, estão associadas ao desenvolvimento de vários tipos de câncer. Por essa razão, devem ser banidas da dieta das crianças. Incentivar o consumo de carne branca, especialmente o peixe, de preferência de água salgada. Além da excelente qualidade da proteína, a ajuda na limpeza dos vasos.
Luta contra o excesso de peso e a obesidade

Menino gordinho não é sinônimo de menino saudável. O peso deve ser mantido dentro do gráfico que o pediatra lhe mostra. Evite excessos de frituras (batata, ovo, bife à milanesa), massas (biscoitos, pão, bolacha, macarrão, pizzas), refrigerantes e doces.

Atividade física

Atividade física é considerada pela OMS como o melhor remédio do mundo, pois além de curar, também previne e reabilita o organismo. Fora isso, está acessível para todos, é fácil de ser realizada e o custo é baixíssimo. Os benefícios para a saúde são inúmeros: fortalece o osso, aumenta a massa muscular, fortalece as articulações, melhora a respiração, controla a pressão arterial, ajuda nas defesas do organismo contra infecções e doenças inflamatórias, ajuda no sono e diminui a ansiedade, entre muitos outros benefícios, além de proporcionar bem-estar. Atividade física é mais importante ainda na infância, pois os seus efeitos benéficos perduram por toda a vida e o hábito saudável da prática de atividade física deve ser criado cedo, pois se transmite para a vida adulta. A principal atitude que uma pessoa pode tomar para diminuir o risco de morrer do coração ou de ter várias outras doenças crônicas é praticar uma atividade física regular. Uma caminhada de 30 minutos todos os dias, ou alguma outra atividade que seja equivalente: correr, subir escadas ou andar de bicicleta durante 15 minutos ou nadar durante 10 minutos. Para crianças a recomendação atual é de uma hora de atividade física diária, podendo variar de acordo com o gosto da criança: jogar, correr, pular, subir escada, andar de bicicleta ou de patim, nadar, fazer exercício, academia (acompanhada por um profissional), etc. É importante que a criança faça a atividade física que mais lhe agrade, pois do contrário, as chances que abandone essa prática são elevadas. Limitar as horas de tela (celular, TV, videogame, computador e internet) até duas horas por dia. Todos esses conselhos também são válidos para os adultos.

Maus hábitos

O hábito de fumar ou de beber ou, até mesmo, de usar drogas, geralmente começa na adolescência. É melhor prevenir do que remediar. Oriente, acompanhe, arrume tempo para o seu filho, antes que outros o façam. Uma dica: a prática de esportes está associada com um menor risco desses maus hábitos.

Exemplo dos familiares

Para uma criança, o exemplo vale mais do que mil palavras. A vocês, pais, também cabe seguir esses conselhos.

Algumas dessas doenças são graves, não é?

Os problemas que citamos são todos graves ou potencialmente graves. Alguns deles que começam na infância e “explodem” na vida adulta podem causar incapacitações e mortes precoces. As principais doenças dependem da obstrução dos vasos sanguíneos pelas placas gordurosas. É o que a medicina conhece como aterosclerose. Essas placas da aterosclerose começam como umas estrias de gordura e já podem aparecer na infância. Nas artérias do cérebro, as placas são a principal causa do derrame cerebral. Nas do coração, são a mais importante causa do infarto do miocárdio e da angina. As placas ainda podem ocasionar importantes problemas nas grandes artérias do corpo como a aorta, as carótidas, as ilíacas e as renais nas quais produzem dilatações e obstruções com gravíssimas consequências. É importante ficar claro que quando uma pessoa tem um infarto ou um AVC, aquela placa de gordura que ocasionou a obstrução na irrigação do coração ou do cérebro, não surgiu naquele momento. O infarto ou o AVC teve início na realidade, muitas décadas antes, ou seja, na infância, quiçá na vida intrauterina. O processo se assemelha a um cano que se rompe com a ferrugem, pois o processo de decomposição do ferro tem início bem antes do rompimento. Por tudo isso, a prevenção das doenças que matam mais no mundo, as afecções cardiovasculares, deve ter início na infância.

Como atuar, após o nascimento, para evitar doenças no futuro?

Hipertensão arterial, obesidade, derrame cerebral, infarto do miocárdio, aneurisma da aorta, dificuldades emocionais e outros exemplos são problemas dos adultos que começam a ser gestados na infância.

São habitualmente dependentes de uma mistura de múltiplos fatores: genéticos, alimentares, emocionais, ambientais e comportamentais. Os fatores usualmente agem em conjunto, ou seja, o problema de saúde de um adulto que começou a ser cultivado na infância pode depender da interação desses múltiplos fatores. Essa situação é comum. A prevenção de doenças desse tipo nos adultos, com a adoção de cuidados na infância, depende da atuação em vários setores. Por exemplo, orientação para uma dieta saudável e atividade física. Parece bem mais fácil e promissor, criar um hábito saudável em uma criança, do que mudar um hábito não saudável de um adulto. Todas essas doenças não têm cura, apenas podem ser controladas. A única oportunidade para preveni-las é na infância. Em conclusão, parece muito melhor, mais fácil, econômico e eficaz, começar a prevenir essas doenças na infância do que ter que tratá-las na vida adulta.

Se afere a pressão arterial das crianças?

Sim. A criança também pode ter pressão alta. Aliás, praticamente, todos os adultos com a chamada hipertensão arterial essencial, já tinham indícios de hipertensão na infância. Ou seja, a hipertensão arterial é uma doença que se apresenta na vida adulta, mas se inicia já na infância, sorrateiramente, sem demonstrar qualquer sinal. Daí a importância de que toda criança, já a partir do terceiro ano de vida, tenha, ao menos uma vez por ano, aferida a pressão arterial.

Há tratamento para a pressão alta nas crianças?

Sim. Inicialmente, o pediatra precisa afastar algumas doenças nos rins, no coração e nas glândulas endócrinas. Nesses casos, que não são a maioria, existem outras queixas como dores de cabeça, vômitos, inchação e falta de ar. O tratamento depende da causa. Afastadas essas causas, a criança passa a ser rotulada como portadora de hipertensão arterial primária ou essencial. Para crianças que não apresentam queixas, o tratamento consiste, basicamente, em:

Mudanças na dieta com redução do sal e da gordura; aumento da ingestão de alimentos ricos em fibras, potássio e cálcio, ou seja, incremento da alimentação com frutas, legumes e vegetais.

Orientações gerais como controle do peso para evitar e tratar o excesso de peso e estimulo à atividade física regular, com caminhadas diárias com duração aproximada de 60 minutos.

O exame de glicose deve ser feito em todas as crianças?

A dosagem da glicose no sangue deve ser feita nos casos de suspeita de diabetes. Essa doença, nas crianças, é diferente da que os adultos apresentam. Elas começam a urinar exageradamente, a comer e a beber excessivamente e perdem peso de forma acentuada. É importante lembrar que a pesquisa de glicose na urina também ajuda no diagnóstico do diabetes nas crianças. A dosagem de glicose também é realizada nas crianças e nos adolescentes com excesso de peso, que apresentem aumento da circunferência abdominal ou que tenham a pressão arterial elevada.

E as “taxas” de colesterol e de triglicerídeos?

Rotineiramente, em todas as crianças, não. Em alguns casos particulares, como por exemplo, quando existe familiares com história de infarto, derrame cerebral, trombose ou níveis anormais de colesterol e/ou de triglicerídeos no sangue, é importante avaliar os níveis destas substâncias desde a infância. Não existe idade ideal para fazer isso na situação antes descrita. Se existe história familiar muito evidente de anormalidade no colesterol sanguíneo, é possível que após os seis anos de idade, quando já é mais fácil coletar sangue nas crianças, o exame deva ser feito de rotina. Por outro lado, é importante examinar esses dados químicos do sangue, em todas as crianças, mesmo quando não exista doença cardíaca frequente nos familiares, quando elas forem colher sangue para fazer um outro exame, por exemplo, um hemograma para estudar doença febril.

Questões emocionais na infância repercutem no adulto?

É na área comportamental, no psiquismo, que se situa o maior contingente de ações benéficas ou maléficas que poderão resultar em boas ou más consequências no longo prazo. Infelizmente, apesar das leis que pretendem proteger as crianças e os adolescentes, o que se nota, no Brasil e pelo mundo afora, são crianças desrespeitadas, pressionadas, agredidas física e psiquicamente, abusadas sexualmente, forçadas a comer quando existe alimento em abundância ou forçadas a não comer quando falta alimento para suprir as necessidades mínimas, sem espaço para brincar, sem lazer, sem vida ao ar livre, sem colo, sem afeto, sem sorrisos, sem alegrias, sem família estruturada, sem amor, sem escolas apropriadas, sem higiene, sem assistência médica adequada e sem vacinas. É nesse amplo palco de condições desfavoráveis que é forjado o futuro de milhões de cidadãos que, infelizmente, pela vida adulta vão exteriorizar desencanto, tristeza, falta de perspectiva, apelo para as drogas lícitas ou ilícitas, carência de todos os tipos e vários problemas de saúde decorrentes desse conjunto perverso de fatores.

Habitualmente, a criança tende a dar na vida adulta, aquilo que recebeu na infância. Hoje está bem estudado a transmissão transgeracional da violência. Crianças que foram espancadas, quando adultas, com elevada frequência maltratam seus filhos. O mesmo é observado com outros tipos de agressões (psicológicas, sexuais). Por outro lado, crianças bem tratadas, tendem a ser pais cuidadosos com seus filhos.

Como evitar algumas infecções do adulto?

O capítulo Vacinas, neste livro, responde a essa questão.

O que fazer para evitar a cequeira e a surdez na vida adulta?

Os testes do olhinho e da orelhinha feitos logo após o nascimento são importantes neste sentido. O cuidar cotidiano das crianças, por familiares, outros cuidadores e profissionais da saúde são essenciais para explorar adequadamente quanto qualquer anormalidade for notada.

Podemos evitar os problemas ortopédicos na vida adulta?

Existe capítulo sobre esse tema neste livro.

É terrível ver adultos carregando um cilindro de oxigênio para ajudar na respiração. O que podemos fazer para evitar isso?

O diagnóstico e o tratamento adequados da asma nas crianças e nos adolescentes são importantíssimos na prevenção do que se chama Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), que é a principal razão de os adultos serem dependentes de um cilindro ou de um concentrador de oxigênio na vida adulta. A prevenção da coqueluche com a vacinação apropriada e o diagnóstico e o tratamento correto de enfermidades como a bronquiolite e a fibrose cística, essa última diagnosticada pelo teste do pezinho, também são importantes.

Como agir para prevenir alguns tipos de câncer do adulto?

A origem da maior parte dos cânceres é desconhecida. Abaixo as recomendações baseadas em evidências científicas para a proteção de câncer que devem ser tomadas na infância e oferecem proteção por toda a vida, segundo o CDC dos EUA:

  • Ingerir ácido fólico durante a gravidez.
  • Evitar álcool e fumo na gestação.
  • Aleitar ao peito, exclusivo, por 6 meses e mais muitos outros meses em que o leite materno faz parte da nutrição da criança.
  • Praticar atividade física.
  • Evitar que a criança seja fumante passiva.
  • Reduzir a exposição a poluentes e agentes químicos cancerígenos.
  • Verificar exposição ao dietilestilbestrol na vida intrauterina.
  • Evitar, dentro do possível, exposição a radiações em exames médicos, em especial a tomografia.

Existem evidências científicas de que vários tipos de tumores ou cânceres do ser humano têm relação com um grande conjunto de fatores que vão desde o tipo de alimentação ingerida à exposição aos agrotóxicos e vários outros fatores ambientais. É um assunto extremamente complexo e recomendamos que todos leiam o livro Anticâncer, escrito pelo Dr. David Servan-Schreiber, editado pela Fontanar.

Ir ao pediatra rotineiramene faz parte deste conjunto de medidas que ajudarão a tornar a criança um adulto saudável?

Familiares e médicos e outros profissionais da saúde atentos e que seguem um programa assistencial planejado e bem executado são importantíssimos. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado são forma de evitar dificuldades, que podem ser grandes, para a saúde do adulto.

Assim, mais uma vez, reforçamos a noção de que a assistência pediátrica qualificada, que deve ser oferecida a cada criança, é importante até nesse aspecto. O diagnóstico precoce de vários tipos de câncer, tarefa que os pediatras podem exercer, permite a cura num percentual muito elevado se o tratamento for apropriado. É notória a observação, hoje, que mais de 80% das leucemias sejam curáveis. Evidentemente, isso tem implicações para o bem-estar futuro do indivíduo que pode chegar à vida adulta com saúde.

“A criança é o pai do homem”. A frase é do poeta inglês William Wordsworth (1770-1850) exprime bem o espírito do que tentamos mostrar: a saúde e a longevidade do homem de amanhã pode depender de ações desenvolvidas junto às crianças.

Para finalizar, mais uma vez, repetimos que além da amamentação e das outras práticas alimentares ideais para cada grupo etário, da vacinação adequada, da proteção contra os acidentes, dos estímulos cognitivos, da moradia adequada, da prática esportiva, da vida ao ar livre e de uma série de outros aspectos que favorecem a saúde, as crianças, todas elas, deveriam ter assistência pediátrica adequada, o que é essencial para que se transformem em adultos hígidos.

12.1Colesterol alto em crianças: tratar? Quando e como?

Há muito se sabe que a doença arteriosclerótica se inicia na infância e que os sintomas geralmente só aparecem nos adultos. Também é de longo tempo sabido que, na maioria dos casos, a elevação do colesterol e dos triglicerídeos no sangue ocorre mais frequentemente na idade adulta.

Por não serem habitualmente muito elevados os níveis de colesterol e de triglicerídeos nas crianças, a recomendação era realizar as avaliações apenas naquelas com história familiar de enfermidade vascular precoce. Mas o grande aumento da obesidade infantil modificou esta recomendação. Segundo as novas normas da Sociedade Americana de Cardiologia, é recomendável solicitá-las não só em crianças com antecedentes familiares de arteriosclerose precoce, mas também naquelas com sobrepeso, obesidade ou hipertensão arterial.

Quando detectada alteração do colesterol e dos triglicerídeos, surge a pergunta: quando e como tratá-la? Sabemos que devemos tratar inicialmente esses tipos de problemas com mudanças dos hábitos de vida. Exercício físico e redução da ingesta de gorduras são métodos seguros por não apresentarem efeitos colaterais.

Acontece que isto é fácil de ser prescrito, mas muito difícil de ser seguido no longo prazo, até pelos adultos, e muito mais ainda por crianças ou adolescentes.

Dessa maneira, nos casos mais graves, só se obterão resultados com o uso de medicamentos. O uso dos remédios com essa finalidade foi recentemente liberado desde os 10 anos.

Que repercussões psicológicas terão o compromisso diário e eterno de tomar remédio? Quais os efeitos colaterais dessas drogas sobre a saúde das crianças? Afinal, as crianças vão usar uma quantidade total de drogas muito maior do que aqueles só iniciaram os medicamentos quando adultos. E crianças não são adultos em miniatura, de modo que, muitas vezes, os seus organismos reagem de maneira muito diferente.

Os benefícios proporcionados serão iguais aos observados nos adultos? São perguntas que ainda não podem ser respondidas.

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