36.1Genitais externos da menina
Os genitais das meninas são mais complicados?
Complicados, não. Claro é que vocês devem conhecer a genitália externa (ou vulva) das filhas para cuidar adequadamente da higiene e conseguir perceber os probleminhas. E vocês só vão aprender praticando o asseio das meninas e lendo, vendo figuras, pesquisando na internet e conversando com o pediatra. Há sites que apresentam excelente material sobre o tema: http://www.mulheres.org.br, http://www.guiadosexo.uol.com.br e http://www.adolescente.psc.br.
Mas temos medo de machucar.
Não tenham medo de fazer o asseio, portanto, de tocar na genitália das suas filhas. Os grandes lábios são cobertos de pele e vocês podem tocar e afastá-los delicadamente para ver os pequenos lábios que devem estar completamente separados. O esquerdo não pode estar preso ao direito. São separados desde o clitóris até quando a fenda vulvar termina, lá para o lado do ânus. Vocês também vão ver o hímen e podem até perceber o orifício externo da uretra, lá para o lado do clitóris, por onde o xixi é lançado no exterior. No interior da genitália, nos pequenos lábios e no resto, vocês não devem tocar com o dedo, ou com cotonete ou com qualquer outra coisa. Essa parte rósea é mucosa, estrutura delicada.
A resposta não mudou a minha competência.
É claro que não. O conhecimento é construído aos pouquinhos. E como falou uma das nossas colaboradoras “é preciso ter cuidado para não transformar a genitália da menina num ‘laboratório’”. Nem oito nem oitenta. Não explorar excessivamente, sem dúvida. Mas também não ter medo, não criar tabus que fazem pensar que os genitais são órgãos intocáveis. Os médicos são os profissionais mais indicados para mostrar como é a genitália externa das garotas e como cuidar do asseio. Eles devem examinar os genitais externos de todas as garotinhas, rotineiramente, em todas as consultas, da mesma forma que examinam nariz e garganta. Essa conduta é aconselhável para ver se está tudo bem e até para ajudar aos pais a quebrar o desconhecimento e o receio de fazer o asseio. Em cada higiene, estarão evitando doenças e aprendendo.
O que é a secreção branca na vagina da menina novinha?
O nome correto é vulva que é a parte da genitália que aparece exteriormente. Vagina é o canal, por trás do hímen, que vai até o útero. Essa secreção esbranquiçada, que pode apresentar um pouquinho de sangue, como uma pequena menstruação, e o aumento das mamas, fazem parte das reações normais da recém-nascida aos hormônios que a mãe passa para ela. Essas reações até mostram que o corpinho funciona. Não há necessidade de remover essa secreção esbranquiçada que naturalmente desaparece. Nem com o sangramento que cede espontaneamente. Basta o asseio normal. Outro aspecto que chama a atenção é que o hímen da menina novinha, também por ação hormonal, é diferente. Ele é saliente e em algumas recém-nascidas quase que se exterioriza na vulva. Com o passar dos meses e com o desaparecimento do efeito hormonal, o hímen e a secreção terão o aspecto visto em criança maior.
Algumas meninas têm os pequenos lábios bem pequeninos?
A forma dos genitais externos varia entre as meninas. Em uma garota, o clitóris é mais facilmente perceptível. Em outra, os pequenos lábios são menos evidentes. Compete ao pediatra definir sobre a normalidade ou não. Assim, falem com os médicos quando tiverem dúvidas sobre qualquer aspecto da genitália.
E como é a abertura da uretra na menina?
A abertura uretral não é facilmente perceptível pelos familiares e está entre o hímen e o clitóris. Quando muito ampla, facilmente perceptível, pode ser doença.
Há necessidade de monitorarmos o jato urinário?
É importante avaliar o jato urinário que deve ser contínuo, sem interrupção, e “forte”. As crianças dos dois sexos, mesmo novinhos, devem ser capazes de lançar a urina longe do corpo. O jato não deve ser interrompido, em gotinhas, muito fino. Se isso ocorre repetidamente, sobretudo se existem dor, febre e outros sinais de doença nas vias urinárias, é importante avisar ao médico.
Como deve ser o asseio genital da menina novinha?
O primeiro conselho é que as mães devem cuidar da higiene nos primeiros tempos da vida da criança. Depois a vovó e uma babá confiável podem participar desde que os mesmos princípios sejam seguidos. O asseio é, sobretudo, importante após a evacuação. As fezes, em contato com a genitália externa, podem produzir doença. Vejam uma rotina para o asseio da garota:
- Coloque a garotinha de barriguinha para cima; afastem delicadamente os grandes lábios com seus dedos.
- Use água fervida e amornada nos primeiros meses de vida. Façam com que uma boa quantidade de água escorra pela vulva, um chumaço grande de algodão embebido em água é o melhor mecanismo de você deixar o líquido escorrer na genitália. Pode ser usado um copinho com água.
- Percebam que, nessa posição, a água escorre no sentido vulva-ânus. É fácil verificar que essa higiene retira até as fezes acumuladas na vulva.
- Use, após essa primeira fase, ainda com os grandes lábios afastados, um chumaço de algodão bem umedecido para o asseio dos pequenos lábios. Passar o algodão no sentido vulva-ânus, nunca fazer a higiene no sentido oposto.
- Faça o asseio da pele ao redor do ânus e dos genitais, com água e sabonete.
- Retire o excesso de água encostando uma toalha na pele que cerca a região, não enxugar no interior da genitália.
Quantas vezes ao dia devemos fazer esse asseio?
Na criança novinha, há necessidade de mais asseio em função do maior número de evacuações. Mas é sempre valioso fazer o asseio também na hora do banho. Quando há diarreia, o asseio deve ser mais frequente.
Devemos empregar o sabonete?
Na pele, por fora, sim. No interior da vulva não. Você deve usar um sabonete neutro para o asseio. Uma vez ao dia, no banho, e após as evacuações. No interior da vulva, na região dos pequenos lábios, use apenas água. Um pouquinho, sem excesso, do mesmo sabonete usado na pele pode ser empregado para o asseio da região dos pequenos lábios.
E o lenço umedecido ou o papel higiênico umedecido?
São úteis quando você está fora de casa. Na rotina, não devem ser usados. Como foi informado, nada mais delicado que a água que escorre de um chumaço de algodão ou que é despejada por um copinho para o asseio.
E as pomadas ou de cremes?
Usar pomadas e cremes na pele da região que cerca o ânus e a vulva é um hábito da nossa população. Dizem que é para evitar “assaduras”. É discutível. Na região de clima quente e úmido, é bom manter a pele asseada e bem hidratada, mas sem excesso de cremes, pomadas e óleos. Ou até sem esses produtos. Vejam que a Índia não usa nada disso.
Nadinha mesmo?
A boa hidratação da pele da região ao redor do ânus e da genitália externa, que é submetida ao calor de fraldas, sobretudo das descartáveis, é fator de boa saúde. Nesse sentido, é válido não esfregar algodão ou toalha quando efetuar a limpeza para não retirar as células que servem de proteção. A pele deve ser enxuta discretamente após o asseio. Então pode ser utilizada uma fina camada de creme hidratante ou óleo de amêndoas.
E o talco?
É usado com frequência. O mais fino talco, o mais delicado talco, é lixa para o interior da vulva. Como é impossível colocar talco só na pele ao redor do ânus e da vulva, sem que penetre na parte interna da vulva, deve ser evitado. É uma das causas de vulvite, de inflamação no interior da vulva, de secreção da genitália externa. Portanto, não é recomendável.
E se ela ficar “assadinha”?
Quando houver “assadura”, “irritação”, “dermatite das fraldas” ou outros problemas na região do períneo é que devem ser usados cremes, pomadas ou remédios na forma líquida. O médico é quem indica, pois há muitas diferentes doenças que exigem tratamentos diferenciados. Algumas doenças são simples, mas existem outras que, embora também sem gravidade, precisam tratamento especial, como a dermatite por fungos.
Como deve ser o asseio da menina mais velha?
A mãe deve, desde muito cedo, na hora da higiene genital da garotinha, dizer o que está fazendo e quais as razões. O educar é um ato contínuo, repetitivo, em que pai, mãe e babá devem colaborar. A partir dos 5 ou 6 anos de idade, quando a criança começa a tomar o banho sem auxílio do adulto, ela deve ser instruída para lavar a genitália. Mas a mãe sempre deve supervisionar e sempre dar uma olhadinha para continuar a se lembrar da anatomia e para fiscalizar o asseio. Após a defecação, ela deve ser ensinada a usar o papel higiênico, sempre no sentido do genital para o ânus, de “frente para trás”. E deve ser dito a ela que é para não trazer cocô para a “florzinha”, para a genitália externa, que isso pode causar problemas. Explicar também que se ela for usar a duchinha, deve direcionar um jato suave de água (nada de violência), tangenciando a vulva, em direção ao ânus. Nunca apontando diretamente para a vulva, em ângulo reto, pois podem jogar material com bactérias para o interior da bexiga.
A calcinha tem sempre um pouco de secreção, é normal?
A mucosa vaginal da menina e a parte mais interna da vulva, onde estão o hímen e a uretra, são regiões que apresentam secreções normais. Essas regiões estão sempre com certa umidade. Isso é normal. E isso pode junto com um pinguinho de “xixi” manter a calcinha úmida. Mas não deve haver secreção abundante, fétida, sanguinolenta. Isso é motivo para consulta médica. Na pré e na adolescência, quando o corpo feminino começar a se preparar para os seus famosos ciclos, a mucosa genital secreta mais abundantemente e a calcinha pode ficar mais úmida. Mas nada de secreção abundante, fétida, sanguinolenta. Em caso de dúvida, é importante consultar o médico.
Quais são as principais doenças dos genitais externos das meninas?
Existem má formações congênitas (hímen imperfurado, defeitos da diferenciação sexual e fístulas do intestino na vagina), corpo estranho (sementes e outros objetos), infecções e reações alérgicas ou irritações locais (dermatite das fraldas, vulvites e vulvovaginites por produtos de higiene, asseio incorreto, vírus do herpes, bactérias e parasitos — oxiúros), aderência dos pequenos lábios e até agressões sexuais e doenças sexualmente transmissíveis.
O que fazemos nessas enfermidades?
É recomendável que qualquer alteração na genitália ou na pele da região do períneo, chamada região das fraldas da criança novinha, ou mesmo qualquer dúvida surgida, seja informada ao médico para que a orientação específica seja adotada. Há situações como as dermatites de contato que são diagnosticadas e resolvidas de forma muito simples (uso de outro tipo de fraldas ou com mudança no asseio) e as mais complexas que exigem exames e até consulta com o ginecologista (diagnosticar e tratar um corpo estranho). E ainda as que envolvem aspectos médico-jurídicos como as agressões sexuais.
As doenças venéreas podem acometer as crianças?
Ocorrem mais frequentemente nas adolescentes que têm vida sexual ativa e não usam preservativos, principalmente nas que têm vários parceiros. Pode ocorrer, menos frequentemente, em criança menor, submetida a abuso sexual.
Devemos estar alertas para o abuso sexual! Correto?
É terrível, mas os abusos sexuais ocorrem. Toda menina com irritação genital e com qualquer tipo de secreção vulvar que muda subitamente as atitudes em relação ao asseio sexual ou que apresente qualquer outro dado que estranhamente chama a atenção para a área genital pode ter sido abusada sexualmente.
Existe até doença no hímen?
A imperfuração himenal impede a saída das secreções normais produzidas na vagina da menina novinha, mas impede principalmente a saída do sangue menstrual. O pediatra no primeiro exame que faz em todas as meninas fiscaliza a existência de orifício ou orifícios himenais no exame rotineiro que faz em toda menina após o nascimento. O diagnóstico do hímen fechado é habitualmente feito na adolescência durante os primeiros ciclos menstruais. A não eliminação do sangue menstrual, a presença de tumor no baixo ventre, manifestações de desconforto abdominal e a evidência de um hímen abaulado definem o problema. O tratamento é simples.
Meninas têm hérnias?
As meninas têm hérnias que podem se exteriorizar no púbis ou ao lado dos grandes lábios. Aumento de volume nessas regiões deve ser avisado ao médico.
E a tal de aderência dos pequenos lábios?
Vocês se lembram que os pequenos lábios devem estar bem separados. Separados do clitóris até o limite posterior da vulva, lá perto do ânus. Por ter taxas hormonais reduzidas e/ou por irritação da vulva (vulvite por uso de talco ou asseio inapropriado ou outra causa) é comum que os pequenos lábios se unam. É o que se chama aderência ou sinéquia dos pequenos lábios vulvares. A aderência pode ser parcial, em um pequeno trecho dos pequenos lábios ou pode ser total.
Essa aderência faz mal?
A aderência pode dificultar a saída livre da urina e provocar infecção urinária ou infecção da vulva e da vagina (vulvovaginite). Então pode fazer mal.
Como se evitá-la?
O asseio adequado como antes sugerimos evita a maior parte das aderências dos pequenos lábios.
Como a aderência é resolvida?
O tratamento é feito com cremes que o médico pode indicar.
O que fazer após o tratamento?
O médico indica, quando os pequenos lábios se separam, o que a mãe deve fazer para evitar a repetição. Se não houver alguns cuidados, como o asseio para limpar e para afastar os pequenos lábios e o uso de um pouco de vaselina na face interna dos pequenos lábios, o quadro se repetirá.
E se a menina apresenta muita secreção vaginal?
Se a mãe julga que a secreção é muito abundante, sobretudo se apresenta outros dados como mau cheiro e sangue, o médico deve ser procurado. Existem várias causas que justificam essa ocorrência: asseio incorreto e o uso de produtos que causam reação alérgica ou de outra natureza (cremes, fraldas, calcinha e sabonetes); oxiurose que é uma parasitose intestinal; brincadeiras em caixa de areia; corpo estranho introduzido na vagina (neste caso, a secreção é usualmente abundante e sanguinolenta); algumas infecções.
O que fazermos nesse caso?
O médico deve ser consultado. E, com frequência, algumas medidas simples de natureza higiênica e troca de vestuário podem resolver o problema. Algumas vezes, o profissional recomenda higiene com certas soluções (aplicadas em banhos de assento ou de outra forma) associadas a medicamentos.
Quando começar a educação sexual?
Os genitais devem ser tratados como órgãos normais, iguais ao nariz, aos olhos e a todos os outros, e vistos sem mistérios, conotação de coisa suja ou noção de coisa proibida. Os pais devem permitir que os filhos e filhas participem dos seus e dos banhos dos coleguinhas da mesma faixa etária. Isso pode motivar uma série enorme de questões e uma excelente oportunidade para iniciar a educação sexual. As respostas devem ser simples e entrar em assuntos ligados à concepção, à gestação e o parto.
Existem livros para a criança consultar?
Há livrinhos, inclusive alguns ilustrados, para a turminha mais jovem como De onde eu vim. Aprendendo sobre sexualidade, Coleção Meu corpo, de Gordon, Mike e Llewellyn, Claire. E há enciclopédias como a Enciclopédia sexual infantil, O abc sexual infantil. Existem também muitos livros e enciclopédias para os adolescentes. Esse material impresso deve ficar disponível para livre manuseio.
E sobre os jogos sexuais na infância?
Vejam o texto da internet no site www.montardo-ap.blogspot.com.
36.2Genitais externos dos meninos
De início, noção rápida sobre o prepúcio, a pele que recobre e protege a glande. Prestem bem atenção ao protege a glande. Certos pediatras dizem que o prepúcio está para a glande como a pálpebra está para o olho. O prepúcio evita que a glande de criança novinha sofra agressões e exposição as fezes. Esta exposição excessiva pode permitir o surgimento de lesões na glande. É importante dar uma boa revisada na anatomia dos genitais externos do menino. A internet oferece bons textos e boas imagens.
E é importantíssimo saber que a glande do pênis do bebê é recoberta pelo prepúcio. E o prepúcio não permite a exposição da glande. É normal. Anos após o nascimento, de forma natural, o prepúcio passa a correr livremente sobre a glande.
Como é o asseio do pênis no neném?
O cuidado mais importante é não forçar para expor a glande. Isso não é ´possível pois a pele, o prepúcio, é “colado” à glande. Tentativas forçadas para a exposição da glande podem “rasgar” o prepúcio e causar, no futuro, um tipo importante de fimose, a cicatricial. Na rotina, basta lavar, nos banhos, o pênis e sobretudo o prepúcio com água e sabonete. O excesso de sabonete deve ser retirado. Não fazer esforço para expor a glande. É importante higienizar a parte da glande que a fenda prepucial permite ver. Se não for possível expor mesmo uma pequena parte da glande, basta lavar o prepúcio. A higiene nunca deve causar dor, sofrimento ou sangramento. Toda higiene que causa isso significa trauma que pode induzir a fimose cicatricial.
E o asseio na criança maior?
Até os 5 ou 6 anos de idade, o asseio deve ser feito pelo adulto. Nessa idade, os adultos devem ensinar aos meninos a assumirem o seu asseio peniano. O pai, evidentemente, deve dar o exemplo, mostrando ao filho como fazer a higiene. Ele deve ser ensinado a expor a glande ou parte dela para o asseio.
É preciso usar alguma pomada?
Rotineiramente, não se deve usar. Se ocorrer inflamação ou “irritação” local, o médico pode indicar alguma pomada ou creme.
E que é esmegma?
É a secreção normal produzida, desde o nascimento, por glândulas do revestimento interno do prepúcio. Em alguns meninos, surgem bolsas de esmegma, peroladas, abaixo do prepúcio. Não é problema. Aos poucos, surgem comunicações que permitem a eliminação desse material, de odor desagradável. O esmegma é um dos fatores responsáveis pelo descolamento do prepúcio. Logo que o prepúcio possa ser retraído, mesmo parcialmente, em qualquer idade, é importante que seja feito o asseio da glande para a remoção do excesso da secreção. Isso deve ser colocado para o menino como tão importante quanto escovar os dentes. Não é demais enfatizar que o asseio deve ser feito pela mãe ou pelo pai. E lembrem-se que a libido não deve ser estimulada. A produção do esmegma aumenta na puberdade e no adulto.
O que é fimose?
Fimose é o estreitamento da fenda do prepúcio. Todos devem estar lembrados que na pontinha da glande existe o orifício da uretra que permite a saída da urina e do esperma. O estreitamento do prepúcio impede a visualização ou a exteriorização da glande e pode inclusive, nos casos intensos, impedir a saída da urina e causar infecção urinária e outros distúrbios. Há dois tipos:
- Fimose fisiológica — Não causa doenças como infecção urinária, não apresenta postite e não precisa tratamento.
- Fimose patológica — Pode causar infecção urinária, ser sede frequente de postite e necessita tratamento.
Ouvi dizer que quase todo menino nasce com fimose.
Mais de 90% dos meninos nascem com a glande coberta pelo prepúcio. É o que caracteriza a fimose fisiológica. O prepúcio é aderido à glande o que impede o deslizamento da primeira estrutura sobre a segunda. Isso é diferente do que ocorre com o adolescente e o adulto onde o prepúcio desliza livremente sobre a glande. Há razões para que isso seja assim. Médicos competentes questionam a prática da operação de retirada de parte do prepúcio, na criança novinha, pois acreditam que a cirurgia retira essa essencial proteção da glande e pode gerar doenças. Com o passar dos anos, a aderência entre o prepúcio e a glande vai sendo desfeita até que seja possível a completa exposição da glande. Isso é o que se espera nos adolescentes. Vejam bem, como tudo está bem-feito. A glande deve estar coberta para evitar doença, nos primeiros tempos da vida. E mais tarde quando há necessidade de que ela fique exposta, para atividade sexual e asseio, o prepúcio poderá ser retraído. Essa é a explicação para essa fimose normal, dita fisiológica, que não causa problema, que não causa infecção urinária. É diferente da fimose patológica.
Há necessidade dos “exercícios” no pênis?
Alguém inventou que forçando a retração do prepúcio sobre a glande — o famoso “exercício” —, desde os primeiros tempos de vida, seria possível apressar o processo natural. Esta manobra só causou problemas: dor, rachaduras (fissuras), no prepúcio, inflamação (postite) e muitas fimoses patológicas. A cura das fissuras e da postite é com cicatrização e formação de tecido inelástico, rígido, que impedirá que a natureza siga seu curso esperado. É a causa da fimose cicatricial. Portanto, esse manuseio, o “exercício” é proibido.
Fimose pode causar infecção dos rins ou cancer no pênis?
A relação da fimose com infecção urinária é importante. Toda mãe deve observar a micção do filho. O jato miccional deve ser único e forte. Micção partida, interrompida, jato urinário fraco, dilatação do prepúcio na micção, febre e outros sinais de infecção, no menino, podem indicar infecção urinária. Existem várias causas dessa doença e uma delas é a fimose. A fimose que causa infecção urinária é denominada patológica, e, portanto, necessita tratamento. O câncer do pênis tem relação com o asseio. Adultos que não expõem a glande para a higiene rotineira têm mais probabilidade de ter câncer peniano.
Os judeus ainda hoje fazem a postectomia nos seus bebês!
É uma tradição milenar e que não pode ser avaliada pela ótica científica. Não é uma postura refutável e assim não pode ser questionada pela ciência.
O que é a postite?
É inflamação do prepúcio. Ocorre, sobretudo, por falta de asseio e/ou por manuseio traumático como o do maldito “exercício”. É valioso higienizar bem o pênis naquela fase em que a criança faz muito xixi e muito cocô e cuidar bem da região coberta pelas fraldas. Não deixar a pele em contato com fezes e urina por muito tempo, trocar fraldas, fazer asseio adequado da pele da região do períneo, usar produtos adequados para o asseio e vestuário apropriado. A postite causa fimose cicatricial, sobretudo, se de longo prazo ou repetida. E é possível prevenir a ocorrência. Algumas vezes, quando a reação inflamatória é intensa e há a possibilidade de infecção por bactérias e/ou por fungos, é necessário tratamento médico.
Como é o tratamento da fimose verdadeira, patológica?
O tratamento médico está indicado quando ficar definido que a fimose é patológica, do tipo cicatricial ou de outro tipo, e/ou que está causando problemas para o garoto. Dificuldade à micção, infecção urinária e impossibilidade da exposição da glande para asseio ou para início da vida sexual (masturbação). São os principais problemas. Hoje, antes da cirurgia, é possível o tratamento com cortisona que é eficaz em grande número de pacientes. Mas quando falha, ou por outra razão, a cirurgia resolve.
A cortisona pode ser usada em todo menino?
A indicação da cortisona é para a fimose patológica. Há pediatras que indicam a aplicação da cortisona, já no primeiro ano de vida quando o prepúcio continuar com o orifício muito estreito. Até mesmo quando ainda não se pode falar em patologia. Também indicam medicamentos com cortisona quando existem indícios de postite. O resultado com o tratamento é, usualmente, excelente e isso é medido pelo significativo aumento do orifício prepucial.
O que fazer após o tratamento com a cortisona?
A melhoria com o tratamento pode ser rapidamente perdida, ou seja, o orifício pode se estreitar novamente, se o pediatra não orientar os familiares sobre o manuseio, o asseio, após o tratamento. A orientação consta do asseio, uma ou duas vezes ao dia, para manter a abertura da fenda prepucial do mesmo tamanho observado ao fim do tratamento. Isso é conseguido pela mãe ou por outra pessoa corretamente instruída e consta da retração não traumática do prepúcio e asseio para manter a fenda como estava ao fim do tratamento.
E se a fimose voltar, a cortisona pode ser usada novamente?
Os pediatras e cirurgiões de crianças, que são os principais profissionais que cuidam desse assunto, indicam a repetição do tratamento com a cortisona naqueles casos que apresentaram bons ou excelentes resultados com o uso desta medicação. Mas eles também vão procurar definir as causas da recidiva da fimose o que pode ser explicado pelo asseio inapropriado ou pela ocorrência da postite. Assim, além de mandar repetir o tratamento com a cortisona, eles vão indicar medidas para evitar a causa da recidiva.
Ouvi falar em parafimose. O que é?
A parafimose ocorre quando o prepúcio não pode ser levado à sua posição normal, cobrindo totalmente a glande, após totalmente retraído. Com o pênis ereto, essa dificuldade é maior. Ocorre devido à inelasticidade do prepúcio que foi perdida por postite e a formação de tecido cicatricial da fenda prepucial. Em alguns garotos ou homens, há necessidade de cirurgia.
E o freio?
Este freio ou dobra de pele que vai da glande até o prepúcio, na parte de baixo do pênis, habitualmente não causa transtornos. Mas pode causar dificuldade sexual e até se romper. A cirurgia corrige com facilidade.
Quais as outras doenças dos genitais dos meninos?
Além do que foi referido há más formações (exemplo: hipospádias e epispádias em que o canal uretral se abre em local diferente do normal, defeitos da diferenciação sexual, hérnias e hidroceles), infecções, reações alérgicas e irritações locais (por fraldas, produtos de asseio, por bactérias como o impetigo), e lesões produzidas por abuso sexual.
E as doenças venéreas?
A resposta que demos sobre a mesma pergunta, quando discutimos a problemática da genitália feminina, se aplica também aos meninos.
O tamanho do pênis varia de criança a criança?
O tamanho do pênis varia. Na adolescência é que o assunto passa a chamar a atenção dos pais e do próprio garoto. Existem gráficos que servem para acompanhar o crescimento do órgão e valorar a queixa. Quando os pais chamam a atenção para um pênis que aparentemente é pequeno, os pediatras estudam todos os dados de crescimento, pesquisam a existência ou não de certas anormalidades e realizam alguns testes laboratoriais. Em algumas situações, há indicação de tratamento.
Falem sobre a ausência dos testículos!
Em um pequeno percentual de meninos, sobretudo se prematuros, um ou os dois testículos podem não estar nas bolsas escrotais ao nascimento. Isso ocorre em crianças absolutamente normais. Nos primeiros meses de vida, naturalmente, um ou os dois testículos migram para as bolsas. Mas os pediatras sempre devem acompanhar essas crianças, pois quando o(s) testículo(s) não migram para a sua posição normal, nos primeiros dois ou três anos de vida, pode ser necessária a adoção de alguma medida terapêutica.
E hidrocele e hérnia?
São problemas que alguns meninos apresentam. A hidrocele é líquido ao redor dos testículos, comum ao nascimento e tende a desaparecer naturalmente, sem tratamento, nos primeiros meses de vida. Se a hidrocele não desaparece até os 6 meses de idade, a possibilidade de hérnia deve ser levantada e o cirurgião de crianças deve ser consultado. A hérnia é habitualmente percebida como um aumento de volume na região inguinal ou como um aumento de volume do saco escrotal. Esse aumento de volume é causado pela presença de um órgão abdominal que aí chega devido a um defeito no fechamento da parede abdominal. É diagnosticada ao nascimento ou pode surgir mais tarde quando o garoto começa a pular, correr, praticar esporte, fazer esforços. O pediatra facilmente diagnostica e orienta.
Pode haver doença da abertura uretral?
A abertura da uretra deve ocorrer bem na extremidade da glande. Quando ocorre em outro local do pênis, representa problemas (hipospádia ou epispádia) que podem necessitar correção cirúrgica.
É terrível o abuso sexual numa criança, não é?
É terrível e infelizmente ocorre. Todo menino com irritação genital, com qualquer tipo de secreção nessa região ou que muda subitamente o comportamento em relação ao asseio sexual ou qualquer outro dado que estranhamente chama a atenção para a área genital, pode ter sido abusado sexualmente.
36.3Depoimentos
I. Depoimento de uma senhora
“Minha mãe não era bem informada nesses aspectos. Cresci com ela olhando para minha genitália como se ali tivesse um ‘monstrengo’. Nunca esqueço a primeira vez em que fui a um ginecologista. Foi muito sofrimento desde a hora em que ela marcou até o dia de chegar lá. Eu ficava imaginando as reações dele ao deparar com tamanha ‘deformidade’. Tortura total. Até perceber que não houve nenhum olhar estranho e que outros médicos também não acharam diferente. Isso é muito sério. Foi um grilo que carreguei anos e anos, e capaz de acontecer também com as pessoas que tenham os pequenos lábios bem pequenos ou bem maiores. As pessoas que se relacionam com a criança que tenha algo diferente têm que ser educadas para não provocar esse tipo de sofrimento. Pior é que eu percebia que minha mãe achava que era deformada e me olhava com uma expressão de ‘repulsa’. Diferente não é sinônimo de anormalidade, é apenas diferente.”
II. Texto retirado da internet
A maioria das crianças apresenta comportamentos sexuais que preocupam os pais, mas que geralmente são normais, saudáveis e fazem parte do processo normal do desenvolvimento. A curiosidade sobre as partes do corpo, principalmente aquelas que geralmente estão “escondidas”, bem como sobre as diferenças entre os sexos, é algo esperado e natural. As atitudes mais comuns são tocar ou manipular os próprios genitais, mostrar os genitais para outras pessoas, masturbar-se e tentar ver pessoas nuas. Jogos sexuais entre crianças da mesma idade, como brincar de médico, são geralmente desvinculados de malícia e se constituem em brincadeiras alegres e espontâneas. A masturbação é uma das preocupações mais frequentes dos pais e pode incluir uma variedade de comportamentos, como assumir determinadas posturas, comprimir as coxas, excitação sexual e manipular os genitais.
Esses comportamentos têm como principais características o fato de serem transitórios, frequentes entre meninos e meninas, e diminuírem após os 5 anos de idade. Em geral, a criança cessa a atividade quando os pais tomam alguma atitude (como chamar a atenção sobre o comportamento ou distrair, redirecionando-a para outra atividade ou brinquedo). Mesmo quando os pais chamam a atenção, a criança não fica envergonhada, ansiosa ou com sentimento de culpa, pois ela ainda não percebe o comportamento como algo errado ou sua vinculação com questões sexuais. As atitudes dos pais devem ser moldadas na observação de que, em geral, as crianças não têm dificuldades em aceitar os costumes e as normas sociais que os pais e demais adultos vivenciam e ensinam. Portanto, não é difícil conversar com os filhos e explicar que certos comportamentos não são adequados na frente de outras pessoas. Há muitos outros comportamentos, além dos associados às questões sexuais, que também não devem ocorrer em público.
Elas aceitarão as explicações com naturalidade, desde que o seu comportamento não seja associado como algo errado, feio ou sujo e não sejam reprimidos com ênfase exagerada ou violência. Com tranquilidade e reforços positivos, as crianças aprendem a se controlar na presença de outras pessoas e diminuem a frequência e intensidade dos impulsos sexuais. Algumas diferenças entre os comportamentos sexuais normais e aqueles que eventualmente possam estar associados a situações problemáticas podem necessitar de intervenção profissional.
III. Relato de uma cuidadora sobre o que ouviu de um pediatra
“O que acho grave é que ainda existem pediatras que recomendam esses famosos “exercícios”. Acho que a melhor colocação que vocês pediatras devem ter é deixar claro que conhecem o procedimento, sendo absolutamente contrários à sua adoção. Lembro-me de que um pediatra experiente me disse que esse tipo de “exercício” era para o menino ou a namorada dele fazer no futuro. Achei ótimo e preguei essa postura muito tempo. Algumas pessoas achavam que eu era louca. Esse “babado” de “exercício” é um troço cultural mesmo.”
IV. Outra opinião
“Não seria interessante falar algo que alerte os pais sobre a necessidade de conversar abertamente com os filhos, até mesmo para que a criança ou adolescente saiba identificar uma possível anormalidade genital. Não sei hoje em dia, mas acredito que ainda existem pessoas que ‘frustrem’ as tentativas iniciais de masturbação em ambos os sexos e isso, creio eu, traz consequências psicológicas significativas.”
O educar os filhos é sempre extremamente importante. Saber a idade em que os filhos podem ser educados e saber como fazer são os segredos para a solução. O tema é tão importante que é abordado em vários outros locais do livro e há um tema específico sobre Masturbação na criança.
V. Mais um depoimento
“Quando meu filho fez a cirurgia de fimose, uma amiga estava para marcar a cirurgia do filho que estava com uma ‘pelanca’ imensa. No dia em que meu garoto se operou, houve um óbito de um bebê que teve choque anafilático e ela cancelou a cirurgia e nunca mais falou nisso. Contou-me tempos depois. Fora esses acidentes, que são riscos inerentes a qualquer tipo de cirurgia, existem medos enraizados na maioria dos homens e na maioria das mães em tocar o precioso troféu denominado pênis! Tem mais um detalhe: o excesso de ‘pelanca’ dá uma aparência de maior volume e diâmetro, muitos têm medo de perder está aparente ‘superdotação’, alimentando uma postura inadequada em relação ao tamanho e contribuindo para uma futura patologia.”
VI. Outro depoimento
“Tenho dois filhos e os dois foram operados de postectomia, por razões diferentes. Meu primeiro filho, Rodrigo, aos 2 anos de idade, apresentou a primeira infecção urinária. O tratamento conduzido pela sua então pediatra foi apenas de ministrar o antibiótico, não houve investigação. Um ano depois, Rodrigo teve a sua segunda crise de infecção urinária, tinha febre altíssima e muito incômodo, além da urina turva. Novamente a pediatra indicou o uso do antibiótico, o que foi realizado. Ocorre que pouco depois de cessada a medicação, por volta de um mês, ele voltou a ter infecção urinária, cada vez pior. Nesta terceira vez, a então pediatra resolveu finalmente investigar, prescrevendo apenas um exame de ultrassom, que foi realizado, porém nada foi detectado. Após exaurido o tempo do antibiótico — que, diga-se de passagem — era cada vez mais forte, Rodrigo voltou a ter infecção com febre altíssima, no dia seguinte após terminar o tratamento. Já nessa quarta infecção urinária, meu coração me dizia que algo estava errado e fomos procurar ajuda com o melhor e mais experiente pediatra do estado para entender o que estava acontecendo.
Após analisar o caso, o médico pediatra ficou incrédulo com o fato de Rodrigo estar tendo infecção urinária pela quarta vez e fez duras críticas à forma como o caso foi conduzido desde a primeira infecção. Nos encaminhou, então, a um urologista pediátrico, também o melhor da região, momento em que passaram a acompanhar juntos o caso de Rodrigo.
O especialista, então, prescreveu os exames necessários ao deslinde do diagnóstico, incluindo uma cintilografia com contraste. Após os exames, Rodrigo foi diagnosticado com refluxo vesicoureteral bilateral. Nesse momento já estava fazendo uso de amicacina (antibiótico bastante forte) e precisou ser operado com certa urgência. Além da cirurgia de correção do refluxo, a postectomia foi realizada porque Rodrigo já tinha bastante esmegma acumulado sob a pele, o que também contribuía para as infecções.
Após a cirurgia, ele se recuperou muito bem e não voltou a ter infecções. Meu segundo filho, Romero, também foi operado, porém — agora mais experientes — não precisamos passar pelo transtorno que passamos com o primeiro filho. Romero apenas tinha a pele do pênis muito fechada, que dificultava a higiene, pois ao puxar a pele para limpar, ela não abria praticamente nada. Romero fez uso da pomada postec por diversas vezes e durante o uso o tratamento tinha o efeito desejado, porém pouco tempo depois a pele voltava a se fechar. Também passou a ter esmegma sob a pele, por causa da dificuldade de higienização, então o pediatra, em conjunto com o urologista, após reiteradas tentativas de tratamento convencional sem sucesso, decidiu indicar a cirurgia de postectomia, que foi realizada. Vale salientar que o pai de Rodrigo e Romero também sofria de fimose e precisou ser operado na adolescência. A cirurgia de Romero foi bem-sucedida e ele não teve mais intercorrências.”
As orientações contidas neste livro visam a educar os familiares, mas não objetivam substituir a consulta com o profissional habilitado. A avaliação médica é o aspecto mais importante para o diagnóstico que é a base essencial para o tratamento adequado de cada problema de saúde. Leia este e outros textos sobre o tema mas consulte o médico.
