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Conversando com o Pediatra

Parte II — Principais problemasCapítulo 35 de 46

Dor

Do recém-nascido ao adolescente: como reconhecer, medir e aliviar a dor da criança sem perder de vista a sua causa.

  • AutoriaAna Maria van der Linden, João Guilherme Bezerra Alves e Otelo Schwambach Ferreira
  • Leitura19 min · 4,025 palavras
  • No livropáginas 911–923
  • Conversa43 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

Partindo da lição de Galeno — aliviar a dor é missão divina —, o capítulo insiste num princípio: a dor é um sinal de alerta, e o mais importante é descobrir e tratar sua causa, não repetir analgésicos às cegas. Os pediatras distinguem os quadros agudos e isolados dos crônicos e repetitivos, explicam que os recém-nascidos sentem dor e mostram como avaliá-la em cada idade, do choro do bebê à escala de faces de Wong-Baker para crianças maiores.

Em formato de perguntas e respostas, o texto percorre cólicas, dor menstrual, o peso do psiquismo, as crianças que escondem ou simulam a dor e, com destaque, a dor de cabeça: quando procurar o médico, alimentos que podem desencadeá-la, cefaleia tensional e enxaqueca, com seus sintomas, tipos e tratamento. Fecha com orientações sobre a farmacinha de casa, o que não usar, o gelo nos traumas e o papel de terapias complementares.

Para quem: Para pais e cuidadores que lidam com dores frequentes dos filhos, sobretudo dor de cabeça e cólicas, e querem saber quando procurar o médico.

dorcefaleiaenxaquecaanalgésicosescala de dorcólicas

35.1Guia prático

  1. Sedare dolorem opus divinun est (Aliviar a dor é missão divina) ensinou Galeno (129 DC), um dos médicos mais antigos que a história registra. A lição cruza os séculos e, no tempo de Galeno e no atual, diminuir ou abolir a dor é nobre missão dos cuidadores e da equipe de saúde.
  2. Reduzir ou abolir a dor implica em conhecer e remover a causa, se possível. E essa última tarefa é a mais importante missão dos cuidadores e do pessoal da saúde. Conhecida e removida a causa, o efeito, a dor, cessa.
  3. O time da saúde emprega medidas farmacológicas (analgésicos, anestésicos e, às vezes, antibióticos e outros produtos) e não farmacológicas (imobilização de osso fraturado, drenagem de abscesso dental ou do ouvido médio, remoção de cálculo renal, apendicectomia, resolução de obstrução intestinal e outras medidas) no alívio da dor e no tratamento dos quadros dolorosos na criança e no adolescente.

35.2Conversando...

Dor é um sintoma, não é?

Sim. E sintoma extremamente comum. Talvez mais comum e mais importante que febre, tosse, vômitos e diarreia e todos os outros alertas que o corpo usa para avisar sobre a existência de anormalidade. O único órgão do corpo que não possui sensores de dor é o cérebro. Todos os outros possuem estruturas do sistema nervoso, os nociceptores, sensores de dor, que têm a nobre missão de disparar sinais de alerta quando há qualquer tipo de injúria a um tecido corporal. Os sinais chegam ao cérebro e a desagradável sensação de dor é registrada, junto com um conjunto de outros dados referentes à sensação dolorosa: localização, intensidade, sensação contínua ou intermitente, aumento ou redução da intensidade, resposta ao tratamento instituído, etc.

E quais as causas da dor?

Repetidamente, falamos e falaremos, que o importante é o diagnóstico da causa. Tomar ou dar analgésico e esperar que a dor passe, tomar ou dar analgésico de novo e de novo não é recomendável. A dor no abdome que vai e volta, vai e volta, novamente vai e volta, pode significar grave defeito renal, cálculo biliar, dentre outras condições. A dor no osso, que não cede, pode significar um tumor. A dor de cabeça que sempre chateia pode implicar na existência de um defeito arterial grave. Então, quem tem quadro doloroso repetitivo, constante, deve ir, sem demora, ao médico.

A dor é um sintoma que ocorre em grande variedade de doenças clínicas ou cirúrgicas, em vários problemas agudos ou crônicos, em enfermidades de diferentes gravidades e em quadros de diagnóstico simples ou complexos em praticamente todos as estruturas corporais. Dor é um fenômeno que pode ter diferentes explicações. Mas é sempre um sinal de alerta que deve ser devidamente valorizado. E há dois grandes grupos de quadros dolorosos:

Agudos, isolados, não repetitivos — Traumas, doenças dentais, afecções do ouvido, abscessos e outras doenças da pele e dos tecidos anexos, infecção intestinal, indisposição alimentar, infecções da garganta e muitas outras enfermidades agudas, que não têm a característica da repetitividade, apresentam dor como um dos sinais de alerta de que o corpo está doente. Genericamente, a conduta para eles é:

  1. Dar um dos remédios (nas mesmas dosagens) indicados para a febre.
  2. Conversar com o médico para que o tratamento da doença que causa o sintoma seja providenciado.

Crônicos, contínuos e/ou repetitivos — Enxaqueca, cefaleia tensional, algumas doenças gastrointestinais e urinárias, certas dores dos membros (de crescimento e outras), certas doenças do sangue (anemia falciforme e outras, neuralgias e muitas outras enfermidades têm a característica de apresentar dor crônica, que persiste por meses ou anos, ou por ser muito repetitiva. A conduta é:

  1. Ajudar o médico a definir o diagnóstico e o tratamento da enfermidade.
  2. Usar, com muita parcimônia e com orientação médica, os analgésicos ou produtos com distinta função (para cólicas, por exemplo). O uso indiscriminado desses remédios pode provocar efeitos colaterais e dificultar o diagnóstico.

Os nenêns sentem dor?

Até a metade dos anos 1980, se pensava que os recém-nascidos não sentiam ou sentiam pouca dor. Cirurgias para fimose e de outra natureza eram neles executadas sem anestesia. Hoje, isso é um absurdo. Em 1987, as evidências definiram que os nenéns sentem dor. As frequências cardíaca e respiratória, a pressão arterial e a secreção hormonal são modificadas quando são submetidos a procedimentos dolorosos. Anestesiados, essas alterações são reduzidas. E várias linhas de evidências mostram que prematuros são ainda mais sensíveis. Os dados científicos mostram que todos registram o sofrimento na memória pelo resto da vida. Hoje, todo procedimento doloroso nos nenéns deve levar em conta essa noção. Os dados atuais sobre o sistema nervoso dos fetos definem que a partir da vigésima semana de gestação eles sentem dor. Isto levanta a questão até da dor nos abortos.

Como se chega ao diagnóstico da causa da dor?

Como em toda a medicina, ouvindo o familiar e, quando possível, a própria criança, examinando o paciente e, em alguns casos, solicitando exames de sangue, de urina, Raio X, ultrassom e outros. Na Pediatria, algumas vezes, como na dor abdominal, o diagnóstico pode exigir várias consultas, avaliação com especialista (gastroenterologista e outros), vários exames e até alguns procedimentos especiais como a suspensão do leite de vaca (intolerância à lactose).

Como avaliar a localização e a intensidade da dor na criança?

É tarefa difícil, sobretudo, nas criancinhas. O conhecimento é valioso, pois os procedimentos diagnósticos e terapêuticos numa dor leve são distintos dos adotados numa dor intensa. O aspecto que dificulta ou facilita a avaliação da dor é a idade das crianças. Nas novinhas, a tarefa é muito mais complexa.

Como e feita essa avaliação nas crianças novinhas?

Os familiares e os médicos devem observar dados que indiquem a existência e a intensidade da dor: intensidade e frequência do choro, expressão facial, manifestações de alegria ou de tristeza, movimentação corporal normal ou limitada, alimentação, resposta quando são colocadas no colo e confortadas.

E nas crianças de 2 a 4 anos?

Nessa idade, a capacidade de referir pode existir ou não. E, se existe, pode não ser confiável. A coleta de dados pode ser bem conduzida pelas pessoas que conhecem as crianças e que têm alguma capacidade de conversar e de interpretar o que referem. Os adultos, entre eles, nós médicos, nos valemos dos seguintes dados: algumas crianças podem usar a escala de dor que é mais empregada para as que tem 4 e mais anos. Devidamente estimuladas, elas podem mostrar nas bonecas onde a dor ocorre e depois mostrar nos seus próprios corpos. As observações gerais dos familiares são de grande valia, como nas crianças de menos idade. Paciência e aguçado espírito de observação são importantes nessa idade.

E nas de mais de 4 anos? O que é a escala de dor?

Essas crianças verbalizam o que sentem. Estimuladas, participam de joguinhos e até de encenações que ajudam a definir o local e a importância da dor. Com as mãos, podem mostrar o “tamanho” da dor. Embora ainda seja difícil que elas solicitem analgésico, podem pedir a presença constante de um adulto. A escala de dor deve ser mostrada às crianças para que livremente apontem a carinha que corresponde ao que estão sentindo. É importante explicar que a carinha da esquerda não está com dor, a da direita está com um pouquinho, a outra está com mais e a última está com muita. O zero significa sem dor. A cinco significa a dor mais intensa.

Figura 1Escala de Dor Facial de Wong-Baker.Fonte: Conselho Regional de Farmácia do Rio Grande do Sul (2019).

0 — Nenhuma dor

1 — Dor de pequena intensidade

2 — Dor um pouco mais intensa

3 — Dor ainda mais intensa

4 — Dor muito intensa

5 — Dor insuportável

Nos adolescentes, é mais fácil, correto?

Eles referem muito bem o local, a intensidade, a frequência e até o tipo da dor. As que dão sensação de queimadura, as perfurantes, enfim, características que ajudem na elucidação. Eles solicitam medicação analgésica.

Há crianças que escondem a dor?

Muitas crianças dizem não estar com dor face ao medo de injeções, de outros procedimentos ou de ir ao hospital. E muitas não são capazes de informar, devido à idade ou a outras razões. Essa é, obviamente, uma situação que exige um cuidado muito especial na avaliação dos familiares e dos médicos.

Outras podem simular a existência da dor?

Esse parece um problema comum. Frequentemente, na hora da escola, muitas crianças dizem estar com dor de cabeça ou outra queixa. Todos devemos ter cuidado ao rotular a queixa de simulação. Pode ser uma queixa real.

Qual o remédio para as cólicas dos bebês?

Consultar o capítulo sobre choro excessivo na criança pequena.

Existem maneiras de evitar a dor da vacina? E como tratar

O capítulo Vacina responde à questão.

E para as cólicas de intestino?

Os chás sempre ajudam. Algumas pessoas melhoram com bolsa de água morna e outras com bolsa de água fria. Nos quadros mais intensos, os antiespasmódicos com atropina e produtos assemelhados associados ou não aos analgésicos dipirona ou acetaminofen podem ser testados. O uso do remédio é responsabilidade do médico. O mais importante é saber que cólica pode significar doença importante. Sempre comunicar ao médico. A atropina e seus derivados são produtos tóxicos e não devem ser usados sem orientação médica apropriada, sobretudo, em crianças de poucos meses de idade.

Mas existem algumas cólicas violentas?

A cólica renal e a cólica da vesícula biliar ocasionam dor intensa. Para essas, há medicação mais potente, habitualmente feita na veia em hospitais.

O que fazer para a dor de ouvido?

É valioso consultar o capítulo sobre Otite, dor de ouvido.

E a dor de dente?

Consultar o capítulo Dentes, gengivas.

E na dor menstrual?

Bolsa de água fria ou de água quente ajudam. É importante ver o que é melhor. Os mesmos produtos usados para a cólica intestinal, já citados, auxiliam. O medicamento mais indicado é o que contém ácido mefenânico. Mas a resposta é sempre muito individual e há quadros mais severos que precisam de ajuda especializada e de produtos mais potentes. Os médicos devem ser ouvidos.

Como entra o psiquismo no estudo da dor da criança?

Todos os quadros dolorosos nas crianças induzem sofrimento que causa alterações emocionais que podem ser importantes. Mesmo aquelas que sofrem um quadro agudo, como a dor da infecção intestinal, ficam transtornadas. As crianças, então, devem ser confortadas, apoiadas e carinhosamente informadas que tudo logo vai passar. E devem ter certeza de que os médicos e familiares estão fazendo algo para aliviar o sofrimento. As crianças que sofrem quadros dolorosos importantes e repetitivos desenvolverão dificuldades emocionais mais marcantes. Assim, o apoio emocional deve ser planejado, com pessoal qualificado, para que a problemática emocional seja minimizada. Algumas vezes, há necessidade inclusive de medicação usada pelos psiquiatras para ajudar a conviver com o problema.

Existe a dor emocional?

A medicina reconhece que há pessoas sensíveis aos quadros dolorosos e outras que os toleram melhor. Assim é que algumas referem que as famosas dores do crescimento se manifestam como cansaço ou mal-estar nas pernas. Outras citam que há dor. Então, o sentir dor também é uma característica pessoal. Dificuldades emocionais, por outro lado, podem produzir doenças que evoluem com dor. Esofagites, gastrites e úlceras digestivas que apresentam dor podem ser desencadeadas, dentre outros fatores, pelo psiquismo. A doença do cólon irritável, que pode apresentar dor tipo cólica, também.

Tenho uma “neura” com a dor de cabeça. Sempre penso em tumor! Como devo agir?

Separar a criança ou o adolescente com dor de cabeça em:

  • GRUPO A — Com dor de cabeça aguda, isolada, não repetitiva: acontece nas doenças agudas (gripe, sinusite, amigdalite e outras) e durante as “pressões” da vida (escola, casa, alimentação). Acalmar o doente, colocar um pano úmido na testa e dar uma “água com açúcar”. Usar, se o quadro é significante, um analgésico como os indicados para a febre. Mas os médicos devem ser contatados.
  • GRUPO B — Com dor de cabeça crônica, repetitiva, contínua: os médicos devem obrigatoriamente ser consultados. A conduta familiar de dar o famoso “remedinho” é arriscada e pode retardar o diagnóstico de condições importantes (tumores cerebrais, aneurismas, defeitos congênitos do cérebro, hipertensão arterial) e mesmo da enxaqueca que também é um problema que pode dificultar a vida do doente.

A enxaqueca pode terminar numa doença mais grave!

Dor de cabeça rotulada como enxaqueca pode significar uma enfermidade importante do sistema nervoso ou de outro órgão corporal. Então, o médico deve ser ouvido. A noção mais valiosa que se deve guardar é de que dor de cabeça pode ser manifestação de várias doenças e que dor abdominal pode significar vermes, mas pode também significar apendicite, cólica renal, cólica biliar, gastrite, intolerância a alimentos, problema emocional e mais uma dezena de outros diagnósticos. As crianças que repetidamente se queixam de dor nos membros inferiores e são rotuladas como portadoras de “dor do crescimento” podem ter doenças importantes. O sintoma dor, enfim, pode levar ao diagnóstico de um problema grave. Então, o importante é o diagnóstico da causa. Terapêuticas dirigidas à causa tendem a solucionar a doença e seu sintoma.

O que os médicos fazem?

Os profissionais atuam para definir o diagnóstico e o tratamento. Para isso, examinam os enfermos, solicitam exames e acompanham a evolução clínica. Sobretudo nos quadros crônicos, há necessidade de seguimento por um certo tempo para que possam definir com precisão a causa ou causas envolvidas.

Quais médicos devem ser ouvidos no manejo das cefaleias?

O pediatra deve ser consultado inicialmente. Ele indica os especialistas quando julgar necessário: os otorrinolaringologistas auxiliam na definição do problema quando há dados indicativos de rinite, sinusite, aumento excessivo das adenoides e otite; os oftalmologistas devem participar da avaliação se há dados que sugerem dificuldade visual, estrabismo, lacrimejamento e outros; os odontólogos ajudam se há anormalidades dentárias, como cárie, abscesso, maloclusão, uso de aparelhos ortodônticos e outros. Há pediatras que indicam a avaliação desses três setores quando a dor de cabeça é crônica ou muito frequente. Pode existir doença que produz a cefaleia mesmo sem que os familiares e os pediatras tenham notado anormalidade ocular, odontológica ou otorrinolaringológica.

E os neurologistas?

Se as mães e/ou os pediatras evidenciam qualquer anormalidade ligada ao sistema nervoso, os neurologistas devem ser consultados rapidamente. E alguns pediatras indicam consulta neurológica em todas as crianças que apresentam cefaleia crônica ou recidivante. Os neurologistas usam mecanismos de avaliação mais refinados que os usados pelos pediatras e podem evidenciar dificuldades do sistema nervoso mais precocemente que os médicos não especialistas. Eles também são mais habilitados do que os pediatras a conduzir as enxaquecas.

Quando consultar outros especialistas?

Existem médicos especialistas em dor com alta qualificação para o manejo dos quadros mais incapacitantes e eles poderão ser ouvidos para os casos mais complexos. Os especialistas em acupuntura, em homeopatia, em psicologia ou psiquiatria e os nutrólogos podem ajudar em certas circunstâncias especiais.

As maiores “broncas” estão nas doenças crônicas, certo?

O trabalho dos médicos é mais difícil quando a história define que o quadro é de mais longa duração. A preocupação com problema neurológico é sempre grande. E, além do que foi informado, há problemas especiais como a disfunção da articulação temporomandibular, intolerância alimentar, estresse, postura errônea, fadiga, excesso de atividades e o uso de alguns medicamentos que precisam ser revistos. A enxaqueca é admitida após terem sido excluídas as outras.

Quais alimentos causam dor crônica na cabeça?

Alguns alimentos e alguns aditivos alimentares agem como gatilho para o surgimento da cefaleia. Os enxaquecosos são especialmente sensíveis. O mais reconhecido é o glutamato adicionado às comidas chinesas e a alimentos em conservas (nozes, sopas e molhos, batatas fritas, maioneses e carne processada e enlatada). A tiramina contida em alguns queijos, no chocolate, no vinagre, no vinho tinto, no molho de soja, no iogurte e em vários outros produtos também produz o sintoma. Também ocorre nos alimentos que contém nitratos como conservante, como no bacon, salsicha, peixe defumando, hambúrguer, carne enlatada e outros. Os próprios alimentos podem produzir cefaleia em algumas pessoas. Esses alimentos são os consumidos usualmente: carnes, vegetais, grãos e frutas. Milho, soja, suco de maçã, banana e carne de porco são alguns dos mais comuns desencadeantes da dor de cabeça. A cafeína e alguns parentes dela existem no café e nos chás, podendo ocasionar a dor de cabeça. Para informações mais detalhadas sobre o assunto consultar a Internet.

Como proceder para ver se algum alimento causa a dor?

Existem programas com controle da dieta para tentar descobrir a(s) causa(s) da cefaleia de origem alimentar. Há um que coloca o cliente em dieta com quatro alimentos que usualmente a criança não consome: uma carne (cordeiro ou galinha), um vegetal, uma fruta e um carboidrato por três semanas. Após essa fase, outros vão sendo introduzidos de forma programada. Quando parece que certo alimento produziu o sintoma, ele é suspenso e novamente introduzido até que se tenha uma ideia precisa sobre a sua participação no quadro. Há outro que admite na fase de testes que a família opte por oito a 10 produtos que a criança usualmente não ingere e, a partir daí, vão sendo introduzidos outros produtos e avaliada a resposta.

É complicado, não é?

Fácil não é. Existem algumas boas dicas na internet, como em

https://www.hopkinsmedicine.org/health/conditions-and-diseases/headache/headaches-in-children, https://my.clevelandclinic.org/health/diseases/4225-headaches-in-children

E a cefaleia tensional na criança e no adolescente?

É mais encontrada nos adolescentes e é secundária a uma série de condições que ocasionam o uso excessivo ou inadequado da musculatura cervical. A postura errônea ao dormir e ao sentar-se, o ficar horas semi-imobilizado na frente do computador ou da televisão, o estresse emocional e as tensões do cotidiano favorecem o surgimento do quadro. É uma dor que se mantém por longo tempo e que não se modifica de forma marcante ao longo dos meses. O quadro doloroso pode ser o de cefaleia ou de dor na parte superior do pescoço. O diagnóstico desse problema exige que se excluam várias outras causas de dor na cabeça e no pescoço, sobretudo a enxaqueca com a qual pode estar associada.

Quais são as causas da enxaqueca?

A enxaqueca é o tipo de cefaleia que mais incomoda os doentes. Ela evolui por longo tempo e pode se constituir num problema de difícil solução ou controle. São aspectos marcantes: hereditariedade — em 88% dos casos, um dos pais apresenta o problema; idade de início — 20 % das crianças afetadas têm menos de cinco anos de idade; assim, a maior parte ocorre após essa idade; a frequência aumenta muito na adolescência; fatores desencadeantes —emoções, exposição ao sol, mal-estar, vertigem, náuseas e vômitos ao andar de carro ou de avião, alimentos e odores, esforço físico, repouso prolongado seguido por esforço visual e trauma craniano.

Quais são os sintomas da enxaqueca?

Vamos tentar resumir e apresentar os sintomas dos quadros típicos:

  • Antes da dor de cabeça podem ocorrer irritabilidade, alegria excessiva ou tristeza, verborreia ou retração social, aumento ou queda do apetite, retenção hídrica e alterações do sono. Os que apresentam o quadro com frequência reconhecem esses dados como as manifestações iniciais da crise.
  • Após essa fase, algumas crianças (só 10-20% das que tem enxaqueca) apresentam a aura que ocorre 30 minutos antes da cefaleia e dura cinco a dez minutos. As crianças não descrevem bem a aura, mas a mais relatada é a visual (visão borrada, linhas em “ziguezague”, cintilações, pontos negros, distorção do tamanho dos objetos e outros tipos). Existem outros tipos: perda da atenção, confusão, amnésia, dificuldade de falar, de se movimentar, vertigem, tonturas e até paralisias musculares.
  • A cefaleia dura 30 minutos a 48 horas, usualmente menos de quatro horas, é mais curta que a observada nos adultos e também parece ser menos intensa, habitualmente é unilateral e pulsátil. Mas pode ser bilateral na fronte, nas têmporas ou atrás dos olhos. A tosse, o espirro, o subir escadas agrava a dor. Extremidades frias, náuseas, vômitos, perda do apetite, diarreia, aumento da frequência urinária, sudorese, intolerância à luz e aos sons e outros dados.
  • Após a cefaleia, habitualmente surge exaustão, cansaço e menos frequentemente, excitação que persistem por horas ou dias.
  • Os fatores de melhoria são: analgésicos, sono, escuridão, repouso e vômito.
  • A exclusão de causas específicas da dor de cabeça (como hipertensão, sinusite, distúrbios visuais) é aspecto essencial do trabalho com esses pacientes. Os médicos com frequência solicitam tomografia ou ressonância nuclear magnética do cérebro para afastar doença do sistema nervoso.

Existem diferentes tipos de enxaqueca?

Existem. A enxaqueca clássica é a que ocorre com aura, habitualmente visual, e é vista em um terço dos clientes. A enxaqueca comum, que não é acompanhada de aura, acontece em 60% da criançada que tem o problema. Há outras formas como s enxaqueca complicada, que é acompanhada de sinais neurológicos, e formas menos comuns como a confusional, a abdominal, a oftalmológica e a síndrome dos vômitos cíclicos. Vejam como o tema é complexo.

Qual a frequência das crises de enxaqueca?

Há clientes com frequentes crises que chegam a dificultar o cumprimento das tarefas cotidianas como o estudo. Outros têm episódios menos frequentes. Excesso de obrigações, cansaço, abuso de TV e de computador e as tensões do dia a dia explicam a maior ocorrência de crises alguns.

Como são as crianças quando estão sem enxaqueca?

Os portadores de enxaqueca têm mais frequentemente cinetose (náuseas e vômitos nas viagens de carro e navio, por exemplo), dores nos membros (“dor de crescimento”), dor abdominal recorrente e distúrbios do sono (sonambulismo, bruxismo e outros). Mas têm rendimento intelectual e comportamento normais.

Como tratar a dor de cabeça aguda?

A cefaleia aguda é causada por uma doença que deve ser diagnosticada e tratada. Assim, a cura da sinusite aguda resolve a dor de cabeça causada por essa doença. O controle da hipertensão arterial faz a dor de cabeça secundária a essa alteração desaparecer. Isso é válido para a meningite, para o trauma, para o tumor cerebral e para muitas e muitas outras situações em medicina. Mas o analgésico para o sintoma dor de cabeça também pode ser empregado.

Como é o tratamento da enxaqueca?

Existe o tratamento da crise aguda, que é indicado quando há poucos episódios como menos de dois por mês. O sono é o melhor remédio para terminar a crise, manter o cliente em casa, em repouso, sem atividades esportivas ou escolares, fornece um ambiente favorável para dormir (quarto escuro, silencioso, ventilado) e medicar com analgésicos. Existe o tratamento preventivo indicado quando há muitas crises, mais de duas ao mês. Muitos usam acupuntura, técnicas de relaxamento e manuseio da dieta como terapias não medicamentosas para a prevenção do quadro. Outros usam medicamentos para evitar os ataques.

Quais medicamentos devemos ter em casa para as dores?

A moderna medicina está mais cuidadosa com o uso de remédios. Também critica cada vez mais o excesso de medicamentos na casa. Uma das maiores razões é que quanto mais remédio na casa, maior o risco de intoxicação medicamentosa com as crianças. Então, se deve ter uma farmacinha com os remedinhos básicos para febre, nariz, dor e os problemas mais simples. E mesmo essa farmacinha deve estar muito bem trancada, escondida e com acesso controlado para evitar que as crianças tomem acidentalmente um desses produtos. Leiam o capítulo Farmacinha. Agora, se algum membro da família usa produtos controlados, como remédios para o sistema nervoso, é bom alertar que são de alto poder tóxico e é prudente que sejam guardados mais escondidos ainda, mais controlados ainda. Remédio pode matar criança.

Existem remédios mais fortes para aliviar a dor! Correto?

Os derivados da morfina, os opiáceos, são os mais potentes analgésicos conhecidos. Também existem anti-inflamatórios não hormonais que possuem potente ação analgésica. São produtos para situações muitos especiais.

Informem quais os remédios que devemos ter!

Os produtos para os quadros dolorosos das crianças são os que contêm dipirona, acetaminofen e ibuprofeno. São úteis para dor após a vacinação, de cabeça, de dente e dos traumas menores, cólicas, dor muscular e articular, enfim, para os problemas mais simples. São seguros embora apresentem efeitos adversos. Escolham um deles, aprendam a usá-lo guiando-se pelas tabelas fornecidas no capítulo sobre Febre. Colem uma cópia dessa tabela na porta da farmacinha. Evitem erro. Evitem intoxicação medicamentosa.

E quais não devemos ter ou usar?

A farmacinha não deve conter e, portanto, não se deve usar nas dores comuns os analgésicos e/ou anti-inflamatórios potentes com codeína nimesulida, diclofenaco, cetoprofeno e outros. São produtos para casos muitos especiais e mais raros na criança. Esses remédios têm efeitos colaterais importantes e não se justifica o risco de sangramento gástrico, de nefrite e de outros problemas, quando a dor poderia ser resolvida com um medicamento mais seguro. Os produtos citados e outros só podem ser usados por médicos. Mas podem ser extremamente úteis em certas circunstâncias.

O gelo ajuda?

Ajuda muito. Nos traumas sem ferimento (contusões, entorses, distensões musculares, e outras) a aplicação local de gelo, de compressa fria ou bolsa de água gelada alivia muito.

E os remédios para passar no local da “pancada”?

Há produtos para uso local, com derivados do ácido salicílico que ajudam quando há dores musculares e ou articulares, de diversas origens. Junto com a compressa de água fria, outras medidas ajudam (repouso e imobilização). Mas é sempre importante que o médico examine o paciente.

E homeopatia? E acupuntura? E a yoga?

Os melhores resultados são obtidos com o tratamento da doença que origina o sintoma. É inquestionável. Um bom exemplo é a remoção de um cálculo renal que está produzindo crises dolorosas. A retirada do cálculo resolve a dor e evita que o problema se repita. No exemplo do cálculo renal e de outros, onde o que resolve é a remoção por meios clínicos ou cirúrgicos das causas da dor, os remédios analgésicos, a homeopatia e/ou a acupuntura são de menor importância. A homeopatia e a acupuntura são úteis nas dores crônicas, sobretudo, quando há forte componente psicossomático, tipo enxaqueca provocada por tensão emocional, dor na coluna de origem muscular também produzida por estresse ou postura errônea. Também podem ajudar a Yoga, a RPG e outras terapias.

Os textos que estamos produzindo devem ser vistos como um mecanismo para educar os familiares e nunca devem ser vistos como um mecanismo para evitar a consulta médica individualizada.

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