Há crianças que não respondem quando são chamadas pelo nome, não interagem com outras crianças, gostam de ficar mais isoladas. Parece que está acontecendo uma verdadeira pandemia do transtorno do espectro autista (TEA), praticamente toda sala de aula tem um aluno com TEA. O que realmente está acontecendo? Como é o tratamento? É possível que seja evitado? Tentaremos responder essas e outras perguntas nas próximas páginas.
Qual a frequência do TEA?
Houve um aumento muito importante da incidência do TEA nos últimos anos, ocorreu um incremento de 175% em relação ao ano de 2002. Os dados epidemiológicos mais recentes, referentes ao TEA nos Estados Unidos, apresentam uma prevalência de 23 por 1.000 crianças com 8 anos, ou seja, a cada 44 crianças com 8 anos de idade nos Estados Unidos, uma tinha o diagnóstico de TEA em 2018.
Por que ocorreu esse aumento?
Ainda não se sabe o real motivo, porém existem algumas justificativas. Um aumento da divulgação das informações e da precisão de ferramentas de investigação e diagnóstico estão entre os principais fatores. Um aumento do diagnóstico dos casos de TEA nível 1, que anteriormente não eram diagnosticados. Também ocorreu uma diminuição no diagnóstico de outras doenças psiquiátricas, como esquizofrenia e déficit intelectual.
O que seria o TEA?
É um transtorno do neurodesenvolvimento em que a criança pode apresentar um prejuízo da interação social, da comunicação e do comportamento. Podem apresentar um atraso da fala, ausência de resposta quando é chamado pelo nome, estereotipias, não dão funcionalidade aos objetos, não apontam para o que desejam, evitam contato visual.
Geralmente as famílias são as primeiras a notar ou comparar comportamentos atípicos. Os professores também desempenham um papel importante para detectar e notificar os familiares, sobre um possível atraso no desenvolvimento.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico é clínico, não é feito através de nenhum exame. Deve-se realizar o exame físico com objetivo de identificar a presença de neurofibromatose, esclerose tuberosa e traços dismórficos, doenças que aumentam o risco do TEA. Avaliação da criança é feita no consultório médico, também é importante relatórios escolares e a observação dos familiares. Caso a criança já faça algum tipo de terapia ocupacional, psicologia ou fonoaudiologia, também é importante que seja feito um diálogo com esses profissionais. Em alguns casos, principalmente nos graves, o diagnóstico é feito em poucas consultas. Porém, em outras crianças é necessário um acompanhamento por um período prolongado, até por anos.
É necessário algum exame?
Avaliação auditiva e oftalmológica são obrigatórias em todos os casos. Exames genéticos também são importantes. Acredita-se que 15-20% das crianças que tenham TEA, têm uma origem genética. Importante reafirmar que nenhum exame complementar confirma ou descarta o diagnóstico. Avaliação da visão e audição são feitas para descartar algum tipo de problema dessas áreas.
O exame genético tem o seu papel naqueles casos em que o primeiro filho do casal tem TEA e a família deseja outros filhos. Através desses exames, em alguns casos, é possível determinar qual o risco em uma gestação futura que a criança tenha TEA.
Qual é a idade que deve ser dado o diagnóstico?
Não existe uma idade mínima. O ideal é que seja dado antes dos 3 anos de vida. Claro que em crianças mais novas o diagnóstico é mais difícil, em alguns casos precisa de um acompanhamento. Se a criança apresenta algum tipo de atraso do desenvolvimento ou suspeita do TEA, devem ser iniciadas as terapias de reabilitação o mais breve possível e avaliarção da resposta da crianças.
É impossível dar o diagnóstico em bebês. Durante o primeiro ano de vida, alguns sintomas podem ser um sinal de alerta para o TEA como, por exemplo, pouco ou nenhum olhar para as pessoas, não olha nos olhos da mãe durante amamentação, ausência de resposta ao chamado pelo nome. Por volta dos 18 meses podem surgir movimentos repetitivos (girar inúmeras vezes sobre o próprio eixo ou ficar seguindo a sombra) ou interesses restritos (olhar fixo em itens que giram).
Na idade escolar, pode surgir dificuldades no aprendizado, na alfabetização. Não entender ironias ou figuras de linguagem. Apresentam desorganização quando a rotina é modificada ou se deparam com um novo ambiente.
| Dificuldades Sociais e de Comunicação | Interesses Restritos e Repetitivos |
|---|---|
| Dificuldade para estabelecer conversa Dificuldade para iniciar interação social Dificuldade em demonstrar emoções Prefere ficar sozinho Pouco constato visual Linguagem corporal pobre Pouca expressão facial Não entende linguagem corporal ou facial Dificuldade para entender ironia ou piadas | Estereotipias motoras Alinhar objetos Ecolalia Sofrimento extremo frente às mudanças Dificuldade com transições Padrões rígidos de pensamento Interesse extremo ou restrito a um assunto Necessidade de fazer o mesmo caminho Hipo ou hiperreatividade a estímulos sensoriais Cheirar ou tocar objetos Apego incomum a determinado objeto Recusa de determinados alimentos |
Relato de pais que têm um filho com TEA
“Somos pais de Samuel, um garotinho atípico de 7 anos de idade. Nossa árdua luta começou alguns meses após o seu aniversário de 1 ano. Samuel começou a apresentar comportamentos atípicos. Mesmo sendo pais de primeira viagem, sentíamos que havia algo errado com o desenvolvimento do nosso filho.
Não brincava funcionalmente com nenhum brinquedo de sua faixa etária, tinha fixação em alguns movimentos e objetos e só quando estava dormindo é que ele parava de se movimentar. Sempre muito hiperativo, vivíamos uma rotina exaustiva nesse período. Girar no chão a escova de cabelo, passava horas, se deixássemos, abrindo e fechando incessantemente a porta dos armários, foram alguns dos comportamentos inadequados que chamaram a nossa atenção para o TEA.
Ao mesmo tempo, atendia a alguns comandos, atendia pelo nome, acenava com tchauzinho, cantava parabéns, dançava, não gostava de ficar sem ninguém por perto e sempre gostou muito de afeto. Assim, vivemos sob a angústia da dúvida até decidirmos procurar um neuropediatra. Seis meses após a consulta inicial, começamos a observar o surgir dos flappings — estereotipia com as mãos como se fossem asas, uma forma de auto-regulagem — e, a ausência da fala.
No mesmo momento, tivemos a segunda consulta e dessa forma recebemos o temido diagnóstico. Nosso filho era autista. Mas o que era autismo? Não conhecíamos ninguém com autismo. E a pergunta pairava em nossos pensamentos: Como seria a nossa vida dali por diante? Precisamos chorar por alguns dias. A mãe desolada, o pai sempre mais forte. Esse equilíbrio foi essencial para darmos juntos o pontapé inicial que o nosso filho precisava. Não podíamos perder tempo.
Iniciamos fonoaudióloga, terapia ocupacional, terapia ABA, colocamos na escola com mediadora, psicomotricista e psicopedagoga. Contratamos então um advogado para travarmos outra guerra: a do plano de saúde. Precisávamos garantir todo o tratamento prescrito pelo neuro. Quase seis anos se passaram desde o diagnóstico e a certeza que temos é que vivemos um dia após o outro dentro de um campo minado.
São vários os desafios, porém o caminho é um só: terapias multidisciplinares somadas à medicação. Sem esse combo, dificilmente uma criança no espectro conquistará a sua evolução. Nosso filho já fez uso de várias, todas dão um resultado satisfatório no primeiro mês e após esse período, percebemos a ineficácia das medicações, mesmo com o aumento da dosagem. Faz-se muita falta uma medicação específica para o controle das comorbidades de pessoas com TEA, pois passamos a vida em testes de medicações destinadas a outras patologias.
Ao longo desses anos de tratamento percebemos que o nosso filho vem evoluindo a passos de formiguinha, mas o importante é que no autismo nada é definitivo. Samuel estuda no 2º ano do ensino fundamental, tem vários ganhos pedagógicos, superou a aversão por algumas texturas, superou a sensibilidade ao cortar o cabelo, é indiscutivelmente apaixonado por terapia, adora estar em atendimento, é muito colaborador e participativo. Tem facilidade com mudança de rotina, obedece as regras e demandas escolares e terapêuticas. Aprendeu a nadar e mergulhar. Continua uma criança extremamente afetuosa e inteligente.
Somos a prova de que a intervenção precoce foi fundamental para o alcance de resultados importantes em seu desenvolvimento, além de um acompanhamento com um bom neuropediatra somado a uma equipe multidisciplinar comprometida foram essenciais para a qualidade de vida de toda a nossa família atípica.
Conviveremos com o autismo pelo resto das nossas vidas, mas hoje, entendemos que o autismo é apenas uma característica do nosso filho e que não define quem ele é, muito menos o seu potencial. Temos a certeza de estar no caminho certo, com os profissionais certos e, com a certeza de que mesmo com tantos obstáculos, desistir nunca será uma opção, pois o amor pelo nosso menino sempre nos fez enxergá-lo muito além do seu diagnóstico.”
Tem tratamento para o TEA?
Sim, sem dúvida nenhuma! O tipo de tratamento vai depender das queixas e do prejuízo da criança e deve ser individualizado de acordo com a necessidade de cada um. De uma maneira geral, podem necessitar de uma equipe multidisciplinar (terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia, psicomotricidade e psicopedagoga). A frequência das terapias deverão ser decididas conjuntamente entre o neurologista e os profissionais da reabilitação. É importante destacar que não será o mesmo tratamento ao longo de toda a vida. Ao longo dos anos com a melhora do desenvolvimento do paciente as terapias poderão ser descontinuadas.
As terapias comportamentais, baseadas na Análise de Comportamento Aplicada (ABA) são, atualmente, as terapias com mais evidência científica para os principais sintomas do TEA. Nem todas as crianças com TEA se desenvolvem da mesma maneira, por isso, é importante que ocorra uma reavaliação periódica.
Os déficits da linguagem são um dos principais sintomas, portanto o tratamento fonoaudiológico é de extrema importância. Sabe-se que a efetiva melhora da comunicação traz benefícios para amplos domínios do paciente.
Necessita de medicação?
Nem todos os pacientes necessitarão de tratamento medicamentoso, cerca de 40% não fazem uso de medicamento. O tipo de medicamento dependerá da necessidade da criança, não existe medicação específica para o TEA. Os sintomas mais preocupantes e que costumam necessitar de um fármaco são: ansiedade, irritabilidade, agressividade e estereotipias. O uso deles é muitas vezes de extrema importância para uma condução adequada da terapia de reabilitação.
A introdução, ajuste ou troca do medicamento deve ser estudada e analisada com cautela entre o médico e as famílias. Os fármacos devem ser iniciados com uma dose pequena e ter o seu aumento gradual.
Existem outros tipos de tratamentos?
Dietas, suplementações vitamínicas e vários tipos de abordagens têm sido propostas para o tratamento do TEA, entretanto, não há evidência científica para que muitas dessas terapias sejam utilizadas. As terapias frequentemente utilizadas em nosso meio, mas que não têm eficácia comprovada, especificamente para o TEA, até o momento são: ômega 3, vitamina B12, vitamina D, dieta sem glúten, dieta sem caseína, equoterapia, ozonioterapia, oxitocina, quelantes de metais pesados, corticoesteróides, imunoglobulina, células-tronco e óleos essenciais.
A prescrição de um tratamento sem comprovação científica pode trazer grande prejuízo (não só econômico), pois quando a família decide seguir um tratamento alternativo, muitas vezes ela abandona o tratamento comprovadamente eficaz. Devido aos riscos de efeitos colaterais, além de gastos desnecessários, a orientação das famílias com filhos com TEA deve incluir a abordagem sobre risco e benefício dos tratamentos alternativos. Finalmente, deve-se salientar que vacinas não causam ou desencadeiam TEA e que os pacientes com TEA devem tomar todas as vacinas disponíveis para faixa etária.
E o prognóstico?
Novamente destacamos a importância da intervenção precoce, quanto mais cedo o tratamento for iniciado, melhores oportunidades de desenvolvimento serão dadas a essas crianças. O objetivo final é que essa criança tenha uma independência quando se torne um adulto, infelizmente nem todos alcançarão esse objetivo. O prognóstico também irá depender do nível do TEA, as crianças com nível 1 tem uma melhor resposta ao tratamento.
