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Conversando com o Pediatra

Parte II — Principais problemasCapítulo 19 de 46

Cerca de 100 doenças até os 10 anos de idade

Por que é normal a criança adoecer tanto na infância e como separar as doencinhas do dia a dia do que merece atenção do pediatra.

  • AutoriaCarlos Gonçalves de Oliveira, João Gonçalves de Medeiros Filho, Otelo Schwambach Ferreira, Magda Carneiro-Sampaio e João Guilherme Bezerra Alves
  • Leitura7 min · 1,474 palavras
  • No livropáginas 514–518
  • Conversa11 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

Neste capítulo, os pediatras explicam, em formato de perguntas e respostas, por que é esperado que toda criança tenha cerca de 100 doenças até os 10 anos: é pelo contato com os germes que o sistema imunológico cria memória e proteção. A grande maioria desses problemas é sem gravidade e costuma ser resolvida em casa. Cerca de 60 a 70 deles são respiratórios, quase sempre causados por vírus, e as doenças digestivas formam outro conjunto importante.

O texto também mostra por que algumas crianças adoecem mais: alergia, creche muito cedo, aglomerações e pobreza. O primeiro resfriado costuma surgir por volta dos 9 meses, as doenças são mais frequentes até os 5 anos e, numa fase da vida, a criança tem de seis a oito doenças respiratórias por ano, sem intervalos regulares. O capítulo fecha com medidas de prevenção, sinais que merecem avaliação do pediatra, a Covid-19 como evento inesperado e um alerta sobre a prevenção de acidentes.

Para quem: Para pais e cuidadores que se preocupam com resfriados e doencinhas frequentes nos primeiros anos de vida.

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Toda criança normalmente tem, até os 10 anos, cerca de 100 doenças. Esse é o modelo biológico estruturado para que o ser humano desenvolva o seu principal sistema de defesa, o imunológico. Para ter saúde, a criança precisa ter contato com germes que causam infecções. É assim que desenvolve seu esquema de proteção contra muitas doenças comuns. Isso é baseado, sobretudo, na memória imunológica que ela guarda do contato com os agentes infecciosos.

As vacinas do calendário usual e outras dadas em circunstâncias especiais, como no caso da Covid-19, também estimulam o sistema imunológico. Algumas infecções, hoje incomuns face à vacinação rotineira, eram frequentes na época em que a proteção vacinal não existia. O sarampo é um bom exemplo: até os anos de 1960, 70% de todas as crianças contraíam sarampo e algumas desenvolviam quadros graves, que podiam levar até à morte. Hoje o sarampo é incomum.

É de assustar! 100 doenças!? É isso mesmo?

É aproximadamente esse o número de problemas de saúde que todas as crianças normais devem ter até completar 10 anos de idade. Isso ocorre no Brasil, na Europa, na América do Norte e na Ásia. É assim em todo o mundo.

E como vocês sabem disso?

Esse número, mais ou menos 100 doenças até os 10 anos de idade, é revelado em várias pesquisas realizadas pelo mundo. São estudos bem-feitos nos quais o nariz entupido, a feridinha na pele, a cárie dentária, o corte na pele, o olho irritado, a verruga, um episódio de vômito, outro de diarreia, alguns dias de tosse, uma pontinha de febre, a secreção genital na menina, o prepúcio edemaciado, a escabiose, a pediculose de couro cabeludo, o terçol, enfim, todos os desvios do normal, são rotuladas como doenças.

Mas não são doenças importantes. Estou certa?

A grande maioria é representada por doenças sem gravidade. Sobretudo na criançada bem cuidada, bem nutrida, bem vacinada, bem protegida contra os acidentes e bem e precocemente assistida pelo sistema de saúde, as doenças são usualmente simples, sem gravidade e não necessitam remédios especiais nem de médicos com qualificação especializada. Habitualmente, são problemas solucionados em casa ou em estruturas assistenciais simples. Mas, vez ou outra, pode haver uma pneumonia ou outra enfermidade que necessita cuidados especiais. Os cuidadores devem estar sempre muito alertas com a meninada.

Quais são essas 100 doenças?

A variedade é muito grande: cáries, traumas e outros problemas dentários; rinites, faringites, otites médias, sinusites, traqueítes, bronquites e várias outras doenças respiratórias; parasitoses, diarreias infecciosas e não infecciosas e outros distúrbios gastrointestinais; urticárias, eczemas, outras reações alérgicas dermatológicas; impetigo, sarna, distintas infecções e doenças da pele e dos tecidos próximos; hematomas, feridas na pele, entorses, fraturas e outros problemas traumáticos; fimose e doenças do prepúcio nos meninos; vulvites, vaginites e aderência dos pequenos lábios nas meninas; cefaleias e enxaquecas; algumas infecções próprias da infância, como a roséola e a doença mão-boca-pé; diferentes viroses com febre ou outros sintomas; enurese noturna; distintos problemas emocionais e comportamentais; dificuldades ortopédicas como as dores do crescimento; problemas oftalmológicos; estomatites; cistites e outras doenças urinárias; otite externa; e várias outras.

Quais são as enfermidades mais vistas nas crianças?

  • As doenças respiratórias são as mais comuns. Cerca de 60 a 70 dos aproximadamente 100 problemas de saúde que as crianças apresentam, antes dos 10 anos, são respiratórios. Resfriado, gripe, faringite, amigdalite, sinusite, otite média, laringite, traqueíte, bronquite, asma, pneumonia e outros problemas de natureza respiratória são as doenças mais comuns na primeira década de vida. Dessas, cerca de 95% ou mais são doenças causadas por vírus. Portanto, quando o médico refere que a doença do seu filho é viral, ele tem alta possibilidade de estar absolutamente correto. São doenças simples, diagnosticadas sem exame laboratorial e tratadas em casa sem antibióticos.
  • As enfermidades digestivas formam outro conjunto importante dessas 100 doenças. Durante os primeiros anos de vida, a criançada apresenta vários quadros com episódios de vômitos, diarreia, distensão abdominal, cólicas, com ou sem febre, de várias origens. Cerca de 70 a 80 das doencinhas, das 100 programadas na primeira década de vida, são respiratórias e digestivas.
  • As outras (20 a 30) para somar as 100 atingem os diferentes órgãos corporais: olho, pele, genitais, vias urinárias, músculos, ossos, articulações, sistema nervoso e outros.

Qual a importância dessa noção para nós?

É grande o valor dessa informação.

  • As vacinas e todo o conjunto de ações médicas e sociais para a prevenção de doenças e de acidentes conseguem evitar problemas importantes. Mas não conseguem evitar todos. Os pais devem estar prontos para enfrentar várias doencinhas que, embora sem gravidade, precisam de orientação apropriada.
  • Os cuidadores precisam valorizar que as doenças respiratórias representam o principal problema a enfrentar. E não devem se angustiar quando a criança novinha apresentou o segundo resfriado. Precisam saber que faltam mais algumas dezenas de infecções respiratórias até os 10 anos.
  • Também precisam ter conhecimento de que as principais doenças são virais e que o médico não tem como evitá-las nem como tratá-las.
  • Outro aspecto relevante é o conhecimento que as doenças são usualmente simples, não graves e a maior parte pode ser resolvida no domicílio.
  • É preciso também saber que o papel do pediatra é muito importante, pois há doenças que necessitam medidas especiais.

Há crianças que parecem adoecer mais, não é?

Há diferenças individuais e sociais que fazem variar o número, o tipo e a gravidade das enfermidades que atingem as crianças. A condição de alérgico é uma delas. A criança alérgica tem todas as doenças da não alérgica, que já são muitas, e também apresenta as da sua condição especial. Então, vive com mais catarro, coriza, gripe, otite e tosse, tem dermatite, conjuntivite, toma mais antibiótico, vai mais a médico do que a que não tem alergia. Outro aspecto é a exposição precoce a creches e escolinhas que aumentam a frequência das doenças respiratórias. As crianças que vivem em fazendas adoecem menos. As da cidade, frequentemente em aglomerações — aniversários e shoppings — adoecem mais. As crianças pobres, que moram em casas precárias (miseráveis), sem água encanada e sem esgotos, não adequadamente vacinadas, expostas aos acidentes, mal alimentadas, adoecem mais e também podem apresentar doenças mais graves. As imunodeficiências congênitas, que levam a uma menor resistência às infecções, felizmente são doenças raras, a maior parte delas raríssimas.

Qual a idade em que a criança mais adoece?

É clássica a observação de que a primeira doença respiratória, habitualmente o primeiro resfriado, é por volta dos 9 meses de idade. É quando a imunidade herdada da mãe cai muito e também quando as crianças começam a circular, a se expor. As doenças são mais frequentes até os 5 anos de idade. A partir daí, como o sistema imune está mais desenvolvido, quase atingindo a sua maturidade e a criança já teve contato com vários tipos de vírus, e assim tem memória imunológica que deixa proteção duradoura, a frequência das doenças respiratórias e também das digestivas diminuem.

Oito gripes por ano?

Numa fase da vida, são seis a oito doenças respiratórias por ano. O aparecimento delas não é organizado. Não basta dividir doze meses por seis e achar que ocorre uma gripe a cada dois meses. Na biologia, não é assim. As crianças podem passar vários meses sem adoecer e outros com várias doenças seguidas. Esse aspecto é importante, pois há fases em que o catarro não desaparece, a coriza é constante e as otites e/ou as crises asmáticas se sucedem. A explicação pode ser a ocorrência repetida de enfermidades num período curto.

O que fazer para reduzir essas doenças?

A maior parte dessas doenças é inevitável. Mas citamos algumas medidas preventivas importantes:

  1. Amamentar por no mínimo seis meses e cuidar muito bem da alimentação por toda a vida. Todos os nutrientes são importantes.
  2. Vacinar contra as doenças que são evitáveis por vacinas.
  3. Cuidar para que as crianças participem de atividades ao ar livre, pratiquem esportes e reduzam o tempo de sedentarismo.
  4. Evitar as aglomerações desnecessárias. Levar crianças novinhas ao shopping é errôneo. Na medida do possível, evitar creches e escolinhas muito cedo.
  5. Tentar impedir que a meninada seja exposta a poluentes ambientais (cigarro, fumaça do escapamento dos veículos e outros) e lutar para que os alérgicos não entrem em contato com as principais causas de alergia (ácaros, por exemplo).
  6. Estar sempre atentos para ajudar o médico a descobrir cedo as doenças mais importantes. Todos os que respiram mal, com a boca aberta, que vivem com tosse, fazem uso de antibióticos e outros remédios com frequência, apresentam vômitos constantemente e fezes continuadamente amolecidas, têm o abdome distendido, estão “magras”, tristes, sem ânimo, sem vitalidade ou tem outros sinais e sintomas que merecem atenção especial, devem ser levados ao pediatra para análise adequada. Essa é a forma de impedir que os problemas mais importantes sejam diagnosticados e tratados tardiamente.

E como encaixar nessa explicação a Covid-19, por exemplo?

O que debatemos até agora é o que é rotineiramente observado. A recente pandemia da Covid-19 foi um evento não esperado. Que soma mais uma doença de potencial gravidade ao usual que a criançada apresenta.

E a última mensagem é que evitar os acidentes é uma tarefa importante dos familiares. Todos teremos que tolerar as “chatas viroses”. Mas a prevenção dos acidentes é problema para ser tratado logo, sem delongas.

Essa proposta educacional não substitui a consulta médica.

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