18.1Aleitamento materno
18.1.1Um pouco da teoria
Como a Organização Mundial de Saúde vê a amamentação?
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o aleitamento materno é uma das formas mais eficazes de garantir a saúde e a sobrevivência da criança. De acordo com a OMS, o aleitamento materno reduz em 13% a mortalidade até os 5 anos. Tem ainda efeito protetor contra obesidade infantil, pois cada mês de amamentação materna está associado à redução de 4% no risco de desenvolvimento de excesso de peso, condição cada vez mais frequente no mundo.
Por quê?
Todos os que estudaram o tema, sob os vários ângulos (biológico, médico, psicológico, antropológico, sociológico, econômico e de qualquer outra natureza) demonstraram que a amamentação é essencial, insubstituível e o mais importante cuidado a oferecer às crianças nos primeiros meses de vida.
E essas vantagens dependem das características do leite humano:
- Fornece quantidades de água, proteínas, gorduras, açúcares, cálcio, magnésio, sódio e outros sais e vitaminas necessárias ao sadio crescimento das crianças.
- Contém inúmeros fatores anti-infecciosos, anticorpos e células vivas, tudo pronto para agir.
- É ajustado à necessidade da criança. Por exemplo, o leite que a mãe do prematuro produz tem composição alterada para atender à necessidade do filho. As mães de gêmeos produzem um maior volume de leite humano, por exemplo.
- Tem mais água no início da mamada e logo aumentam as quantidades de sais e vitaminas, açúcares e proteínas. Ao final da mamada há um aumento do conteúdo de gorduras o que é importante para desencadear os fenômenos da saciedade, do “estar com a barriguinha cheia”. Esse é um mecanismo para proteger da obesidade.
- Dispensa a esterilização e já vem pronto para ser consumido. É oferecido pelas mamas maternas que traz também oportunidade de fortalecimento do vínculo afetivo mãe-filho.
- Aumenta o espaço entre as gestações, pois a mãe que amamenta, sem uso de anticoncepcional, engravida menos do que as que não amamentam.
- Reduz a ocorrência de doenças e de mortes infantis, principalmente infecciosas, a curto e longo prazo.
- Oferece ainda outras vantagens como: instalação adequada da flora intestinal e melhor desempenho em testes de inteligência.
E a indústria de leites não pode produzir produto igual?
Muitos aspectos do leite materno e da amamentação são impossíveis de serem imitados. Como exemplos podemos citar as células vivas que existem no leite humano e a interação afetiva mãe/filho que não são industrializáveis.
Como os homeopatas veem a amamentação?
A amamentação aglutina tendências. É mais uma das vantagens. Os que praticam a medicina dos últimos séculos, como os alopatas e os homeopatas, e os que praticam a medicina milenar como os acupunturistas (chinesa) e os ayurvedas (indiana) estão lado a lado defendendo a amamentação. É possível até que seja o único aspecto da prática médica que os coloca na mesma posição. Todos defendem a amamentação.
O leite materno é realmente o melhor nos tempos iniciais da vida?
Sem dúvidas. As evidências científicas sobre os benefícios do aleitamento materno desde a primeira hora de vida são cada vez mais presentes na literatura. Baseados em estudos de metanálises, é muito forte o consenso de que a amamentação reduz a mortalidade infantil entre 4 e 10 vezes em locais de baixa renda. Em populações de alta renda, também são descritas vantagens como proteção contra otite média em crianças menores de 2 anos, internações por pneumonia e diarreia, entre outros.
O que é a mama e como funciona?
A internet oferece muito material para o estudo das mamas e do seu funcionamento. Um texto fácil de ser entendido, acessado pelo Google, é Anatomia e fisiologia da mama. Principais problemas mamários. Disponível no site unip.br.
Como acontece a produção e a liberação do leite?
O texto antes referido oferece dados ilustrativos fáceis de compreender. Mas basicamente é assim:
- Na gravidez, os estrógenos e progesterona preparam o tecido glandular para a produção láctea, o tecido responde e as mamas aumentam de volume já havendo pequena produção de leite ao final da gestação. As aréolas ficam escurecidas e ao seu redor aumentam e surgem pequenas protuberâncias que secretam substâncias que lubrificam e protegem o mamilo contra as infecções durante a amamentação. Essas substâncias possuem odor e sabor que estimulam sensorialmente o recém-nascido.
- Após o nascimento, com a saída da placenta, começa a produção mais abundante de leite. O rápido aumento no volume de leite produzido é chamado de apojadura e acontece entre 36 e 120h pós-parto.
- Quando o bebê suga a mama, a sucção estimula as terminações nervosas da aréola. Esses estímulos fazem com que a hipófise produza um hormônio chamado prolactina que estimula as mamas a fabricarem o leite e a ocitocina que faz a ejeção (descida) do leite, por isso, quanto mais o bebê suga, mais esse mecanismo é ativo e mais leite é secretado. As mamas funcionam em regime de demanda: se a criança para de sugar, elas deixam de produzir. No caso de gêmeos, as mamas duplamente estimuladas tendem a produzir quantidade suficiente para as duas crianças.
- Como dito, a sucção do bebê estimula a secreção da ocitocina que provoca a contração das células musculares dos ductos mamários, e, consequentemente, a ejeção do leite que é essencial para a amamentação. Esse mecanismo é sensível às angústias e aborrecimentos, mães relaxadas têm melhor reflexo mediado pela ocitocina.
- Existe ainda a presença de peptídeos inibidores da produção láctea, que se não retirados ajudaram a diminuição e até cessar da produção de leite.
- Dessa forma, as glândulas mamárias não estimuladas reduzem drasticamente e rapidamente a produção láctea. Para a manutenção da produção do leite, são necessários estímulos repetitivos obtidos pela amamentação no peito ou extração de leite.
Então o sistema nervoso é essencial no processo?
A supervisão que o sistema nervoso exerce sobre todo o processo demonstra quão importante o leite humano é. O sistema nervoso assume um papel valioso na amamentação e permite que o afeto, o amor, o desejo de amamentar, o sentido de preservação da vida influencie beneficamente em todo o ciclo da produção e da liberação do leite. Um estudioso do assunto diz que o leite materno também é produzido na “cabeça das mães”. Também possibilita que influências negativas (como o desejo de não amamentar, o medo, o insucesso de experiências anteriores) dificultem o processo.
A ocitocina que vocês falam causa a contração uterina?
É a ocitocina que contrai o útero durante e logo após o parto. Após o nascimento, é a ocitocina que tem um papel fundamental na expulsão da placenta, diminuição do sangramento (por isso é tão importante o aleitamento na primeira hora pós-parto), o que permite que o útero volte ao normal. As cólicas nas mães quando os bebês mamam indicam que a ocitocina está agindo para a ejeção do leite e para a contração uterina. As cólicas desaparecem logo após os primeiros dias.
Amamentação é ato instintivo ou não?
O princípio básico é o instinto que leva as mães a protegerem os filhos, a lutar para que sobrevivam, a correr riscos para o seu bem-estar, a dar parte do seu corpo para que vivam. As mães de outros mamíferos também agem assim. O ser humano pode usar o cérebro para aperfeiçoar o que a mãe natureza construiu com tanto esmero. O ser humano pode ser estimulado a amamentar, a praticar a amamentação com maior chance de acerto, a corrigir os possíveis problemas. O que é inato, instintivo, pode ser aperfeiçoado.
O que é colostro e o que é leite maduro?
O colostro é um tipo de leite secretado durante a gravidez e nos primeiros dias após o parto. Ele é muito rico em fatores de defesa, como imunoglobulinas e outros agentes antimicrobianos, substâncias imunomoduladoras e agentes anti-inflamatórios. As imunoglobulinas representam grande parte da fração proteica do colostro, constituindo elementos muito importantes na proteção do bebê contra microrganismos produtores de doenças. Segundo o Ministério da Saúde, o período de colostro se estende até o sétimo dia pós-parto.
O leite maduro é produzido a partir da segunda semana após o parto. Comparando-o com o colostro, ele apresenta mais lactose e mais gorduras. Esse fato é muito importante para o crescimento do bebê. Tudo isso comprova que o leite materno vai adequando sua composição à medida que a criança cresce e muda suas necessidades.
Quais os fatores que promovem e os que atrapalham a amamentação?
As mães que amamentam são submetidas às influências positivas e negativas. Se predominarem os fatores favorecedores, a amamentação tem alta possibilidade de ser bem-sucedida. Quando não, a amamentação pode falhar. Mas o fator mais importante é sempre a determinação de amamentar, de dar o peito aos filhos, de suportar os primeiros dias que são mais difíceis e logo passam, de tolerar a impaciência de certos companheiros, familiares e amigos ou o pouco estímulo de alguns pediatras. Resumidamente, segue a lista de alguns fatores que agem promovendo ou dificultando a amamentação.
Fatores que promovem: experiência pessoal e familiar anterior positiva, preparo para a prática da amamentação como a presença em cursos e em grupos de estudo sobre o assunto, apoio dos familiares e do companheiro, apoio dos empregadores públicos e privados, apoio pediátrico, ajuda dos grupos de promoção à amamentação, início precoce da amamentação que idealmente deve começar na sala de parto, rotinas hospitalares favorecedoras, crianças de termo e sadias e outras condições.
Fatores que prejudicam: além da falta de um ou mais dos fatores promotores da amamentação, atrapalham o processo a indústria de fórmulas infantis, bicos, chupetas e mamadeiras que, muitas vezes, não cumprem a legislação brasileira que protege a amamentação do marketing abusivo; a opinião contrária de pessoas próximas que cobram respostas rápidas das mamas; crianças prematuras e com algumas doenças; mães preocupadas com outros afazeres e muitas outras condições.
Esses fatores são modificáveis?
De uma maneira geral, sim. Falta o total cumprimento da Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos Infantis, Bicos Chupetas de Mamadeiras — NBCAL; o apoio do companheiro, da família, dos amigos e dos profissionais de saúde; a falta de orientação/informação e manejo para a resolução precoce dos problemas da mama puerperal; o devido cuidado com medos e tabus; a pressa, tensão, cobrança excessiva e impaciência são alguns dos principais fatores adversos que atrapalham e podem obviamente ser resolvidos.
As mamas pequenas dificultam a amamentação?
O volume das mamas é dado pela soma do tecido glandular mamário com outros tecidos, sobretudo da gordura (tecido adiposo) principal responsável pela forma e tamanho das mamas. Em resumo, mulheres com seios pequenos são capazes de amamentar suas crianças, sim.
A gravidez planejada interfere no sucesso da amamentação?
Gravidez “curtida”, pensada, favorece a amamentação e todos os outros cuidados para a sobrevivência das crianças. As mães ou os casais que programaram sua família enfrentam com muito mais tranquilidade a gestação, parto, pós-parto, amamentação e tudo o que diz respeito aos filhos. Mães ou casais que não pensaram na procriação, que não planejaram sua família, têm mais dificuldades com todos esses aspectos.
É importante o pré-natal para que a amamentação seja bem-sucedida?
Sem dúvidas. É no pré-natal que as futuras mães têm a oportunidade de conhecer as extraordinárias vantagens da amamentação para elas e seus bebês; conhecer os principais problemas e aprender sobre sua prevenção e solução; ser orientadas sobre posicionamento e pega; aprender sobre a extração e conservação do leite; ter as mamas examinadas e vários outros aspectos da amamentação.
Muita orientação, muita “neura” e muita expectativa podem atrapalhar?
Vivenciamos situações em que as mães destinaram muita “energia” no preparo e a amamentação foi um fiasco. Conhecemos outras que tocaram a vida com o máximo de naturalidade, sem valorar muito o assunto, e a amamentação foi um sucesso. Como tudo na vida, o excesso pode ser danoso. Pode criar uma expectativa irreal e frustrar nas primeiras dificuldades. Concordamos que não se deva criar “neuras”, cobrança excessiva e irracional. O ideal é que tudo ocorra de uma forma natural e que as orientações sejam passadas com suavidade, tolerância e sem radicalismos.
O parto vaginal facilita a amamentação?
As mães que têm parto vaginal se recuperam muito rapidamente. Aquelas submetidas ao parto operatório se recuperam mais lentamente, mas a via de parto por si só não deve ser obstáculo importante ao aleitamento materno. Em ambos os casos, os bebês devem ter contato pele a pele com suas mães imediatamente após o parto, por pelo menos 1 hora, e apoio ao início da amamentação, quando a criança mostrar sinais de prontidão para mamar, durante a primeira hora após o parto, desde que a “dupla” esteja bem.
Todas as mulheres são capazes de amamentar?
A mãe natureza, ao dotar as mulheres e as outras mães mamíferas das glândulas mamárias e ao colocá-las sob o controle do sistema nervoso central, montou um esquema excepcional para garantir a sua missão. E esse esquema não foi montado para falhar. As mulheres têm alta possibilidade de amamentar seus bebês. O modelo foi testado por milhares e milhares de anos e continua funcionando. Sim, as mulheres são capazes de amamentar com sucesso!
A produção de leite varia de mulher para mulher?
A quantidade da secreção láctea varia de mulher para mulher da mesma forma que variam outros aspectos da biologia de cada um de nós. São conhecidas as extraordinárias nutrizes que alimentam duas ou três crianças com o seu leite. Também varia de mulher para mulher a ejeção láctea e há algumas que enquanto amamentam em uma mama eliminam grande quantidade de leite pela outra. Em outras mulheres, isso não ocorre. A produção e a liberação do leite podem ser melhoradas com estímulos, apoio e orientação técnica apropriada.
É verdade que as mamas ficarão flácidas, feias após a lactação?
Na gestação, as mamas aumentam o seu volume, o mesmo ocorre após o parto, principalmente nos primeiros dias quando há a apojadura. É importante que a mulher use um bom suporte, sutiã, durante o dia e a noite. Além disso, se faz necessário manter a amamentação sobre livre demanda e extrair leite se notar que as mamas estão muito cheias. Entretanto, a genética modula a forma das mamas sendo um fator determinante da flacidez com o passar dos anos.
A amamentação é boa para a saúde das mulheres?
Todo órgão humano que não exerce a função sofre algum malefício. “A função faz o órgão” é um dos chavões da biologia. A mama que não é usada para lactação adoece mais. A que funciona plenamente tem menos câncer. A amamentação também diminui a incidência de câncer de ovário e de endométrio, além da hemorragia no pós-parto e, consequentemente, a anemia pós-natal. O peso da mulher que pariu e que amamenta volta mais rapidamente ao peso de antes da gestação. A amamentação também diminui a chance de depressão pós-parto. Esses são alguns dos muitos benefícios comprovados que a amamentação traz à saúde da mulher.
O leite materno ajuda na aceitação de cardápio variado no futuro?
As crianças que mamam são acostumadas a experimentar um alimento que não é monótono, que apresenta texturas e sabores diversos ao longo de uma única mamada e ao longo de toda a amamentação. A amamentação prepara o paladar das crianças para sabores e texturas distintas. O leite artificial é monótono. Do início ao fim da ingestão do leite artificial de uma mamadeira o sabor e a textura são os mesmos. As crianças que tomam leite artificial são acostumadas a um alimento muito padronizado. Essa é a explicação para justificar porque as crianças amamentadas ao peito são mais receptivas para receber outros alimentos no futuro. Evidentemente, há outros fatores envolvidos.
Existem doenças transmissíveis pelo leite materno?
Sim, em poucas situações. O caso mais clássico ocorre com a HIV / AIDS quando, se a mãe está com o vírus, a amamentação deve ser suspensa. O bacilo da tuberculose não passa pelo leite e a mãe pode amamentar. Entretanto, recomenda-se, se a mãe tem tuberculose, cuidados especiais com as secreções respiratórias e com a saliva. A mãe deve ser tratada, mas o aleitamento deve ser mantido. No caso de sífilis, a amamentação é mantida e a mãe deve ser corretamente medicada. Infecções como rubéola, caxumba, hepatite “A”, “B” e “C”, dengue e as gripes epidêmica e pelo vírus H1N1 não contraindicam a amamentação. Se há dúvidas consultem os pediatras. Na seção Muito da prática, há mais informações sobre o tema.
O leite materno cura doenças? E quais doenças ele evita?
Sim, o leite materno é capaz de curar e prevenir várias doenças. Para a diarreia aguda, é um excelente remédio uma vez que ajuda a manter a criança hidratada apesar das evacuações frequentes. O leite humano protege as crianças contra várias doenças infecciosas (as digestivas e as respiratórias são as principais). Além disso, crianças amamentadas têm menor risco de desenvolverem doenças crônicas como diabetes, alguns tipos de câncer, excesso de peso, obesidade, hipertensão arterial, aumento do colesterol e doenças alérgicas, como asma e rinite. Ainda protege contra hábitos bucais deletérios e problemas dentários e fonoaudiológicos deles decorrentes, entre outras enfermidades.
Li que o leite materno protege até contra a pressão alta. É real?
Estudo recente de 2021 aponta que embora os benefícios do aleitamento materno exclusivo sejam indiscutíveis, qualquer aleitamento materno, independente da duração ou exclusividade, está associado à menor pressão arterial aos 3 anos de idade da criança.
É recomendado usar o leite materno como colírio?
O tema é polêmico. Alguns pediatras não recomendam por temer que o leite humano sirva como meio de cultura para o crescimento de bactérias. Há, por outro lado, pediatras que indicam o uso do leite humano como colírio argumentando que a população há muitos anos adota essa prática. Outros pediatras que aceitam esta medida não têm constatado nenhum problema em uma clientela muito bem controlada, mas isso deve ser muito bem discutido com os médicos assistentes e mesmo com os oftalmologistas, para basear a rotina em trabalhos científicos robustos.
Alguns medicamentos que usamos podem passar para o leite?
A maior parte dos medicamentos passa para o leite em quantidades tão pequenas que, raramente, afetam a criança. De um modo geral, parar de amamentar é mais perigoso que os riscos atribuíveis à pequena quantidade dos medicamentos que passam para o leite. Existem manuais do Ministério da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria que trazem listas de medicamentos liberados e contraindicados. Existem ainda sites para consultas como o https://www.e-lactancia.org que também traz informações relevantes. De qualquer modo, se faz necessário entrar em contato com o pediatra antes de iniciar qualquer medicamento para a mulher que amamenta.
Posso dar leite de outra pessoa a meu filho?
O ideal é que as mães amamentem os seus próprios filhos. Existe o risco de transmissão de doenças pelo leite humano, ainda que seja leite de parentes muito próximos como sua própria irmã. É essencial submeter o leite à pasteurização e ao controle de qualidade num banco de leite humano para o uso em filhos de outras mulheres. Só após o controle de qualidade sensorial, fisioquímico, pasteurização e controle microbiológico é que o leite humano será liberado para uso por outras crianças.
Podemos engravidar durante a amamentação?
O aleitamento materno atrasa o retorno da ovulação e da menstruação e é uma forma importante de retardar uma nova gravidez. A liberação da produção de grandes quantidades de prolactina é responsável pelo espaçamento intergestacional produzido pelo aleitamento materno. A eficácia depende da amamentação contínua, regular, exclusiva com menos de 6 meses pós-parto e sem retorno à menstruação. Vários casais e seus médicos optam por acrescentar algum outro método anticoncepcional caso outro bebê não esteja nos planos em curto prazo. A norma é sempre conversar com seu médico e discutir a anticoncepção durante a amamentação e em todos os períodos de sua vida reprodutiva.
E o uso das injeções e pílulas anticoncepcionais?
São prescritas pelo médico as que não contêm estrógeno, e, sim, apenas progesterona. Se a mulher desejar e não houver contraindicação médica, o DIU pode ser inserido durante a sua permanência no hospital. O momento mais indicado para colocação do DIU é logo após a expulsão da placenta. Porém, pode ser inserido a qualquer momento dentro de 48 horas após o parto. Passado esse período se deve aguardar, pelo menos, quatro semanas para a sua inserção. A camisinha é outra opção que deve ser pensada.
Existem leis que garantem a amamentação?
A Consolidação das Leis do Trabalho garante que as mães se afastem do trabalho (licença-maternidade) por 120 dias ou por 180 dias quando elas são funcionárias das empresas estatais (federais, estaduais e municipais). A legislação também incentiva as empresas privadas a adotarem a licença de 180 dias. Há ainda dispositivo legal que permite que as mães tenham dois descansos especiais de meia hora cada um durante a jornada de trabalho de 8 horas diárias até completar 6 meses de vida. Geralmente, as mães juntam e usam esse direito de uma hora, no início ou no final do dia de trabalho. A propósito, lembramos a importância de creches em locais de trabalho. Essa é uma reivindicação que todas devem fazer mesmo sabendo que, na realidade, é difícil. Na ausência de creche, a mulher tem direito a um auxílio para a creche. Há empresas que também disponibilizam uma sala denominada sala da mulher trabalhadora que amamenta. O espaço é usado para extração do leite materno e seu congelamento. Na saída, a lactante leva seu leite extraído e congelado, em caixa isotérmica com baterias de gelo, para casa a fim de ser usado pelo seu filho de preferência no copo ou colher. Indague se sua empresa dispõe desse tipo de serviço.
Quais as propostas dos bancos de leite humano (BLH)?
Os BLH promovem, protegem e apoiam o aleitamento materno visando à prevenção e cuidado dos problemas que podem acontecer durante a amamentação, além de oferecerem os serviços de coleta, seleção, classificação, processamento, controle de qualidade sensorial, fisioquímico e microbiológico e distribuição, com priorização definida pelo Ministério da Saúde para recém-nascidos prematuros e/ou doentes, cujas mães ainda não têm condições de extração do próprio leite materno.
Como funcionam os grupos de apoio à amamentação?
Há aspectos a aprender para bem executar e prolongar a amamentação. A maioria das mães precisa de apoio e incentivo constantes. Assim, vários grupos se organizaram, nas universidades e fora delas, alguns como ONGs, para auxiliar na tarefa de estimular a amamentação. Muitos estão ligados aos bancos de leite humano que são o cérebro de muitos desses movimentos. Nas redes sociais, também encontramos alguns perfis de apoio à amamentação com informações e orientações de qualidade.
Todo esse “auê” sobre o uso do leite humano tem funcionado?
O aleitamento materno é objeto de campanhas em todo o mundo. Muitas entidades estatais e não estatais se engajam para o sucesso da Semana Mundial da Amamentação, Dia Mundial de Proteção do Aleitamento Materno, Semana Mundial de Doação de Leite Humano e dos outros eventos que contribuem para informar, conscientizar e incentivar as mães, os familiares e a comunidade sobre o tema. Os resultados são perceptíveis. Há cerca de 20 anos o percentual de mães que amamentava seus filhos era bem menor que hoje. Também era menor o número de profissionais envolvidos.
Posso coletar o meu leite em casa e levar para o BLH?
Podem, se a coleta for para uso de seu próprio filho para a volta ao trabalho, para que o seu leite seja pasteurizado num BLH, caso contrário, se for para doação de leite será transportado pelo próprio BLH. Há necessidade que se sigam algumas regras, orientadas pelos bancos de leite humano e postos de coleta de leite humano, sobre higienização, coleta e conservação do leite humano, como por exemplo: ferver o frasco de vidro e a tampa rosqueável de café solúvel por 15 minutos após o início da ebulição ou receber o frasco esterilizado pelo BLH, no caso de doação do leite; não encher totalmente o frasco para não quebrar quando do congelamento; deixar aproximadamente dois dedos do frasco sem leite; manter o leite humano extraído congelado no congelador ou freezer por até 10 dias, para dar tempo de entrar na rotina da pasteurização do BLH e levar para o BLH em caixa térmica com baterias de gelo, na proporção de um volume de leite para três volumes de baterias de gelo, sem acrescentar gelo em escamas ou em cubos. Se a mulher decidir ajudar a salvar vidas, doando leite humano extraído e morar na região metropolitana de um município que tenha BLH, ela deve entrar em contato por telefone, posteriormente se cadastrar e se for liberada como doadora, seu leite será transportado pelo próprio BLH. As diversas outras questões sobre higienização, coleta e conservação do leite humano extraído serão contempladas no item Como fazemos para extrair o nosso leite?
18.1.2Muito da prática
Como preparar a mama para a amamentação?
A “preparação” das mamas para a amamentação, tão difundida no passado, não é mais uma orientação rotineira. A gravidez se encarrega disso. Manobras para aumentar e fortalecer os mamilos durante a gravidez, como esticar os mamilos com os dedos, esfregá-los com buchas ou toalhas ásperas, tomar sol diariamente na região mamilo-areolar e uso de óleos ou cremes, não são recomendadas, pois na maioria das vezes não funcionam e podem ser prejudiciais, inclusive deixando a pele do local com maior sensibilidade. O uso de conchas ou sutiãs com um orifício central para alongar os mamilos também não é eficaz e, por isso, não mais recomendado. A maioria dos mamilos curtos apresenta melhora com o avançar da gravidez, sem nenhum tratamento. Em mulheres com mamilos verdadeiramente invertidos, a intervenção logo após o nascimento do bebê é mais importante e efetiva que intervenções no período pré-natal.
Quando começar a dar o peito?
Idealmente na primeira hora após o parto. O sucesso da nutrição com o leite humano muito depende do que acontece nessa “hora de ouro”. Estudos em vários locais demonstram isso. Mãe e criança que começam a praticar a amamentação muito cedo têm maior chance de se entrosar e de ter sucesso nessa excepcional missão.
Deve haver um cuidado maior para que tudo funcione bem? O que nunca deve ser esquecido?
É não separar mãe do filho. Mandar criança para o berçário é coisa do passado. E como diz a máxima que criança não nasce com “manual de funcionamento”, esSe manual é próprio para cada bebê e começa a ser escrito nas primeiras horas de vida. É essencial que, após um tempo mínimo de descanso, também usado para que a dupla mãe e filho se preparem, o bebê e a mamãe comecem a interação visando a amamentação. Deve haver contato pele a pele e o filho novinho deve iniciar o processo de conhecimento do corpo materno, obviamente e principalmente das mamas.
Mas o bebê está pronto para mamar?
Prontinho. Bebê nascido em família planejada, de gravidez normal, de parto sem transtornos e que nasce bem e sadio está apto para a amamentação, emite sinais de que está prontinho para começar a interagir com a mama materna. É fantástico observar esses mesmos fatos na biologia de todos os mamíferos.
Quais os sinais que eles mostram?
O bebê leva as mãos à boca e faz tentativas de sucção. Emite sons e tenta tocar o mamilo materno. Foca na área escura da mama, que serve de alvo. Movimenta-se em direção à mama e ao ter contato com o mamilo pega a mama com a boca muito aberta. Abre a boca, estica e vira a cabeça para procurar pelo peito materno. Coloca a mão na boca, chupa / morde as mãos, dedos, lençol ou qualquer objeto que toque a região perioral. Faz movimentos rápidos com os olhos fechados ou abertos e joga a cabeça para frente e para trás. Franze as sobrancelhas, fica agitado e pode chorar. Esses sinais são importantes para que a mulher posicione o seu filho no peito, antes de ficar agitado, chorando muito, o que dificulta a pega adequada.
Há perigo para as crianças esperarem a chegada do leite materno?
Não. A descida do leite ocorre entre o terceiro e o quinto dia depois do parto. Nesse período, o recém-nascido está sendo nutrido com o extraordinário colostro que supre todas as suas necessidades. Nos primeiros dias, são reduzidas as exigências nutritivas. Não se deve oferecer fórmula, chás, água com glicose ou outro açúcar. Isso atrapalha. O estômago do bebê fica cheio, ele solicitará menos o peito, o que não é bom para a produção de leite.
Oferecer uma gaze molhada com glicose é correto?
Isso não é indicado. Os bebês podem ficar nauseados e passar longo tempo dormindo sem mamar, além do risco de acidentes. Sugerimos colocar os bebês para sugar o peito das mães para se acalmarem e estimularem a produção e descida do leite.
Como deve ser a pega adequada? O que fazer quando os mamilos são planos?
A pega adequada ocorre quando o bebê abocanha a aréola — parte escura ao redor do mamilo — e não só o bico do peito. Seguem alguns pontos chave para uma pega adequada:
- A boca do bebê deve estar bem aberta, com o lábio inferior projetado para fora (evertido), o queixo tocando o peito (boca de peixe).
- A aréola deve estar mais visível acima, do que abaixo da boca do bebê.
- As bochechas devem estar arredondadas, o bebê suga lenta e profundamente e emite sons de deglutição do leite.
A boca dos bebês modela o mamilo materno. Então, não há necessidade de preocupação com o mamilo plano, se a pega for adequada.
Qual a posição para amamentar?
A melhor posição é aquela que for mais confortável para vocês e seus bebês. Vocês podem estar deitadas, sentadas, de pé, andando. À noite, muitas vezes, vocês podem se deitar de lado com o bebê e amamentar. A criança deve ficar bem de frente para as mamas, com a cabeça e o tronco alinhados, a cabeça e o corpo do bebê devem estar apoiados (assim como o corpo e as nádegas, no caso de recém-nascidos e lactentes jovens), o queixo tocando a mama e o bebê mantido próximo ao corpo da mãe.
Devemos dar a chupeta?
Os bebês têm grande necessidade de sugar. Nada melhor que sugar os peitos maternos para satisfazer essa necessidade. O uso da chupeta causa confusão de pega, pois o bebê usa grupos musculares diferentes ao sugar o peito ou a chupeta.
O uso da mamadeira interfere na amamentação?
A recomendação é colocar o bebê no peito logo após o nascimento. Quanto mais cedo melhor. Não ofereçam mamadeira, pois a “lei do menor esforço” funciona desde cedo. A mamadeira permite que os recém-nascidos, fácil e rapidamente, ingiram grande quantidade de leite ou de outro líquido. Por causa dessa facilidade, eles tendem a rejeitar a mama. Pensem como eram as coisas desde muitos anos: “peito, peito, peito”. A amamentação implica luta, busca do ideal, do melhor. Envolve contato íntimo e, por isso, muita aproximação física e afetiva entre mãe e filho. Vocês se expõem aos filhos e eles a vocês. Há entrega, doação e necessidade de que vocês ciclem as suas vidas em função das dos seus filhos, por um determinado período. Os bebês aprendem a conquistar o que querem! A mamadeira qualquer pessoa dá. O peito, só vocês, as mamães. A sucção no peito é diferente da sucção da mamadeira. A amamentação envolve vários músculos, a língua faz movimentos de ondulações para espremer o mamilo e a aréola no palato. Na mamadeira, a língua fica praticamente passiva. Quando for absolutamente necessário dar alimento que não seja no peito, é preferível usar colher ou copo.
Quanto tempo deve durar cada mamada?
O tempo é livre. Existem os nenês “gulosos”, os “preguiçosos”, os “irrequietos” e os “biqueiros”. Há os de “pavio curto” e os de “pavio longo”. As características das crianças e também as das mães fazem variar o tempo da sucção e tudo o que envolve a relação mãe/filho. A preocupação com a duração da mamada prejudica a amamentação. Lembrem-se de que há muitos séculos, muito antes do relógio, as mães aleitavam seus filhos. Se recordem que os animais dão leite às crias sem marcar tempo, sem alguém para dar “pitaco”. O instinto, a natureza, a necessidade de preservar o filho sadio e outros impulsos gravados na sua biologia dirigem todo o processo. Então, a lactação no ser humano também é processo natural e não deve estar submetida a esquemas rígidos. Os seus filhos podem não se enquadrar num programa que limite o acesso à mama. O relógio, como símbolo dessa limitação, atrapalha. Pensem que o peito oferece leite, amor, carinho e afeto. Se não é possível precisar a quantidade de alimento que seus filhos necessitam naquele dia, naquela mamada específica, muito menor é a capacidade de o pediatra, ou de quem quer que seja, de dizer quanto de amor, de afeto, de proteção, de “curtição” que eles necessitam! A recomendação é deixar as crianças mamarem livremente, sem horário, sem esquema.
Em cada mamada, devo dar um ou os dois peitos?
Há bebês que mamam num peito e logo em seguida no outro e há os que se contentam com apenas um peito. Vocês devem conhecer seus filhos e atender às características deles. E para aqueles que se fartam com um peito por mamada é recomendável alternar. Agora no esquerdo e na próxima será no direito. Se o bebê sugou as duas mamas na mesma mamada, na próxima começa com a última que mamou.
Há rigidez no horário da amamentação?
É natural que no início da amamentação exista certa irregularidade no esquema. Há fases em que os bebês mamam repetidamente e outras em que dormem três, quatro a cinco horas. É importante sempre lembrar que a mamada frequente estimula a secreção láctea. Após três a quatro semanas, de forma natural, não imposta, o bebê começa a estabelecer certa rotina horária. O mais comum é que a criançada queira mamar a cada uma e meia a quatro horas. Isso é flexível e adaptável para mãe e filho. Estejam sempre prontas a tolerar que o filho que nasceu recentemente tenha um comportamento bem diverso do anterior e ainda mais diferente do que ocorre com o filho da amiga.
E se eles preferirem mamar mais à noite?
Algumas vezes, os bebês preferem mamar mais à noite e dormem praticamente durante todo o dia. Isso cansa as mães que, às vezes, ficam exaustas e estressadas o que pode ocasionar diminuição da produção de leite. Nesses casos, após algumas semanas de vida, talvez seja prudente orientar para que as mães tentem interferir no horário do sono diurno. Uma sugestão é permitir períodos de sono de, no máximo, três horas durante o dia. Outra recomendação importante é que durante o dia o ambiente deve ser claro e ventilado. E durante a noite deve predominar a penumbra e o silêncio.
Mesmo nos bebês maiores, isso é aceitável? Dar o peito à noite?
Só quando as mães estiverem muito cansadas e seus bebês crescendo bem, com peso adequado, é aceitável tentar interferir nessa rotina de mamar muito à noite. Uma sugestão é extrair leite materno durante o dia para ser ofertado por outra pessoa, de colher ou copo, às crianças, à noite. Mas, lembrem: mamar durante a noite é muito importante para a produção de leite, pois é durante a madrugada que há aumento do hormônio prolactina, responsável pela produção de leite, principalmente até a amamentação ser estabelecida.
É bom acordar o bebê para mamar durante a madrugada?
Quando o bebê está bem e ganhando peso adequado, não há a necessidade de acordá-lo durante a noite.
E se os bebês dormem muito?
Há muitos modelos da relação criança/peito e muitos modelos de sono. Há os que querem o peito com muita frequência e os que solicitam a cada hora ou a cada duas, três, quatro ou cinco horas. Há os que dormem horas seguidas e há os que dormem curtos espaços de tempo. Quando tudo está bem (bom aspecto geral, seis ou mais micções nas 24 horas, boa vitalidade geral e no momento da amamentação, ganho de peso esperado, exame pediátrico normal) é pouquíssimo provável que exista problema. Mas, lembre-se que é fundamental o acompanhamento pelo pediatra.
As crianças têm um papel importante na amamentação?
As crianças calmas, relaxadas, tolerantes, são mais fáceis de serem amamentadas. Essas, pela vida afora, deverão ser mais fáceis de serem cuidadas. Por outro lado, as irrequietas, de “pavio curto”, são mais difíceis de serem amamentadas. Dentre as tarefas que a mãe desempenha, há mais essa: conhecer as peculiaridades emocionais dos filhos e procurar mecanismos de ajustes. A amamentação favorece a adaptação mãe/filho.
Se as crianças choram muito, pode ser pouco leite?
A produção de leite materno varia. Há períodos em que a mama produz maior quantidade de leite e outros em que produz menos. A liberação do leite materno estocado nas mamas também sofre variações: ora o leite materno é solto com mais facilidade, ora com menos. As preocupações, a tensão e o estresse reduzem a capacidade que tem a mama de liberar o leite produzido e a criança pode chorar reclamando. Se isso ocorre, não se apressem. Tenham paciência, não deem mamadeira precipitadamente. Com perseverança e calma, tudo volta ao normal. Lembrem-se de que o humor de seu filho varia. Há dias em que pode estar “chateado”, com o “pavio menor”. Não tomem medidas apressadas. Certifiquem-se de que as outras causas do choro — xixi, cocô, frio, calor — não estão interferindo. Nossa sugestão é aumentar a frequência das mamadas e esperar o outro dia, que pode ser diferente. Falem com o pediatra. Ele é capaz de orientar adequadamente.
É angustiante não saber o quanto as crianças mamam! O que fazer?
Peito da mãe não é “bomba de gasolina”: um, dois, 10, 20 litros... Peito não tem marcador: 10, 20, 50, 100 mililitros... Peito de mãe, amamentação e saciedade são questões complexas que envolvem aspectos físicos (o volume de leite ingerido) e emocionais (troca de afeto). O fato de vocês não saberem quanto os seus bebês estão mamando é mais uma das vantagens da amamentação sobre a mamadeira. A nutrição dos bebês com leite materno é um dos primeiros desafios que mães, filhos e familiares têm que vencer juntos. Nutrir, sem se importar com a quantidade de alimento ingerido pelo filho, é importante para toda a vida. Mães que não estão excessivamente ligadas a essa questão aceitarão melhor quando os filhos, aos 2, ou 7, ou qualquer outra idade, estiverem comendo “pouco”! A mamadeira permite aferição do volume que a criança ingere e neurotiza o processo da nutrição. O importante é estar alerta para outros indicadores de saúde e não para a quantidade de alimento ingerido. Alguns desses indicadores são: ganho de peso adequado por dia, eliminação de pelo menos seis “xixis” no período de 24 horas e avaliação do pediatra. Esses indicadores podem acalmar as mães.
Se tirarmos o leite e só obtemos 15 mL! Damos mamadeira?
A sucção é o maior estímulo para que o leite materno seja ejetado. Não há processo de extração que funcione tão bem quanto a boca do bebê. Os 15 mL retirados com a bomba extratora ou manualmente não significam escassez de leite. Pode haver muito leite que a extração por métodos artificiais não consegue tirar. O que é fundamental é observar a criança e os outros indicadores de crescimento, de saúde e de bem-estar.
As crianças que tomam leite de lata dormem mais. O que ocorre?
O leite materno e o artificial, habitualmente de vaca, são distintos. O leite materno tem cor, odor, sabor e características próprias. Ele é rapidamente digerido, facilmente aproveitado e logo o bebê volta a solicitar mais alimento. Isso é ótimo! Quanto mais sucção, mais leite é produzido. Já a digestão do leite de vaca é mais lenta. Ele deixa o bebê “empachado”, com o leite “pesando” no estômago. O bebê que tomou o leite de lata passa horas “desmaiado”, sem estimular o peito, o que é um desastre para a amamentação. Então, o leite materno não é fraco. O leite materno é diferente e são essas diferenças que o fazem maravilhoso, miraculoso, extraordinário!
O leite pode chegar a acabar?
A produção do leite materno depende do balanço entre fatores promotores e inibidores da lactação. O leite diminui e pode até secar se não houver estímulo suficiente para manter uma boa secreção. Para garantir produção, a maneira mais antiga e eficaz é colocar o bebê no peito para sugar com frequência, quando o bebê desejar.
Quando o leite acaba, a produção está encerrada de vez?
Primeiro, é preciso derrubar um mito: o leite não acaba. O que acontece, muitas vezes, é que a falta de estímulo reduz a produção. Um trauma psicológico que afete a mulher ou simplesmente a ausência de sucção do bebê, devido à introdução de mamadeira, por exemplo, são algumas das causas mais comuns. Mas isso pode ser revertido. Para que as mamas voltem à ativa, nada melhor que o estímulo do próprio bebê. As mães não devem confundir “leite secando” com uma diminuição da produção que pode indicar que mãe e bebê estão se ajustando, que a mãe está produzindo a quantidade que o filho necessita. Se a mãe continuar insegura ou as dúvidas continuarem, é bom consultar o médico.
O leite materno é bom para os prematuros?
O leite humano é o melhor para todos os bebês, inclusive para os prematuros. Para estes últimos o leite das mães é mais importante ainda, pois contém mais proteína. Os prematuros precisam de proteína extra e ganham mais peso com o leite de suas próprias mães. Os anticorpos passados pelo leite elaboram as defesas do organismo, o que é importante para evitar infecções nos prematuros que, de uma forma geral, tendem mais a adoecer. O calor do corpo da mãe é vital para manter o neném prematuro bem aquecido. Carinho, amor, aconchego e leite materno, enfim, essa é a receita infalível para qualquer recém-nascido, sobretudo se nasceu antes do tempo. Muitas vezes, é necessário que a mães extraiam seu leite, para ser oferecido através de outras técnicas como a alimentação por sonda, até que os prematuros tenham condições de mamar diretamente no peito. O pediatra orienta sobre isso.
E quando o bebê que mama vomita sangue?
A causa mais comum de sangue no material vomitado pelo bebê que mama é a ingestão de leite com sangue da mãe. Isso é muito comum quando o peito está fissurado, rachado, ferido. O sangue deglutido pelo bebê, nessa situação, não causa malefícios. Um pouco desse sangue pode ser observado no material golfado ou vomitado. Isso, geralmente, não representa problema, mas causa um montão de dúvidas. Porém, o pediatra precisa ser avisado, pois há outras causas de sangue no material vomitado.
Meu bebê toma meu leite e evacua várias vezes. O que faço?
Isso não é doença. Não é diarreia. É normal. O leite materno produz flora intestinal especial e provoca aumento do número de evacuações moles, explosivas, com gás. Essa é mais uma das vantagens do leite materno. A criança, alimentada com outros leites, apresenta, geralmente, dificuldade para evacuar.
Alguns bebês que mamam ficam dias sem evacuar, não é?
Certas criancinhas que tomam apenas o leite das mamães podem evacuar a cada três, cinco ou mais dias. Isso também preocupa as mães. Habitualmente, os bebês estão bem, sem qualquer incômodo, não apresentam abdome distendido e quando evacuam, após esses vários dias, as fezes são amolecidas e eliminadas sem sofrimento. Os pediatras explicam às mães que isso é normal e que não há nada a fazer. O supositório de glicerina e a introdução de suco de laranja ou outro alimento laxante para os bebês, nessa situação, não são indicados. Podem, inclusive, prejudicar o bebê e a amamentação. Mas existem doenças que retardam a eliminação de fezes. Assim, os pediatras devem ser avisados quando bebês jovens passam dias sem evacuar, mesmo que tudo aparentemente esteja normal.
E quando o bebê fica amarelinho, pode ser do meu leite?
O bebê “amarelinho”, com icterícia, deve ser avaliado pelo pediatra. Existem várias causas de icterícia: diferença do tipo sanguíneo entre as mães e os filhos o que pode provocar intensa destruição das hemácias nas crianças, doenças infecciosas congênitas ou adquiridas após o parto, defeitos das vias biliares e outras. Uma causa de icterícia é o leite materno. Isso não é doença. Não causa sintomas, não retarda o ganho de peso, não produz irritabilidade, não causa qualquer tipo de dificuldade para as crianças. É produzida por substâncias de ação hormonal que existem no leite humano e que interferem no metabolismo das bilirrubinas, os pigmentos da icterícia. Essa icterícia aparece de um modo geral, no início da segunda semana de vida e pode durar alguns meses. A amamentação nunca deve ser suspensa se ficar definido que a icterícia é produzida pelo leite materno. Os prejuízos de parar a amamentação são importantes.
Devemos oferecer água para os bebês que mamam no peito?
Durante a amamentação, o leite humano oferece a quantidade de água que as crianças precisam. Não é necessário ofertar água extra.
É necessário dar vitaminas e ferro durante a amamentação exclusiva?
Não. As quantidades e a forma com que o cálcio, o fósforo, o ferro, os outros minerais, e as vitaminas, estão no leite materno satisfazem inteiramente as necessidades orgânicas do bebê nos primeiros seis meses de vida durante a amamentação exclusiva. Nada deve ser acrescido, a não ser que haja alguns fatores de risco para anemia, por exemplo, que o pediatra identificará nas consultas de acompanhamento. Entretanto, no caso de bebês prematuros são preconizadas algumas suplementações com vitaminas, sais minerais e ferro.
Mas muitos pediatras estão indicando vitamina D e ferro, não é?
A orientação sobre a prevenção da anemia por deficiência de ferro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) para os lactentes em aleitamento materno exclusivo, sem fator de risco para anemia, deveriam iniciar suplementação de ferro oral apenas a partir dos 6 meses de vida e por 24 meses. Se houver fatores de risco para a anemia, a SBP preconiza introdução da suplementação de ferro a partir dos 3 meses de vida. Em se tratando da Vitamina D, a SBP orienta a suplementação a partir da primeira semana de vida, inclusive para recém-nascidos e lactentes em aleitamento materno exclusivo, independente da região do país. Mas, lembramos que sempre é importante que vocês discutam tudo com o pediatra. E para completar a resposta, com visão científica de abril de 2024, reproduzimos mensagens divulgadas pelo Prof. João Guilherme Alves, sobre os dois temas:
Ferro: bebês amamentados necessitam de suplementação de ferro?1
A Academia Americana de Pediatria (AAP) recomenda que os bebês exclusivamente amamentados, nascidos a termo, recebam suplemento de ferro por volta dos 4 meses de idade. Essa suplementação é recomendada até que alimentos ricos em ferro sejam introduzidos na dieta. Para os prematuros ou que nasceram com baixo peso (<2.500g), a recomendação é iniciar o ferro mais cedo, por volta do 1° ao 2° mês de vida. Sabe-se que os recém-nascidos a termo, apresentam reservas de ferro suficientes para os primeiros 6 meses de vida. Por essa razão, a Center for Disease Control (CDC) recomenda a suplementação com ferro apenas aos 6 meses, para os bebês amamentados e que não recebam (ou não aceitem) alimentos enriquecidos com ferro. A razão é a de que o leite materno, apesar de aparentemente conter uma quantidade de ferro considerada pequena, supre bem as necessidades do organismo no primeiro semestre de vida. Após os 6 meses de vida, os bebês necessitam de uma fonte complementar de ferro, afora o leite materno. Para as crianças que recebem fórmulas lácteas enriquecidas com ferro, não há indicação para a suplementação com ferro através de medicamentos. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a suplementação diária com ferro oral dos 4 aos 23 meses de vida, reduz a prevalência de anemia, entretanto, as reações colaterais da administração do ferro e os efeitos sobre o crescimento e o desenvolvimento das crianças são incertos. Em conclusão, apesar das dúvidas sobre o tema, mesmo entre as grandes instituições mundiais de saúde, o que aponta para a necessidade de mais estudos, cada criança deve ter uma avaliação criteriosa e a suplementação de ferro não deve ser iniciada antes dos 4 meses de idade, em bebês nascidos a termo e exclusivamente amamentados.
Vitamina D: bebê que mama precisa tomar vitamina D?
A vitamina D tem várias funções no nosso organismo, em especial no metabolismo do cálcio e do fósforo, competindo para a saúde óssea. A vitamina D2 (ergocalciferol) e a vitamina D3 (colecalciferol) são obtidas respectivamente de fontes alimentares vegetais e animais. A vitamina D3 também é obtida através da pele (7‐dehidrocolesterol) pela ação dos raios solares ultra-violeta. As doses recomendadas na infância são de 400 UI (< 1 anos de idade) a 600 UI por dia. Apesar do leite materno apresentar uma quantidade relativamente baixa de vitamina D, as crianças amamentadas exclusivamente nos seus primeiros 6 meses de vida, crescem de forma bastante adequada e apresentam uma saúde óssea íntegra. Além do mais, estudos em crianças em países com clima temperado, têm mostrado que um total de apenas algumas horas de exposição ao sol no verão, produz vitamina D suficiente para evitar deficiência por vários meses. Em nossa região, a exposição solar é tanta que não vemos formas graves de deficiência de vitamina D, conhecido com o nome de raquitismo, mesmo em crianças com graves privações nutricionais. Por tudo isso, o questionamento da orientação de suplementação com vitamina D para bebês exclusivamente amamentados. Será que a natureza errou na dosagem da vitamina D do leite materno? E o tradicional banho de sol dos bebês, sempre cedinho, é uma prática equivocada? Baseado nas evidências científicas atuais as respostas são negativas a essas duas questões. Acrescentamos ainda, o risco de suplementar bebês com vitamina D pois ela é lipossolúvel e pode se acumular no organismo. Em casos de dosagens em excesso pode causar intoxicação, caracterizada pelo aumento do cálcio circulante (pode prejudicar a função renal e das artérias), elevação do fósforo e diminuição do hormônio da paratireoide. Os bebês apresentam choro contínuo (cefaleia e dores ósseas), irritabilidade, perda de apetite, decréscimo no ganho ponderal, entre outros sinais e sintomas. Vários casos de intoxicação por vitamina D em bebês amamentado vem sendo reportados (Clin Case Rep. 2023;11: e7635).
A alimentação da mãe interfere no leite materno?
É aconselhável que vocês tenham uma alimentação absolutamente livre. Se seus filhos apresentarem dificuldades, como sangue nas fezes, lesões na pele, falta de ganho de peso etc., os pediatras deverão ser consultados e apenas eles poderão relacionar a alimentação das mães aos problemas apresentados e sugerir modificação dietética.
Quais alimentos devemos consumir?
Não existe um cardápio específico para as mães que amamentam. O ideal é que vocês se alimentem da forma mais saudável possível. As mulheres sentem mais sede na fase da amamentação, dessa forma tome mais água para matar a sede. É recomendado que vocês façam cinco ou seis refeições e caprichem nos legumes, verduras, grãos e frutas. Não é necessário aumentar o consumo dos doces.
Quais alimentos que consumimos podem causar problemas nos filhos?
O alimento que os médicos mais relacionam com algumas dificuldades apresentadas pelos bebês é o leite de vaca que a mãe ingere. Mas a população tem receio de ingerir crustáceos, carne de porco, café, chocolate, nozes, castanhas, amendoim, ovos e outros produtos durante a amamentação. Não há evidências científicas de que isso esteja correto e a orientação é que as mães comam todos os alimentos que são importantes para sua nutrição, inclusive o leite de vaca ou outros alimentos que só deverão ser suspensos sob orientação médica. Se houver problemas mais significantes com o bebê, os pediatras devem ser consultados e eles poderão orientar medidas especiais com retirada de um ou mais alimentos na dieta da lactante. O álcool também deve ser evitado. A substância pode dificultar a absorção de nutrientes pela mãe, além de ser absorvido pela criança através do leite materno.
Existem alimentos que aumentam a produção do leite?
Não existem alimentos que, de uma forma particular, incrementem a produção láctea. O maior estímulo para a produção de leite é a sucção do bebê. As mamas devem ser estimuladas, para que a secreção do leite se faça de forma contínua e abundante. Isso é tão importante que se o bebê não mamar por algum motivo, é importante realizar a extração do leite materno para estimular a produção.
O povo fala que comida de milho aumenta o leite. É verdade?
A população pensa que alguns alimentos favorecem a secreção láctea. Comida de milho, sangria de vinho, cerveja preta, caldo-de-cana entre outros, segundo a experiência popular, aumentam a secreção. A visão médica é recomendar alimentação balanceada, com líquidos para saciar a sede. Comam o que gostam e o que querem, mas sempre estejam atentas para evitar os excessos alimentares. E, cuidado com as bebidas ou alimentos que contêm álcool, pois passam para a criança por meio do leite materno, se não respeitados os volumes permitidos e intervalos entre a ingestão do álcool e a mamada, além de outros problemas que podem causar para a amamentação.
Podemos fazer restrição alimentar durante a amamentação?
A alimentação de vocês deve ser rica, variada, mas sem exageros. É possível uma restrição dietética, bem orientada, bem pensada, que leve a uma perda moderada de peso, sem prejuízo da lactação. A amamentação, inclusive, é uma forma natural para vocês reduzirem o peso. As dietas muitos restritivas, com baixíssimo número de calorias, não são recomendáreis. É estimado que lactantes necessitam consumir em torno de 500 calorias a mais por dia do que as necessárias em outra fase da vida. Portanto, invistam numa alimentação saudável. Mas é aceitável uma restrição alimentar bem orientada, bem pensada, que leve a uma perda moderada, sem prejuízo da lactação.
Podemos fazer exercícios para perder peso?
Os exercícios, as atividades físicas e tudo o que seja prazeroso é recomendável. Conversem com os médicos obstetras para discutirem com eles quando essas atividades podem ser iniciadas após o parto.
Os adoçantes e os alimentos light e diet estão liberados?
A recomendação médica é fazer um uso leve ou moderado das substâncias adoçantes. Elas não são saudáveis. O melhor é usar açúcar em menor quantidade. Se vocês, mesmo assim, desejarem usar os adoçantes, o ideal é que tomem a menor quantidade possível. Os produtos light e diet também não devem ser consumidos livremente durante o período da lactação. Existem produtos químicos nesses ultraprocessados o que pode não é bom para a sua saúde. É mais importante selecionar os alimentos mais ricos e saudáveis.
E podemos tomar uma cervejinha se estamos dando o peito?
Bebidas com baixo teor alcoólico (cerveja e vinho) podem ser consumidas com moderação. Em excesso, porém, podem atrapalhar o sistema hormonal que mantém a amamentação. Mas vocês não devem exagerar e só beber esporadicamente, pois o álcool ingerido pode passar para o bebê. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, a genitora deve esperar 2h sem amamentar para cada drink consumido (um drink corresponde a 340 mL de cerveja, 141,7 mL de vinho ou 42,5 mL de bebidas destiladas).
As mães podem fumar durante a amamentação?
Fumar durante o período da amamentação prejudica os bebês. Há cerca de 4000 substâncias nocivas no cigarro, muitas passam para o leite e podem influenciar a saúde da criança. Segundo o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde do Brasil, a exposição da criança a essas substâncias aumenta o risco de doenças respiratórias alérgicas, pode afetar a produção e o sabor do leite materno e assim interferir no seu ganho de peso. Aproveitem o período da amamentação para largar o vício. Se, entretanto, a mulher não conseguir parar de fumar, alguns cuidados devem ser tomados para minimizar danos, como: fumar o menor número de cigarros possível, não expor a criança à fumaça, tentar não fumar em casa e não permitir que outras pessoas da família o façam. Se não for possível, amamentem depois de fumar, fumem longe do seu filho, se possível do lado de fora da casa e procurem não fumar até a próxima mamada. Importante deixar claro que apesar da mulher ser desencorajada a fumar durante a amamentação, o risco de fumar e amamentar é menor que o risco de desmamar a criança por causa do cigarro.
As crianças que tomam leite materno podem engasgar?
Os bebês jovens alimentados com mamadeira “engasgam” muito mais frequentemente que os amamentados no peito. Essa é mais uma vantagem da amamentação e mais uma desvantagem do uso da fórmula infantil. O “engasgo” que ocorre quando a criança mama no peito habitualmente é sinal de que ela não está mamando adequadamente. A pega do mamilo e da aréola pode não estar adequada ou outra dificuldade na técnica da amamentação pode estar ocorrendo. Algumas vezes, parece que o reflexo de ejeção do leite é tão forte que enche excessivamente a boca do bebê o que pode causar certa dificuldade na deglutição. Nesse caso, o jeito é tirar a criança do peito, dar um tempinho e voltar a botar no peito. Uma boa orientação é posicionar a criança de frente para você, verticalizada e apoiada/sentada na sua coxa, esta posição é chamada de posição cavaleiro. Mas se os “engasgos” estão acontecendo com frequência, é importante comunicar o fato ao pediatra, pois há doenças que se manifestam dessa forma.
As crianças que mamam no peito podem ter refluxo gastroesofágico?
As crianças amamentadas podem ter refluxo, mas a ocorrência do problema é muito menor do que acontece nas alimentadas com fórmula infantil.
Devemos dar o peito se estivermos gripadas, com febre, com diarreia ou com Covid-19?
Sim, devem continuar a dar o peito. O leite materno, se vocês estiverem com esses problemas citados, evita que as crianças apresentem complicações. É pouco provável que seus filhos aleitados ao peito adoeçam, mas se acontecer, as doenças serão mais simples e a recuperação mais imediata. Se vocês estão com coriza, dor de garganta, “virose”, é prudente proteger o rosto com uma máscara e lavar as mãos antes de amamentar e todas as vezes que forem segurar ou cuidar do bebê. Mesmo em se tratando da Covid-19, até o momento, não existem dados suficientes que permitam concluir que ocorra transmissão vertical do SARS-CoV-2 pelo leite materno. Em relação à infecção por SARS-COV-2 (Covid-19) os benefícios da amamentação superaram o risco de infecção por SARS-CoV-2 em bebês. Dessa forma, a amamentação está liberada mesmo nas mães infectadas ou com suspeita. No entanto, como a mulher lactante infectada pode transmitir o vírus pelas gotículas respiratórias durante o contato com a criança, se faz necessário seguir normas higiênico-sanitárias, como:
- Lavar as mãos por pelo menos 20 segundos antes de tocar o bebê, antes de amamentar, ou antes, de extrair o leite materno (extração manual ou na bomba extratora).
- Usar máscara facial (cobrindo completamente nariz, boca e queixo) durante as mamadas e evitar falar ou tossir durante a amamentação.
- Trocar a máscara imediatamente em caso de tosse ou espirro ou a cada nova mamada.
- Considerar a possibilidade de solicitar ajuda de alguém que esteja saudável para oferecer o leite materno em copinho, xícara ou colher, caso não se sinta confortável em amamentar estando doente.
- Seguir as orientações do Ministério da Saúde, oferecidas por seu médico, sobre isolamento e quarentena, tanto para a mulher suspeita ou portadora da Covid-19.
Por quantos meses devemos amamentar?
A orientação atual é de, no mínimo, seis meses de aleitamento exclusivo, sem água, chás, sucos e outros alimentos. A partir daí, há necessidade da introdução de alimentos complementares. Importante consultar o Guia Alimentar Para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde do Brasil, e seguir a orientação de seu pediatra. A amamentação deve continuar a ser estimulada por dois anos ou mais. Não há tempo para suspender a amamentação. O fim da lactação ao peito depende da dinâmica emocional “mãe e filho”, da aceitação de novos alimentos, de múltiplos fatores. Há crianças que mamam dois, três ou quatro anos e não se percebem nelas distúrbios emocionais ou de outra natureza. Mãe e filho decidem juntos até quando!
Como fazer o bebê arrotar?
O arroto é provocado pela ingestão de ar durante a alimentação. Nos bebês, os arrotos barulhentos, sonoros, são mais ouvidos nos que usam mamadeira. A sucção ao peito quando feita de forma adequada não permite muita deglutição de ar e assim é até possível que o bebê não arrote após a mamada. Então, a falta do arroto deve ser lida como um sinal de boa pega do mamilo e da aréola e de boa técnica alimentar. Mas o arroto não indica, por si só, erro da técnica. Por isso, é clássico que, mesmo após uma mamada com boa técnica, a mãe deve segurar a criança no colo e deixar o corpo dela o mais em pé possível, com a cabecinha apoiada no ombro, por cerca de dez minutos. Vale dar os tapinhas nas costas para agilizar o processo.
Existe o risco de superalimentação nos bebês que mamam no peito?
O risco é inquestionavelmente maior nas crianças alimentadas com fórmula infantil e mamadeira. Os cuidadores sempre arranjam um jeitinho de “empurrar” aquele restinho de leite que sobra na mamadeira. Assim, as crianças comem mais do que necessário. No peito materno, isso é impossível. Mas, mesmo no peito, algumas vezes, podemos observar crianças que ganham muito peso o que provavelmente é atribuído a fatores genéticos e não à amamentação em si. No médio e longo prazo, entretanto, as crianças amamentadas mesmo que tenham ganhado muito peso durante o aleitamento materno exclusivo tendem a alcançar um padrão ideal de peso.
E se elas não aceitarem outros alimentos após os 6 meses de amamentação exclusiva?
A situação relatada mostra o magnífico vínculo que a amamentação estabelece entre mães e filhos. As próprias crianças podem lutar para preservar o contato com as mamas maternas e percebem que as outras formas de ofertar alimentos são uma ameaça a essa intimidade. Quando essa dificuldade ocorre, é recomendável que outras pessoas ofereçam os outros alimentos. Outra medida é não oferecer o peito imediatamente após a recusa a tomar os outros alimentos. Seguramente, essa fase é transitória e logo as mães estão ofertando, sem encrencas, os outros alimentos a seus filhos. Aliás, estudos mostram que crianças amamentadas exclusivamente por 6 meses têm menor risco de problemas de aceitação da dieta complementar.
O que fazemos com as pressões para dar o leite artificial?
As pressões atrapalham. As pessoas habitualmente querem soluções rápidas. Querem que as crianças fiquem saciadas de imediato. Com a amamentação, isso ocorre lentamente. Com o uso do leite artificial, isso acontece de imediato, embora depois venham as consequências danosas dessa prática. Quando o ambiente é favorável: as avós, tias e amigas amamentaram, e existe apoio, as possibilidades de lactação bem-sucedida aumentam. Conscientização adequada sobre a importância da amamentação é capaz de levar a mãe a superar as pressões adversas. O papel do pai é fundamental nesse processo. A participação dele deve ser estimulada. O papai pode ajudar colocando o bebê no peito materno, segurando-o após as mamadas, agindo com carinho e paciência com a mãe que, nessa fase da vida, encontra-se altamente carente e frágil. Amamentar não é só para o binômio mãe/filho. É assunto que interessa a toda a família.
O algodoeiro aumenta o leite?
O algodoeiro (extrato ou chá) vem sendo usado para estimular a produção láctea. Afinal, se a mulher acredita que haverá aumento na produção e mantiver a sucção no peito, faz parte do efeito placebo. Do ponto de vista científico, existe pouca evidência do efeito dessas substâncias galactogogas (substâncias usadas para aumentar a produção de leite). Importante ter em mente que tudo que você usar durante a amamentação precisa ter a autorização de seu pediatra. Ressaltamos: aumentar o leite depende, principalmente, da sucção do bebê. Existem também medicações que podem ser prescritas e usadas com acompanhamento médico.
O algodoeiro funciona acalmando as mães?
É possível. Voltamos a ressaltar a intensa relação entre o sistema nervoso e as mamas. O exemplo citado por uma senhora de que, quando sua filha tinha 3 meses, um aborrecimento muito grande fez o leite desaparecer e as palavras tranquilizadoras do pediatra e o algodoeiro “na hora” fizeram tudo voltar ao normal, deve demonstrar isso. Isso mais provavelmente decorre muito de fatores psíquicos que podem provocar essas mudanças súbitas do que da ação do remédio que para funcionar precisa de um bom tempo.
E quando o leite se acumula... O que fazer?
Se isso ocorre, as recomendações são fazer massagens suaves, extraindo o leite com a mão (de preferência) ou com a bomba de extração elétrica e manter o aleitamento materno sob livre demanda (quando o bebê desejar). O uso de compressas é desnecessário.
Podemos retirar o leite materno e dar ao filho posteriormente?
Essa é uma excelente ideia. Para isso, vocês podem esterilizar vidros com tampa de plástico rosqueável (de café solúvel) para estocar o leite extraído. Os frascos de vidro são os melhores porque o leite não fica aderido às suas paredes. É importantíssimo lavar bem os frascos e as tampas, e, esterilizar tudo. Na esterilização, os frascos e as tampas são totalmente imersos em água limpa e fria para a fervura. A fervura deve durar 15 minutos após o início da ebulição. Antes de extrair o leite você deve retirar todos os adornos como pulseiras, anéis, relógios etc., lavar as mãos e antebraços, até o cotovelo com água e sabão e as mamas apenas com água, proteger o nariz e a boca com máscara ou pano limpo e prender os cabelos com lenço ou touca de banho. Massagear levemente as mamas e desprezar os primeiros cinco jatos de leite. Quando encher o frasco de leite fazê-lo até no máximo 2 cm abaixo da tampa plástica para evitar que o frasco quebre após o congelamento. Usar um vidro esterilizado para cada extração. Podendo, entretanto, acrescentar o leite humano ao vidro contendo leite já congelado, durante 48 horas. Mas atenção: constará no vidro a data da primeira coleta. O leite mantém suas qualidades e pode ser usado quando conservado na geladeira por até 12 horas (nunca nas portas da geladeira) e no congelador ou freezer por até 15 dias. O ideal e não deixar o leite extraído na temperatura ambiente. Se o leite for pasteurizado pode ser conservado por até seis meses no congelador ou freezer. Para descongelar, devemos ferver a água, desligar o fogo e colocar o frasco de leite congelado, rodando-o vagarosamente para a homogeneização. Quando observarmos que resta apenas uma parte de leite congelada (pequena “pedra de leite”) de em torno de 3 cm, devemos retirar o frasco do banho-maria e continuar homogeneizando vagarosamente até que o leite esteja uniforme, completamente descongelado. O leite descongelado pode ser oferecido à criança usando colher ou copo. Separar o volume que será usado e o restante guardar na geladeira por 12 horas, se leite cru e por 24 horas, se o leite for pasteurizado (não usar a porta da geladeira para a refrigeração). Nunca guardar leite que já tiver tido contato com a boca da criança. Aconselhamos que vocês façam estoque a partir do momento que ocorrer uma adaptação entre mãe e filho.
Posso misturar o leite extraído com a fórmula infantil?
Não é orientação segura. Seria ideal vocês primeiro oferecerem o leite materno extraído e só depois o complemento, quando prescrito pelo pediatra em casos especiais. Dessa forma, o leite materno atapetará, com todos os seus componentes, o trato gastrointestinal de seus filhos. Certo?
Posso dar o leite de outra mãe?
O leite de outra mãe só pode ser usado pelo seu filho se for pasteurizado e submetido a todos os processos de controle de qualidade de um Banco de Leite Humano.
Como fazemos para extrair o nosso leite?
Após todo o processo de higienização que já foi descrito anteriormente, vocês colocam a mão aberta com os quatro dedos abaixo da aréola e o polegar acima da mesma e empurrem a mama em direção ao tórax. A seguir, façam movimentos repetidos, rítmicos, como se quisessem aproximar os dedos polegar e indicador. Outra forma de retirar seu leite é através da bomba elétrica que requer mais cuidados com a esterilização e com a possibilidade de machucar as aréolas. Todos os métodos devem ser indolores. Sempre dar preferência à extração manual, que minimiza os riscos de contaminação microbiana e evita problemas nas mamas, como as fissuras. Qualquer tipo de extração de leite humano pode ser aplicado antes da amamentação para deixar as mamas mais confortáveis, em caso de ingurgitamento mamário, e, ao longo do dia, quando a mãe sentir que o peito cheio está provocando dor e/ou a criança ainda estiver dormindo. Além disso, para quando a mulher voltar ao trabalho.
As cirurgias de mama atrapalham a amamentação?
As próteses com silicone não interferem na amamentação porque são colocadas por trás do músculo, distante do tecido mamário. Nessa posição, não influenciam a produção de leite, principalmente quando o corte para a sua introdução não for na aréola. A prótese volumosa pode interferir com a anatomia e a fisiologia das mamas e prejudicar a amamentação. As cirurgias redutoras quando causam lesão na glândula interferem na produção de leite. Parece, no entanto, que o principal obstáculo que as mães submetidas às cirurgias mamárias apresentam é de ordem psicológica, pois além de terem receio de que a produção láctea seja prejudicada, há o receio de que a estética seja alterada.
Podemos dar o peito quando engravidamos novamente? Há problemas para o feto?
Há questões para falar sobre o assunto:
- A amamentação deve ser continuada se a gravidez é normal, porém se existe sangramento, dor ou outras alterações é importante discutir o assunto com o obstetra.
- Muitos pensam que os nutrientes que a gestante consome podem ser insuficientes para os três: mãe, filho que mama e feto. As grávidas que amamentam têm que ter cuidados ainda mais especiais com a alimentação e devem aumentar a ingestão alimentar: mais 500 calorias ao dia além do que as grávidas que não amamentam ingerem.
- A gravidez nas desnutridas que estão amamentando precisa de cuidados especiais.
- Em relação à composição do leite materno da mulher grávida, esse pode e deve ser usado sem receio.
Os defeitos congênitos da criança interferem na amamentação?
O leite materno é remédio para criança doente: remédio e vacina. Lembrem-se sempre disso. Há, porém, problemas que preocupam as mães e que prejudicam a lactação. Portadores de malformações faciais como fenda palatina e fissura labial representam um desafio especial.
Posso sair com meu filho que ainda mama?
Vocês que amamentam não devem viver enclausuradas, sem contato com o mundo. O bebê é “portátil” e a nutrição ao peito oferece segurança e praticidade. Vocês não precisam levar mamadeiras e outros apetrechos. Todos os familiares, vocês e os seus filhos devem ser estimulados a sair, passar fins de semana com avós ou amigos, ou mesmo, em hotéis ou praia. Assim, vocês tornam a oferta do peito mais natural e mais feliz. Lembrem-se de que seus filhos percebem o mundo, desde o nascimento. Os passeios também serão experiências agradáveis e enriquecedoras para as crianças. Devemos, entretanto, ter cuidado com aglomerações e locais fechados, principalmente pela circulação dos vírus respiratórios.
E se os bebês quiserem transformar nosso peito em chupeta?
Isso demonstra quanto o peito é fonte de amor, de troca afetiva, de curtição. A sucção não nutritiva é importante para o desenvolvimento afetivo dos bebês. O limite entre o tolerável, o legal e o gostoso e o que incomoda e atrapalha deve ser traçado pela dupla mãe/filho. As mães que se sentem incomodadas devem ser avaliadas individualmente para rever a técnica e discutir amplamente o assunto com os profissionais que apoiam e entendem do aleitamento materno.
O que são fissuras mamárias?
Logo nos primeiros dias da amamentação, os mamilos podem ficar “irritados”, “assados”, feridos. Há ocasiões que se formam “rachaduras”, fissuras que causam dor e sangramento. Há várias causas para a fissura. A pega inadequada do peito é a principal. O adequado é que o mamilo e a aréola sejam abocanhados. O problema está na pega apenas do bico do peito. O ferimento e a dor decorrem disso. Outras causas de fissura são mamas ingurgitadas que também causam má pega e a higienização excessiva que retira a gordura que protege o mamilo. Ah! É importante não interromper bruscamente a mamada retirando subitamente os bebês do peito, pois pode causar fissuras. Introduzam o dedo mínimo na boca das crianças e, pouco a pouco, elas vão soltando o peito da mãe.
Gostaríamos de saber sobre as mastites e os abscessos.
A mastite pode ser um problema durante a amamentação. Por alguma alteração na pega do peito ou por outros fatores como, por exemplo, excesso de leite retido na mama que fica parado, pode ocorrer entrada de bactérias da pele para o interior do órgão. A mama fica avermelhada, dolorosa, dura e pode surgir febre. É sempre importante consultar o médico. Não há o menor perigo de seus filhos adquirirem a infecção. A doença pode se agravar se o excesso de leite não é retirado da mama. A extração do leite faz parte do tratamento da mastite e nada melhor para retirar o leite do peito da mãe do que a boca do bebê. Além disso, devem ser feitas massagens delicadas antes da extração do leite. O médico pode indicar o uso de antibiótico. É importante saber que todos os antibióticos usados até agora para mastite não interferem na saúde das crianças que estão sendo aleitadas, nem prejudicam a secreção láctea. Continuem amamentando. Caso esteja saindo pus de uma mama, desprezem o leite desta glândula e continuem amamentando na outra. Mas sempre dialoguem com o médico. Em relação ao abscesso, é mais grave que a mastite. O diagnóstico é dado pelo médico e confirmado pela USG da mama. A conduta nesses casos é drenar esse abscesso, procedimento realizado pelo médico em ambiente hospitalar, de preferência.
E como procedo no desmame?
O tema é bem discutido nos outros capítulos que abordam a alimentação das crianças. Mas daremos algumas “dicas” importantes. Ofereçam, a partir do sexto mês, os alimentos de boa qualidade, frescos, bem conservados e disponíveis na casa. Assim, o aleitamento passa a ser complementado. Muito importante ler o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras menores de 2 Anos do Ministério da Saúde. Excelente documento! De grande valia para a introdução da alimentação complementar, com muitas dicas práticas e até receitas regionais. Para o sucesso a introdução de alimentos complementares, as crianças devem estar junto dos familiares quando esses se alimentam, para aprender. Deixem as crianças tocarem e pegarem nos alimentos para explorarem diferentes texturas e ter prazer de levá-los à boca. “Paciência” é a palavra chave do desmame. Mas fiquem avisadas. Quando vocês chegam em casa, a “paixão” abre o “apetite afetivo” e os bebês, mesmo de barriguinha cheia, solicitam a mama. O mais comum é o desmame processar-se naturalmente, de forma não traumática, e até pouco sentido por vocês, mães, e pelas suas crianças. Se, porém, a “dupla” tiver comportamento passional ou possessivo, os dois extremamente apegados à amamentação, o desmame é mais difícil. O desmame sempre deve ser conduzido com cautela, sem prazo, sem último dia.
18.1.3Depoimentos de cuidadores e profissionais
Opinião 1
Mãe“Eu me sinto muito insegura de tirar o leite para guardar porque não sei se vai dar tempo de o peito encher novamente até a hora em que ele quiser mamar. Por mais que eu saiba que quanto mais se tira, mais leite se tem, fico sem saber em quanto tempo o leite vai ser reposto no peito. Imagino que não existe um tempo certo, mas o assunto poderia ser abordado de forma a dar uma ideia. Ainda sobre extração de leite humano, tenho utilizado uns saquinhos de plástico para guardar o leite. São muito práticos porque não precisa guardar recipientes de café solúvel e esterilizar. Esses sacos são próprios para isso e descartáveis. Sei que não servem para quem vai pasteurizar. Coisa de americano, mas vende aqui nas lojas de bebê, talvez seja uma dica interessante.”
Profissionais“Realmente não há risco de o leite faltar para o seu bebê. ‘Peito é fábrica e não estoque’, o que significa que na hora que o bebê sugar, o leite vem. Quanto ao uso dos sacos referidos, podem ser utilizados, não há problemas! Entretanto, como dito, não servem se a senhora for pasteurizar ou doar leite para um Banco de leite Humano.”
Opinião 2
Mãe“Notei que quando o desmame estava indo bem tudo desorganizava quando o bebê adoecia. O que ocorre?”
Profissionais“A sua observação nos ajuda a mostrar mais uma maravilha da amamentação. As crianças doentes buscam mais as mamas maternas. Isso é comuníssimo. Então, se o desmame estava em curso, elas voltam a mamar com mais intensidade e frequência. É a sabedoria da natureza. As crianças sabem muito bem, muito mais que os cientistas, que as mamas maternas são conforto, segurança, proteção. Agredidas pela doença ou por qualquer outro fato — um susto, por exemplo — as crianças procuram o porto seguro das mamas das suas mães. Mas isso dura pouco e logo o desmame segue o seu curso.”
Outros depoimentos
Finalmente, transcrevemos as experiências relatadas por algumas mães, pais e avós sobre a amamentação. Agradecemos a Isis, Beth, Ana Tereza, Ana Regina, Edineide, Paulo, Diana e Tereza que, em 1989, participaram da elaboração dos primeiros livros da série Conversando com os pais. Infelizmente, lá se vão mais de 30 anos e não tivemos condições de registrar os dados pessoais de alguns desses colaboradores. Mas fica a informação e o nosso agradecimento. Agora, recentemente, outros familiares participaram da elaboração do texto atual e as informações cadastrais sobre eles são completas. Vejam os depoimentos antigos e os atuais:
“Com a minha primeira filha, contei com o apoio do meu marido. O início foi tranquilo. Nos dias que se seguiram, surgiram dificuldades: rachaduras, dores nas mamas que ficaram enormes e cheias, mas foram superadas essas dificuldades e a garota mamou até o quarto mês. Com a segunda filha, iniciei complemento no segundo mês. Arrependo-me por não ter insistido mais, principalmente quando comparo a saúde das duas, a da primeira é bem melhor!”
“Com meu primeiro filho, o leite era muito, mas a minha expectativa era grande para que não faltasse. Os palpites eram incontestáveis: ‘Se você se aperrear, o leite vai acabar’ [...] Talvez a cobrança tenha me angustiado a tal ponto que só amamentei dois meses e meio. Com a segunda filha, foi tudo diferente. Eu estava mais firme e amamentei até o quarto mês. E o terceiro filho mamou cinco meses, apesar de sempre me preocupar com o leite, para que não faltasse. Consegui segurar a barra. É notável o amadurecimento vivenciado pela mãe a cada novo filho. Gostaria de lembrar, apenas, que não falta leite se o bebê mamar. É a lei da oferta e da procura, então o segredo é: ‘Peito neles’.”
“Amamentar foi uma deliciosa e gratificante experiência. Eu sempre soube que iria amamentar. Com o primeiro filho, foi só peito até quatro meses. Já com a segunda filha, iniciei outros alimentos no segundo mês e parei com o peito. Também doei bastante leite para outras crianças, salvei vidas! Acho que toda mãe que tem tanto leite, a ponto de encharcar fraldas com o que vaza, deveria doar. Essa é uma forma real de ajudar alguém.”
“Bem, minha experiência foi cheia de surpresas e incrivelmente gratificante. Eu não consegui formar bico, apesar das mamas estarem grandes. A desmamadeira foi uma companheira importante. Embora causasse dor, o resultado foi gratificante. Muitas vezes, deixei leite para ir trabalhar. Foi corrido, sacrificado, mas com absoluta consciência de que era importante amamentar. Valeu a pena dar o melhor de mim. Como escrevi o depoimento há muitos anos, acrescentaria que, hoje aos 52 anos de idade, faria tudo de novo e que o ato de amamentar um filho é uma emoção tão sublime quanto a de vê-lo nascer.”
“Olhe, no começo, foi super doloroso. As mamas eram volumosas, tinham excesso de leite, a criança não dava conta. Sempre, após as mamadas, retirava leite. Doei leite para três crianças na época! A quem estiver lendo esse pequeno relato, quero mandar um recado: ‘Não desista, mesmo nos momentos mais difíceis, depois terá sua recompensa’.”
“Minha filha mamou até os três anos de idade. Precisei suspender a amamentação porque engravidei novamente e tive problemas que me fizeram usar hormônios contraindicados na amamentação. Expliquei tudo e choramos muito. Ela mudou bastante comigo, afastou-se por um tempo, depois, aos poucos, foi se recuperando. Insistia que os ‘peitinhos’ eram dela e que o bebê não iria mamar. Quando o novinho chegou, ela já não quis mais mamar, dizendo que só os bebês mamam... e assim ficamos nós. Vez por outra, ela alisava, beijava os peitinhos, mostrando que a ligação profunda entre nós iria existir sempre.”
“Demorei muito a ter um filho pelo lance de liberdade, viagens, farras, cervejinhas. Achava que um filho iria cortar isso. Quando resolvi tê-lo, decidi também amamentar e foi tão gratificante! Não me senti presa como eu pensava, acho que o amor foi tão grande que tudo ficou diferente.”
“O apoio que o pai dá é importante, principalmente nos primeiros dias. Acho que a gente tem que amenizar as coisas, acalmar a companheira e ajudar para que a amamentação seja prazerosa e não feita por obrigação.”
“Queria dar o melhor de mim. Não tem dinheiro que pague esta ligação! Eu me sentiria impotente por ter gerado e não poder alimentá-lo. Por isso, enfrentei os problemas e consegui amamentar!”
“Minha filha foi mãe aos 16 anos e acho que cresceu e amadureceu com a amamentação, além de desenvolver muito a sua afetividade com o nenê.”
“Desde que descobri a gravidez, li muito sobre a amamentação e me preparei, física e psicologicamente, para amamentar meu bebê até quando fosse possível. Nos primeiros cinco dias, tudo parecia indo bem, com as dificuldades normais. Porém, a ‘descida’ do leite coincidiu com um problema de saúde meu, e, por conta das medicações que usei, após uma semana do parto, além da ansiedade e do estresse vividos, a produção de leite começou a diminuir. Acho que o fato de meu filho ser muito tranquilo, preferia dormir a sugar o peito, também contribuiu para essa escassez. Enfim, após todas as tentativas e esforços, com quinze dias tive que complementar com o leite artificial para garantir o ganho de peso do meu filho. Mas, mesmo assim, insisti na oferta do peito e sempre dava antes do leite, nem que fossem algumas gotas. Por três meses, a amamentação não exclusiva foi prazerosa e gratificante para mim, apesar de todos os problemas. Assim, sem culpas ou expectativas, pretendo tentar novamente com o próximo filho para, quem sabe, dessa vez, conseguir resultados melhores. O importante é não desistir, jamais!”
“Amamentar não é fácil. Nossa história com a amamentação foi bastante rica: mastite; pediatras ameaçando com latas de leite devido ao ganho de peso um pouco lento de minha filha; familiares às vezes insinuando que alguns choros pudessem ser de fome. Só não houve as dolorosas fissuras (ficou no ‘quase’). Amamentar é decisão. Primeiro da mulher e segundo do casal. O pai também amamenta quando traz aquela água preciosa, quando acorda junto de madrugada, quando tranquiliza sobre o leite e faz cálculos do ganho de peso do bebê para argumentar em favor do peito.”
“Amamentar é ato de amor. É doação. Não têm preço aqueles olhinhos encarando, o aconchego. De início, o planejamento era de amamentar por seis meses. Depois, até um ano. Foi passando... A amamentação da nossa filha foi até um ano e dez meses quando já estava com sete meses de gestação do segundo. O garotão mama exclusivamente no peito ainda hoje, aos cinco meses de idade.”
“Mulheres, não desistam! É verdade que uma mamadeira dada com amor também vale. Mas um leitinho dado no peito não tem preço.”
“Desde que descobri que estava grávida, passei a me preparar para amamentar minha filha. Li diversos livros acerca da amamentação, sua fisiologia, os mitos que a cercam e passei a participar de diversos fóruns acerca do assunto. Aprendi, na teoria, tudo o que era preciso: que não existe leite fraco; que meu leite seria suficiente para satisfazer as necessidades da minha filha exclusivamente até os 6 meses, pelo menos; que, com a pega correta, amamentar não é doloroso e que deveria amamentá-la em livre demanda, sempre que solicitasse porque, quando mais ela sugasse, mais leite eu teria.
Passei, então, a imaginar como seria maravilhoso ter a filha em meus braços, olhando para mim tranquilamente enquanto se alimentava e recebia do meu corpo, que antes a gerou, todos os nutrientes necessários para fazê-la crescer plena e feliz. Quando ela nasceu, no entanto, percebi que tudo o que eu havia lido não havia me preparado para o que há de mais fundamental na arte de amamentar: a aceitação de que minha filha é um ser humano único, que não pode ser enquadrada em modelo algum e, mais importante, que age — desde tão novinha — sempre movida pelas suas necessidades e não pelas minhas. Pois bem. Minha filha, hoje com quase três meses, mama, mas raramente de forma tranquila. Enquanto se alimenta, minha filha se contorce, se mexe inteira, puxa o bico do meu seio às vezes de forma dolorosa até, solta o peito, ri e o procura novamente. Até hoje, houve poucas mamadas iguais às que eu imaginava — minha filha tranquila me olhando, como nas imagens que estamos acostumadas a ver. Mas se sacia. E cresce, ganha peso.
Ela dificilmente mama de hora em hora, ou de duas em duas, ou de três em três. Na verdade, minha filha já passou até seis horas sem querer mamar durante o dia e, quando mama, não fica no seio por mais de 3, 5 minutos.
Eu, que havia lido demais sobre livre demanda, me questionei. Mas como pode um bebê se saciar em tão pouco tempo, depois de tanto tempo sem comer? No auge do desespero — achando que ela passava fome, imagine — quis lhe dar mamadeiras com o meu leite e insisti, por diversas vezes, para que mamasse mais, irritando-a. Acontece que, não interessa como, o fato — que hoje tento aceitar — é que a garota mama sim a cada cinco, seis horas, por dois, três minutos e se desenvolve bem. É o suficiente para ela. Ela não tem que mamar a cada duas ou três horas por vinte minutos em cada seio para apascentar meu coração. Ora, com apenas três meses, cabe a mim, sua mãe, tranquilizá-la, e não o inverso.
Eis hoje o meu desafio: ao ver minha filha pegar o meu peito e soltá-lo dentro de dois, três minutos, para o seu bem, para que cresça feliz e saudável, tenho de afastar de mim a ideia de que ela ‘mama pouco’, e pensar, radiante: ‘eu tenho tanto leite e minha filha é tão esperta que já descobriu como mamar com eficiência e rapidez!’. Viva minha filha, que, com menos de três meses, tem ensinado a mamãe que nem tudo pode ser tão cartesiano no mundo.”
18.1.4Leituras recomendadas (livros, sites e redes sociais)
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Banco de leite humano. Rio de Janeiro, RJ: FIOCRUZ, [202-]. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/banco-de-leite-humano.
KING, F. S. Como ajudar mamães a amamentar. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2001. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cd03_13.pdf.
MILLER, Nike. O matador de bebês. Recife: IMIP, 2023. 167 p. Disponível em: http://higia.imip.org.br/bitstream/123456789/947/1/O-MATADOR-DE-BEBES_2023-DIGITAL.pdf.
MINISTÉRIO DA SAÚDE (BR). Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2021. 80 p. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_crianca_brasileira_versao_resumida.pdf.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Aleitamento materno. Rio de Janeiro, RJ: SBP, c2025. Disponível em: https://www.sbp.com.br/departamentos/aleitamento-materno/.
VALDÉS, V.; SÁNCHEZ, A. P. Manejo clínico da lactação: assistência à nutriz e ao lactante. São Paulo, SP: Thieme Revinter, 2020. 128 p.
18.2Quando amamentar não é possível
A amamentação é tão importante que dificulta a abordagem do tema que propomos a debater. O leite humano é inigualável, tão maravilhoso e importante para os bebês que é difícil admitir que alguns deles, antes dos 6 meses, usem outro alimento. É complicado falar sobre a não amamentação.
Mas é fato concreto que algumas mulheres se deparam com grandes dificuldades no manejo da amamentação, têm fluxo insuficiente por falta de orientação em relação à pega e posicionamento de bebê, se submeteram à cirurgia mamária antes da gestação para grande redução das mamas, têm alguma doença que contraindique a amamentação como as portadoras de HIV ou HTLIV ou não desejam amamentar.
Então, é importantíssimo que revisemos o tema e mesmo diante das dificuldades apontadas.
Conhecemos crianças que não mamaram e foram alimentadas desde novinhas com leite não materno e são normalíssimas. Por que então essa “neura” toda?
Realmente muitos recém-nascidos e lactentes foram alimentados sem o leite da mãe e se tornaram adultos normais. Entretanto, outras crianças adoeceram e morreram cedo pela falta do leite materno para a sua alimentação e não tiveram a oportunidade de se tornar adultos normais e de viver por muitas décadas. Atualmente, com o que se conhece da biologia do leite materno, da biologia das crianças amamentadas e da biologia dos adultos que mamaram nas suas mães, é possível afirmar que aquelas que foram alimentadas sem leite materno e que se tornaram adultos, teriam sido crianças mais sadias e adultos mais saudáveis, e, provavelmente, viveriam mais tempo se tivessem sido amamentados. Não é “neura”. Quem não tem a oportunidade de mamar abundantemente e por muitos meses nas suas mães estão em desvantagem biológica.
Mas algumas vezes é necessário o leite artificial!
Algumas vezes o leite artificial é necessário, a adoção é um excelente exemplo, há que se usar alimento diferente do leite materno para nutrir a criança. Algumas vezes, entretanto, mesmo no caso de adoção, a mãe adotiva pode amamentar o seu filho com a técnica chamada de lactação adotiva, essa técnica envolve estímulos repetidos na aréola e algumas vezes o uso de medicamentos. Voltando ao que falávamos anteriormente, se não é possível nutrir as crianças com leite materno, indiscutivelmente o melhor para os primeiros meses de vida, há que ser com outro alimento. Essas crianças que não tiveram a oportunidade de se alimentar com o leite materno têm chance de serem sadios durante a infância e se tornarem adolescentes e adultos sadios desde que bem orientados e acompanhados pelo seu pediatra de perto. É evidente que são necessários cuidados especiais — higiene, preparo, respeito ao apetite e outros — para o sucesso dessa alimentação não fundamentada no leite materno nos primeiros meses de vida. Recomendamos a leitura dos capítulos: Crianças menores de 6 meses que não estão sendo amamentadas exclusivamente e Alimentação de crianças não amamentadas do Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 anos, do Ministério da Saúde. Enfatizaremos aqui que, em biologia, as coisas não são absolutas, lei do tudo ou nada. Portanto, crianças que mamam no peito têm estatisticamente mais chances de serem mais sadias, inclusive no que se refere ao quociente de inteligência. Mas isso não significa que crianças alimentadas com outros leites não possam ser sadias e inteligentes também.
Quais as causas que impedem certas mulheres de amamentar?
As causas são variadas e complexas. Muitas estão relacionadas ao corpo e ao psiquismo das mães. Outras à prematuridade e ao comportamento das crianças. Outras ainda estão ligadas às circunstâncias que cercam a maternidade e a amamentação ou à ação dos médicos e dos outros profissionais da área de saúde que assistem ao binômio mãe-filho. Algumas vezes é possível definir uma causa predominante que interfere intensamente e até impede a alimentação bem-sucedida ao peito. Mas, na maioria, não é possível identificar um fator decisivo. É possível que o analista arguto, que além de avaliar as questões físicas analisa o comportamento das mães, dos familiares e até das crianças, e mais alguns fatores inter-venientes, possa apontar um conjunto complexo de mecanismos que não favorecem ou mesmo impedem a amamentação. Cada caso é um caso. A problemática que atrapalha a amamentação é diferente nas diferentes famílias. E na mesma família a problemática observada na amamentação do primeiro filho pode não se repetir no segundo.
Mas as mães são o fator mais importante, não é mesmo?
As mães motivadas, preparadas e apoiadas são um dos pilares mais importantes no processo. Mas repetimos que as crianças, os pais, os outros familiares, as enfermeiras, os pediatras, as enfermeiras contratadas para ajudar a cuidar dos bebês no domicílio e as babás também são peças importantes e podem auxiliar, mas também podem atrapalhar o processo da amamentação. É importante destacar que quando concordamos que as mães são um dos pilares mais importantes estamos nos referindo a seres que devem ser respeitas, têm peculiaridades próprias, características anatômicas especiais, cujos valores e objetivos têm que ser considerados e preservados. Quando elas se propõem a amamentar os filhos não têm a certeza de que tudo irá às mil maravilhas. Então, dificuldades existem. E existem mulheres que não conseguem amamentar. Em todos esses casos, a ajuda de profissional especializado é fator fundamental para o sucesso do aleitamento materno.
A indústria de alimentos também atrapalha?
O conhecimento científico permitiu que a indústria desenvolvesse produtos usados na alimentação infantil. Esses produtos nada têm em comum com o leite materno, mas, em situações específicas, podem ser usados como substitutos quando há alguma contraindicação para o aleitamento materno —problemas da mama puerperal que não tiveram adequado manejo e/ou a mulher decidiu por não amamentar. O sucesso desses alimentos ultraprocessados, há décadas, é muito grande. Esse sucesso tem sido conseguido por poderosas campanhas de marketing, muitas vezes abusivas, e que em inúmeras ocasiões ferrem a lei brasileira. Essas propagandas são monitoradas pela Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos Infantis, Bicos, Chupetas e Mamadeiras (NBCAL) que muito tem contribuído para a proteção do aleitamento materno e para coibir excessos. Então, a disponibilidade de fórmulas e alimentos infantis, bicos, chupetas e mamadeiras para lactentes e crianças pequenas e a propaganda maciça são um terrível inimigo a ser enfrentado pelos que defendem a amamentação. Há abundantes trabalhos científicos que demonstram o papel fundamental do leite materno na prevenção de doenças do adulto que têm raízes na infância. O diabetes, a obesidade, as alterações do colesterol e das outras gorduras do sangue e a hipertensão arterial são exemplos marcantes. A dedicação exclusiva que a amamentação impõe às mulheres no início da amamentação neste mundo de respostas imediatas e multitarefa, além da dificuldade que têm nos seus empregos, a maioria com licença maternidade de 120 dias, com a orientação de aleitamento materno exclusivo de 180 dias, por exemplo, são outros dos muitos obstáculos a serem transpostos. Há direitos específicos da mulher trabalhadora que amamenta que devem ser difundidos e conhecidos por todos. O Brasil tem uma das melhores políticas para a mulher trabalhadora que amamenta com emprego formal, entretanto uma grande parcela não está protegida pela Lei por trabalhar informalmente. Muitos outros fatores, principalmente os atribuídos ao marketing das companhias de alimentos infantis, têm contribuído para que o uso de fórmula infantil, bicos, chupetas e mamadeiras tenham um lugar desproporcional à sua real indicação para recém-nascidos, lactentes e crianças pequenas em todo o mundo. No Brasil a história da luta contra a propaganda abusiva dos produtos que constam na NBCAL se iniciou com a visão de futuro e o protagonismo do Prof. Fernando Figueira, fundador do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira — IMIP, que em 1974, então Secretário de Saúde de Pernambuco, baixou uma portaria que proibia a distribuição de latas de leite e mamadeiras nas maternidades do Estado. Esse ato de proteção ao aleitamento materno aconteceu sete anos antes da Organização Mundial de Saúde ter assinado o Código Internacional de Comercialização de Substitutos de Leite Materno, em 1981.
Quando não havia leites artificiais as mães amamentavam mais?
É claro que sim. Mas não se pode atribuir que o desprestígio observado na atual prática da amamentação seja decorrente apenas desse fator. Já citamos o grande papel do marketing das indústrias de alimentos infantis. Entretanto, o imediatismo dos tempos modernos também tem um importante papel no declínio do aleitamento materno, pois impõe um ritmo muito dinâmico à vida e dificulta a instalação e a manutenção da amamentação que, como processo biológico, é lento, gradual, e necessita tempo para adaptação e ajuste. Podemos ainda citar o trabalho das mães fora do domicílio como algo que impacta na amamentação
É complicado, não é?
A interpretação dos fenômenos biológicos é sempre complicada. Sobretudo é mais difícil interpretá-los quando estão envolvidos os fatores psicológicos. Mais complexo ainda fica o entendimento das variáveis mercadológicas — a desleal competição entre as fórmulas infantis e a amamentação — que participam do jogo. Para algumas duplas, mãe-filho, a amamentação é natural, simples, sem dificuldades. Logo que os bebês nascem eles vão ao peito, abocanham o mamilo, e as duplas, como velhos mestres, tocam a vida, sem atropelos, sem dúvidas. Para outras duplas, embora tudo parecesse bem desenhado — mães preparadas, mamilos maravilhosos, psiquismo aparentemente legal — o processo é sofrido, difícil, doloroso, complexo. Entre a primeira e a segunda situação há uma série enorme de graus de dificuldades superáveis com apoio, amor, paciência, orientação técnica adequada e, em algumas ocasiões, muita perseverança, luta e desprendimento.
E as infecções?
Solicitamos que leiam o relato Aleitamento materno, na versão impressa deste livro, para ter informações sobre as infecções, sobre os medicamentos e sobre outros aspectos que podem interferir com o aleitamento materno, como as cirurgias plásticas mamárias redutoras com grande retirada de tecido mamário.
Os pediatras, obstetras, enfermeiros, odontopediatras, fonoaudiólogos e outros profissionais com treinamento em manejo da amamentação são importantes para tentar preservar o aleitamento materno?
Sem dúvida. Todos os profissionais da área de saúde — desde o pré-natal até a maternidade — têm que ser devidamente preparados para orientar tecnicamente, promover, proteger e apoiar ao aleitamento materno para que as mães e filhos consigam ter uma boa experiência com a amamentação. Mas, do mesmo modo que ajudam, podem dificultar ao prestar informações equivocadas, ao não apoiar adequadamente nos primeiros dias de adaptação. Evidentemente tudo isso pode ser decisivo para o sucesso do aleitamento materno.
Eu fiquei apavorada com a ideia de dar outro leite a meu filho!
Esse sentimento é comum. A amamentação é tão natural, tão maravilhosa e integra tanto a dupla mãe-filho que muitas mulheres se sentem tristes, frustradas, decepcionadas, deprimidas, inferiorizadas. É papel do pediatra e de todos os profissionais que assistem a puérpera ajudar àquelas que não podem, não conseguem, ou mesmo não querem, verdadeira e conscientemente, amamentar. É preciso cuidado extremo para não estigmatizarmos crianças que não foram amamentadas e mulheres que não amamentaram. Evitar com nossas ações e postura o sentimento de culpa, respeitar, apoiar e sempre se dispor a ajudá-las a manter uma boa relação com seus filhos é o principal.
E o que as mães que não conseguem amamentar devem fazer?
A indústria produz opções direcionadas ao recém-nascido e lactente. Há também as direcionadas para crianças com algumas necessidades especiais que, infelizmente, por alguma razão, não mamam no peito. Citaremos como exemplo as fórmulas infantis prescritas para crianças que desenvolveram alergia à proteína do leite de vaca. Porém, é de grande importância informar a todos que manuseiam as fórmulas, utensílios e água usada, da necessidade de assepsia rigorosa, da esterilização dos utensílios, fervura da água, assim como do seguimento das orientações quanto à diluição destes produtos. O sistema digestivo dos recém-nascidos e de lactentes poderá passar por um período de adaptação com algumas dificuldades como: flatulência, distensão abdominal, constipação e/ou diarreia. Consulte sempre o pediatra caso haja dúvidas ou apareça algum sintoma descrito acima ou qualquer outro. Recomendaremos a leitura dos capítulos, deste livro que tratam da alimentação no primeiro ano de vida.
E os aspectos emocionais?
As mães que se envolvem com a esterilização, com o preparo do alimento e com a oferta da mamadeira, se envolvem emocionalmente mais com os filhos. Muitas das ofertas afetivas da amamentação poderão ser conseguidas se as mães ao oferecerem a fórmula infantil, tocarem seus filhos, permitirem um contato corporal bem íntimo, olharem nos olhos das crianças, acariciarem, conversarem ao longo da alimentação e demonstrarem carinho e interesse. Desse modo, as necessidades psíquicas são supridas e as carências pela falta da amamentação são minimizadas.
Mensagens para a mãe que não conseguiu amamentar
“Quando minha filha nasceu, eu tinha certeza de que tudo o que mais queria era amamentá-la. Ser mãe fazia parte dos meus projetos desde o tempo em que ainda brincava de bonecas. Só que não bastava ser mãe: era preciso ser uma boa mãe, capaz de todas as doações necessárias à total felicidade do bebê.
Recebi minha filha, para juntas exercitamos a nossa vivência no mundo: a minha, de mãe e a dela, de um ser que em tudo dependeria de mim. A primeira regra básica era, sem dúvida, a amamentação.
O pediatra era enfático: ‘peito 24 horas... toda vez que chorar, peito’. Entretanto, o meu leite não chegava (nem chegou) e, enquanto minha filha chorava de fome, eu chorava de angústia.
Comprometida com a felicidade dela, que deveria ser total, qualquer sintoma que indicasse o contrário, além de me ser terrivelmente frustrante, deixava-me com uma dolorosa sensação de impotência. O que fazer? Buscava o pediatra que, na distância do seu consultório, era breve e lacônico no telefone e, repetindo sempre as mesmas palavras: ‘Nada de mamadeira, só peito’.
A essas alturas, eu me angustiava com a minha filha e também com a espécie de mãe que estava sendo: se amamentar deveria constituir o ápice da vida de toda mulher, o sublime momento da relação mãe-filho, o que é que se passava no meu corpo ou na minha mente que me impedia de responder a esse modelo?
O momento exigia mais do que questionamento, exigia atitudes. Eu precisava fazer alguma coisa por nós duas. Desobedeci ao pediatra e alimentei minha filha com a mamadeira.
E, contraditoriamente, após todo o sufoco dos primeiros dias, eu experimentava, enfim, os prazeres da maternidade. Pude, então, ter minha filha aconchegada ao colo, dormindo tranquilamente ou, então, simplesmente contemplá-la saciada, deslumbrando-me com a beleza da minha ‘cria’.
Eu tinha consciência de que, certamente, aquele não era o melhor caminho, mas era o caminho possível; o meu próprio caminho, enfim.
A alimentação com a mamadeira não me criou muitos problemas. Cuidava eu mesma tanto de prepará-la como de esterilizá-la. Cada vez que minha filha tomava toda a quantidade oferecida, eu aumentava um pouco a próxima mamada.
Por volta dos 3 meses, foram introduzidos os suquinhos. O pediatra, já convencido da minha impossibilidade, orientava a alimentação dela com sugestões do que poderia ser oferecido.
O meu segundo filho também foi alimentado com mamadeira. Mais uma vez, os fatos se repetiram.
Hoje, a avaliação que faço dos meus filhos é que eles são como todos os outros, amamentados ou não! Têm as mesmas tosses, as mesmas capacidades e as mesmas dificuldades.
Compreendi, também, que ser mãe é um processo que se aprende e se redefine a cada dia e do qual falhas e limites também fazem parte. A amamentação é, sem dúvida, muito importante, mas não esgota esse processo, pois carinho e amor precisam ser exercitados continuamente!”
OBS: O depoimento foi escrito em 1989 e, por essa razão, está citado o uso dos sucos de frutas aos 3 meses de idade, o que era a prática alimentar na criança novinha, naquela época.
“Como mãe, talvez a principal lição aprendida até agora é que tem sido difícil sustentar todas as minhas convicções que mudam quando a realidade muda. Se não deu para amamentar exclusivamente no peito até 6 meses por um conjunto de razões, se foi o caso de ceder e deixar usar chupeta (controladamente), etc., não devo me sentir fracassada. Cada mãe cada uma, cada filho cada um.”
Os depoimentos ajudam a aliviar o sentimento de culpa da mulher que não pode, não conseguiu ou não quer dar o peito. Lembramos apenas, que além de reconhecer a importância do leite materno, comprovada cientificamente, os profissionais da saúde podem ajudar a entender e a sanar ou amenizar muitas das dificuldades surgidas na amamentação.
Como são relatos de situações vividas há alguns anos, divulgados na primeira edição do Conversando com o pediatra, provavelmente as senhoras e seus filhos podem não ter tido a assistência ideal para solucionar os problemas relacionados à mama puerperal. Como sempre temos feito, repetimos que as orientações que o capítulo oferece, não substituem a orientação médica individualizada. Consultem os pediatras!
18.3Mamadeira: esterilização e assuntos correlatos
É assunto habitualmente negligenciado pelos cuidadores e pelo pessoal da saúde e até pelos pediatras. É tema de grande importância prática. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem demonstrado interesse pela matéria e quem tiver interesse especial deve consultar as recomendações desse órgão público.
É obrigatório o uso da mamadeira?
Não:
- Nos recém-nascidos: o ideal é que as crianças novinhas conheçam apenas as mamas maternas e, quando for preciso, é preferível usar copinho ou seringa. É fantástico verificar como as criancinhas desse grupo etário podem ser nutridas sem a mamadeira. Mas a mamadeira auxilia, sem dúvidas.
- Nas crianças das outras idades: as que mamaram só no peito, após os 6 meses, devem ser estimuladas a usar o copinho e a colherzinha. A mamadeira é desnecessária e mais prejudicial do que benéfica. Isso favorece o contato com uma ampla variedade de alimentos (frutas, grãos, carnes, legumes e verduras), enquanto a mamadeira limita as experiências alimentares e prende as crianças ao leite.
Existem crianças que não aceitam a mamadeira?
Alguns espertinhos não aceitam nada que se pareça com o peito materno. Aceitam o copinho e a colher, mas não o bico da mamadeira. E isso tem que ser respeitado e estimulado. Mas a mamadeira é bem aceita e prática para dar alimentos líquidos — leite, água, sucos — mas não é insubstituível. Aliás, é facilmente substituível.
As mamadeiras de vidro são melhores que as de plástico?
O bisfenol A (BPA) de alguns plásticos migra para os alimentos quando aquecido. Pesquisas associaram essa substância a maior incidência de problemas cardíacos, hepáticos, neurológicos, endocrinológicos (diabetes) em recém-nascidos e em crianças maiores. O BPA é responsável pelo crescimento de células cancerígenas, redução do esperma e outros problemas ligados às células reprodutivas. Também está associado à puberdade precoce. Em vários locais do mundo desenvolvido, os produtos com BPA estão sendo proibidos, sobretudo em mamadeiras, copos e embalagens de comida para crianças de até 3 anos. Em setembro de 2011, a Anvisa proibiu a produção e a comercialização de mamadeiras contendo o bisfenol (BPA). O ideal é que as mamadeiras e os outros recipientes usados na alimentação das crianças sejam de vidro. Para evitar que as mamadeiras se quebrem, existem capas protetoras. Para mais detalhes sobre o BPA, acesse o endereço eletrônico: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/setorregulado/regularizacao/alimentos/bisfenol-a.
Como deve ser o furo do bico da mamadeira?
Hoje a maior parte dos bicos vem furada. Isso é importante, pois um dos erros é usar bicos com furos muito pequenos ou muito grandes. Os furos dos bicos devem permitir o fluxo de cerca de 20 gotas por minuto. O gotejamento muito lento ou muito rápido não é desejável. Para o leite puro, os furos têm que ser menores. Para o leite misturado a uma fruta, por exemplo, os furos têm que ser maiores. Os fabricantes oferecem bicos com diferentes tipos de furos. Existe legislação específica sobre o tema que pode ser vista no site da Anvisa. Os bicos de silicone são os preferidos. Os de látex podem induzir reações alérgicas. Os bicos não devem ser usados por mais de três meses. É importante ler as instruções dos fabricantes sobre a validade de cada produto.
Como oferecer a mamadeira?
A mamadeira deve ser ofertada com inclinação que permita que o bico fique completamente cheio de leite. Isso é para evitar que as crianças engulam ar, o que pode favorecer o surgimento das golfadas. As pessoas que oferecem a mamadeira devem olhar diretamente para a face das crianças. Ao primeiro sinal de saciedade, devem suspender a oferta do alimento. Dar a mamadeira olhando para a novela ou o celular não é recomendável. Tentar empurrar goela a baixo os 10 ou 20 mL de leite que ainda existem também é erro grosseiro.
Dar o alimento com a mamadeira é mais fácil do que dar com a colher?
A força do tradicional, dar a mamadeira, cria dificuldades até em pensar nos outros métodos de alimentar as crianças. Talvez a alimentação de uma criança novinha com colher ou copinho exija mais trabalho, mais atenção, mais tempo. É mais fácil prestar atenção na telinha se o alimento está sendo dado com a mamadeira. Mas vencidas as primeiras experiências de ajustes, o fornecimento da comida sem mamadeira é realizado sem obstáculos. E o alimentar com colher e copinho permite uma interação maior entre quem dá e quem toma o alimento.
Algumas crianças ficam viciadas na mamadeira!
É comum observar crianças de 4, 5, 6 ou mais anos tomando alimento na mamadeira. Provavelmente, foram alimentadas exclusivamente com esse método. Isso não é bom, pois pode produzir problemas dentários e de outra natureza. O uso da mamadeira deve ser desestimulado logo após o primeiro ano de vida. Significa deixar a meninada tocar nos alimentos e levar à boca. Significa dar alimento com a colher, com o copinho e com o canudinho. É valioso mostrar que é legal comer como a mamãe e o papai fazem e que o amigo come de colherzinha. Nada de postura agressiva, autoritária. Essas atitudes podem fazer com que a mamadeira seja o símbolo da resistência pela autonomia. Tem que ser com sutileza, sem prazo.
Podemos dar a mamadeira com as crianças deitadas?
Não, sobretudo se elas estiverem dormindo. A mamadeira deve ser dada às crianças acordadas, quando demonstrarem sinais de fome, no colo, em uma posição semissentada. Isso evita que elas engulam ar. As crianças que tomam a mamadeira na posição deitada podem ter: maior ocorrência de golfadas, grave tipo de cárie, inflamação do ouvido e pneumonia por aspiração de leite, obesidade e dificuldades emocionais, além de dificuldades em estabelecer uma relação prazerosa com a alimentação. O ato de comer é voluntário, consciente e deve ser um ato de prazer. Dar alimento à criança que está dormindo é superproteção e revela preocupação excessiva, desnecessária, indesejável. Para as crianças que foram acostumadas a comer dormindo, tentem o seguinte:
- Nas de menos de 3 ou 4 anos, é possível reduzir a quantidade de leite à noite, por exemplo, 5 –10 mL em cada mamadeira a cada dois ou três dias. É possível diminuir a quantidade do pó do leite. Exemplo: tirar ½ concha do leite a cada cinco dias até que a mamadeira contenha apenas água.
- Nas que tem mais de 4 ou 5 anos, falar sobre a importância de não ingerir alimentos à noite, deem exemplos de crianças que não comem dormindo e falem com o pediatra. Para as rebeldes coloquem o leite no quarto, num copo, e digam que aquelas que desejarem acordem e tomem.
A mamadeira aumenta o risco de obesidade?
Sim, isso é verdade. Existe capítulo sobre o tema obesidade.
Quais os outros problemas causados pela mamadeira?
Há vários problemas aceitos como malefícios produzidos pela mamadeira: infecções intestinais, redução das experiências alimentares, problemas dentários, constipação intestinal, problemas das vias aéreas superiores, pneumonias, refluxo gastroesofágico e dificuldades emocionais.
Qual o melhor tipo de mamadeira?
A Anvisa fornece informações sobre mamadeira, bico, chupeta e protetor de mamilo que esclarecerão várias dúvidas sobre os temas. Vocês devem comprar produtos de boa qualidade. Existem vários. Os bicos que já vem com o orifício são os melhores e alguns são ortodônticos. Orifícios muito grandes ou muito pequenos aumentam a deglutição de ar e produzem cólicas. Também aumentam o risco de o alimento ir para a árvore respiratória, além de cansar e irritar o bebê. É evidente que quanto mais espesso, “grosso”, for o alimento, maior deve ser o orifício. Bebês prematuros e com doenças especiais (palato fendido e fissura labial) precisam de bicos especiais. Veja isso com o médico. O bico tem vida útil. Substitua-o ao menor sinal de deterioração.
E as mamadeiras modernas que armazemam o pó e a água em recipientes separados que são misturados na hora de alimentar a criança?
Quando vocês forem sair com as crianças que tomam leite na mamadeira, o ideal é levar o alimento já pronto, esterilizado. As mamadeiras devem ser mantidas refrigeradas, em recipiente térmico, com bolsa gelada ou gelo. Na hora de oferecer, basta amornar o leite. Esses utensílios modernos em que o leite em pó e a água estão separados na mesma mamadeira devem ser usados após os 6 meses de idade. A preocupação é com a higienização que pode ser falha. O emprego do potinho para a guarda do leite em pó que será usado também facilita a vida da mãe. O pó é misturado à água fervida e o leite está pronto.
E as anticólicas e antirrefluxo?
A indústria está sempre tentando encontrar mecanismos de diferenciar seus produtos para vender mais. Algumas mamadeiras “modernas” pretendem evitar as cólicas, reduzir as golfadas e mesmo tratar o refluxo gastroesofágico. Na verdade, o que essas mamadeiras conseguem é manter o bico cheio de leite e evitar que as crianças deglutam ar. Isso é conseguido com as mamadeiras clássicas, antigas. É só ter o cuidado de oferecer o leite com a mamadeira inclinada de tal modo que o bico esteja sempre cheio de leite. Os pediatras indicam as mamadeiras antirrefluxo e anticólica como placebo para acalmar as mães.
Como deve ser feita a higiene da mamadeira?
É o aspecto mais importante dessa apresentação. A higiene adequada do leite dado por mamadeira, da própria mamadeira e do bico salva vidas. Evita as diarreias infecciosas que podem ser letais. Portanto, a esterilização adequada das mamadeiras, bicos e demais utensílios usados e o preparo correto do alimento minimiza esse risco.
Existem duas estratégias para a limpeza e a esterilização da mamadeira e do bico e o preparo do leite: preparo uma a uma e preparo de duas ou mais mamadeiras ao mesmo tempo.
Como é o preparo uma a uma?
É a prática adotada rotineiramente e oferece desvantagens. É o método mais difícil de ser padronizado por usualmente envolver várias pessoas. Facilita a ocorrência de erros na diluição do leite, favorece a contaminação bacteriana do alimento e é mais trabalhoso, pois envolve a repetição 6-8 vezes ao dia. É praticado até em horas noturnas em que o sono impede a obediência às regras da correta assepsia. É mais caro e predispõe a maior número de acidentes que ocorrem nas atividades que envolvem trabalho na cozinha.
A Anvisa assim recomenda: “lave a mamadeira em água corrente, encha uma bacia com água morna (30°C) e pingue algumas gotas de detergente; misture; coloque a mamadeira e aguarde 10 minutos; depois, esfregue-a com uma escovinha própria, nunca use a esponja da cozinha, a menos que seja nova; enxague e ferva por 3 minutos”, (set. de 2020).
Maior segurança será conseguida colocando todo o material, após execução das tarefas antes citadas, em recipiente de plástico, durante 1 hora, numa solução com água suficiente para cobrir tudo, duas colheres de sopa de água sanitária e duas colheres de sopa de bicarbonato de sódio. Depois disso, deve-se lavar tudo com água limpa corrente.
Quais cuidados ao misturar o leite em pó com a água?
O leite em pó deve estar guardado em recipiente hermeticamente fechado e a água deve ser de boa qualidade e fervida. Pode ser usada a fervura em panela, em micro-ondas ou com aquecedor elétrico.
Como é o preparo de várias mamadeiras ao mesmo tempo?
Essa prática possibilita a esterilização de várias mamadeiras, de bicos e dos outros utensílios, ao mesmo tempo. O preparo do leite de forma mais metódica por uma única pessoa e evita muitos dos erros antes citados quando se prepara cada mamadeira isoladamente. A prática de limpar cada mamadeira, como a sugerida pela Anvisa, é aplicada aqui.
Como fazer essa esterilização de várias mamadeiras e o preparo do leite?
Vejam como é prático e valioso que essa rotina seja aprendida e praticada por uma única pessoa, facilitando o cumprimento do ritual repetidamente. Quando possível a cozinha deve ficar isolada para o cumprimento da rotina. Não deve ser usada ao mesmo tempo para as outras tarefas da casa.
- Lavar bem todas as mamadeiras e outros utensílios anexos e então estocar numa caixa plástica.
- Ferver (10 min) tudo numa panela comum ou numa que tem grade interna para as mamadeiras (nesta última panela, as mamadeiras fervem de boca para baixo).
- Deixar esfriar um pouco e preparar o leite diretamente nas mamadeiras — é útil uma pinça nesta fase para o manuseio das mamadeiras e outros utensílios.
- Adaptar os bicos e fechar as mamadeiras, ferver (20 min) as mamadeiras em banho maria com os bicos para cima.
- Deixar esfriar e guardar na porta do refrigerador. Aquecer em banho-maria (aquecedor elétrico de mamadeira) e oferecer.
- Respeitar cuidados básicos: mãos lavadas, água fervida para o preparo do leite, não processar outros alimentos ao mesmo tempo. Algumas mamadeiras não permitem essa fervura.
- Preparar (4 a 8) mamadeiras para uso por 12 horas ou 24 horas.
E como guardar as mamadeiras prontas?
O alimento assim preparado é estocado no refrigerador. Quando necessário é rapidamente aquecido e oferecido à criança.
Essa esterilização não altera os alimentos?
Vejam o que informam os pesquisadores Salles, Fiates, Liberatore e Jorge que estudaram o assunto: “o método de esterilização terminal em banho-maria é eficaz e garante um alimento seguro do ponto de vista microbiológico e adequado nutricionalmente”. Eles pesquisaram e verificaram que o leite assim esterilizado fica isento de bactérias, livre do risco de produzir infecções, e não sofre mudanças no valor nutritivo.
Por quantos meses devemos fazer essa esterilização rigorosa?
Após os 6 meses de idade, quando a criança tem contato com o chão e leva tudo à boca, a esterilização passa a ser menos rigorosa. Aos 9 ou 12 meses de idade, aconselha-se que os utensílios da alimentação sejam cuidadosamente lavados e que o preparo e o manuseio dos alimentos sejam feitos com normas adequadas de higiene. Como são feitos para o adulto.
Podemos ferver o leite de soja desse jeito?
É possível usar o método para o leite de vaca ou de soja, sem acréscimos, como para o leite adicionado de farinhas de aveia, de milho ou de arroz. Os sucos não devem ser fervidos. Devem ser colocados em mamadeiras esterilizadas pela fervura. As sopinhas são introduzidas na alimentação lá pelos 6 meses de idade. Portanto, numa idade em que a esterilização terminal já não é tão importante. A esterilização terminal é indicada para os alimentos preparados para serem dados várias vezes ao dia e o leite é o melhor exemplo. A sopinha é dada apenas uma vez e é pouco prático usar essa esterilização para esse alimento.
Como fazer a esterilização da água que a criança bebe?
A água deve ser fervida por 10 minutos. Mais uma vez, é destacada a amamentação ao peito materno e lembrado que as crianças que mamam na mãe não precisam de suplementação de água.
Podemos usar os esterilizadores de micro-ondas?
Não existem comprovações científicas que proíbam o aquecimento com o micro-ondas para processar os alimentos das crianças ou dos adultos. Há muita celeuma sobre o tema, embora os defensores de uma postura mais natural defendam a fervura no fogão como o método ideal para esterilizar os alimentos das crianças. Assim, embora defendamos a fervura no fogão, não é possível informar que o emprego da fervura da água e da esterilização no micro-ondas seja maléfico. A alternativa de usar alguns esterilizadores elétricos também é válida. Mas veja que a técnica da esterilização terminal, como ensinada, é para a fervura da água usando o fogão doméstico.
E o método “Milton”?
O cloro é o agente esterilizante da solução de Milton que foi extensivamente empregada décadas atrás para a esterilização das mamadeiras. Atualmente, é pouco usado. Ainda há defensores do uso desse método e o texto abaixo encontrado na internet oferece informações gerais:
Produto para desinfecção de mamadeiras, chupetas e utensílios infantis
1 pastilha para 1 litro de água — 15 minutos — sem fervura, sem enxágue e sem complicação! Elimina o vírus da Covid-19.
Todos os utensílios que entram em contato com os bebês devem ser corretamente higienizados com frequência. Assim sendo, mamadeiras, chupetas, bombas tira-leite, potes, garrafas, copos, talheres, assim como mordedores e brinquedinhos devem ser submetidos a um processo de higienização.
O método de desinfecção à frio utilizando as pastilhas efervescentes Milton elimina bactérias e vírus testados, dispensa a fervura e oferece muitas vantagens em relação aos métodos convencionais:
Outras vantagens: ideal para viagens e passeios, uma solução pode ser usada por 24 horas. Elimina o risco de derretimento e desgaste dos utensílios. Mais seguro, evitando queimaduras.
Modo de Usar: lave os utensílios em água corrente para remoção dos resíduos; prepare a solução com 1 pastilha de Milton para cada 1 litro de água; não usar recipiente metálico; mergulhe os utensílios na solução de forma que fiquem submersos e aguarde 15 minutos; retire e deixe escorrer a solução — não precisa enxaguar.
Princípio ativo: Dicloroisocianurato de sódio - 40,8% de cloro ativo.
Posso guardar o leite que sobra e usar posteriormente?
Não. O leite que sobra, após tomada uma parte, não deve ser guardado para o uso posterior. Deve ser desprezado ou usado para outra finalidade, como fazer uma vitamina de frutas para dar para o filho maior.
18.3.1Depoimentos de cuidadores
“Reforçando aos pais a não necessidade do uso da mamadeira. Estou passando por isso em casa, porque meu pai insiste que comida de criança é dada na mamadeira e não em prato, colher e copo, porque elas se lambuzam muito e porque, na minha época de criança, eu só comia na mamadeira. Outra ‘peitica’ que tenho em casa é ficar dizendo que minha filha não tem de tomar mingau para ficar forte, quando a menina está comendo de tudo. Isso é um pensamento de 20/30 anos atrás que ainda continua na cabeça de muita gente. A esterilização terminal é aprendida com a rotina. Quem dá de mamar não passa por nada disso.”
“Não imaginava que o plástico poderia ser tão nocivo, pois vemos em todos os lugares, com todas as pessoas esse tipo de mamadeira, e nem sabia que existia a de vidro. Fiquei um pouco assustada, pois um dos meus filhos usa a mamadeira e por enquanto me parece que não é possível tirar.”
“Entrei em pânico quando fiz essa esterilização de várias pela primeira vez. Minha bebê tinha apenas duas semanas e não tomava uma quantidade certa de leite. Algumas vezes, ela pedia 20 mL, outras vezes 30 mL e outras 40mL. Isso de hora em hora. Eu possuía um arsenal de mamadeiras, de três modelos diferentes. Quando fui pôr em prática a técnica da esterilização de várias mamadeiras surgiram dois obstáculos: um, não consegui encontrar o aquecedor de mamadeiras nas lojas da minha cidade e tive que recorrer à internet; e dois, algumas mamadeiras, que possuíam um sistema de rosca na base, vazaram todo o leite. Por outro lado, como optei por preparar todas as mamadeiras com 60 mL, achei que estava havendo muito desperdício de leite, pois minha bebê não tomava tudo. No entanto, ultrapassada essa fase inicial de adaptação, tudo foi se ajustando e a esterilização entrou no cotidiano.”
A consulta médica é essencial e insubstituível.
18.4Alimentos distintos do leite materno no primeiro ano de vida
18.4.1Complementação alimentar antes do sexto mês para as crianças que mamam ao peito
Como agir se a mãe tem leite e trabalha fora de casa?
Alguns conselhos:
- O leite materno desmamado, dado de colher ou copinho, é a primeira alternativa. Ver o capítulo Amamentação para mais detalhes. Nos finais de semana e feriados, o correto é dar exclusivamente o peito.
- Se não for possível a primeira alternativa, é correto usar um dos produtos derivados do leite de vaca, as fórmulas lácteas para bebês. Essa fórmula deve ser oferecida após a mamada, na menor quantidade possível e, idealmente, com colher ou copinho.
E quando o leite materno é insuficiente logo no início da vida do bebê?
Se, além do leite humano, há necessidade de dar outros alimentos, o correto é complementar com uma das fórmulas industrializadas apropriados para o grupo etário.
Detalhem mais essa alimentação complementar!
Cada caso é um caso. A alimentação das crianças quando as mães se ausentam da casa por quatro horas por dia é diferente da alimentação daquelas cujas mães se ausentam por oito horas por dia. A opção rotineira é o uso de fórmulas alimentares para bebês. E a questão central é tentar não usar a mamadeira. Dar de copinho ou de colher. Há pediatras que indicam sucos e papas de frutas e de legumes antes dos 6 meses. Outros indicam a partir do sexto mês. Deve então ser montado um programa individualizado com a ajuda do pediatra.
Quais mudanças ocorrem quando iniciamos outros alimentos?
As crianças exigem mais o peito da mãe à noite. Talvez para suprir a necessidade afetiva. Como os outros alimentos são de digestibilidade mais difícil, há um espaçamento maior entre uma refeição e outra. A cor, a consistência, o odor das fezes e o número das evacuações também mudam. As evacuações ficam menos numerosas e pode começar a constipação intestinal. É possível notar maior pigmentação na urina. Mas, sem dúvida, o mais importante, é que o ganho mensal de peso, de forma geral, passa a ser maior. Isso não é bom.
Como monitorar se tudo vai bem com essa nova alimentação?
Esse é o aspecto principal. As visitas pediátricas rotineiras respondem a essa dúvida. Os desvios do peso no gráfico de crescimento devem ser monitorados como também as manifestações de intolerância e/ou alergia ao alimento artificial. Muita atenção, sobretudo, ao excesso de peso.
18.4.2Alimentação exclusiva com alimentos distintos do leite materno antes do sexto mês de vida
O que é melhor para o bebê que não pode mamar no peito?
No mundo, estão amplamente disponíveis as fórmulas lácteas para bebês derivadas do leite de vaca. As fórmulas com a proteína da soja são uma alternativa válida. Como norma geral, todo produto deve ser adaptado às necessidades nutricionais, peculiaridades digestivas, características do metabolismo e singularidades do funcionamento do corpo das crianças novinhas.
Os leites de outros animais criam os nossos filhos com saúde?
Como o leite materno, não. O leite de vaca é adequado para o bezerro. Para vocês terem ideia das diferenças, a proteína do leite de vaca é quase três vezes mais pesada do que a do leite humano. Além disso, a qualidade das duas é muito diferente. As crianças novinhas não conseguem digerir bem a proteína do leite da vaca. Por isso, nos primeiros meses de vida, quando for imperioso usar o leite que vem direto da vaca ou do saquinho, são usados os artifícios de diluir, de ferver por bom tempo os aludidos produtos. Mesmo assim, é enorme a chance de acontecer alergia, diarreia, vômito e outros problemas. Além disso, quando o preparo é errado, com muita água ou excesso de farináceos, podem ocorrer carências principalmente proteicas com riscos de diarreia e desnutrição. Essas manipulações não são possíveis com o leite humano. Mais um ponto para ele.
Existem fórmulas mais adequados para os bebezinhos?
Existem. São as chamadas fórmulas lácteas modificadas para tentar imitar o leite humano. Elas são basicamente derivadas do leite de vaca. No processo de industrialização, as proteínas são selecionadas e alteradas, tornando-se mais “leves” e fáceis de serem digeridas. Além disso, são adicionados vitaminas e alguns minerais importantes como o ferro. Sem dúvida, mesmo a anos-luz de distância da qualidade do leite humano, essas fórmulas são bem menos agressivas, causam menos alergias e, portanto, são mais adequadas para o bebê. Entretanto, não deixam de ser alimentos processados e apresentam grandes quantidades de compostos que podem ser nocivos à saúde (gorduras trans-saturadas, excesso de sal e açúcar, ausência de fibras e a presença de outros compostos químicos).
Falem sobre a alimentação dessas crianças.
Vejam algumas normas gerais:
- Escolher o mecanismo de alimentar essas crianças novinhas que não mamam. Há tendência de evitar a mamadeira e de tentar oferecer o alimento com copo ou colher.
- Cuidar da esterilização. As diarreias que matam milhões de crianças, em todo o mundo, podem ser prevenidas pelo preparo adequado do alimento.
- Zelar para que a diluição seja exatamente a prescrita pelo médico ou a recomendada no rótulo. Não é correto colocar mais pó da fórmula para tornar a criança “mais forte”. Também não é correto colocar menos.
- Deixar que as crianças definam o quanto querem comer. Interferência para que elas comam mais, para que “tomem o restinho”, é maléfica.
- Ofertar a mamadeira olhando para a criança, nunca para a TV. Ao primeiro sinal de estômago cheio, de saciedade retirem a mamadeira.
- Escolher uma fórmula apropriada ao grupo etário e o pediatra é o melhor conselheiro para isso. Há diferenças de qualidade e preço que devem ser consideradas quando da escolha do produto.
- Caso não seja possível ofertar um leite modificado e a alternativa for o leite de vaca integral, ouvir o pediatra sobre esse assunto.
- Há pediatras que introduzem mais precocemente os sucos de frutas cítricas (laranja, por exemplo) e mais tarde a papa de frutas. Sucos em conservas não devem ser utilizados.
- Gradativamente, com orientação do pediatra, com os conhecimentos das leituras e com os conselhos dos que alimentaram crianças pequeninas, outros alimentos podem ser introduzidos guardando as regras da quantidade, qualidade, adequação e higienização.
- Se a mamadeira estiver sendo usada, a colher e o copinho devem ser introduzidos após os 3 meses para dar as frutas líquidas e pastosas.
O uso precoce de alguns alimentos pode ser maléfico?
Ultimamente, há grande preocupação com a alergia alimentar. Há recomendações de iniciar sucos de frutas e alimentos pastosos com grãos e outros vegetais, mesmo nas crianças não amamentadas, após os 6 meses de idade. Há duas considerações a fazer. A primeira é que o leite de vaca e o de soja são os principais causadores de reações alérgicas. Os leites modificados causam menos essas reações, mas podem provocá-las. A segunda é que há estudos científicos recentes que não mostram diminuição da incidência de alergia alimentar quando é atrasada a introdução desses outros alimentos. Uma publicação de uma importante revista pediátrica dos Estados Unidos citou: “o atraso na introdução de leite de vaca ou de outros alimentos pode não ajudar na prevenção do desenvolvimento de alergia”. Assim, não há evidências provadas que o retardo na introdução de outros alimentos após os 4-6 meses previne o surgimento de alergias.
Pode ser oferecida qualquer fruta?
A observação para evitar o morango e o abacaxi pela maior probabilidade de provocarem alergias é questionada. As evidências são escassas para tal recomendação que pode mais prejudicar do que ajudar. Banana amassada, maçã e pera raspadas, sapoti, dentre outras, são frutas que podem ser ofertadas. As frutas podem ser cruas ou cozidas.
E o coquetel de frutas?
É importante saber qual é o sabor do mamão, da maçã, da laranja e assim por diante. É boa norma, de início, ofertar as frutas puras. Isso é válido para os sucos e para as papas de frutas. Quando a criançada conhecer bem as frutas, é aceitável misturar, fazer o coquetel usando duas ou mais delas. Até alguns legumes como a cenoura e a beterraba são associados. Há crianças que aceitam muito bem laranja com tomate, laranja com beterraba, laranja com cenoura. A rede na qual se coloca uma pequena porção da fruta é uma opção para ensinar a criança.
Qual a conclusão de vocês?
O consenso é que deve ser feito de tudo para a amamentação exclusiva no peito por 6 meses. E que a oferta de alimentos não lácteos (frutas, papinhas de legumes etc.) apenas após os 6 meses. Mas há pediatras que orientam dar esses alimentos antes desta idade para crianças não amamentadas no peito. Assim admitem ofertar lá pelos 3 meses as frutas e logo aos 4 as papinhas de vegetais. E que o desenvolvimento de alergia depende de muitas outras variáveis e a principal é a herança que ainda é o principal fator predisponente ao desenvolvimento de quadros alérgicos nas crianças. Mas há pediatras que pensam de forma diferente. Há necessidade de estudos científicos para deixar claro se a introdução de alguns tipos de alimentos no primeiro ano de vida, ou mesmo antes da criança nascer, nesse caso pela sua mãe quando ainda gestante, pode aumentar ou não o risco de alergia.
As papinhas, quando oferecê-las?
Alguns pediatras opinam que há necessidade de se complementar o leite com alimentos que forneçam vitaminas, proteínas de origem vegetal e alguns alimentos minerais (como o ferro), muito importantes para o crescimento após o terceiro mês de vida. Os princípios da boa nutrição não devem mudar. E faz parte desses princípios enfatizar que as papinhas:
- Não visam a saciar a fome. O alimento que faz a criança crescer é o leite humano ou a fórmula. O leite ou a fórmula, nessa ocasião, deve ser ofertado após a papinha.
- Objetivam o aprendizado do sabor e das texturas, experimentar a diversidade alimentar. Isso se consegue com pequenas quantidades e sem pressão. Nada de fazer aviãozinho e empurrar comida de goela abaixo. Comer tem que dar prazer, tem que ser gostoso. Há estudos que mostram que, às vezes, é necessário apresentar o mesmo alimento 8-10 vezes para que haja aceitação. Portanto, muita paciência.
- Pretendem estimular todo o processo de mastigação e deglutição. As papinhas devem ser sempre preparadas na hora e com frutas frescas. As industrializadas, vendidas nos supermercados, apenas devem ser oferecidas em situações excepcionais.
Como proceder?
Ofereçam de início a papinha de frutas com a colher, antes do leite das 14 ou 15 horas, por exemplo. O uso de banana amassada é uma boa opção. Maçã e pera raspada, também. Um pouco de leite deve ser oferecido a seguir.
A papa seguinte é a de vegetais — sem ou com o mínimo de sal —, lá pelo quarto mês. É fácil de ser preparada, dá um prazer muito grande à mãe. Nesse caso, é importante a aceitação do sabor salgado que passa a ser identificado um pouco mais tarde que o doce. Aí vão alguns conselhos práticos sobre o preparo:
- Usar legumes cozidos sem ou com pouco sal de modo a ficar “insosso” para quem faz. Começar com poucos legumes (dois, por exemplo) e acrescentar outros, aos poucos.
- Começar com legumes de cores diferentes, como batatinha e cenoura, para que diferentes nutrientes sejam oferecidos. Após o cozimento em água e sal, refogar em óleo de milho, girassol, canola ou oliva. Nessa fase, acrescentar alho, cebola, cheiro verde, pimentão para que fique um alimento saboroso.
- Ofertar essa papinha salgada entre 10 e 12 horas. Lembrar que a papinha não objetiva encher a barriga, pois o leite é oferecido em seguida. Tentar, após os 4 ou 5 meses de idade, a introdução da sobremesa: frutas machucadas ou raspadas.
- Saber sempre que melhor do que a insistência é apresentar o alimento outras vezes, em dias diferentes, para que ocorra o aprendizado de sabor.
Algumas crianças ficam amarelas com a cenoura. Por quê?
A cenoura, o mamão e o jerimum contêm pigmentos — carotenos — para a formação da vitamina A. Se oferecidos em grande quantidade, pigmentam a pele das crianças de amarelo, o que é bem visto nas palmas dos pés e nas palmas das mãos. Não é maléfico, mas habitualmente os pediatras recomendam redução desses itens na alimentação das crianças que apresentam essa característica.
Ensinem a fazer a sopinha!
A nossa proposta é fornecer princípios gerais sobre a alimentação. O preparo da sopinha é conhecimento de quem pratica a culinária. Uma vovó ficará muito feliz de ensinar o preparo desse alimento. O que ressaltamos é que os produtos usados no preparo da sopinha devem ser de boa qualidade, bem selecionados, fresquinhos e tenros para facilitar a cocção, sem agrotóxicos.
Há crianças que recusam a colher. Como fazer?
Essa reação é comum e normal. Existe um reflexo de defesa da criança menor que faz com que ela “expulse” da boca tudo que não for líquido. Esse reflexo diminui após o quarto ou quinto mês. A persistência e o tempo farão seu filho aceitar melhor o alimento não líquido. A rejeição inicial a um alimento não implica rejeição permanente. Depois de alguns dias, com paciência e carinho, volte a oferecer e é comum que ele sinta prazer com o que é ofertado. Mas nunca force.
Alguma novidade para o quinto mês?
No quinto mês, a criança já está bem ativa e necessita de maior quantidade de calorias. Devem ser dadas papas com maior valor calórico como a de leite com cereais no jantar, sempre dentro dos mesmos princípios gerais: pequeno volume e leite a seguir, sem forçar. Os mais indicados são as farinhas de milho, de aveia e de arroz. Os tubérculos, como o cará e o inhame, são apropriados para essa fase.
É essencial oferecer ovo, carne e fígado?
Lá pelo quinto mês de vida, a criança precisa receber alimentos que contenham ferro de boa absorção — há alimentos que contém ferro não bem absorvido. Durante a gravidez, as mães passam para os fetos grande quantidade de ferro que garantirá, até 5 a 6 meses, que as crianças não apresentem anemia. Mas a partir dessa idade, esse ferro já não existe e há necessidade de aporte de alimentos ricos no mineral para manter as crianças sem anemia. Por essa razão, logo após a introdução da papa de cereais, entre 5 e 6 meses, a criança deve receber a gema de ovo cozida, a carne vermelha e o fígado, na papa de vegetais. Pode-se começar com ¼ da gema cozida e ir aumentando aos poucos. O fígado deve ser cozido normalmente, como para o adulto, amassado e oferecido duas vezes por semana, na papa de vegetais. Alguns comentários:
- A gema de ovo é introduzida precocemente devido ao seu alto teor em ferro. Esse ferro não é bem absorvido pelo organismo. A gema é mantida porque possui um tipo de gordura muito importante para o desenvolvimento cerebral.
- Algumas pessoas têm preconceito com a ingestão do fígado, acham que é um órgão sujo, que “guarda” muitas toxinas, etc. Isso não é científico, o fígado é uma das maiores fontes de ferro de boa absorção.
- Os pescados devem ser usados desde que de boa procedência, sadios, preferentemente frescos. Suas proteínas são excelentes. Os crustáceos não devem ser oferecidos nessa idade.
A recomendação de não oferecer clara de ovo antes de um ano pelo perigo do desencadeamento de alergia que impede que a criança receba algumas vacinas (a do sarampo, por exemplo) não é atualmente aceita. A clara contém um perfil de nutrientes essencial para a saúde da criança (micronutrientes, antioxidantes, fosfolipideos) que tem papel essencial na maturação do sistema nervoso. Além disso, é uma proteína de baixo custo o que é importante para os brasileiros.
Quando introduzir arroz integral, ervilha, lentilha, feijão?
Alguns pediatras, mais liberais, permitem a introdução de grãos a partir do quarto mês de vida. Assim, arroz integral, ervilha, lentilha, grão de bico e o nosso feijão são, por esses pediatras, incluídos no cardápio da criançada na idade citada. Devem fazer parte da papinha de legumes e carne, e ofertados em pequena quantidade. Obviamente, há necessidade de preparo diferente da papinha de vegetais desde que os grãos necessitem cocção mais longa.
Podemos usar o óleo ou a manteiga?
Nos primeiros meses em que se dá a sopinha, não se recomenda o uso das gorduras. Lá pelo quinto mês, para aumentar a oferta calórica e para ajudar na palatabilidade da sopinha ou da papinha de legumes e carnes, um pouquinho de gordura pode ser usado. Obviamente, são preferidas as gorduras menos maléficas como os óleos de milho, de canola, ou de girassol.
Quando usar o leite de soja?
A fórmula com soja pode ser usada desde o início quando for a opção do pediatra ou quando há alergia ao leite de vaca. As crianças que apresentam alergia ao leite de vaca têm história familiar dessa enfermidade e desenvolvem doenças alérgicas na pele, no trato digestivo e no respiratório. Parte delas também pode ser alérgica à soja. O uso do leite de soja é usualmente mais caro que o de vaca e a indicação desde os primeiros tempos da vida, para evitar alergia ao leite de vaca, é questionável. É importantíssimo que a fórmula com leite de soja seja escolhida com critério para que as vitaminas, minerais e os outros nutrientes que a criança necessita sejam ofertados apropriadamente.
Ouvi falar em algumas fórmula especiais.
Existem fórmulas lácteas indicadas para situações especiais. As sem lactose destinam-se a crianças com distúrbios relacionados à digestão deste açúcar. Existem fórmulas para as crianças com a doença do refluxo gastroesofágico.
Isto é o que a indústria de fórmulas alimentares divulga. Os médicos mais céticos sempre perguntam se há base científica sólida para o uso de tais fórmulas. Ou se o que existe é uma poderosa máquina de vendas para a indústria de leite em pó comercialize os seus produtos. Essas fórmulas custam caro e não há estudos que comprovem seus efeitos. Caso tenham algum efeito, seria apenas pela maior viscosidade observada. Mais prático e econômico orientar os pais para engrossarem o leite com adição de farinhas ou frutas. Estudos como o de Barbieur, Levy e Vandenplas2 nos fazem pensar prudentemente sobre essas fórmulas em lindas embalagens, com nomes charmosos e divulgadas por moças e rapazes charmosos pelo mundo afora.
Nos pacientes filhos de pais alérgicos, podem-se utilizar os leites hipoalergênicos na tentativa de reduzir a sensibilização às proteínas do leite de vaca. O mesmo comentário antes expresso é aplicado aqui. Impressiona a inexistência de estudos e o que a propaganda dissemina. Propaganda enganosa!? Existem fórmulas com as proteínas parcialmente ou extensamente hidrolisadas, bem mais caras que as comuns, para crianças com quadros clínicos importantes de intolerância e alergia às proteínas do leite de vaca ou de soja.
E as coalhadas, iogurtes e outros leites fermentados?
Podem e devem ser ofertados para os que consomem leite de vaca, em qualquer das suas formas, a partir dos 3 ou 4 meses de idade. São preferíveis os iogurtes e coalhadas feitas em casa.
Conheço adulto criado com leite de vaca da fazenda!
Mostrar apenas os que estão bem e esquecer os que foram prejudicados e até os que morreram com essa prática não é bom ensinamento. A melhor alternativa é sempre o leite humano. Isso será repetido inúmeras vezes, até a exaustão. Se não for possível, a alternativa é usar o leite de vaca modificado, por complexos processos industriais, para os bebês dos primeiros meses de vida. E se essa última opção não for viável, as criancinhas têm que ser nutridas com outros alimentos. Nutrição é prioridade na infância.
Como preparar o leite de vaca in natura para um bebezinho?
O leite de vaca integral, in natura, é a opção menos interessante. Mas se é a opção que resta, aí vão algumas dicas para usar nos bebezinhos: ferver um litro de leite por 20 a 30 minutos — manter o leite em movimento para evitar que transborde da panela. Repor a quantidade de água perdida na fervura para que o volume volte ao 1 litro do início da fervura. Em seguida acrescentar mais água fervida até que o volume final fique 1,3 litros. Adicionar duas colheres das de chá rasa de açúcar para cada 100 mL do leite diluído — total 26 das de chá de açúcar para 1,3 litro do leite. Acrescentar uma colher das de chá rasa de óleo vegetal — 13 colheres das de chá para o leite diluído. Distribuir o leite assim preparado em um certo número de mamadeiras e aquecer em banho-maria quando for usar. Preparar a metade da receita se for o caso.
Podemos usar o leite integral em pó?
Não é a melhor opção. Antes dos 4 meses, para cada 100 mL do leite preparado, usar duas medidas (10 g) do pó, duas colheres das de chá rasas de açúcar, uma colher das de chá de óleo mineral e água fervida para completar 100 mL. Há médicos que mandam acrescentar uma colher das de chá rasa de amido. Após os 4 meses, para cada 100 mL usar três medidas do pó do leite. Os outros componentes são os mesmos. Como esses leites não trazem medidor, podem ser usados os de cinco gramas de outros leites.
Esse leite atende todas as necessidades das crianças?
Não. Há necessidade de adicionar ferro e algumas vitaminas. O pediatra orientará sobre a adição de frutas, de outros alimentos e de remédios que auxiliem a suprir os requerimentos diários das vitaminas essenciais.
Ele pode ser usado como complemento ao leite da mãe?
Não é o melhor, mas pode. E tem que ser preparado da mesma forma.
Por quanto tempo usar o leite de vaca in natura diluído?
Como ensinado antes, até os 3 meses. Após isso, a água vai sendo retirada gradualmente e lá pelos 5-6 meses, a meninada pode tomar o leite sem diluição. Mas a fervura continua sendo essencial para a esterilização e a adição da água perdida também é fundamental. Assim, aos 6 meses, o leite que a criança ingere pode ser o leite com a quantidade de água que saiu do peito da vaca. Se forem perdidos 200 mL de água na fervura, adicionar essa mesma quantidade para restaurar as qualidades originais do leite.
Pode colocar um “engrossante”?
É hábito cultural no nosso meio usar alguma farinha ou fruta para “engrossar” o leite. A luta, nos nossos dias, contra a obesidade é tão grande que não é boa conduta adicionar farináceos ou qualquer outro alimento que aumente a oferta de calorias. O ideal é não empregar os “engrossantes”. Mas as avós informam que uma quantidade bem pequena, para “temperar” o leite, pode tornar o alimento mais gostoso. Quantidade pequena significa uma colher das de chá, rasa, para cada 100 mL do leite. Mas produz obesidade, um assunto hoje muito importante — sugerimos que todos leiam o capítulo o tema neste livrinho. Tentar reduzir o açúcar quando for adicionar a massa ajuda a evitar o ganho excessivo de peso.
Posso dar leite com chocolate?
Chocolate na forma de confeitos, guloseimas, barrinhas, bombons devem ser evitados. Os leites achocolatados, preparados em casa ou industrializados, adorados por muitas crianças, devem ser oferecidos mais tardiamente possível.
A prevenção do excesso de peso começa cedo, não é?
Falaremos sobre alguns itens para os que tomam alimento na mamadeira:
- Antigamente, os pediatras diziam que o correto era encher a mamadeira e as crianças deveriam tomar o alimento até sobrar um pouco. Eram vistas crianças de poucos meses tomando uma mamadeira inteira de leite e mais outra porção, somando 300 mL ou mais por vez. Isso causa obesidade. O ideal, desde os primeiros meses, é que as crianças se contentem com porções menores de alimentos e se acostumem a terminar a refeição com um pouquinho de fome, sem resto de alimento na mamadeira. Certamente, os dados da curva de crescimento e todos os outros indicadores de saúde devem estar perfeitos.
- Não aumentem imediatamente a quantidade de alimento quando as crianças de meses de idade rasparem a mamadeira. Esperem alguns dias antes que essa providência seja adotada. Existem vantagens de ensinar desde cedo aos nossos filhos que comer menos 10 mL de leite ou de outro alimento é boa prática.
- Observamos muitas mães dando comida aos filhos de noite, sem que eles solicitem, isso é errado. Se eles não solicitam alimentos, se estão dormindo tranquilos, deixe-os dormir. As babás são mestras nessa técnica de dar alimentos à noite, nos primeiros dois ou três meses de vida. É aceitável dar alimento à noite se as crianças manifestam sinais de fome. Os bebês que tomam o leite materno tendem a “pedir comida” a intervalos de duas e meia a quatro horas. Isso pode incluir as madrugadas. Logo esses bebês tendem a mamar menos à noite. Quando os que estão em aleitamento materno exclusivo começam a receber diferentes alimentos, é possível manejar a dieta para tentar que não comam à noite. Oferecer no início da noite, lá pelas dezoito horas, no sexto mês, uma refeição à base de tubérculos, legumes e grãos do tipo aveia e arroz integral, complementada com pequena quantidade de leite, pode permitir uma noite sem alimentos.
- Outro é sobre o açúcar e os “engrossantes” que falamos em outra pergunta.
- A mamadeira deve ser ofertada de forma tal que todos notem o primeiro sinal de saciedade; dar a mamadeira sem prestar atenção a esses sinais é erro.
Existem riscos de proceder assim?
Os pediatras têm que ser ouvidos e têm que acompanhar a curva de crescimento da meninada. Os familiares devem estar atentos para os sinais de fome que mesmo nas crianças novinhas são marcantes. Se há fome, há que se ofertar mais alimento.
18.4.3Alimentação após o sexto mês de vida
As crianças que mamaram no peito têm mais dificuldade de aceitar os outros alimentos?
Falamos em outra sessão que o leite materno não é tão monótono quanto o leite artificial e isso parece justificar que as crianças amamentadas são mais receptivas para aceitar outros alimentos. Sabe-se hoje que a alimentação materna tem influência no sabor do leite, os sabores dos alimentos ingeridos pela mãe passam para o leite e isso vai sendo gravado pelo bebê e influência na sua aceitação de novos alimentos. Falamos que há muitas outras variáveis envolvidas. Uma delas é a extraordinária ligação afetiva das crianças com as mães. Os novos alimentos têm sabor, textura e cheiro diferentes do leite materno. A forma de ofertá-los também é muito distinta. Embora seja possível certa dificuldade na adaptação dessas crianças, parece que as dificuldades são mais difíceis de transpor nas que não mamaram. Todas, umas mais cedo, outras mais tarde, aceitarão os novos alimentos com muito prazer. Paciência e jeitinho são excelentes mecanismos de fazê-las aceitar. Alguns espertinhos preferem que esses novos produtos sejam ofertados por pessoa diferente da mãe. Muitos não aceitarão a mamadeira, o que é extremamente salutar e passarão a comer com copinho, colherzinha e com as mãos.
Depois do sexto mês, a criança já pode comer de tudo?
Mesmo nessa idade, o leite materno continua sendo a melhor fonte de nutrientes. A indústria desenvolveu fórmulas lácteas apropriadas para o uso no segundo semestre de vida e todas contêm ferro e vitaminas. A partir do sexto mês, o esquema alimentar passa a ser mais variado e além dos alimentos já oferecidos é importante acrescentar outros grãos (lentilha, ervilha, feijão) e vegetais (inhame, cará, batata-doce). É hora também de os garotos e garotas usarem as mãos para levar os alimentos à boca. Dessa maneira, tirinhas de carne, de frutas e de pão, que permitem uma pegada firme, devem ser oferecidas sempre com a supervisão de um adulto. Introduzir doces como sobremesa, no sétimo mês, pode ser uma medida preventiva. Pretende ensinar a não consumir as guloseimas nos intervalos das refeições.
Sugiram um cardápio de referência para bebês a partir dos 6 meses.
Lá vai uma orientação geral:
- Se a criança mama, o café da manhã é no peito da mãe. Nos que não mamam, é o leite adaptado ao primeiro ano de idade. Os dois grupos devem ser estimulados a ir para a mesa e consumir os alimentos dos familiares: queijo, pão, batata-doce e outros alimentos regionais que eles possam consumir.
- Lá pelas nove horas, o bom é um lanche: iogurte ou outro leite fermentado, biscoito ou as extraordinárias frutas. Os que mamam podem querer dar uma “bicadinha” na mãe.
- Ao meio-dia ou um pouco mais tarde, é momento do almoço, da comida pastosa, amassada. Não há necessidade de usar liquidificador ou peneira para o preparo desse alimento. A criança deverá ser capaz de desenvolver o sistema sensório-motor oral começando com o enfrentamento da diversidade de sabores, cores e texturas dos grãos, legumes variados, carne (galinha, peixe ou boi) ou víscera (fígado). O leite é sempre a melhor opção de sobremesa, sobretudo o da mamãe.
- Por volta das 15 horas, outro lanchinho.
- Às 18 ou 19 horas, uma sopinha, ou papa de cereais com leite. O leite continua sendo uma boa sobremesa e, os que são amamentados, não perdem a oportunidade de ter contato com os peitos das mães.
- Entre 21 e 23 horas, alguns solicitam um leitinho para dormir com a barriguinha forradas. Os que mamam solicitam a mama e habitualmente fazem isso ainda de madrugada, o que é menos comum nos que não amamentam nessa idade.
E nos próximos meses?
Do sétimo para o oitavo mês, continuem a ofertar leite e, de forma ainda mais marcante, os alimentos que constituem a dieta da casa. É claro que se o costume é abusar de temperos (pimenta etc.), a comida da criança deve ser separada antes da entrada dos condimentos. Lembrando sempre: acostumar-se com pouco sal e pouco açúcar é prevenção de muitas doenças, (do coração, do cérebro, diabetes...). Serão introduzidos: feijão e arroz integral bem cozidos e amassados, carne moída, o peixe e o frango desfiados e tudo o mais. Alimentos com proteínas “pesadas” como a clara de ovo, chocolate e derivados de peixe de carne escura (atum) devem ser oferecidos depois do primeiro ano de vida.
Tenho um sobrinho de seis meses que come tudo isso!
Isso pode acontecer, claro! As recomendações delineadas aqui derivam do conhecimento científico e refletem os conselhos sobre as práticas nutricionais para as crianças de menos de um ano em todo o mundo. O fato de uma criança de seis meses não ter problemas com a antecipação do uso de alimentos que deveriam ser introduzidos mais tarde pouco significa.
E para as crianças que mamaram no seio até os seis meses?
Para as que recebem leite materno exclusivo até seis meses, os alimentos (sucos, papas etc.) são introduzidos na sequência descrita, com intervalos de cinco a sete dias, a partir do sexto mês. Para crianças com aleitamento misto, essa introdução pode variar, de acordo com a quantidade de leite de vaca (industrializado ou não) oferecido. Para crianças que usam esse complemento apenas uma vez por dia basta oferecer água (às vezes, a criança nem aceita) e sucos, pensando em facilitar o trabalho renal. Para aquelas cujas mães trabalham dois expedientes e só mamam à noite, pode-se introduzir os alimentos como para os que não mamam. Nos casos intermediários, usa-se o bom senso, dentro da premissa: quanto mais leite não humano maior a necessidade de líquidos e de outros alimentos. Mais uma vez o lembrete: durante toda a vida, o leite e seus derivados são alimentos muito importantes, como fornecedores de proteínas de alto valor para o organismo (mesmo quando acaba a fase de lactação) e de outros nutrientes fundamentais à saúde, como o cálcio, importante contra a osteoporose.
E os remédios com vitaminas?
O uso de suplementos vitamínicos é dispensável na rotina alimentar da criança, à exceção de situações especiais. A oferta de vitaminas e minerais deve ser feita única e exclusivamente com uma dieta adequada. Sempre é mais saudável e econômico adquirir vitaminas nas feiras através das frutas e verduras do que nas farmácias.
As principais vitaminas e suas fontes mais importantes são:
- Vitamina D: exposição da criança à luz solar.
- Vitamina A: leite humano, fígado, leite, manteiga, ovos, queijos, folhas verdes, batata-doce, vegetais e frutas de cor laranja (manga, cenoura, maracujá, abóbora, pimentão, mamão).
- Vitamina E: trigo, óleo de soja, derivados de milho.
- Vitamina C: frutas cítricas, goiaba, manga, caju, tomate, hortaliças.
- Vitamina B: carne, fígado, leite, hortaliças, frutas, feijão, cereais.
Quais cuidados higiênicos para os alimentos não lácteos?
Os principais são lavar as mãos com sabão antes de manipular alimentos, consumir produtos preferencialmente frescos, lavar adequadamente os alimentos crus (verduras e legumes devem ser lavados em água corrente e deixados de molho, por uma hora numa solução com um copo de vinagre ou 20 gotas de água sanitária por litro de água), usar utensílios adequadamente limpos, armazenar os produtos perecíveis ou preparados em geladeira ou consumir em até duas horas quando fora da geladeira, reaquecer adequadamente os alimentos já preparados, proteger os alimentos contra animais (baratas, moscas, ratos, formigas), não utilizar mamadeiras e bicos, e sim copo e colher.
E o excesso de peso continua a ser preocupação?
Continua e complementamos a resposta à pergunta formulada quando discutimos o item anterior sobre as mamadeiras noturnas. Lá pelos 10 a 12 meses, até a mamadeira das 22 horas pode ser suspensa. Há duas técnicas para retirar essas mamadeiras noturnas. A primeira é reduzir gradativamente a quantidade de alimento oferecida (por exemplo: a cada dois dias, reduzir 10 mL, até zerar). A segunda é reduzir o leite em pó (por exemplo: se são preparados 210 mL de leite, com sete medidas, a cada dois dias, reduzir uma medida até que apenas exista água na mamadeira).
18.4.4Participação dos cuidadores, da nutricionista e da equipe médica
Cuidadores
“No meu país, Ucrânia, é assim que as mães alimentam os filhos no primeiro ano de vida: Leite materno e fórmula nos primeiros 6 meses de vida. A partir de 6 meses, primeira comida legumes verdes cozidos. Pode ser brócolis, abobrinha, couve-flor. Depois pode ser purê de jerimum, ameixa seca, maçã verde cozida no forno, banana, pera. Depois papas de 5% (5 g de grãos moídos por 100 mL de água). Papa de arroz, grechka, milho, aveia. A carne é permitida a partir de 8 meses, apenas frango, peru, coelho, cordeiro. Peixe a partir de 8 meses. São proibidos salmão e truta e permitidos bacalhau, pescada, arinca. Iogurte natural, queijo cottage e kefir a partir de 8 meses (todos esses produtos são completamente diferentes do Brasil). Não contém açúcar e são bem gostosos e saudáveis. Ovos a partir de 1 ano.”
“Em regiões distintas do Brasil, são observados cardápios diferentes para as crianças. Essa diversidade depende da cultura local e da produção e da disponibilidade de alimentos e de outros fatores. O exemplo da Ucrânia mostra que existem características próprias da alimentação da turminha no primeiro ano de vida.”
“Achei inadequado colocar biscoito no lanche das nove horas. Por que não oferecer uma frutinha amassada no garfo (mamão, banana, etc.) ou ralada na colher (maçã, sapoti, por exemplo)? Até hoje, meu filho só leva frutas no lanche da escola junto com água de coco. Ele só come biscoito/bolo (tipo maisena, por exemplo) esporadicamente nos finais de semana, pois também come frutas nos lanches da tarde em casa e no final de semana.”
“Nunca usei peneira nem liquidificador e, no meu filho, não fez falta.”
“Acho interessante que as nutricionistas também indiquem alimentos mais saudáveis do tipo: arroz integral, macarrão integral (sem ovos até 1 ano), soja, queijo branco (ricota, minas frescal) e orientem a composição do prato com legumes: uma porção verde (vagem, chuchu ou couve-folha, etc.), uma porção branca (batata, couve-flor ou inhame, etc.) e uma laranja (jerimum ou cenoura, etc.) + proteína (soja, carne, frango) + carboidrato (arroz, macarrão).”
“Pode ser que o garoto mude o padrão alimentar. Mas até agora ele come bem e variado. Acho que alimentação é hábito e o começo certo define tudo. Ele mamou exclusivo até os quatro meses e meio e continuou no peito até 1 ano. Só introduzi o leite de lata quando o leite materno estava bem escasso. Acho também que o segredo foi que quando o leite do peito já não era suficiente, complementei com frutinhas e depois fui introduzindo os outros alimentos. Só introduzi o leite de lata, quando o leite do peito estava pouco mesmo.”
Nutricionista
“A peneira e o liquidificador são usados tradicionalmente no Brasil e seguramente pelo mundo afora para transformar os alimentos cozidos ou crus de diversos tipos e texturas (legumes, carnes e grãos cozidos, e frutas) em papas ou purês para a alimentação das crianças de seis meses. A recomendação de não usar a peneira e o liquidificador seguramente será questionada e não seguida por muitos familiares. Para verificar a receptividade dessa orientação, usamos a internet para que os pediatras, os nutricionistas e as mães que estão ajudando a elaborar e a criticar esses textos opinassem sobre o tema.”
Equipe médica
“O que vocês acham de não empregar a peneira e do liquidificador no preparo dos alimentos para as crianças. Há um grupo de nutricionistas aqui do Recife que tem condenado o uso desses utensílios tão tradicionais!?”
Cuidadores
“Logo que indicado pelo pediatra, iniciei a dar alimentos não lácteos para meu filho. Iniciei com quatro legumes / tubérculos / sementes sempre ofertando alimentos com cores diferentes. Por exemplo: branco (inhame, cará, macaxeira), laranja/vermelho (batata baroa, jerimum, beterraba) e verde (chuchu, ervilha natural, brócolis, vagem, lentilha) mais uma carne, frango ou peixe. Nunca usei liquidificador ou peneira, mas cozinhava bastante os alimentos para facilitar a “mastigação”. Resultado: sucesso total. Amassava os alimentos separados por cor, sempre que possível e ele acostumou-se com um prato colorido.”
“Entendo que a vida moderna não mais permite tanta complicação, especialmente quando desnecessária e sem utilidade. Ficam os meus elogios à abalizada opinião que recomenda o não uso da peneira e do liquidicador.”
“Pensei que a restrição do liquidificador e da peneira era total e logo pensei nos suquinhos, papinhas e sopinhas. Como ficam esses alimentos? Alguma restrição à peneira e ao liquidificador? Quanto ao almoço, não vejo nenhum problema ou transtorno causado pela impossibilidade de uso do liquidificador ou da peneira, acho que porque nunca usei esses utensílios para aquela refeição.”
“Acho ótimo quem amassa os alimentos. Mas ‘peraí né, senhores médicos’: não exageremos. Claro que, no princípio, nas primeiras comidinhas, jamais nenhuma mãe dará um alimento simplesmente amassado! Acho que isso deve ser introduzido aos poucos (texturas...). Já é muita diferença deixar de tomar leite e passar a comer... Bom senso e calma é sempre melhor!”
“Em relação à peneira e ao liquidificador, eu não sei. Aqui nos EUA, eles iniciam alimentação a partir dos 4 meses com cereal fortificado com ferro e, aos 6, introduzem purê de batatas, bolachas para bebês e suco natural. Não existe orientação para peneirar ou liquidificar os alimentos. Entretanto, não tenho experiência com bebês/crianças. Essa é uma regra geral. No Brasil, talvez seja melhor tentar sugerir o não uso da peneira/liquidificador, mas deixar em aberto para que os pais / responsáveis não se sintam ‘culpados’.”
“Mamãe ficava dizendo que era ‘frescura’ não passar no liquidificador. Ela sempre fazia o mais prático. Ela dizia: ‘esses médicos inventam essas coisas de não dar comida em mamadeira, de não bater, manda ele vir dar comida de colheradas’.”
“Na minha experiência, liquidificador é essencial! Principalmente em vegetais e frutas mais fibrosos, no caso da couve, da manga, do caju, etc. Mas sempre peço para não triturar muito. Usar o botão pulse (será que o nome é esse?), porque dá uma melhorada na consistência e não deixa tão líquido. Peneira usei bastante quando eles eram menorzinhos. No caso dos meus, iniciaram a alimentação aos 3-4 meses. Agora, aos 9 meses, já estão bastante habituados às diversas texturas. Exemplo: amasso o arroz junto com feijão, pico a carninha, faço um purê do vegetal (jerimum, batata, cenoura, etc.) amassando com o garfo. Tendo alguma coisa mais fibrosa/durinha, nem penso 2 vezes, uso meu amigo liquidificador! Na minha leiga opinião, o mais importante é a certeza de que eles estão recebendo uma boa variedade, de forma segura, sempre. Não quero meu filho entalado!”
“Na minha opinião, frutas e legumes podem ser amassados com o garfo sem problemas. No entanto, carnes e grãos não, pois são duros e grandes para o primeiro contato do bebê com o alimento (além do risco de se engasgar). A minha sugestão é iniciar com carnes e grãos triturados e, aos poucos, inserir pequenos pedaços de arroz, macarrão etc.”
“Acredito que seja mais fácil acostumar a criança com alimentos amassados apenas no garfo. Em qualquer local, poderemos fazer isso e não necessitaremos de liquidificador ou peneira. Também não sabemos a origem ou a limpeza destes equipamentos. Esse também é um ponto muito importante. Para meu filho, sempre amassei tudo no garfo. Às vezes, encontro um pouco de resistência para fazer o mesmo com meu neto, mas sempre que estou com ele na hora das refeições, procuro fazer desta forma: o purê de inhame com queijo, o purê de macaxeira, ou mesmo de batata inglesa. Encontro mais resistência na sopa, pois ele sempre gosta de tomar na mamadeira.”
Nutricionista
“A questão do uso ou não da peneira e do liquidificador no preparo das dietas de bebês normais precisa ser posta de maneira não intransigente, mas firme. Existem casos específicos nos quais é preciso programar a alimentação de forma particular. Eu chamo de formas ‘alternativas’ de alimentação, tipo: ‘dieta do pó’ (como eu digo), cinco medidas do leite X + três medidas dos produtos Y + duas medidas do produto Z, quatro a cinco vezes ao dia; ou a ‘dieta fácil’ (em que as mães são experts...) mistura inhame ou jerimum com leite, sopa de feijão com legumes ou caldo de carne com legumes e passe no liquidificador, depois de liquidificar, peneire tudo e oferece na mamadeira...”
Equipe médica
“Essas práticas continuarão existindo para situações em que a criança não está conseguindo se alimentar conforme o padrão da idade e, consequentemente, não ganha o peso esperado. Nessas situações, vale tentar todas as maneiras não traumáticas de alimentar essa criança. Vencida essa etapa, a família deve ser encorajada a ir, paulatinamente, tentando modificar a textura e a consistência da dieta. Por vezes, isso só é possível, ou seja, a criança só aceita, com a intervenção da fonoaudióloga trabalhando a motricidade oral. Esse trabalho pode ser necessário pois, devido à ingestão contínua da dieta líquida/pastosa/ homogênea, a criança apresenta uma musculatura hipotônica e hipersensível passando a não dar conta do sólido na boca. Normalmente, a família refere que a criança apresenta ‘vontade de vomitar’, ‘nojo’ ou sensação de ‘arrepio’ ao ver, sentir o cheiro ou tocar naqueles alimentos. Os alimentos campeões de rejeição são os pastosos, frutas ou feijão. Como existem graus de sensibilidade, há crianças que não suportam qualquer ‘comida de panela’. Existem casos menos extremos em que a criança come os alimentos se ‘não forem misturados’. Enfim, são muitas considerações sobre o uso indiscriminado e precoce de liquidificador e peneira no início da alimentação infantil.”
18.4.5Os dez passos para a alimentação saudável
O texto Dez passos para uma alimentação saudável, editado pelo Ministério da Saúde do Brasil e pela Organização Pan-Americana de Saúde, disponível na internet, é útil. Vejam o resumo:
Passo 1
- Dar somente leite materno até os 6 meses, sem oferecer água, chás ou qualquer outro alimento.
- Aleitamento materno exclusivo: quando a criança recebe somente LM, com exceção de suplementação de vitaminas e minerais.
- Aleitamento materno predominante: quando o lactente recebe, além do LM, água ou bebidas à base de água, como sucos e chás.
- Aleitamento materno: quando recebe LM, independentemente de estar recebendo qualquer outro alimento.
Passo 2
- A partir dos 6 meses, introduzir de forma lenta e gradual outros alimentos, mantendo o leite materno até os 2 anos de idade ou mais.
- Com a introdução da alimentação complementar, é importante que a criança beba água nos intervalos das refeições.
Passo 3
- Após seis meses, dar alimentos complementares (cereais, tubérculos, carnes, leguminosas, frutas, legumes), três vezes ao dia, se a criança receber leite materno, e cinco vezes ao dia, se estiver desmamada.
Alimentação da criança em aleitamento após seis meses
- 6 – 7 meses: aleitamento materno; uma papa de frutas no meio da manhã; uma papa salgada no final da manhã; uma papa de frutas no meio da tarde.
- Após 8 meses: substituir a papa de frutas do meio da tarde por papa salgada.
- Após 12 meses: aleitamento materno; uma papa de frutas no meio da manhã; uma papa salgada no final da manhã; uma papa salgada no meio da tarde dois lanches de frutas ou mingau de prato.
Esquema alimentar para crianças totalmente desmamadas
- Menos de quatro meses: alimentação láctea 6-8 vezes.
- Quatro a oito meses: três mingaus de prato; duas papas de fruta; uma papa salgada.
- Mais de 8 meses: substituir um mingau de prato por papa salgada.
Passo 4
- A alimentação complementar deve ser oferecida sem rigidez de horários, respeitando sempre a vontade da criança.
- É importante que as mães desenvolvam a sensibilidade para distinguir o desconforto (sono, frio, calor, fraldas molhadas, dor, necessidade de carinho) para que elas não insistam em oferecer alimentos à criança quando essa não tem fome.
Passo 5
- A alimentação complementar deve ser espessa desde o início e oferecida de colher. Começar com consistência pastosa (papas/purês) e, gradativamente (alimentos de transição), aumentar a consistência até chegar à alimentação da família.
Papa salgada
- Cozinhar bem todos os alimentos; amassar com garfo; não liquidificar e não passar na peneira. A papa deve ficar consistente, em forma de purê grosso, e deve conter um alimento do grupo de cereais ou tubérculos, uma das hortaliças (folhas ou legumes) e um do grupo dos alimentos de origem animal (frango, boi, peixe, miúdos, gema de ovo) ou das leguminosas (feijão, soja etc.).
Passo 6
- Oferecer à criança diferentes alimentos ao dia. Uma alimentação variada é uma alimentação colorida.
- Só uma alimentação variada evita a monotonia da dieta e garante a quantidade de ferro e vitaminas que a criança necessita, mantendo uma boa saúde e crescimento adequados.
- Os alimentos devem ser oferecidos separadamente, para que a criança aprenda a identificar as suas cores e sabores. Colocar as porções de cada alimento no prato, sem misturá-los.
Fontes de ferro: Fígado, carnes (vermelhas e brancas), carne de sol, feijão, lentilhas, soja, vísceras, folhas verdes escuras, beterraba, gema de ovo, açaí, ameixa preta seca, mangaba.
Passo 7
- Estimular o consumo diário de frutas, verduras e legumes nas refeições.
Passo 8
- Evitar açúcar, café, enlatados, frituras, refrigerantes, balas, salgadinhos e outras guloseimas, nos primeiros anos de vida. Usar sal com moderação.
Passo 9
- Cuidar da higiene no preparo e manuseio dos alimentos, garantir o seu armazenamento e conservação adequada.
Passo 10
- Estimular a criança doente e convalescente a se alimentar, oferecendo sua alimentação habitual e seus alimentos preferidos, respeitando a sua aceitação.
- As crianças doentes, em geral, têm menos apetite. Por isso, devem ser estimuladas com alimentos de sua preferência, além de aumentar a oferta de líquidos.
- Para a criança com pouco apetite, oferecer um volume menor de alimentos por refeição e aumentar a oferta.
- No período de convalescença, o apetite aumenta. Assim, aumentar a oferta, concedendo mais uma refeição ou aumentando a densidade calórica.
- Nas refeições salgadas, acrescentar uma colher de sobremesa de óleo para crianças de menos de um ano e uma colher de sopa para as maiores de um ano.
Cuidados especiais
Evitar, no primeiro ano de vida, alimentos como amendoim, nozes, peixe, ovo, chocolate, quando houver história de alergia alimentar. Introduzir mel de abelha após o primeiro ano para reduzir risco de botulismo. Oferecer clara de ovo aos 10 meses se não tiver antecedentes de alergia nos familiares. Mamadeiras são contraindicadas. É importante a participação ativa da criança na alimentação. Após os 12 meses, dieta convencional do adulto. Suplemento de vitamina B se a mãe é vegetariana, de ácido fólico se em uso de leite de vaca ou cabra, de ferro se criança recebe leite de vaca em pó ou in natura a partir dos 2 a 3 meses até 1 ano, dose: 1-2 mg/kg/dia.
Ao fim, como sempre temos feito, salientamos que o texto faz parte de um modelo de assistência à saúde que prioriza a educação dos familiares. Não substitui a orientação profissional individualizada.
18.4.6Alimentação após o primeiro ano de vida
I. Parte conceitual
A erupção dentária, por volta dos 6 meses, determina o início da aquisição da competência para o corte e a trituração dos alimentos. É a hora da introdução das comidinhas pastosas. Nessa idade, a oferta das papinhas de frutas inicia o aprendizado da nutrição com alimentos pastosos, que continua com a oferta das papinhas de legumes, grãos e carnes. A aprendizagem e a adaptação são processos lentos e resultam na aceitação do cardápio familiar com alimentos de diversas consistências e texturas.
Agora serão abordados aspectos nutricionais e alguns sociais, emocionais e comportamentais que cercam a alimentação das crianças que já venceram os primeiros 12 meses de vida.
Como é a alimentação da criança brasileira?
Há dados científicos mostrando que 95% delas não comem o teor adequado de fibras, 60% não ingerem quantidades apropriadas de vitamina D, 45% não recebem o aporte diário adequado de cálcio e 22% não comem as necessidades diárias de vitamina E. Por outro lado, 100% consomem mais sódio do que o necessário. Se a análise for ampliada, é fácil constatar outros erros que precisam ser corrigidos.
Quanto e como as crianças precisam comer?
As quantidades de calorias — energia para o corpo funcionar — e de nutrientes essenciais — água, fibras, proteínas, açúcares, gorduras, minerais e vitaminas — que as crianças necessitam variam de acordo com idade, sexo, constituição genética que determina importantes aspectos do indivíduo como a estatura final e a velocidade do crescimento, temperatura ambiente, atividade física e outras variáveis. A nutrição deve garantir crescimento, atividade física, brincadeiras, escolaridade, evacuações e micções normais, ausência de anemia e de outros problemas de saúde, satisfação com a tomada do alimento e vários outros aspectos. Os pais e os pediatras são os juízes do alcance desses objetivos. A pirâmide alimentar dá uma ideia de como deve ser o consumo alimentar ideal. Ela demonstra como os vários grupos de alimentos devem compor a alimentação saudável.
Por favor, troquem em miúdos!
Os açúcares e/ou massas, gorduras e óleos são os alimentos com maior conteúdo calórico. Os açúcares e as massas devem fornecer 55 a 65% das calorias diárias. Já as gorduras e óleos devem oferecer 20 a 30% da ingestão calórica total. As calorias restantes são oriundas dos alimentos proteicos (carnes, leites, ovos, feijões e outros alimentos) e correspondem a 15 a 20% do total das calorias necessárias. A ingestão adequada de calorias, distribuída pelos vários grupos de alimentos, como citamos agora, permite que as crianças cresçam, ganhem peso e altura, façam cocô, exerçam suas brincadeiras e mantenham a saúde normal. Quando a ingestão de calorias não é suficiente, o organismo queima suas reservas de açúcares, de gorduras e de proteínas e há perda de peso. A oferta de alimentação rica em produtos vegetais (frutas, grãos, hortaliças, batatas, tubérculos e outros), em produtos animais (carnes, leite e derivados, ovo e vísceras de animais) e em água é suficiente para que as crianças se mantenham normais. Quando a ingestão de um ou de vários desses nutrientes não é satisfatória, sobretudo por muito tempo, há sintomas de doença.
Os nutrientes de origem vegetal são melhores?
A boa nutrição depende de uma grande variedade de produtos animais e vegetais. Há diferenças na digestibilidade e no aproveitamento dos alimentos de origens diversas que, de uma forma geral, não interferem na saúde. A diferença mais importante é sobre o conteúdo do colesterol nas carnes dos distintos animais. Os peixes são os únicos animais sem colesterol nos seus tecidos. Neles existe um tipo especial de gordura recomendada para a alimentação de todos, ômega-3, gordura insaturada que ajuda no combate do colesterol e traz outros benefícios para a saúde. Os outros animais têm colesterol na composição de suas carnes e vísceras, o que favorece o aumento do colesterol sanguíneo.
Qual a real importância da água na alimentação?
O corpo das crianças chega a ter 80% de água. Os adultos têm um pouco mais de 60%. Há informações mostrando que:
- A redução da hidratação é a principal causa de fadiga e de cefaleia. 80% dos adultos que sofrem dores nas costas e nas articulações melhoram com a oferta abundante de água. Redução de 2% da água corporal causa incoerência da memória de curto prazo e outros problemas do rendimento intelectual.
- A pouca ingestão de água favorece o surgimento de cálculos renais. Assim, a ingesta adequada de água é um dos principais itens no tratamento de várias doenças: renais, aumentando o fluxo urinário; respiratória, é o melhor dos expectorantes; dermatológicas, pois auxilia na hidratação da derme etc.
- Até alguns tipos de cânceres, como o de bexiga, são evitados com a oferta abundante de água. A oferta de água durante o dia é uma das estratégias para lutar contra a obesidade.
E a importância das fibras?
Elas são componentes não digeridos dos vegetais. Seus benefícios: aumentam da permanência do bolo alimentar no estômago e ajudam a manter a sensação de saciedade por mais tempo; diminuem a velocidade de absorção da glicose e evitam mudanças bruscas nos níveis do açúcar e da insulina — relacionadas com a prevenção da diabetes e da obesidade; retiram parte do colesterol naturalmente presente na refeição e ajudam a proteger contra o aumento do colesterol sanguíneo; servem de alimento para as bactérias boas do nosso intestino e auxiliam na proteção contra o câncer de intestino; regulam o funcionamento adequado do intestino, principalmente quando a ingestão de fibras está associada à adequada ingestão de água e outros líquidos; são importantíssimas para uma defecação normal e previnem o aparecimento de doenças intestinais — constipação, fissuras, hemorroidas, divertículos e outras.
Quais os alimentos ricos em fibras?
As fibras existem nos vegetais e não existem nas vísceras, carnes, óleos, azeites, manteiga e margarina. Os grãos (milho, grão de bico, ervilha, lentilha, gergelim, aveia, arroz integral e pães feitos com trigo integral e o farelo de trigo), as verduras folhosas (repolho, alface, agrião, espinafre e outras), outros vegetais (abóbora, abobrinha, pepino, berinjela, quiabo, maxixe, vagem, broto de feijão, aspargo, batata inglesa com a casca, tomate, inhame, cará, macaxeira), as frutas (laranja, maçã, pera, uva, abacaxi, manga, tamarindo, ameixa, uva passa, abacate e figo, sobretudo se ingeridas inteiras, na forma natural, e não apenas sob a forma de sucos) são exemplos de alimentos que devem ser ingeridos. A ingestão abundante de água é importante.
Qual a importância da mastigação?
As equipes da nutrição dizem que “a mastigação é uma das fases iniciais do processo digestivo, que se inicia no cérebro. Assim, o que ocorre na boca visa à degradação mecânica dos alimentos. Essas porções menores ligam-se entre si pela ação da saliva, obtendo o bolo alimentar, pronto para ser deglutido. A mastigação é um processo que precisa ser incentivado. O exercício de sucção do leite materno (do seio) ou os alimentos oferecidos em pedacinhos mesmo quando os dentes ainda não erupcionaram ajudam a musculatura da cavidade oral a trabalhar e, quando a criança precisa “mastigar”, ela aceita muito bem. Temos que ter atenção com os alimentos muito processados, muito homogeneizados, como os excessivamente cozidos, liquidificados e peneirados. Eles são fáceis de serem ingeridos e não estimulam a mastigação. O resultado pode ser uma criança “preguiçosa” para lidar com sólidos na boca. Há que se dar muita importância à textura dos alimentos no desenvolvimento sensório-motor-oral da criança pequena. Quando as crianças, desde bebês, recebem os alimentos apenas amassados com garfo (e não homogeneizados pelo uso do liquidificador/peneira), eles são estimulados a aprender a lidar com os sólidos na boca. Em alguns casos, quando recebem a comidinha muito homogênea, mais tarde não aceitam ‘verdurinhas’, como a folhinha do coentro ou a casquinha do tomate no feijão’. Até os gominhos do suco de laranja são rejeitados. Assim, temos que dar ‘trabalho’ aos pequenos para que eles cresçam aprendendo a comer os alimentos como nós comemos... Basta dar uma leve amassada com o garfo... Num pratinho de almoço, por exemplo, deve-se estimular a apresentação em separado: carne picadinha com garfo e faca bem miudinha, feijão amassado, legumes amassados, arroz amassado, mas cada um apresentado isoladamente. Aqueles pratinhos tipo ‘sopinha’, nos quais se cozinha tudo junto, devem, aos poucos, serem substituído, evoluindo para um prato semelhante ao dos adultos, respeitando a dieta dos pequenos”.
Como estimular a ingestão dos alimentos saudáveis?
Há dois componentes fundamentais:
- As crianças conhecem os alimentos que os pais comem — as crianças não vão ao mercado. As que têm a oportunidade de acompanhar os seus pais nas compras devem ser educadas sobre a escolha dos produtos saudáveis. Nossas crianças são bombardeadas por propaganda de alimentos artificiais. O sabor, o cheiro, a cor, a consistência e o rótulo são cuidadosamente estudados e testados para agradar aos “baixinhos”. É zero a propaganda e quase zero a divulgação dos alimentos e cardápios saudáveis e naturais. Se continuarmos comprando biscoitos enfeitados com bichinhos, iogurtes coloridos e bem apresentados, refrigerantes sedutores, sopinhas e papinhas de frutas cheias de charme, não devemos esperar que as crianças tenham interesse pelos alimentos mais sadios e naturais.
- O maior exemplo para as crianças é a rotina alimentar da casa — familiares que não têm horário de refeição em conjunto, não comem alimentos saudáveis, permitem que os alimentos artificiais sejam expostos em recipientes transparentes ou nas prateleiras mais baixas da geladeira, não determinam um modelo alimentar a ser seguido e não estabelecem limites, favorecem o desregramento alimentar.
Mais dados por favor!
Para marcar a importância do exemplo familiar resumimos alguns dados da pesquisa publicada pela revista Saúde. Reunir a família nas refeições estimula a união entre pais e filhos e ajuda no desenvolvimento social e cognitivo das crianças. A pesquisa destacou que:
- 49% dos paulistanos jantavam em família todos os dias. Mas 69% se alimentavam enquanto assistiam à TV e 93% das paulistanas consideravam esse o principal momento de conversa com os filhos. No estudo global, em vários continentes, 60% dos entrevistados disseram que essa é a hora de estar com a família enquanto 79% dos brasileiros compartilhavam dessa mesma ideia.
- A televisão ligada prejudica a interação familiar e dificulta a cumplicidade que deve haver entre pais e filhos, prejudicando a ingestão de alimentos mais sadios. A pesquisa cita que a conversa ao redor da mesa estimula o desenvolvimento social e cognitivo da criançada e amplia o seu vocabulário.
E lá fora, como é?
Pesquisa no Reino Unido mostrou que as crianças que faziam regularmente as refeições com os pais tinham quase o dobro de chance de tirar notas boas comparadas com as que não desfrutaram do hábito. E os adolescentes que adotavam o ritual apresentaram menores probabilidades de se envolver em brigas ou de serem suspensos da escola. Eles também ficam menos vulneráveis ao uso de drogas, sexo sem proteção e depressão. A reportagem da BBC lança mais luz sobre o assunto e mostra com muita ênfase.3 Refeições em família: Como as crianças se beneficiam do contato com os pais à mesa” https://www.bbc.com/portuguese/geral-45424589
Essas atitudes são suficientes?
Elas são essenciais e é possível afirmar que o desenvolvimento de um bom padrão alimentar começa por elas. Devemos ainda acrescentar que as crianças devem ter tempo para a alimentação, não se estendendo além de 40 minutos. Elas podem comer sobremesas que nunca devem ser apresentadas como compensação (“se comer, ganha sobremesa”) e sim como complementação da refeição. As sobremesas mais indicadas a serem oferecidas são as nossas deliciosas e doces frutas. Precisamos diminuir a supervalorização do doce, principalmente com as crianças bem pequenas. Elas devem tomar pequena quantidade de líquidos nas refeições e devem ser envolvidas no preparo dos alimentos ou na montagem da mesa de refeição. Evidentemente, é fundamental variar o cardápio para evitar a monotonia alimentar. Então não é boa norma ofertar sempre os mesmos produtos apenas porque as crianças gostam. É importante que as crianças, mesmo quando almoçam em casa, sem os pais, sirvam-se à mesa e, tão logo possam, façam o seu prato, escolhendo a variedade (com ajuda do adulto acompanhante) e decidindo, de alguma maneira, a quantidade. Colocar muita ou pouca comida no prato traz uma série de experiências: “coloque pouca comida para não estragar”, “se colocou no prato, coma!”, ou “faça seu prato com um representante de cada grupo alimentar”, dentre outros exemplos. Caso os pais não possam participar do almoço dos filhos, durante a semana, devem deixar cardápios bem estruturados e variados para que as funcionárias sigam algum roteiro. Deixar a criatividade por conta da cozinheira e/ou babá pode empobrecer o cardápio.
Quer dizer que as crianças não podem comer guloseimas?
Não, muito ao contrário. As crianças podem comer de tudo, até as guloseimas. Mas elas não devem fazer parte do cardápio rotineiro, habitual. Elas devem saber, saber muito bem, e isso deve ser dito e praticado rotineiramente, que a bala, o sorvete e o refrigerante vão ser experimentados nas festinhas, no fim de semana, quando papai e mamãe estiverem com elas no restaurante. O que defendemos é que as crianças não têm condições, por não saberem o que é bom e o que é mau, de definir a rotina alimentar. Essa é função dos pais. Evidentemente, as crianças têm o sagrado direito de optar por uma sopinha mais ou menos espessa, têm o sagrado direito de optar pelo leite temperado por uma farinha ou uma fruta, pois estão optando por variantes de alimentos saudáveis. Assim, a rotina deve ser inteligentemente montada, ouvindo as crianças, permitindo uma certa margem de manobra. O que acontece, atualmente, é que as crianças têm uma vida social muito intensa e são frequentemente convidadas para festinhas de aniversários. Nelas, a criançada é abarrotada de guloseimas muito calóricas e de baixo valor nutricional e, ao final, ganham a famosa “lembrancinha” que é sempre uma caixinha com mais bombons e chocolates para continuar se fartando em casa. Os pais têm que estar atentos a essa “invasão” de doces que rendem a semana toda e quando estão acabando, novos eventos surgem. Há quem negocie com os filhos para que a ingestão do conteúdo da sacolinha aconteça somente no ambiente da festa.
Como evitar as guloseimas nas festinhas?
Um truque praticado por algumas mães ensina que, antes de ir aos encontros sociais, sobretudo os aniversários da meninada, seja oferecida às crianças uma alimentação caseira, rotineira, rica de nutrientes. Dessa maneira, elas chegarão às festas com o “buchinho cheio” e estarão mais interessadas nas brincadeiras do que nos doces.
Meu filho não come tudo que coloco no prato. É normal?
As crianças têm, desde o nascimento, mecanismos de saciedade que devem ser muito bem respeitados. Assim quando demonstram os mínimos, os primeiros sinais de “barriguinha cheia”, a ingestão deve ser suspensa e todos devem respeitar esses avisos da biologia. Ocorre que nós, adultos, por termos ideias errôneas sobre as necessidades nutricionais das crianças, por não as observarmos corretamente, por trazermos vícios da época em que éramos meninos ou meninas, por ansiedade e por outras razões, achamos que a quantidade que eles devem ingerir é a que nós definimos. Usualmente, quando resta algum alimento na mamadeira, no copo ou no prato, os adultos que estão observando a alimentação têm a impressão falsa de que as crianças comeram pouco e que vão ficar com fome. Por isso, a melhor estratégia é ofertar pequenas porções de alimento e permitir que elas solicitem mais.
Como sei se meu filho comeu o suficiente numa refeição?
Crianças que, após a refeição, ficam tranquilas, calmas, brincam normalmente, não choram e não ficam irritadas devem ter comido o suficiente. Evidentemente, as crianças que falam podem informar que ainda estão com fome. Ao contrário, quando a porção não foi suficiente para matar a fome, elas sinalizam falando, ou ficam inquietas, irritadas ou pedem outra alimentação num intervalo muito curto.
Como avaliamos se a alimentação está adequada?
Os familiares atentos têm mecanismos de ler seus filhos e para verificar, dentre vários outros aspectos, se a alimentação está sendo adequada no médio e no longo prazo. Primeiro, há o indicador do consumo alimentar. Crianças normais não são as que comem muito. O modelo ideal são as que consumem porções aceitáveis de vários produtos de forma continuada. Esse indicador é o que mais transtorna os familiares que estão sempre julgando que seus filhos comem menos do que deveriam e eles estão sempre pressionando os pediatras com a queixa de falta de apetite. Segundo, há os indicadores de saúde geral. Crianças que brincam, correm, pulam e sorriem, que estão coradas, que não adoecem excessivamente, que evacuam e urinam normalmente, que se comportam como seus coleguinhas e que nada apresentam de anormal, devem estar bem nutridas. Mesmo que os familiares achem que elas comem pouco, devem estar normalmente nutridas. Mas é sempre bom desconfiar, observar bem e relatar aos pediatras as observações de vocês. E mesmo que tudo pareça muito bem, é importante a fiscalização periódica feita pelos pediatras, pois há problemas que eles podem descobrir no exame rotineiro. Há problemas que não são percebidos pelos familiares e que os pediatras têm mecanismos de evidenciar.
Como os médicos avaliam?
É recomendação universal para que todas as crianças e adolescentes, em qualquer parte da terra, sejam assistidos de forma contínua, programada, qualificada, pelos pediatras habilitados para verificar se as crianças são normais e, portanto, se a nutrição e as outras condições para chegar à vida adulta com saúde estão sendo mantidas em nível ótimo. Os pediatras analisam: se existem doenças que causam falta de apetite; a adequação dos ganhos de peso e de altura, sobretudo pela análise dos gráficos de crescimento; como os pais lidam com os aspectos emocionais e comportamentais relativos à alimentação dos seus filhos desde o nascimento. Após essa análise, é que os médicos definem se as crianças são ou não saudáveis e se a falta de apetite é real ou faz parte de uma visão distorcida das necessidades nutricionais ou é evidência de um contexto de ansiedade familiar.
Mas como montamos os cardápios para as várias idades?
Os pilares básicos para que se consiga isso são:
- O conhecimento sobre os principais aspectos da nutrição saudável. Ter “grana” e comprar os produtos errôneos é infelizmente comum.
- A oferta de alimentos variados: leite e derivados, carnes, vísceras, feijão, produtos com trigo, arroz, ervilha e outros grãos, verduras, frutas, água. Assim é possível fornecer as calorias, as proteínas, as gorduras, os açúcares, a água, os minerais, as vitaminas.
- É importante, desde o início, tentar fazer com que a primeira refeição, de manhã, seja abundante e rica e que, ao longo do dia, as refeições sejam ricas dos principais nutrientes necessários para a manutenção da normalidade. É importante que a última, antes do sono da noite, seja mais simples e leve.
- A composição do cardápio deve respeitar a disponibilidade local de alimentos e a cultura familiar.
- É preciso respeitar o apetite e a sede, mecanismos reguladores que são capazes de fazer com que cada indivíduo busque se alimentar e se hidratar adequadamente.
- O respeito à individualidade. Há crianças que não gostam de leite e que consomem seus derivados, há as que comem pequenas porções de alimentos e as que comem grandes porções (ambas podem ser sadias), há as que gostam de inhame e as que não gostam.
- A fiscalização do pediatra.
Quando oferecer o cuscuz, a tapioca e o pirão?
Logo após o primeiro ano de idade, ou até um pouco antes, a criançada deve ser estimulada a experimentar, para mais na frente consumir os alimentos tradicionais da sua região. Evidentemente, devem ser observadas a consistência e outras características dos pratos típicos e a idade das crianças para, com critério e senso crítico, oferecer os alimentos apropriados. O pirão de peixe é um excelente exemplo e pode ser ingerido pela turma de menos de um ano de idade. O pirão de ovo e o pirão ou tutu de feijão são outros exemplos. A tapioca e o cuscuz, tão típicos do Nordeste, por sua consistência, devem ser apresentados muito cedo à criançada. Elas devem conhecer a realidade da sua região e da sua família e devem ser estimuladas a participarem da alimentação que ajuda a caracterizar a cultura de onde moram.
A erupção dental indica a hora de introduzir alimentos?
A erupção dental sinaliza a capacidade de cortar, triturar e esmagar os alimentos em suas várias apresentações. Aos doze meses de idade já devem ter erupcionado todos os incisivos. Assim, nessa idade, as crianças devem tomar alimentos tenros (pedaço de frutas, de pão, de biscoito e tirinha de carne bem cozida) em suas mãos para cortá-los com esses dentinhos. A erupção dos caninos (16 a 18 meses de idade) e dos primeiros molares (15 a 16 meses) marcam a possibilidade de triturar e esmagar os alimentos. Então, com um 1 e meio, as crianças podem cortar e triturar os alimentos e é hora de introduzir os alimentos que precisam ser submetidos a esses processos mastigatórios (grãos e pedacinhos de carne, todos bem cozidos). Os segundos molares que nascem aos vinte a trinta meses marcam, ainda de forma mais definitiva, essa capacidade. Evidentemente, isso é parte do processo, pois também há necessidade de amadurecimento neurológico para que as crianças peguem o alimento, levem à boca e mastiguem. Então, há necessidade da integração de várias capacidades para que essa função seja exercida e isso vai ocorrendo lentamente. Assim a competência para pegar o garfo com uma mão e a faca com a outra e cortar a carne só vai ser possível lá pelos 6 anos de idade. Isso tudo é para dizer que os familiares devem observar o surgimento dessas habilidades que vão indicando os caminhos a seguir. Devemos lembrar que, mesmo antes de erupcionar, os dentinhos já estão sob a gengiva e permitem uma certa força na mordida. Observem a gengiva do desdentado: ela é atrofiada e composta basicamente por “tecido mole”. A gengiva dos bebês tem tanta força que pode até nos machucar se colocarmos nosso dedo e eles “morderem”. Essa característica é primordial no domínio do alimento sólido (grão de feijão, milho etc.) na boca “sem dente”.
Quais alimentos oferecer para crianças acima de 1 ano?
A alimentação adequada deve olhar para a quantidade, a harmonia e a adequação do que é ofertado. Esses quatro elementos são os princípios que regem a boa alimentação. Em geral, as crianças podem comer tudo, respeitadas as regras que caracterizam a boa alimentação. A oferta ideal de alimentos para as crianças de 1 a 3 anos deve conter 45-65% de açúcares/carboidratos, 30-40% de proteínas e 5-20% de gorduras. Na idade de 4 a 18 anos, deve conter 45-65% de açúcares/carboidratos, 10-30% de proteínas e 25-35% de gorduras. Essa noção é dada para ressaltar a importância da oferta de proteínas nas crianças de menor idade, quando elas estão com intenso ritmo de crescimento e assim com intensa necessidade desse componente nutricional.
A resposta não é prática. Como deve ser o cardápio?
De uma maneira geral, o cardápio é composto de:
- Primeira refeição: aproximadamente 200 mL de leite e outros alimentos do café matinal dos familiares: pão, queijo, inhame, batata-doce e frutas. O leite deve ser tomado no copo ou numa alimentação para ser dada de colher tipo papa de aveia.
- Lanche: deve ser uma refeição leve, não copiosa, para que as crianças cheguem com fome ao almoço: frutas ou um iogurte.
- Almoço: deve ter a consistência pastosa, tipo purê, e conter fragmentos bem pequenos de carnes, vísceras ou legumes, pois a mastigação ainda não é bem desenvolvida nessa idade. Os alimentos devem ser bem cozidos para que possam ser esmagados pelo garfo ou cortados em fragmentos pequeninos. Devem ser ofertados grãos das leguminosas (feijão, fava, ervilha, lentilha, grão de bico) + grãos dos cereais (arroz, trigo, milho), suavemente amassados + carne ou víscera bem picadinha + vegetais (cenoura, chuchu, jerimum ou abóbora, batata-doce ou inglesa, inhame, macaxeira ou aipim e outros) também bem picadinhos ou amassados. Evidentemente, esses alimentos não são ofertados todos juntos e, a cada dia, é possível fazer uma mistura diferente. Pouco sal, paciência, calma, tempo e persistência são ingredientes essenciais.
- Lanche da tarde: parecido com o da manhã, tendo o cuidado de variar.
- Jantar: sopa com grãos das leguminosas, cereais, carnes (peixe, frango e outras), vísceras, batatas, verduras e um pouco de leite.
- Refeição das 22h: nessa idade, essa refeição não deve existir.
Mas esse processo é dinâmico, não é?
A evolução do cardápio é um processo dinâmico e o que é aceito pelas crianças de 13 meses pode ser um pouco diferente do que é ingerido pelas de 20 meses. Elas próprias vão indicando os caminhos na medida em que passam a se interessar pelo que os familiares comem. Daí a importância da participação na alimentação dos adultos. As mudanças mais importantes ao longo desse segundo ano de vida são na consistência, pois o conteúdo não é muito diferente. O feijão e os outros grãos devem ser cada vez menos homogeneizados para que eles passem gradualmente a serem levados à boca como se apresentam. Os fragmentos de carnes, vísceras e legumes devem ser cada vez maiores.
As crianças, após 1 ano, devem tomar que volume de leite?
Se elas conseguem tomar 200 mL de leite por vez, duas vezes ao dia, e mais uma certa porção de derivados do leite (queijos, iogurtes) está ótimo. Não é definido com precisão até qual idade o leite e seus derivados são importantes e em qual quantidade para a nutrição humana. O que se sabe bem é que até os 4 ou 5 anos o ser humano está habilitado a digerir a lactose, o açúcar do leite. Após essa idade, muitas pessoas adoecem por falta da enzima lactase que produz essa digestão. Então, esse pode ser um sinal da natureza de que leite em grande quantidade após os 4 ou 5 anos deve ser evitado. Leite, iogurtes, coalhadas e queijos continuam como uma fonte importantíssima de proteína e de cálcio, as crianças mais velhas, os adolescentes e até os adultos que consomem podem ser beneficiados por isso.
Qual a posição de vocês sobre os “potinhos”?
Os potinhos com as papinhas de frutas ou sopinhas devem ser exceção mesmo para as crianças pequeninas. A base da alimentação das crianças após o primeiro aniversário deve ser com produtos naturais como as frutas que podem ser consumidas sem transformação especial ou com o mínimo de manipulação (sucos, saladas) e com outros produtos também naturais de origem vegetal (hortaliças, batatas e outros), ou animal preparados em qualquer cozinha domiciliar, todos encontrados nos supermercados e feiras pelo nosso imenso país. É evidente que os pães, os biscoitos e bolachas, o leite e seus derivados, que nós consumimos, também fazem parte da alimentação que pode ser consumida pelas crianças.
O que mais sobre a alimentação entre 1 e 2 anos?
As crianças dessa idade ainda são muito dependentes dos adultos e precisam de assistência especial durante a alimentação. Elas estão começando a usar as mãos com mais desembaraço, mas ainda não podem sozinhas suprir os seus pratinhos nem cortar os alimentos. Perto de 1 ano de idade, elas habitualmente recebem os seus pratinhos montados e os adultos devem estar juntos para supervisionar a tomada dos alimentos. Lá na frente, perto do segundo aniversário, é possível que elas possam escolher entre os alimentos oferecidos, no almoço, por exemplo, os seus preferidos e começar a colocá-los nos seus pratinhos. Mas, mesmo nessa idade, a importância dos adultos supervisionando, ajudando, é importante. As frituras devem ser consumidas com parcimônia.
E o cardápio das crianças de 2 a 5 anos?
Gradativamente, o cardápio passa a se aproximar do dos adultos:
- Primeira refeição: aproximadamente 200 mL de leite e outros alimentos do café matinal dos familiares: pão, queijo, ovo, inhame, batata-doce, frutas e alimentos da culinária regional como o muxá do Espírito Santo. A mamadeira não deve ser usada nessa fase e o leite no copo ou como uma papa com cereais devem ser oferecidos. Um sanduíche com queijo também é um alimento que as crianças dessa idade consomem com prazer.
- Lanche: habitualmente, no colégio, continua sendo uma refeição leve, não abundante, como uma porção de frutas.
- Almoço: deve ser o consumido pelos adultos, pois a meninada já tem competência para bem mastigar os alimentos. Os grãos (feijão, ervilha, arroz preferentemente integral, trigo sob a forma de macarrão e outros), carnes e vísceras cortados em fragmentos não muito pequenos são importantes na nossa cultura. Um alimento usado provavelmente de forma excessiva é o purê de batata inglesa que fornece exclusivamente açúcares; o purê é associado a outros alimentos também ricos em açúcar (tipo arroz e macarrão); isso é seguramente errôneo; quando a refeição oferecer um desses alimentos, exemplo, o purê, não deve ofertar os outros; e esse é o período mais propício para a introdução das hortaliças, dos vegetais folhosos, das batatas e dos tubérculos (alface, repolho, couve, agrião, espinafre, jerimum ou abóbora, chuchu, batatas-doces, inhame e outros) sob várias formas; podem ser ofertados em saladas ou cozidos; há necessidade de variar o cardápio e pouco sal, paciência, calma, tempo e persistência são ingredientes essenciais; uma sobremesa pode ser oferecida.
- Lanche da tarde: parecido com o da manhã, tendo o cuidado de variar;
- Jantar: sopa com legumes, verduras e grãos, carne e vísceras como a dos adultos; um pouco de leite pode ser tomado, mas nunca na mamadeira; em algumas residências essa última refeição ainda oferece sanduíches, inhame e outros alimentos da culinária regional.
O que mais é importante na alimentação dessa idade?
A participação dos adultos passa a ser cada vez menos importante e a criança de quatro ou cinco anos escolhe seus alimentos, monta seus pratos, faz suas misturas e usa as mãos com destreza suficiente para tomar sozinhos os seus alimentos. Cortar a carne ainda é uma tarefa que precisa de ajuda. As frituras devem ser evitadas. As frituras, nessa e nas outras idades, e o excesso de sal devem ser evitados. Novamente, ressaltamos a importância da conservação e do preparo higiênico dos alimentos para evitar doenças.
Quando levar as crianças para os restaurantes?
O bom senso indica que devem ir aos restaurantes as crianças que podem comer os alimentos servidos nesses estabelecimentos. Ir com as de um ano ou um ano e pouco para se alimentar em restaurantes não parece recomendável. É possível que a partir dos três ou quatro anos de idade seja possível que elas se alimentem nesses locais. Muito importante é que o estabelecimento seja aberto, tenha espaço para a turminha dessa idade se movimentar e ofereça um cardápio que possa ser ajustado às características da meninada. Há sempre que se ter muito cuidado com a qualidade da cozinha para que elas não consumam alimentos deteriorados.
Quantos ovos podem ser dados por semana?
É pergunta comum dos familiares, pois há crianças “vidradas” em ovo. Acreditamos que dar um ovo de galinha por dia é uma boa norma. Mas há os que querem comer dois ou mais por dia. Para esses, talvez a boa conduta seja conversar e tentar que comam menos. Mas também não há que se armar uma encrenca por isso. Crianças são assim: apaixonam-se por um tipo de alimento e tempos após mudam. Então, para os apaixonados pelo ovo, para os que querem dois ou mais, um ou dois dias da semana deixem que comam esse número de ovos, e esperem que após algum tempo essa paixão diminua. Os ovos de galinha de capoeira e os ovos de codorna são duas boas opções.
E o cardápio dos 5 anos até o início da adolescência?
Nessa fase, as crianças participam ainda mais intensamente e já podem tomar sua alimentação sem a presença próxima do adulto. Mas sempre é importante que alguém continue a supervisionar de longe o que está sendo consumido, pois há uma grande tendência a desvios do que é sadio. O consumo de vegetais de todos os tipos (grãos e hortaliças) e de frutas deve ser sempre prestigiado. As carnes e as vísceras devem ter um lugar especial na alimentação da turma dessa idade. As frituras e o excesso de sal devem ser evitados.
Qual o cardápio dos adolescentes?
Os adolescentes apresentam aumento das necessidades nutricionais devido a aceleração do crescimento da puberdade e do aumento da massa corporal. O ganho ponderal e ósseo é maior nos adolescentes e por mais tempo que nas adolescentes. Eles ganham mais massa muscular e menos massa gordurosa quando comparados com elas. Há aumento da densidade óssea. Como consequência de todos esses fatos, há um aumento de apetite em ambos os sexos. Eles comem o que os adultos consomem, em maior quantidade, e devem ser mantidas as regras gerais da boa alimentação e a restrição dos alimentos como fast foods tão comuns e desejados pelos adolescentes. Reforçamos sobre os malefícios das frituras e do excesso de sal.
E o comer na frente da televisão?
A alimentação deve ser tomada na mesa, preferentemente com o adultos. A rotina da alimentação (horários, lavagem prévia das mãos, local) deve conter certos rituais para que o resultado, no longo prazo, seja satisfatório. Comer na frente da televisão, seguramente, não faz parte dos ritos.
Quando oferecer camarão e lagosta?
Nada há que impeça que as crianças de um ou mais anos experimentem todos os alimentos sadios consumidos pelos familiares, inclusive camarão, lagosta, sururu, ostra e outros frutos do mar. Falamos em alimentos sadios, pois eles são sensíveis às más técnicas de conservação e se deterioram com facilidade. Assim, podem ser veículo de importantes infecções alimentares.
E as sugestões de lanches para escola, creche e passeios?
Os lanches devem ser leves, compostos de alimentos naturais (sucos, frutas, doces caseiros, sanduíches leves, bolos, biscoitos), sempre adaptados ao cardápio familiar e variados a cada dia quanto ao tipo, cor, cheiro e apresentação. Algumas escolas adotam o lanche saudável e os pais são desestimulados a mandar produtos artificiais (salgadinhos, refrigerantes, etc.) e a oferecerem alimentos naturais e leves. Vale a pena propor a escola do seu filho e aos demais pais, atitudes como estas.
Qual a posição quanto aos famosos salgadinhos?
Devem ser evitados e nunca deixar à critério da criança a quantidade a ser ingerida. Liberar um pacote de salgadinhos ou de batata frita ou de outros alimentos é um erro grosseiro. Os salgadinhos rompem a educação alimentar e são grave empecilho à montagem de um cardápio sadio. Não devem ser comprados para a casa. O sal que contém são um problema à parte.
Como cuidar das crianças que comem pouco? Quando a criança deve tomar remédios para abrir o apetite? E vitaminas? Devem ser utilizadas?
Esse assunto é debatido no capítulo 42 deste livro.
A dieta da criança tem relação com diabete e pressão alta?
Esse e outros assuntos sobre a alimentação são debatidos nos capítulos 18, 25 e 42 deste livro.
E a alimentação vegetariana e a macrobiótica?
Algumas observações sobre essa questão importante:
- O ser humano não é exclusivamente herbívoro nem exclusivamente carnívoro. É onívoro e se alimenta de diferentes produtos vegetais e animais.
- Todo o saber científico acumulado sobre a nutrição humana continua a referendar que é sábio nós nos alimentarmos com pequenas porções de variados produtos animais e vegetais. Não é sábio restringir a alimentação a apenas uma linha de produtos.
- Algumas famílias decidem não oferecer carnes e derivados para os filhos. Isso deve ser feito com responsabilidade, uma vez que alguns nutrientes essenciais como a vitamina B12 só estão presente nos alimentos de origem animal. Uma forma de atenuar a exclusão das carnes (de boi, de frango, peixe etc.) é usar o leite e o ovo.
- As famílias que decidem excluir as carnes da dieta do filho precisam desenvolver habilidade culinária para fazer as combinações adequadas dos grupos vegetais (leguminosas + cereais, hortaliças cruas e cozidas, frutas diversas, tubérculos, oleaginosas, por exemplo).
- E essas mesmas famílias devem lembrar que as crianças precisam ser bem apoiadas para não se sentirem estranhas “no ninho”. Em outras palavras, enquanto as crianças são pequeninas, as famílias conseguem fazer com que elas comam uma linha de produtos, depois, na escola e nas festas de aniversário dos colegas, elas vão ser expostas aos fast foods e precisam estar muito seguras para não entrarem em conflito com o mundo que as cerca.
- As famílias que decidem adotar uma postura alimentar muito restritiva têm que ter muito cuidado com a saúde dos filhos e os pediatras também.
Onde poderemos ler mais sobre o tema?
As fontes de leitura sobre o tema são muito amplas e a internet oferece amplas opções de leitura. Uma fonte que recomendamos para os familiares é o livro Crescendo com saúde: o guia de crescimento da criança, de Maria Luiza de Brito Ctenas e Márcia Regina Vitolo.
II. Parte prática
Agora repassamos as observações de uma das nossas colaboradoras:
“Quando nos tornamos pais, todos pensamos fazer o melhor para nossas crianças. Isso na educação, no quotidiano, na alimentação. Mas, muitas vezes erramos. Em teoria, alimentar uma criança corretamente é muito fácil. Na prática, não é assim. Eu que nasci e fui criada em outro país, quando cheguei ao Brasil, já com um filho, entre outras coisas, tive dificuldades para lutar contra os refrigerantes, os salgadinhos, a quantidade de óleo usada pela empregada na comida. Notei também que muitas mães acham que suas crianças não comem o suficiente, que grande número de pessoas acha que uma criança gordinha é sinônimo de saúde, mesmo se depois os critérios de beleza mudam e essa criança gordinha de hoje tem que fechar a boca no futuro. Ela então sofre.
Então, pensei que uma reunião sobre alimentação das crianças poderia dar algumas regras básicas:
- Não forçar.
- Não parabenizar o que come.
- Definir que a gente come para se alimentar, não para agradar papai e mamãe.
- Nada de prato cheio.
- Tomar cuidado com o lanche;
- Não “beliscar”.
- É importante variar a comida.
- Tentar respeitar os horários de refeições.
- Ressaltar a importância das refeições tomadas em família, pois são um mo mento de convívio e de troca, que tem que ser vivida na tranquilidade, na mesa, com a televisão desligada.
- Os pais, como sempre, devem dar o exemplo.
E, sem dúvida, vocês já devem ter feito algo igual. Isso são apenas as reflexões de uma mãe que procura ter bom senso!”
III. Pirâmide alimentar
A pirâmide alimentar é um instrumento educacional para que os familiares e as próprias crianças entendam a importância de cada um dos grupos de alimentos que compõem a alimentação. Ela demonstra que há alimentos que devem ser ofertados com maior abundância e frequência e outros com menor abundância e frequência. Os alimentos da base da pirâmide devem estar na mesa com maior abundância do que os que estão no ápice.
A pirâmide é vista em vários sites da internet. Abaixo um dos modelos encontrados.
Abaixo, a tabela mostra os alimentos que devem ser mais consumidos (base da pirâmide — nível 1), os que devem ser moderadamente consumidos (meio da pirâmide — níveis 2 e 3) e os que devem ser pouco consumidos (topo da pirâmide — nível 4).
| Níveis da Pirâmide | Grupo Alimentar | Idade | |||
|---|---|---|---|---|---|
| 6 a 11 meses | 1 a 3 anos | 4 a 11 anos | adolescentes | ||
| 1 | Cereais, pães, tubérculos e raízes | 3 | 5 | 5 | 5 a 9 |
| 2 | Verduras e legumes | 3 | 3 | 3 | 4 |
| Frutas | 3 | 4 | 3 | 5 | |
| 3 | Leites, queijos e iogurtes | 3 | 3 | 3 | 3 |
| Carnes e ovos | 2 | 2 | 2 | 2 | |
| Feijões | 1 | 1 | 1 | 1 | |
| 4 | Óleos e gorduras | 2 | 2 | 1 | 1 |
| Açúcar e doces | 0 | 1 | 1 | 2 |
Número de porções ao dia recomendada de acordo com a faixa etária, segundo grupos da Pirâmide Alimentar
Fonte: Os autores.
Quantidade de alimentos que representam uma porção:
- Pães, cereais, tubérculos e raízes: 1 e ½ colher de sopa de aipim cozido ou macaxeira ou mandioca ou 2 colheres de arroz branco cozido ou aveia; 1 unidade média de batata cozida; ½ unidade de pão francês; 3 unidades de biscoito de leite ou biscoito tipo cream-cracker;4 unidades de biscoito tipo “maria” ou “maisena”.
- Frutas: ½ unidade de banana nanica ou caqui ou fruta do conde; 1 unidade de caju ou carambola ou kiwi, laranja, pera, laranja-lima, nectarina ou pêssego; 2 unidades de ameixa preta, ou vermelha; 4 gomos de laranja-baía ou seleta; 9 unidades de morango.
- Verduras, legumes e hortaliças:1 colher de sopa de beterraba crua ralada, cenoura crua, chuchu cozido, ervilha fresca ou couve manteiga cozida;2 colheres de sopa de abobrinha ou brócolis cozidos; 2 fatias de beterraba cozida;4 fatias de cenoura cozida; 1 unidade de ervilha torta ou vagem; 8 folhas de alface.
- Leguminosas:1 colher de sopa de feijão cozido, ervilha seca cozida, ou grão de bico cozido; ½ colher de sopa de feijão branco cozido, lentilha cozida ou soja cozida.
- Carne bovina, frango, peixe e ovos: ½ unidade de bife bovino grelhado, filé de frango grelhado, omelete simples, ovo frito, sobrecoxa de frango cozida ou hambúrguer (caseiro); 1 unidade de espetinho de frango, ovo cozido ou moela; 2 unidades de coração de frango; 1 filé de merluza ou pescada cozido; ½ unidade de peito de frango assado, sobrecoxa ou coxa; ½ fatia de carne bovina cozida ou assada; 2 colheres de sopa de carne bovina moída refogada.
- Leites, queijos e iogurtes: 1 xícara de chá de leite fluido; 1 pote de bebida láctea, iogurte de frutas ou iogurte de polpa de frutas; 2 potes de leite fermentado ou queijo tipo petit suisse; 2 colheres de sopa de leite em pó integral; 3 fatias de muçarela; 2 fatias de queijo minas, pasteurizado ou prato; 3 colheres de sopa de queijo parmesão.
- Óleos e gorduras: 1 colher de sobremesa de azeite de oliva, óleo de soja, milho ou girassol; 1 colher de sobremesa de manteiga ou margarina.
- Açúcares: ½ colher de sopa de açúcar refinado; 1 colher de sopa de doce de leite cremoso ou açúcar mascavo grosso; 2 colheres de sobremesa de geleia; 3 colheres de chá de açúcar cristal.
As noções contidas nos textos deste livro vislumbram a importância de educar os familiares para bem cuidar da saúde das nossas crianças e dos nossos adolescentes. Não substituem a orientação profissional individualizada.
