Ler em voz alta para um bebê ajuda no seu desenvolvimento?
Isso mesmo! E a explicação vem da neurociência. Muitas evidências científicas têm melhorado a nossa compreensão sobre como são formadas as conexões cerebrais bem no comecinho da vida, pois os bebês nascem aprendendo. Em nenhum outro momento da vida, as novas conexões cerebrais são tantas e tão velozes. Todos os sentidos do bebê estão, o tempo todo, absorvendo o que ocorre no ambiente. Ali começam a ser desenvolvidas as bases de uma infância e vida adulta saudáveis.
Por isso ouvimos dizer que “os cérebros dos bebês são como esponjinhas…”
É mais ou menos assim. Particularmente importantes nesse período são as interações humanas, com adultos que demonstram afeto e interagem com a criança, falando com ternura, olhando nos olhos e brincando com o bebê por exemplo! É aí que entra a chamada leitura compartilhada, ou colaborativa. Ler em voz alta para a criança é uma forma excepcionalmente eficaz para estabelecer essas conexões num ambiente seguro e afetuoso para a criança.
O assunto é tão relevante que Organização Mundial de Saúde e Fundo das Nações Unidas para a Infância, por exemplo, já incorporaram a leitura compartilhada para promover o desenvolvimento da primeira infância nas suas diretrizes há vários anos.
Simples assim, ler em voz alta e pronto? Quando começar? Como fazer na prática?
Bem, talvez fosse melhor dizer: ler com o bebê! Sim, isso mesmo. Com o bebê. Ler de forma interativa, interpretando o texto, permitindo que a criança veja as figuras, toque as páginas e sinta suas texturas…
Ler em voz alta, num ambiente calmo e seguro, mudar a entonação da voz de acordo com o texto. Fazer perguntas! O método dialógico é o mais eficaz, especialmente quando as crianças vão crescendo! Fazer breves pausas na leitura, deixando tempo e espaço para a criança elaborar e assimilar a estória. O adulto deve manter o ritmo, respeitando o tempo da criança.
E não precisa ser uma grande atriz (ou ator) para ser efetiva leitora. Mas à medida que o adulto também se diverte no processo, vai se soltando, fazendo caras e bocas, gestos com o corpo e as mãos, imitando os sons dos animais, criando vozes para os personagens, apontando as figuras, dizendo e repetindo seus nomes. Quando os adultos leem e releem para as crianças, cria-se uma condição de escuta recíproca que se torna parte integrante do processo de promoção do desenvolvimento e cuidado.
Quanto mais cedo começar a ler para o bebê, melhor. Mas nunca é tarde para iniciar uma rotina de leitura com a criança. É natural que o bebê menor de seis meses não preste atenção por mais que alguns segundos, por isso nessa fase a familiaridade com o livro (tocar, colocar na boca) é a prioridade. Mais adiante, ler por 5 a 10 minutos por dia já é um bom começo. Para crianças maiores, recomenda-se que a atividade tenha de 15 a 20 minutos por dia. É importante ser consistente: tentar fazer todo dia, criando um momento de rotina de leitura, como antes de dormir, na hora do banho ou do lanchinho no meio do dia. O importante é tornar consistente aquele um momento lúdico, de prazer e descoberta!
À medida que os bebês crescem, ler junto com seus pais os ajuda a liberar sua imaginação e criatividade, melhora sua compreensão e desenvolve o conhecimento do mundo ao seu redor. Além disso, com as histórias, as crianças podem aprender valores importantes, como empatia, solidariedade, consequências das ações, respeito às pessoas e à natureza, por exemplo. Lentamente, eles se familiarizam com as narrativas e logo começam a desenvolver suas próprias histórias ou versões de suas histórias favoritas.
Além disso, a leitura também funciona como uma terapia de bem-estar, ajudando as crianças a reduzirem o estresse e diminuir as emoções negativas ao se conectarem com as experiências dos personagens da história.
A ciência comprova tudo isso?
Sim, cada vez mais. Vários métodos de estudo têm sido utilizados para comprovar os benefícios da leitura compartilhada em família com bebês e crianças. Desde a comparação do desempenho de crianças ao final do primeiro ano de vida ou quando começam a vida escolar até métodos modernos que capturam imagens da atividade cerebral, demonstrando que a leitura precoce em família traz efeitos benéficos nas redes neurais responsáveis por manter diferentes habilidades e funções cognitivas.
Há comprovação de impactos positivos no desenvolvimento da linguagem, em particular na compreensão narrativa e expressão, além das chamadas funções executivas, como capacidade de manter atenção, fazer planejamento e controle de execução de tarefas, ter flexibilidade na escolha de estratégias e solução de problemas, e na velocidade de processamento e memória. Tudo isso tem efeito benéfico na alfabetização (letramento e numeracia, ou alfabetização matemática), no bem-estar socioemocional das crianças e nas relações parentais.
A leitura compartilhada impacta ainda na atenção sustentada, um aspecto importante quando considerarmos que as crianças de hoje, além de transtornos específicos do desenvolvimento, como o TDAH, tendem a ter dificuldades crescentes em manter a atenção, provavelmente devido ao excesso de estímulos contemporâneos que perturbam a sua concentração.
Seria um exagero falar que os livros têm capacidade de ajudar na cura?
Ao contrário! Embora a estratégia beneficie todas as crianças, há vários projetos avaliando práticas de leitura compartilhada até mesmo em hospitais, com crianças prematuras, em tratamento para câncer ou com distúrbios do neurodesenvolvimento, por exemplo, com resultados bastante promissores.
A leitura com as crianças também faz bem aos pais e à sociedade?
Sim! Há evidências de que, ao praticarem a leitura compartilhada, os cuidadores melhoram seu senso de responsabilidade, de autoeficácia e de competência parental. Essa melhoria se dá mesmo quando o adulto passa por situações difíceis ou está com depressão, o que também ajuda no estado socioemocional da criança.
Além disso, dados do UNICEF, avaliando cerca de 100.000 crianças de 35 países, demonstraram que as crianças que têm pelo menos um livro em casa tem quase duas vezes mais chances de ter habilidades de alfabetização (letramento e numeracia, ou alfabetização matemática) apropriadas para a idade. E os benefícios cognitivos e relacionais observados nos estudos são até maiores em crianças e pais de baixo nível socioeconômico e cultural. Assim, se essas práticas se tornam políticas públicas, os ganhos são estendidos para toda a sociedade.
15.1A escola e a criança, de Raquel de Crasto
Estimulamos a leitura de A escola e a criança, texto de importante valor histórico, escrito há décadas pela professora Raquel Crasto, parceira do professor Paulo Freire na fundação do Instituto Capibaribe, notável colégio na capital pernambucana. O texto é extremamente instigante e deve fazer pensar na nossa função de cuidadores que vai muito além de prover vacinas, alimentação, vestuário, assistência à saúde e outros itens do cotidiano.
A pedagoga Raquel Correia de Crasto, que teria completado 100 anos em 2019, foi convidada em 1955 pelo educador Paulo Freire para participar do grupo que criou o Instituto Capibaribe, a primeira escola do Recife a adotar uma pedagogia considerada alternativa. Raquel faleceu em 2004, mas as práticas permanecem sendo difundidas na escola, que já soma 70 anos de existência.
Nascida em Vicência, na Mata Norte, Raquel foi aluna do primeiro curso de Pedagogia da Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire), especializando-se em Orientação Educacional, ramo em que trabalhou com adolescentes e formação de professores. Em 1942, foi nomeada professora da então Escola Rural Alberto Torres, em Tejipió. Em 1943, passou a trabalhar com crianças especiais na Escola Aires Gama. O texto abaixo apresentado foi escrito pela educadora Raquel Correia de Crasto e divulgado em 1992, no terceiro volume do Conversando com os pais.
A escola e a criança
1- Qual a idade ideal para mandar a criança para a escola?
A nossa experiência mostrou a conveniência de não levar a criança à escola antes dos 3 anos, por várias razões: primeiro, necessidade de permanecer um pouco mais entregue aos cuidados individuais da mamãe, basicamente por necessidades psicoafetivas; depois, antes disso, ainda não se estabeleceram definitivamente o controle dos esfíncteres e o processo de linguagem necessário à comunicação com os adultos da escola e também com os companheiros. Isto sem falar em um mínimo de socialização, que garanta a confiança absolutamente necessária ao convívio com as pessoas da escola.
Por isso, entre nós, estabelecemos o limite de 3 anos e meio para entrada das crianças, tendo-se o cuidado de lhes oferecer o mínimo de sistematização possível, na qual sejam garantidas a socialização, a educação sensorial, a espontaneidade, a formação de certos hábitos úteis e indispensáveis ao convívio escolar.”
Consideramos de fundamental importância a convivência da criança pequena com a mãe. Mas houve uma mudança na organização e na rotina familiar; a mãe nem sempre é a pessoa que está disponível para acompanhar o crescimento da criança em todos os sentidos. Tornou-se, melhor, então, deixar a crianças aos cuidados da escola maternal, encarregada de promover os cuidados essenciais ao seu desenvolvimento integral, a deixá-la com pessoas, muitas vezes, desconhecidas e pouco preparadas para a função. Passamos, desde 1999, a receber crianças a partir dos 2 anos, para a classe do maternal.
2 – Um problema para muitas mães: deixar a criança em casa com a empregada assistindo à televisão ou levar para a escola?
Reconhecemos a situação conflitiva na mente e na consciência de uma mãe, tendo-se em vista a quase impossibilidade de encontrar pessoas de confiança com quem deixar seus filhos e a necessidade imperiosa de trabalhar. É claro que, entre deixar o filho ou filhos com uma empregada, muitas vezes inadequada para a função, e levá-los para a escola mais cedo do que se pensava, a segunda hipótese prevalece. Aqui, dos males, o menor. Tendo-se, porém, o cuidado de escolher uma escola que concilie as exigências essenciais de instalações com as necessidades psicológicas das crianças. Na escola, a criança encontrará outras crianças, jogos e brinquedos e estará longe da televisão, num período em que ela é dispensável.
3 – Quais os critérios para a escolha da escola?
Sabemos que não é nada fácil escolher a escola do filho. Claro que não deverá ser a criança a responsável por essa escolha. A de uma criança obedeceria sempre a critérios afetivos e nunca deverá ser por aí. Serão os pais que deverão fazer a opção, seguindo sempre critérios psicopedagógicos.
Psicopedagogicamente, todas as escolas deveriam ser simples, porém dotadas de aspectos essenciais indispensáveis. O primeiro deles, o mais importante, é um clima psicológico favorável à segurança, à espontaneidade, à alegria, à simplicidade, à tranquilidade emocional. Ao lado disso, que, repetimos, é realmente o mais importante, vale destacar a adequação pedagógica com as instalações, que variam com o tipo de aluno. Daí, no pré-escolar, por exemplo, devemos contar com áreas verdes, presença de salas amplas e arejadas, móveis leves e simples, jogos variados, tabuleiros de areia, coisas de boneca etc., sanitários e filtros adequados.
A experiência nos mostrou que as aparências são muito relativas, comparadas com o espaço psicológico, ou seja, a compreensão, a alegria, a receptividade, a competência, a motivação que os mestres oferecem no seu dia a dia escolar.
Se pudéssemos unir o útil das boas instalações com o agradável do clima psicológico, seria sempre o melhor. Entretanto, em nosso meio, é raramente possível essa conciliação. Sendo assim, entre as duas opções, exigido o que for essencial, deverá prevalecer a que favoreça um melhor atendimento psicológico.
Muitíssimo importante é a unidade de orientação entre a família e a escola. Caminhando lado a lado com a escola, seja ela tradicional ou progressista, haverá esperança de acerto. Caso contrário, a criança ficará em conflito, em ambivalência, o que gera insegurança
4 – Deve haver um modelo ideal de escola: área verde, playground, banheiros apropriados para as crianças etc.?
Um modelo ideal de escola inclui vários aspectos: instalações, localização do prédio, mobiliário, arejamento, iluminação, condições sanitárias, desde o terreno salubre, distante de centros barulhentos e de poluição. Além dessas condições que favorecem o físico, poderíamos lembrar aquelas condições psicológicas que advêm de um corpo docente competente, dedicado e responsável, condições estas que favorecem a compreensão, a alegria, a tranquilidade emocional, o acolhimento.
Uma escola assim muito contribuiria para o desenvolvimento integral do aluno. Penso que esse conjunto não deveria ficar muito diferente da realidade vital do aluno, para não o levar ao desajustamento social de desejar e amar coisas que estariam longe de suas possibilidades. Um luxo refinado, por exemplo, nas instalações, não lhe seria nada útil.
Entretanto, seria possível e muito ajudará se juntássemos o útil ao agradável. A sobriedade aliada à simplicidade e ao bom gosto certamente contribuiriam para a educação do seu espírito.
Na verdade, a escola deve buscar sempre a adaptação da criança à vida. É todo um problema social muito sério. A criança deverá amar a escola e a família, gostando de uma e de outra, em ambas sentir-se bem.
Uma escola modelo, ideal, imodificável, padrão para todos os tempos seria uma contraposição ao desenvolvimento da própria educação, que deverá aperfeiçoar-se, adaptando-se às modificações de cada momento histórico.
5- E quando a criança não quer ir para a escola? Qual deve ser a posição dos pais e da escola?
Depende do caso. É importante a convicção dos pais ao mandarem ou não a criança à escola. Não havendo motivo explicável, caberá a família levá-la para a escola e essa recebê-la, mesmo que a criança reaja fortemente à entrada. Aqui, deve funcionar a firmeza sem violência. Deve vencer a verdade, isso é, o benefício de frequentar a escola, a qual garante a sociabilidade, o desenvolvimento da inteligência e das outras capacidades da criança.
Casos há, porém, em que se faz necessária uma introdução gradual, ponderada, uma conquista psicológica ou pedagógica periódica, até a permanência definitiva.
Algum erro anterior, da família ou da escola, poderia tê-la traumatizado e causado nela essa resistência, como. por exemplo, do lado da família, contemporizando demasiadamente ou, do lado da escola, uma superexigência, ou um certo exagero de conteúdos, etc.
Daí, cautelosamente, devemos considerar que cada caso está a merecer uma atenção especial, ou podendo até receber um cuidadoso atendimento psicológico.
6- Existem orientações e métodos de aprendizagem diferentes? Qual o melhor?
Existem orientações e métodos os mais variados e os mais diferentes. Não queremos agora discutir os seus méritos e possíveis erros a corrigir.
Poderíamos dizer que os melhores métodos serão sempre aqueles que procurem desenvolver a mente do aluno, a sua capacidade de reflexão, aqueles cuja preocupação seja levar o aluno a descobrir a verdade, a autodeterminação, que busquem verdadeiramente formar e não simplesmente informar, que busquem a educação integral da personalidade.
Detectar essas preocupações nos vários métodos é trabalho muito particular dos pais e educadores. O que importa é a unidade de orientação família-escola, é a adesão da família, porque disto dependerá a segurança da criança. Cabe, portanto, aos pais, decidirem sobre qual a orientação a seguir. De sua coerência dependerá o êxito a obter. É claro que essa decisão deverá ser consequência de uma escolha muito consciente.
Por mais paradoxal que pareça, tem mais repercussão, para a segurança da criança, essa unidade de orientação do que mesmo a diferença para melhor entre dois métodos. A ambivalência é mais prejudicial: entre duas atitudes diferentes, a criança, no seu pouco discernimento, não sendo capaz de distinguir com clareza o que é mais certo, vem tornar-se conflitiva, ambivalente e insegura, o que na formação de sua personalidade é mais prejudicial do que a diferença para mais ou para menos na excelência de um método ou de outro.
7- Existem escolas específicas para determinadas crianças?
Sim, tendo-se em vista que as crianças podem apresentar dificuldades especiais que devem ser atendidas individualmente ou em pequenos grupos, por toda a vida ou por determinado espaço de tempo. Misturadas em escolas comuns, poderão passar sem a atenção devida e se instalar definitivamente em suas dificuldades em sentimentos de inferioridade.
Hoje há toda uma gama de profissionais especializados na solução de problemas especiais. Entretanto, é ainda pequeno o número de escolas especiais oferecidas pela sociedade, muitas vezes, chega a ser raro e precário”.
Atualmente, a ideia de escola específica foi substituída pela da escola inclusiva, onde o convívio entre crianças diferentes favorece o desenvolvimento e aprendizagens de conhecimentos e atitudes, necessários para a vida em sociedade, sabendo que há casos que requerem profissionais devidamente preparados para atender-lhes em suas necessidades específicas.
8- O esporte nas escolas deve ser estimulado a partir de que idade?
O desenvolvimento físico, um dos aspectos da educação integral, deverá ser considerado desde cedo. Assim o exige o crescimento harmonioso de todos os aspectos da personalidade. No decorrer do 1o grau deve merecer atenção especial, dentro ou também fora da escola, acompanhada por especialistas no assunto seguindo metodologia adequada.
Um cuidado especial: a preocupação não deverá ser formar atletas, nem exagerar a competição, mas usar a educação física como meio de educação. No jardim de infância, as atividades recreativas se encarregam da ginástica natural.
Na adolescência, porém, é indispensável a prática de esportes para descarga de energia, higiene mental, desenvolvimento do espírito de grupo, do respeito mútuo, do exercício da legalidade, da justiça, do companheirismo.
9- Como a escola deve proceder para evitar maior incidência de doenças?
A escola deve contar com a consciência da família em caso de suspeita da presença de doenças. É necessário um bom entendimento entre a família e a escola para detectar os males desde o início e contar com a suspensão da frequência até segunda ordem.
São importantes os cuidados higiênicos da escola: objetos individuais, uso da água devidamente filtrada, uso de copos descartáveis na merenda, instalações sanitárias bem cuidadas.
Manter um canal de comunicação permanente com o sistema público de saúde, secretaria de saúde do município e do estado, é fundamental para a prevenção e superação de problemas de saúde coletiva.
10- O lanche na escola deve ser individual (cada um levar o seu) ou coletivo (o mesmo para todos)?
Por uma série de razões, preferimos o lanche coletivo:
- Ajuda a desfazer tabus alimentares.
- Estimula a alimentação das crianças com pouco apetite, pela força do grupo.
- É uma grande economia de tempo e de dinheiro para as famílias.
- Socializa a criança.
Essas são vantagens muito importantes. Entretanto, o lanche coletivo supõe uma série de exigências: orientação de uma nutricionista para proporcionar às crianças uma refeição balanceada, de acordo com as necessidades do grupo a ser atendido; local para o preparo que garanta limpeza total e facilidade de confecção; não transigir na permissão de merenda individual, a não ser por determinação médica; rigor na determinação dos horários para evitar perturbação no andamento das classes.
A merenda aqui, tem função simplesmente complementar, não substitui a refeição essencial.
11- Deve haver tarefas para casa a partir de que idade?
As tarefas de casa são uma atividade auxiliar que atinge três fins: desenvolver o senso de responsabilidade, fixar alguma noção aprendida, estimular o hábito de estudar sozinho, futuramente necessário. Exige cuidados especiais quanto à época, à dosagem, e às circunstâncias ambientais.
Quanto à época em que poderá ser cobrada, podemos dizer, com segurança e por experiência vivida, que nunca deverá ser no pré-escolar nem na 1a série (...). Pela própria imaturidade e pelo fato de que, não estando ainda alfabetizadas, as crianças não têm condições de ler ordens para executá-las, tendo, por isso, necessidade de recorrer a terceiros para leitura das ordens e sua interpretação, estabelecendo-se uma indesejável dependência.
A partir da 2a série, já dominando a leitura, os estudantes poderão ler e interpretar as ordens dadas, geralmente por escrito, e assim realizá-las sozinhos para apresentá-las na sala de aula.
Não é necessário que sejam longas, essas tarefas. É importante que as crianças as executem prazerosamente. Muito longas, poderiam ser encaradas como castigo. Nunca mais de quarenta minutos e não precisam ser diárias. Tudo deve variar com a classe, a idade, o grau de responsabilidade e de maturidade, o que vai aumentando progressivamente.
As condições ambientais têm muita importância. Cabe aos pais combinarem com seus filhos o momento de realizá-las e fazê-las cumprir religiosamente o combinado. Criar um clima de silêncio, de compromisso aceito para cumprir, sem a presença permanente de uma pessoa ao lado.
Ser indiferente às tarefas é prejudicial. É importante o acompanhamento discreto, o estímulo, a alegria de ver as tarefas cumpridas e até chegar a olhá-las quando solicitado. Quanto à correção, ficará a cargo dos professores no momento para isso destinado – a sala de aula.
12- Quanto aos horários na escola, devem ser rígidos (entrada, aulas, recreios)?
Achamos que a pontualidade, a assiduidade e a ordem muito ajudam na formação do caráter. Poderíamos, pois, dizer que a inconsistência nos horários levaria à pouca seriedade e à inconsistência na formação de hábitos de vida.
Os horários deverão ser cumpridos seriamente. A inflexibilidade, porém, levaria a uma rigidez insuportável. Havendo motivos justos deverão estes ser atendidos.
A rigidez não constrói. Em se tratando de educação, ela somente prejudica o crescimento harmonioso da personalidade.
O que os educadores modernos pensam sobre esses ensinamentos?
“A educação, que deverá aperfeiçoar-se, adaptando-se às modificações de cada momento histórico”, enfatizou a professora Raquel. Um dos assuntos atuais é a importância ou não do comparecimento à escola logo nos primeiros anos de vida. Nos Estados Unidos, uma pesquisa recente demonstrou que as crianças que foram à escola antes dos 5 anos renderam mais nos estudos nos anos seguintes. Os autores ressaltaram que a partir dos 3 anos é bom que as crianças sejam levadas ao jardim de infância. Foram evidenciadas vantagens do contato com a diversidade encontrada na escola e desvantagens do contato com o ambiente mais monótono, menos estimulante, menos variado da casa. Aos 12 anos de idade, o vocabulário das crianças que foram mais cedo para a escolinha era mais amplo do que o daquelas que não foram. Mas elas eram também mais agressivas nessa idade como se a ida mais precoce para a escola tivesse também desencadeado um espírito competitivo mais intenso. Os pesquisadores concluíram que o melhor ambiente para o desenvolvimento do aprendizado nas crianças é a soma dos estímulos familiares e escolares.
Qual o número ideal de crianças numa sala?
As crianças de 3 a 4 anos são dinâmicas e necessitam de muito espaço. Também são muito turbulentas e não conhecem limites e perigos. Há necessidade de muitas professoras e muitas pessoas de apoio para ajudar a cuidar delas. Evidentemente, quanto mais espaço e quanto menos crianças numa mesma sala melhor. No entanto, a dura realidade da relação custo/benefício impede que a maior parte das escolinhas tenha espaço suficiente para a gurizada. Mas, nessa idade, não mais de 10 crianças numa mesma sala é o ideal. As crianças de 7 a 10 anos têm autonomia e independência mais estruturada e, consequentemente, o direcionamento e o acompanhamento dos professores satisfatório com aproximadamente de 25 crianças por sala.
Existem problemas de matricular os irmãos na mesma escola?
Não vemos dificuldades para o aprendizado ou para o comportamento causados pelo fato de os irmãos serem educados no mesmo colégio. Ao contrário, vemos benefícios. O transporte, o uso do material educacional e outros são aspectos positivos. Também é facilitada a negociação, se for colégio particular, pois é possível conseguir mensalidades mais em conta. O diálogo dos familiares com os diretores e com os professores é outro aspecto que poderá ser facilitado se os irmãos estudam no mesmo colégio. Enfim, não vemos aspectos negativos.
Qual a posição de vocês sobre os irmãos gêmeos na mesma sala?
Essa questão é diferente, pois os gêmeos habitualmente estão no mesmo ano escolar e podem inclusive ser colocados na mesma sala como as mães habitualmente desejam. Frequentar a mesma sala pode interferir no comportamento e na formação da personalidade de cada um. Em salas separadas, os gêmeos desenvolvem todas as suas potencialidades, características, formas de ser e de agir e até desenvolver atividades pedagógicas independentes de comparações, críticas e competição exacerbada. Evidentemente, isso não é uma postura definitiva. Imaginem gêmeos que moram numa pequena cidade do interior e têm que frequentar uma escolinha que tem apenas uma sala para a idade deles. Eles frequentarão a mesma escola e receberão as lições na mesma sala. As facilidades e as dificuldades não podem ficar restritas a um ou a poucos aspectos. É importante ver o todo que inclui as características emocionais da família, peculiaridades psíquicas das crianças e as particularidades da própria escola como determinantes do resultado obtido.
O que acham da escola em tempo integral?
Hoje, a escola integral é uma necessidade premente da família que pode contar com um local confiável, produtivo e educativo onde as crianças exercitam um convívio social mais intenso através de atividades lúdicas, esportivas e pedagógicas. Não é apenas uma escola integral que produzirá adultos mais brilhantes ou não. Certamente, as vivências escolares mais intensas e contínuas geram estímulos, experiências e conhecimentos que podem ser extremamente importantes no futuro. A experiência de países como a Coreia que exige que a escolaridade seja em tempo integral reforça essa postura. A escola em tempo integral deve reservar um bom tempo para o lazer, para as brincadeiras livres e para os esportes. Assim, esse modelo, em si, não deve ser a causa de cansaço se for inteligentemente implantado.
E o estudo nas férias?
O professor Cláudio de Moura Castro comentou em um dos números da Veja de junho de 2010 que as férias poderiam ser mais bem aproveitadas. Informou que as perdas no período de recesso podem ser “devastadoras” para as crianças mais pobres. Observou, o citado professor, que dois terços das vantagens acadêmicas acumuladas pelos alunos mais ricos nos primeiros anos da escolaridade resultam das leituras nas férias. Moura Castro disse ainda que cada período de férias provoca o esquecimento de até 2,6 meses do aprendizado da matemática. Assim, os pais e educadores deveriam planejar o que as crianças deveriam fazer para evitar esse prejuízo e até para realizar algum ganho de aprendizado nas férias. É interessante ler a crônica integralmente para ver outros aspectos citados. Mas existe o outro lado da moeda que precisa ser olhado. As férias têm a função de permitir que os estudantes descansem, de possibilitar que pais e filhos possam interagir mais intensamente, como viajar juntos, de permitir que a própria estrutura educacional pare um pouquinho para planejamento e descanso. E uma excelente opção de leituraé o acesso ao portal http://www.dominiopublico.gov.br que oferece literatura para os pequenos (Literatura Infantil em português) e para os maiores.
Qual a opinião sobre o ensino em escolas bilíngues?
É uma situação conflitiva. Como tudo na vida, as crianças que estudam em escolas bilíngues são expostas a benefícios e a malefícios. Cada família deve julgar de acordo com seus valores, sua proposta de vida, seus objetivos futuros qual o melhor modelo a seguir. Não acreditamos que, no longo prazo, possam advir dificuldades comportamentais ou emocionais pelo fato de as crianças estudarem numa escola desse tipo. Certo afastamento da realidade cultural do país de origem, que é o argumento de muitos, é real. Mas isso pode ser vencido.
A escola pode ajudar a formar hábitos alimentares sadios?
Há colégios envolvidos na formação mais completa dos estudantes e que se preocupam até com a formação de bons hábitos alimentares. Muitas têm hortas para que as crianças se acostumem com a plantação dos legumes e verduras. Outras oferecem aulas de culinárias para estimular a criançada a valorizar os alimentos mais sadios. Há as que proíbem a venda nas cantinas de refrigerantes, de frituras e de outros alimentos que devem ser evitados. Tudo isso pode ajudar os familiares a implantarem nas suas casas hábitos semelhantes. As escolas também têm a função de estimular: as boas práticas higiênicas pessoais e ambientais, o respeito com os colegas, a preservação do patrimônio, o cumprimento dos horários e das obrigações escolares, a prática esportiva, o lazer sadio e tudo o mais que diga respeito à boa saúde e ao bom comportamento.
E a escolinha de artes?
Toda escola que se preza deve destinar um espaço no calendário para a prática e o convívio com as várias formas de arte (música, teatro e outras). A frequência a uma escolinha de artes é válida se houver um expediente livre na semana que as crianças usariam para ficar em casa vendo filminho. Lá elas modelam no barro, pintam, cantam, dançam e fazem outras atividades culturais e artísticas extremamente agradáveis, sem avaliação, sem teste, sem prova, sem nota, sem competição, que podem ajudar na valoração dessas atividades transcendentais do ser humano. A escolinha de arte ajuda a descontrair as crianças irritadas, tensas e hiperativas, pois os que elas lá desenvolvem pode ser tão gostoso e convidativo que age como terapia.
Quando contratar professores para aulas de reforço?
Isso não é desejável. A própria escola deve identificar as crianças que apresentam uma evolução cognitiva mais lenta e tentar montar mecanismos que as apoiem.
Os exames de vista e de audição são importantes?
Numa visão mais global, todas as crianças na escola deveriam ser avaliadas por pediatras para que as curvas de crescimento, o estado nutricional, a pressão arterial, a coloração das mucosas (anemia?) e outros indicadores gerais de saúde fossem fiscalizados. Os exames de vista e de audição fazem parte dessa revisão constante.
Como vocês veem o problema da agressão na escola?
A problemática da agressão física e psicológica na escola (bullying *) é um tema que vem crescendo de importância face aos recentes relatos sobre a frequência com que ocorre e às múltiplas feições com que se apresenta. Os estudantes vítimas das agressões têm um perfil definido: são tímidos, sensíveis, quietos e de poucos amigos. Os agressores também são bem tipificados: são os “mandões”, os brincalhões, os extrovertidos e os “populares”. Muitas vezes, as agressões são vistas como “brincadeiras de crianças” e “sem importância”. A violência física é mais fácil de demonstrar. Puxões na orelha e no cabelo, beliscões, socos, rasteiras e agressões mais violentas são vistas. A violência emocional é mais dissimulada e vai desde a colocação de apelidos até a exclusão total do grupo. As crianças agredidas fisicamente manifestam ou não as consequências físicas. As agredidas emocionalmente manifestam de várias maneiras as consequências das violências que vêm sofrendo e uma das mais comuns é a rejeição à escola. Os pais, os educadores, pediatras, os psicólogos, os psicopedagogos e os juristas devem estar alertas para o fenômeno e devem manter uma postura de controle e de repressão contra essas ocorrências. Maiores detalhes sobre o assunto são obtidos na Internet e basta pesquisar com algumas palavras-chaves (exemplo: educação + violência) para que se obtenha riquíssimo material. A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva estuda o assunto e é a autora do livro Bullying: mentes perigosas nas escolas que oferece excelentes noções sobre o problema. No portal http://www.dominiopublico.gov.br, o item Pesquisa sobre discriminação no ambiente escolar oferece dados interessantes sobre o assunto. O grupo de estudo Ger Vitae, do Recife, pesquisa e publica material de elevado interesse sobre a temática. A promotoria de educação dos Ministérios Públicos pode ser usada como fonte de denúncias e, em Pernambuco, o acesso é feito no site http://www.mp.pe.gov.br. No mês de outubro de 2010, o Conselho Nacional de Justiça entrou firme na luta contra esse tipo de agressão e elaborou uma cartilha sobre o tema. A cartilha pode ser obtida gratuitamente no endereço www.cnj.jus.br
O que ocorre quando uma criança não se adapta a uma escola?
A entrada das crianças na escola é, sem dúvida, uma fase muito delicada. A primeira escola é um mergulho num mundo novo, desconhecido, embora um seja um espaço onde elas adquirem conhecimentos necessários para a vida em sociedade e para o desenvolvimento pessoal. Com a chegada à escola, dá-se início a primeira separação real da mãe e da sua casa, até então seus maiores vínculos. Para minimizar esse primeiro impacto, pais, crianças e professores, necessitam de um espaço de tempo e de certo grau de paciência para que ocorra uma boa adaptação. O sucesso dessa fase depende basicamente da reação dos pais ao entregarem seus filhos à nova realidade. Os pais devem sentir-se seguros, e, para isso, precisam conhecer a escola, sua filosofia, seu método, seus profissionais, confiando e aceitando-os. Isso gera nas crianças expectativas positivas e segurança. Somente assim as crianças sentir-se-ão capazes de enfrentar esse novo ambiente com menos insegurança. A escola, por sua vez, deve procurar receber as crianças amorosamente, proporcionando-lhes um ambiente acolhedor, dinâmico e prazeroso, onde possam sentir-se motivadas a descobrir e a construir novos conhecimentos. A educação é um processo de relações permanentes, é fruto da ajuda mútua entre escola, pais e crianças com o meio que as cerca. Quando todos se integram, com objetivos e comportamentos comuns, a adaptação flui naturalmente, fortalecendo as relações e a base para o desenvolvimento futuro.
As escolas estimulam a frequentar museus?
Visitas a museus, monumentos históricos, praças da cidade, shows populares, teatros, jardins botânicos, estações de tratamento da água devem ser realizadas continuamente.
O que acham da integração família-escola?
Esse aspecto precisa ser melhorado. Infelizmente, muitos pais nunca comparecem à escola na qual os filhos estudam. Isso não é exceção. Os familiares devem se aproximar da escola, conhecer o professorado, participar das festividades, prestigiar as competições esportivas, perguntar sobre o rendimento das suas crianças, integrar o conselho de pais e cumprir outras tarefas que poderão resultar num melhor rendimento escolar. Evidentemente, as escolas devem ter modelos de atuação que favoreçam essa participação dos familiares. Devem promover debates educacionais, culturais e sobre a saúde das crianças, por exemplo. Devem promover semanas da ciência, do meio ambiente, da pátria e sobre outros temas sempre com a participação dos pais.
Quais são os métodos de avaliação usados atualmente?
Segundo Raquel Crasto, a avaliação escolar deve ser um processo global e contínuo, abrangendo a pessoa do aluno(a) em toda a vida escolar (nível de conhecimento, atitudes e habilidades), e do professor como forma de analisar seu trabalho. Global porque considera o aluno(a) em todos os seus aspectos: emocional, social, afetivo, intelectual e mental. Contínua porque deve acontecer durante todo o ano, sem que haja um período específico para avalição, e seja, ela mesma, ponto de partida para definição de objetivos do próximo planejamento, do que se vai ensinar/ aprender. Do mesmo modo que Napoleão disse que a guerra era importante para ficar exclusivamente com os generais, podemos dizer que a educação e a avaliação do aprendizado são extremamente importantes para ficar exclusivamente com os professores. O que queremos é dizer que os familiares devem “cair de cabeça” em todos os aspectos da educação dos filhos. Devem acompanhar o andamento do aprendizado e mesmo de uma forma não sistematizada, não profissional, podem e devem avaliar, pelo menos grosseiramente, se seus filhos estão somando conhecimentos que é uma das missões principais da escola. Obviamente, quando os familiares tiverem dúvidas sobre a evolução do aprendizado das crianças, os professores devem ser contatados para rever o assunto.
Como os professores percebem que uma criança é superdotada?
Transcrevemos trechos de uma reportagem publicada na revista O Globo, que circulou na Internet e que oferece bons elementos para nossa reflexão:
O seu filho “viaja” quando ouve algo que não lhe interessa na aula? Ou vira-se para um papo-cabeça com o colega? Ele parece desatento e distraído, mas fica horas superconcentrado no que gosta, como jogos de computador, futebol ou teclados de um piano? Ele é rebelde, respondão e detesta injustiças? Precisa que você lhe explique com todo o carinho os motivos para que obedeça?
Pois seu filho pode ser um “índigo”, rótulo criado por especialistas americanos para designar uma criança hipersensível, cujo cérebro recebe muito mais estímulos que a média dos mortais.
A seguir a matéria tenta mostrar como lidar com o “índigo”.
- Sem imposições: os pais do “índigo” não devem fazer imposições só por necessidade de obediência. Essas crianças sensíveis, talentosas e inteligentes não aceitam explicações do tipo “porque sim” ou “porque não”, respostas, segundo elas, tidas como de criança, mas muito usadas por pais autoritários. Essas crianças não funcionam assim e exigem que os pais, com calma, expliquem o porquê de suas ordens.
- Castigos absurdos: as ameaças de castigos absurdos, como o “homem do saco vai pegar”, “vão passar pimenta na boca” ou “o papai do céu vai castigar”, podem fazer o feitiço virar contra o feiticeiro. O “índigo” vai ver que esses castigos não acontecem e perderá o respeito por esses pais.
- Discussões fechadas: nunca se deve discutir a respeito do “índigo” na frente dele. Ele vai querer participar da discussão. Até mesmo uma questão marido-mulher, do tipo você demorou a chegar, dá ao “índigo” o direito de se intrometer.
- Pais divergentes: se o “índigo” percebe que os pais discordam em muitas questões — e ele percebe tudo — vai acabar manipulando a família inteira. Os pais devem divergir longe do “índigo”.
- Pais atualizados: os pais do “índigo” devem se atualizar em questões de alta tecnologia para poder acompanhar a criança e conversar com ela. Os “índigos” preferem revistas de ação, desenhos mais elaborados como os do X-Men, de tecnologias mutantes, jogos eletrônicos hiperativos como The Sims, que é uma simulação da vida real; o Civilization, que cria estratégias para a civilização desde o começo do mundo e leva meses para terminar. Se os pais não se atualizam, rapidamente os “índigos” deixarão de falar com eles, com a convicção de que eles não entendem nada mesmo.
- Redação na escola: nos Estados Unidos, as escolas assimilaram há algumas décadas a lidar com os “índigos”, estimulando suas potencialidades. Uma sugestão é a de redações de temas livres e variados. O “índigo” escreve com pressa, come palavras e teria mais facilidade em escrever sobre o que mais lhe agrada.
- Professor aliado: as turmas do “índigo” devem ser pequenas e o professor não deve ser um superior, mas um aliado. Uma maneira de trazer a atenção do “índigo” é lhe passar tarefas significativas, papéis de responsabilidade. Ele deve ser convidado para ser o monitor, um auxiliar do professor e jamais deve ser repreendido em público, muito menos de maneira estúpida ou severa.
E finalmente faz algumas considerações importantes:
A neurociência comprovou que aquela parte do cérebro, que filtra os estímulos externos, trabalha mais devagar nessas crianças. Isso significa que as demais partes do cérebro recebem mais estímulos e trabalham mais rapidamente. Essas crianças são hiperestimuladas e, por isso, são mais inteligentes, sensíveis, intuitivas, criativas e ativas.
Na visão ultrapassadíssima da neurologia, o exame era o encefalograma e o diagnóstico era de lesão cerebral e disritmia, com prescrição de drogas como o Gardenal. Hoje sabemos que os portadores do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e os “índigos” são apenas diferentes na velocidade do funcionamento cerebral e precisam apenas de ajuda para desenvolver suas potencialidades que são geniais. As drogas, como as à base de ritalina, são indicadas só em casos raríssimos de extrema dificuldade de concentração e devem ser usadas em períodos de um a dois anos no máximo.
Hoje sabemos que o cérebro tem uma enorme plasticidade. Assim como uma terapia altera o seu funcionamento, a droga também o ensina a regular a produção de certas substâncias químicas, o que equilibra a impulsividade dos TDAH.
Os “índigos” sempre existiram, mas nem sempre foram compreendidos como gênios Einstein, que chegou a ser considerado uma criança burra por seus professores, Mozart, Beethoven, Leonardo da Vinci, James Dean e Marlon Brando estão na lista de gente lilás tida como louca.
Existe apoio oficial para essa situação?
A Secretaria de Educação de cada estado do Brasil deve ter um núcleo de apoio para essas crianças e adolescentes. No Recife, existe um centro que tem feito um trabalho elogiável nesse sentido. A seguir, reproduzimos um texto produzido pelos profissionais que orientam o trabalho nesse núcleo especializado, publicado na edição de 5 de dezembro de 2010 do Diario de Pernambuco:
Para o estudioso norte-americano James Gallagher, referência internacional em educação especial, o fracasso da escola em proporcionar o desenvolvimento de crianças com deficiência é uma tragédia pessoal tanto para elas quanto para suas famílias. O fracasso em ajudar crianças com altas habilidades, no entanto, é uma tragédia para a sociedade. Essa, de extensão imensurável. Diz o pesquisador: “As crianças superdotadas são parte das diferenças entre o que somos e o que poderíamos ser enquanto sociedade”.
Graças ao maior acesso de informações de hoje, o Núcleo de Atividades de Altas Habilidades / Superdotação (NAAH/S) no Recife registrou uma procura 40% superior à do ano passado. Cerca de 62 crianças e adolescentes de até 16 anos são acompanhados pelos profissionais do local.
Foi na instituição, localizada no bairro de Casa Amarela e ligada à Secretaria de Educação do Recife, que Marília de Lima Saatmam, de apenas cinco anos, descobriu que era especial. “Levei Marília à pediatra porque achava que ela era hiperativa. Mas a médica desconfiou e disse que minha filha poderia ter altas habilidades. Pesquisei na Internet e vim parar no NAAH/S. Nós estamos aqui há um ano e, desde então, Marília tornou-se mais espontânea e comunicativa. Acho que ela se encontrou”, comemora a mãe da menina, Risolene Lima da Silva, de 28 anos. A garota frequenta a turma de crianças precoces do núcleo. Na salinha, sempre em duplas, elas interagem e realizam atividades diversas, acompanhadas por professores especializados.
Marília ainda não pode ser chamada de superdotada mas, desde que tinha um ano e oito meses, já conhecia as letras e os nomes das cores. A superdotação só é avaliada a partir dos sete anos, idade em que os pequenos superdotados começam a desenvolver interesse específico por alguma área de conhecimento. A superdotação não é graduada apenas por testes de QI (quociente de inteligência). Em alguns casos, a partir dessa idade os prodígios estacionam e acabam tendo um desenvolvimento igual ao de outros colegas da mesma idade.
Aos 5 anos, Marília escreve com facilidade e, por isso, está cursando o 2º ano do ensino fundamental numa escola particular. Nesta série, a faixa-etária é 7 anos. Os educadores, no entanto, não recomendam o adiantamento desses alunos. O ideal é manter a criança na série correspondente, mas oferecendo atividades e estímulos extras. Porque, apesar de precoce, o emocional dela ainda não acompanha certas responsabilidades. Marília é o bebê da sala. E isso chega a incomodar. A criança sente que é diferente’, alerta Risolene.
Ao contrário do que muita gente pode pensar, ser pai ou mãe de crianças precoces ou adolescentes superdotados não é fácil. O caminho é de surpresa, orgulho e, em seguida, preocupação. Afinal, como deve ser a educação e o tratamento de uma criança diferente? A maioria das escolas não está preparada para recebê-las e podem frustrá-las ou, pior, inibir a capacidade desses pequenos.
Susto — É aí que entram as atividades do núcleo de atendimento. Além de oferecer oficinas de áreas diversas como artes visuais, desenho de humor, geometria do origami, jogos teatrais, robótica e comunicação, o NAAH/S dá, sobretudo, ajuda aos pais. “Saber que meu filho era diferente foi assustador. Ele aprendeu a ler aos dois anos. Na época, achei que ele decorava marcas. Depois vi que ele realmente lia. Por isso, decidi matriculá-lo em uma escolinha de bairro e me arrependi. Kauan se transformou na atração do colégio. Alunos e até professores pediam para ele ler no recreio. Foi quando ele começou a mentir e dizer que não lia coisa nenhuma”, relata a mãe de Kauan Lucas Rangel, Vanessa Rangel, 29 anos.
O menino tem seis anos e um interesse bem diferente das crianças de sua idade. Ele é fã de política, gosta de ler jornais e assistir ao horário eleitoral gratuito. Diz à mãe que, se pudesse, queria votar. Agora que está no NAAH/S, o menino está trabalhando sua capacidade motora. É que, apesar de ler com a fluência de um adulto, ele ainda encontra dificuldade para escrever. Lá, ele se tornou mais sociável na escola.
Habilidades — Como perceber se seu filho/aluno possui habilidades especiais? Essas crianças são muito questionadoras, curiosas, investigadoras e gostam de afrontar as regras dos pais e dos professores. Por isso, várias vezes, elas levam o rótulo de rebeldes. “Mas é preciso especificar. A criança que não tem limites domésticos não aceita diálogo com o professor. Já o aluno com altas habilidades tem um poder de argumentação lógico e embasado”, explica a coordenadora do NAAH/S, Jussara Vieira.
Em Pernambuco, de acordo com o último Censo Escolar, 50 crianças e adolescentes matriculados como superdotadas estudavam na rede regular de ensino. No Brasil, estima-se que existem até 2 milhões de pessoas.
Para atender ao aumento da demanda, o MEC implantou núcleos de assistência em vários estados brasileiros. Os recursos foram poucos, R$ 2 milhões para todas as unidades. O único NAAH/S existente no estado funciona de forma modesta, em quatro pequenas salas do prédio da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Lá trabalham 11 profissionais entre psicólogas, professores, assistente social, arte-educador e psicopedagoga. O atendimento é gratuito.
Futuro — O futuro de uma criança superdotada é incerto. Embora as altas habilidades lhe garantam status perante os colegas e até mesmo os adultos, tudo vai depender de como a família e a escola desenvolvem essas potencialidades. Não se pode cobrar de mais nem de menos, para não desestimular os pequenos prodígios.
Aos 13 anos, João Paulo Lima Tabosa quer ser designer. Percebendo seus “dons” para o desenho, uma professora da rede municipal encaminhou o menino para o núcleo de superdotação. Hoje ele é uma das “estrelas” da turma de desenho de humor. O mesmo aconteceu com João Victor da Silva Oliveira Bezerra, de 15 anos. O jovem é “fera” em artes e até ganhou um concurso nacional de poesias para superdotados. Ele ganhou uma bolsa de estudos no curso de pintura a óleo, no ateliê do artista plástico Gilson Braga.
Como os professores percebem que uma criança não está rendendo o esperado e o que fazem?
Vamos dividir a resposta em duas partes:
- O corpo docente deve usar o máximo de informações para avaliar o andamento do aprendizado de cada aluno. Não basta fazer uma avaliação formal, uma prova de conhecimentos, de qualquer tipo, com certa periodicidade para avaliar o rendimento do estudante. Qualidade das tarefas de casa, o próprio desenrolar das atividades de cada educando no dia a dia da escola, no contato com os colegas e com os professores e o nível de comprometimento com as atividades de sala de aula devem somar no conjunto de dados avaliados. A avaliação global depende de muita atenção do corpo docente, depende assim de uma boa relação entre o número de educandos para cada educador. Os familiares também participam da avaliação da evolução do aprendizado e é muito fácil observar, por exemplo, a evolução da alfabetização. A aquisição de conhecimentos gerais também pode e deve ser monitorada pelos familiares.
- A primeira atitude dos professores quando notam que o aluno não está rendendo bem é revisar com os familiares as possíveis causas do problema. A dificuldade pode estar na saúde da criança (anemia, alteração da função da tireoide, deficiência da visão e da audição e outros problemas), na dinâmica emocional dos familiares ou na própria escola.
E as crianças com síndrome de Down?
O entendimento atual com relação à inclusão de crianças com dificuldades especiais em escolas é um importante avanço social que contribui para o desenvolvimento de atitudes fundamentais à convivência em sociedade. Salvo alguns casos em que o nível de comprometimento tenha uma gravidade que impossibilita a interação de um sujeito com o grupo, a inclusão traz vantagens para todos. Ganha a criança que tem o problema, porque conviver com outros que não apresentam o mesmo problema vai estimulá-la a superar-se; ganham as ditas “normais” porque ampliam seu conhecimento de mundo e desenvolvem atitudes que as tornarão mais habilitadas à vida.
Qual a posição dos educadores sobre a influência da TV?
“Se buscamos uma escola viva em que as crianças sintam a realidade do seu meio geográfico e social, e que, ao mesmo tempo, lhes ofereça um clima de espontaneidade e segurança” (Raquel Crasto), tudo que esteja na realidade caberá na escola. A TV e os demais equipamentos tecnológicos que vão sendo criados pela humanidade precisam ser incluídos, de forma crítica e educativa, no cotidiano escolar.
Existe o problema do excesso de estímulos eduacionais?
Esse é um tema habitualmente esquecido e para marcar bem a sua importância recomendamos o texto Estímulo no ponto certo escrito pela médica psiquiatra, de Brasília, Maria Célia Couto Mello. É só acessar num site de busca na Internet. Mais informações sobre o assunto são conseguidas na Internet (http://www.terra.com.br/istoe/especial_bebes e em outros locais) e em textos especializados sobre a educação da criança e do adolescente.
