Uma iniciativa

Tire dúvidas com o bot(81) 95168-8247
Conversando com o Pediatra

Parte I — Promoção e prevençãoCapítulo 14 de 46

Remédios como aliados

Quando o remédio ajuda, quando atrapalha e como montar uma farmacinha pequena e segura: respostas diretas sobre uso, guarda e alergias.

  • AutoriaClovis Artur Almeida da Silva, João Guilherme Bezerra Alves, Magda Carneiro-Sampaio e Otelo Schwambach Ferreira
  • Leitura50 min · 10,516 palavras
  • No livropáginas 348–376
  • Conversa83 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

O capítulo parte de um princípio claro: a maior parte das doenças cura naturalmente, e os remédios — inclusive os fitoterápicos — devem ser usados com critério, pois também podem causar malefícios. Sem negar os grandes avanços da farmacoterapia, dos antibióticos à solução de reidratação oral, os autores respondem, em perguntas e respostas, a dúvidas sobre efeito placebo, produtos “naturais”, gripes, medidas não medicamentosas, prazo de validade, conservação, diluição, horários e como dar remédio à criança que resiste.

Uma parte extensa trata das reações adversas e alérgicas: quais remédios mais provocam alergia, como reconhecer os quadros graves e o que fazer quando a alergia é comprovada. A seção 14.1 monta uma “farmacinha” doméstica pequena e segura, com orientações sobre onde guardá-la e o que levar nas viagens. O capítulo fecha com relatos de familiares que viveram sustos com remédios para o nariz e com dois alertas da Anvisa sobre medicamentos suspensos ou proibidos.

Para quem: Para pais e cuidadores que querem usar remédios com critério e manter em casa uma farmacinha pequena e segura.

medicamentosautomedicaçãoalergia a remédiosfarmacinha domésticafitoterápicosAnvisa

O uso de remédios nas crianças, nos adolescentes e nos adultos deve ser criterioso e deve obedecer aos seguintes princípios:

  1. A maior parte das doenças cura naturalmente, sem remédios. Cicatrização, tosse, vômito, diarreia, febre, coagulação, resposta inflamatória e imune, dor e outros mecanismos protegem o corpo e curam a maior parte dos problemas.
  2. Os remédios, inclusive os fitoterápicos, podem causar malefícios, como reações alérgicas, que podem ser graves, além outros tipos de reações adversas. Custam dinheiro que poderia ser melhor utilizado para outras finalidades.
  3. Mal-empregados, os remédios educam erroneamente os familiares. Passam a impressão de que resolveram algumas das doenças espontaneamente curadas. Os cuidadores podem, por exemplo, admitir que o que curou uma gripe resolvida pelas defesas orgânicas foi a vitamina C misturada a produtos “antigripais” ou o fitoterápico. Remédios que “parecem” ter curado a gripe passam a ser recomendados para toda a vizinhança que tem gripe, multiplicando o erro.

Mas deve-se reconhecer o extraordinário trabalho dos químicos e de muitos outros cientistas que acrescentaram aos recursos da medicina produtos de extraordinária utilidade, os quais curam ou reduzem os efeitos deletérios das enfermidades de diferentes naturezas. O emprego criterioso dos fármacos implica no diagnóstico com o máximo de precisão da enfermidade que causa os sintomas. Destacam-se, dentre outros avanços os remédios mais utilizados na medicina atual:

  1. Antibióticos e quimioterápicos anti-infecciosos — Contam-se aos milhares os portadores de meningite bacteriana salvos pelas penicilinas. Esse é um exemplo dentre outros que poderiam ser citados.
  2. Solução de reidratação oral — A hidratação e a reidratação oral foram o principal aspecto na mudança do terrível cenário da mortalidade pelas gastroenterites na infância.
  3. Antiparasitários — A ivermectina e outros medicamentos são importantes, sobretudo, em países onde as condições sanitárias não são ideais.
  4. Anestésicos — Esses dispensam comentários.
  5. Analgésicos e antifebris — Dipirona, paracetamol, ibuprofeno, derivados da atropina e anti-inflamatórios não hormonais também auxiliam o médico no seu labor.
  6. Anticonvulsivante e outras medicações com ações sobre o sistema nervoso central — Vale destacar os extraordinários benefícios que o fenobarbital produziu, pelo mundo afora, como medicamento anticonvulsivo. E os antidepressivos, antipsicóticos e fármacos com outras ações sobre o sistema nervoso central são um dos focos principais dos pesquisadores de novos medicamentos.
  7. Hormônios — Os hormônios tireoidianos evitaram que muitas crianças com hipotiroidismo congênito se tornassem deficientes mentais com grave retardo do crescimento e permitem que milhões de adultos com deficiência dos hormônios tireodianos vivam normalmente. Os derivados da cortisona ajudam a salvar vidas ao resolver crises graves de asma e reações alérgicas (anafiláticas) intensas. Também são extensamente empregados em dermatoses graves — muitas vezes, incapacitantes — e em muitas doenças. A adrenalina e muitos derivados também são extremamente úteis em quadros asmáticos, reações alérgicas, dificuldades circulatórias e outras situações. Os estrógenos produzidos pelos ovários e seus derivados têm extensa aplicação clínica. Palavras parecidas podem ser ditas sobre a testosterona. O sensacional hormônio do crescimento mudou a expectativa do ganho estatural de garotos e garotas sentenciados a ter baixa estatura por terem nanismo hipofisário.
  8. Hemoderivados — Como o fator anti-hemofílico, a albumina e gamaglobulinas hipermimues.
  9. Quimioterápica anticâncer — Essa é uma área que tem registrado notáveis avanços.
  10. Anti-histamínicos/antialérgicos, imunoterápicos e os modernos imunobiológicos — São úteis em várias condições clínicas.
  11. Heparina e outros anticoagulantes — Extensamente recomendados para vários problemas com risco de eventos com excesso da tendência normal para a coagulação do sangue.
  12. Outros — Fármacos que agem no coração, na pressão arterial elevada, na deficiência renal, na deficiência da lactase e em distintos problemas de saúde poderiam ser citados. A toxina botulínica e o canabidiol devem ser lembrados. Ainda é possível citar o iodo radioativo e outros produtos utilizados pela medicina nuclear para o diagnóstico e o tratamento de muitas enfermidades.

Mas, apesar dos avanços na farmacoterapia, os pesquisadores e a indústria de medicamentos têm muitos desafios a vencer. Por exemplo, a indústria divulga e vende produtos com nomes atraentes (mucolíticos, mucocinéticos, expectorantes) para ajudar o corpo a eliminar as secreções bronco-pulmonares. Os pesquisadores — que sempre devem manter postura crítica — até agora não referendam os estudos que apontam efeitos benéficos dessa linha de medicamentos.

Assim, o tratamento com remédios é extraordinária ferramenta da medicina moderna. Usada criteriosamente é essencial para muitas das enfermidades que atingem o ser humano, mas não é solução para tudo e, muitas vezes, precisam ser acompanhadas por outras formas de terapêutica, como as mudanças na dieta e a fisioterapia.

Como era o tratamento das doenças antes dos remédios modernos?

Nos tempos antigos, quando não existiam os antibióticos, os anestésicos, os analgésicos, as cirurgias, os cateterismos e tantas outras maravilhas das últimas décadas, o tratamento das enfermidades era sem drogas, sem cirurgias. Fundamentalmente com “passes”, “banhos”, “benzimentos”, “meisinhas”, “poções mágicas” e com os chás. Na época em que não existiam os recursos de hoje, a gripe, a diarreia, o sarampo e muitas outras doenças eram curadas pelos processos naturais que ainda hoje funcionam no nosso corpo. A resolução de muitos problemas da pele, como abscessos e furúnculos, continua sendo feita pelos mesmos processos de outrora. A cicatrização das feridas e a recuperação das contusões ocorriam do mesmo modo que acontecem nos nossos tempos. Há muitos outros exemplos. Mas muitos perderam suas vidas devido à varíola, sarampo e outras doenças por não existirem as modernas vacinas. Muitos outros morreram de pneumonia, meningite, apendicite e distintas enfermidades por inexistirem métodos de diagnóstico e de tratamento adequados. Outros ainda ficaram com sequelas ou incapacitados por falta de medidas preventivas ou terapêuticas que foram desenvolvidas nas últimas décadas.

Mudou muito, não é?

Sim, mas muita coisa permanece como antes. Continuam a ser válidos os princípios básicos do diagnóstico e do tratamento de muitas enfermidades que a própria natureza é que cura. Como já citado, gripe continua a ser gripe, doença viral, que o próprio corpo cura. Verruga comum também é doença viral que tem um ciclo e que desaparece sem tratamento especial. Diarreia aguda bacteriana ou viral cura sem drogas. Meningite viral também cura sem remédios. Mas meningite bacteriana tem que ser tratada vigorosa e precocemente com antibióticos.

O que é o efeito placebo?

Está demonstrado que a cura da doença depende de muitos fatores. Um é o efeito placebo que pode representar 30% ou mais da resposta ao tratamento. Confiança no profissional, certeza do diagnóstico, apoio familiar, crença no tratamento, fé e outros aspectos do psiquismo ajudam no processo de resposta ao tratamento. Isso é o efeito placebo. Ele pode, inclusive, agir negativamente e diminuir o poder de cura de uma técnica terapêutica. Desconfiança, falta de apoio, palavras de descrédito e outras influências negativas prejudicam a resposta ao tratamento. Os enfermos toleram mais o desconforto e a dor dos tratamentos cirúrgicos se os médicos explicarem antecipadamente que esses problemas ocorrerão, que fazem parte da resposta do corpo agredido, mas que eles serão enfrentados com medidas adequadas. O efeito placebo é, assim, a denominação técnica para esse conjunto de fatores abstratos que interfere na resposta ao tratamento. É possível dizer que a cura depende do efeito placebo + do efeito real do procedimento terapêutico. Procedimento terapêutico é tudo o que o médico recomenda para melhorar ou curar: cirurgia, remédio alopático ou homeopático, florais de Bach, psicoterapia, fisioterapia e assim por diante. Novamente, falamos que crença, confiança e fé são ações positivas, mas, quando o paciente não acredita no médico ou no remédio prescrito, a chance de bons resultados é menor.

Os produtos “naturais” ajudam? Podem fazer mal?

É possível que o efeito placebo seja o principal benefício dos remédios ditos naturais. Na maior parte deles, não é possível detectar princípio ativo com significante efeito terapêutico. Num ou noutro, como no algodoeiro, existe substância de reconhecida ação farmacológica.

Mas eles também podem fazer muito mal. Muitos dos produtos hoje usados pela medicina tradicional foram oriundos das plantas. O curare (usado na anestesia), os digitálicos (empregados na cardiologia) e potentes drogas contra o câncer e muitos outros produtos tiveram essa origem. O algodoeiro indicado para estimular a produção do leite materno contém um potente alcaloide, o gossipol, que exerce intensos efeitos no corpo humano. Alguns chás, tidos como benéficos ou inócuos, podem conter potentes produtos que, por exemplo, podem causar graves lesões no fígado. O fato de um remédio ser considerado fitoterápico não o isenta de poder provocar efeitos colaterais. É um risco usar qualquer produto sem saber quais seus benefícios e quais seus malefícios. Alguns remédios naturais resultam da extração alcoólica de produtos existentes nas plantas. Portanto, o remédio à disposição do consumidor contém álcool na fórmula que deve ser evitado nas crianças. É importante ler a bula para verificar se o álcool faz parte da fórmula. Da mesma forma, corantes e outras substâncias comumente adicionadas aos medicamentos também podem fazer mal, em especial a pessoas alérgicas às mesmas.

A febre pode ser tratada sem remédios? E o que fazer com a irritação da erupção dos dentes? E para a dor de garganta? E para dor de ouvido?

Esses assuntos são debatidos em outros capítulos deste livro.

E as gripes? Devem ser tratadas com ou sem remédios?

A medicina reconhece que não existem remédios eficazes para combater as gripes e resfriados virais. Os sintomas — nariz obstruído, coriza, dor facial, dor de garganta, febre baixa — também não podem ser melhorados com medicamentos. Muitos remédios para as gripes contêm substâncias tóxicas e os que praticam a medicina mais crítica recomendam apenas: hidratação adequada (sucos de frutas cítricas), mel de abelha, limão, própolis, soro fisiológico para lavar o nariz, gargarejos de água e sal, paciência e aguardar o fechamento do ciclo viral.

Mas na farmácia me mostraram vários remédios para gripe!

As doenças gripais são tão comuns e incomodam tanto que a indústria farmacêutica vê nisso uma boa oportunidade para vender. Estamos todos cientes das propagandas sobre “milagrosos remédios” que nada resolvem. A indústria oferece uma misturada enorme de drogas e as farmácias vendem aos montes. Há remédios até com quatro ou mais drogas, as quais aumentam o risco de efeitos colaterais. A medicina não encontra razões para referendar o emprego desses produtos isolados ou misturados. Ao contrário, teme pelos efeitos colaterais e pelos outros malefícios que possam causar.

E para a sinusite? A inalação com “cabacinho” ajuda?

A medicina reconhece que os medicamentos, sobretudo os antibióticos, têm que ser usados com critério e que não funcionam nas sinusites que ocorrem na doença viral. Como nas “gripes”, pouco ou nenhum valor têm vários medicamentos ou mistura de medicamentos recomendados na maior parte das sinusites. Existem estudos bem conduzidos que citam que a maior parte das receitas de antibióticos para a sinusite aguda está errada. Além das medidas antes indicadas para as gripes, é possível que a inalação de vapor de água — obtido pelo aquecimento da água, por exemplo, no chuveiro elétrico — ajude. Os adeptos da medicina fitoterápica prescrevem inalação com óleo essencial de menta (mentol) e de eucalipto (eucaliptol) e “cabacinho”. Mas esses remédios, tidos como inocentes, podem causar malefícios. Podem irritar as vias aéreas e agravar o quadro, ao invés de produzir alívio. Vocês devem ter os mesmos cuidados com alguns produtos para desobstruir o nariz, em bastões para inalação nasal ou em pomadas para aplicação nas narinas.

Quais os produtos naturais para a tosse?

Há capítulo sobre tosse que detalha o tema, neste livro. Algumas palavras sobre o guaco que é um exemplo de fitoterápico que possui reconhecidas ações farmacológicas, algumas indesejáveis. A mais importante é a influência na coagulação do sangue. O guaco é um dos fitoterápicos mais usados para a tosse. Ele está na composição de muitos produtos usados com essa finalidade. Não deve ser empregado em menores de dois anos e nos portadores de doenças hepáticas e com tendência para sangramentos. É para, mais uma vez, lembrar a todos que muitos dos remédios da medicina alopática são derivados das plantas e que a fitoterapia não é inócua. Os produtos com guaco devem ser usados com cuidado.

E a asma? Existem medidas não medicamentosas que ajudam?

As medidas não medicamentosas são as mais importantes para os que têm asma, rinite e dermatite de causa alérgica. O capítulo sobre o tema deve ser consultado. Para firmar o aprendizado, são ressaltadas algumas das medidas não medicamentosas essenciais: não expor ao fumo e a outros irritantes respiratórios (fumaças etc); evitar os ácaros, os fungos (mofo), os animais de pelo e pena, e outras causas de alergia respiratória; lutar contra o sedentarismo; estimular a prática de esportes e de vida ao ar livre; fazer a fisioterapia com profissional habilitado para os pacientes mais graves e estimular a fisioterapia domiciliar, como o aprendizado de um instrumento de sopro (flauta é excelente) para os menos críticos. Para os que apresentam dermatite alérgica, é importante descobrir e afastar a(s) causa(s): corantes, medicamentos, certas proteínas alimentares e outras. E também são essenciais higiene e hidratação adequadas.

O vômito e a diarreia são tratados sem medicamentos?

As doenças mais comuns e que apresentam esses sintomas se curam espontaneamente. Tem começo, meio e fim, sem tratamento medicamentoso. E tudo isso é ditado pela natureza. Os remédios não fazem parte do tratamento usual desses dois problemas e, com frequência, fazem mal. Os cuidados com a hidratação e com a alimentação são os essenciais. O professor César Pernetta, um dos mais importantes professores de Pediatria do século 20, no Brasil, dizia sempre: “a mãe paciente bem orientada e uma solução hidratante adequada são todo o tratamento da diarreia aguda da criança”. Vejam mais no capítulo sobre diarreia.

Como tratar a cólica abdominal sem remédios?

A dor abdominal da diarreia aguda e da menstruação são bem diferentes das causadas pela apendicite ou pela invaginação intestinal. Nas duas primeiras, o tratamento sem medicamentos resolve quase 100% dos casos. As duas últimas necessitam medidas diagnósticas e terapêuticas muito especiais. O portador de qualquer uma das duas últimas situações, se mantido em casa e medicado com chás e compressas abdominais, terá sua doença agravada e poderá até correr risco maior. O serviço de saúde deve ser consultado. E quando houver segurança que o problema é bem conhecido, cólica menstrual, por exemplo, são recomendados empiricamente: repouso, dieta com menos gordura animal, laticínios e ovos, insistindo na ingestão de vegetais, sementes cruas e nozes; exercício físico moderado e regular; como bolsa de água quente, banho morno e massagens relaxantes auxiliam no alívio da dor.

Os problemas de pele podem ser tratados sem medicamentos?

Vários dos problemas da pele podem ser superados sem drogas, sobretudo sem corticoides. A brotoeja melhora com as mudanças no vestuário, os banhos, o ambiente fresco e as aplicações de água com goma de tapioca ou maisena. A pasta d’água, produto absolutamente natural, também funciona muito bem. Ela pode ser usada para vários outros probleminhas de pele da criança, como o eritema cutâneo, após exposição ao sol. O talco também pode ser empregado, apenas com o cuidado de aplicar com a mão no local afetado. Não usar grande quantidade de talco com esponja, que pode facilitar a aspiração e o aparecimento de quadros respiratórios. As assaduras de região das fraldas se resolvem com vestuário apropriado (as fraldas descartáveis parecem favorecer o aparecimento do problema, as de algodão ajudam na cura) e com medidas higiênicas adequadas. O impetigo, sobretudo quando existem poucas lesões, é resolvido com asseio bem-feito, com muita água e sabão. Os furúnculos e abscessos são melhorados com calor local — bolsas de água morna, compressas aquecidas, “pirão quente” — e asseio local. Essas últimas lesões são resolvidas quando ocorre a drenagem do pus. Não devem ser manuseadas de forma violenta (espremidas) para tentar eliminar o pus “na marra”. Deixar que a drenagem se faça normalmente é a melhor solução.

Os problemas genitais podem ser resolvidos sem remédios?

Podem. A maior parte dos problemas é causada por asseio inadequado. O excesso ou a falta de asseio, o uso de produtos inapropriados e outros fatores da higiene causam doença no menino e na menina. No menino, o principal problema é o famigerado “exercício”. Na menina a exposição a ambientes que favorecem as doenças como o brincar em caixa de areia que entra na calcinha e irrita a genitália. Portanto, as medidas higiênicas apropriadas e outras providências como o uso de shortinho quando a menina for para a caixa de areia e a extinção do “exercício” no pênis do menino ajudam muito. O asseio da menina que está com a vulva irritada e sujando a calcinha é com água e sabonete. É sempre importante lembrar que o sabão pode ser um irritante e ocasionar uretrite química e ardor à micção. Se isso não resolve, podem ser usados os banhos de assento de água fervida (1 litro) e vinagre branco (1 colher das de sopa), por 5 a 10 minutos, duas a três vezes ao dia. No menino, com irritação do prepúcio, o mais importante, repetimos, é o asseio adequado e a proibição dos exercícios. Nunca esquecer que o uso do papel higiênico nas meninas sempre deve ser feito na direção da frente para trás e nunca ao contrário. E lembrar sempre que menino ou menina com problema genital que persiste ou volta pode estar sendo sexualmente manipulado.

O que acham da homeopatia, acupuntura, florais de Bach, “benzedeiras” e “escalda pés”?

Todos esses métodos terapêuticos ajudam e estimulam o indivíduo doente a usar sua potencialidade biológica e sua capacidade de reagir e lutar para resolver, sem drogas, muitas das doenças que o atinge. São úteis desde que quem aplica essas terapêuticas e quem as usa conheçam as limitações de todas elas. Hoje só é admissível tratar meningite bacteriana com internação hospitalar, com todo um “esquemão” de suporte e com antibióticos potentes. Pensar, só o pensar, em usar um desses métodos para tratar meningite é absurdo e pode implicar processo judicial. Indicar exclusivamente qualquer uma dessas modalidades terapêuticas para um paciente com crise grave de asma, que está inclusive com redução do oxigênio sanguíneo, é outro absurdo, outro crime. Muitos médicos alopatas que praticam a medicina científica com muito critério, com muito cuidado, aceitam essas práticas desde que não façam mal ao cliente.

Existem outras medidas para os problemas de saúde das crianças e dos adolescentes?

Existem e vejam alguns:

  • As doenças alérgicas são resolvidas quando identificadas e evitadas as causas. As drogas minimizam a reação, mas a cura só é conseguida com o afastamento da causa.
  • As crianças que entram na escolinha ou na creche passam a adoecer com maior frequência — infecções do ouvido médio, sinusites, bronquites, asma e outros problemas. Algumas delas melhoram muito quando passam um período longe da escola, longe dos coleguinhas que sempre estão com doença viral respiratória e, quando passam a ir para o sol, para as praças, para brincar ao ar livre.
  • Muitas doenças ortopédicas são solucionadas sem medicamentos e imobilização. Ainda se observa prescrição de medicamentos anti-inflamatórios não hormonais que apenas acrescentam riscos.
  • Os distúrbios comportamentais das crianças são resolvidos com orientações educacionais, portanto, sem medicamentos.
  • Paciência é um dos componentes mais importantes para que os familiares e os profissionais permitam que as doenças se resolvam, naturalmente, sem excesso de drogas, de antibióticos. A paciência implica uma espera armada, pronta para agir. A doença que ontem parecia sem importância, hoje pode ser uma pneumonia.
  • É importante manter o médico informado sobre o andamento do quadro. Informem tudo, conversem quantas vezes forem necessárias. Esse é um excelente remédio para as dúvidas e para corrigir os rumos.
  • Evitem usar os remédios que as “comadres” empregaram nos filhos que estavam com um “problema semelhante” e que “funcionaram”.
  • Leiam a bula e evitem os produtos que contenham muitos medicamentos associados. Confiram a fórmula do medicamento, qualquer que seja, para verificar se existe álcool. Se existir, não é recomendável usar nas crianças.
  • Consultem a internet que, afora as “porcarias”, pode dar boas “dicas”.
  • Procurem sempre conhecer os efeitos colaterais dos remédios.
  • Nunca usem antibióticos sem orientação médica.
  • Guardem os remédios em locais inacessíveis às crianças.
  • Nunca troque o medicamento de frasco ou embalagem, porque os rótulos diferentes ou a falta dos mesmos podem levar a trocas e, portanto, a erros na sua administração.
  • Sempre leia o nome do medicamento antes de administrá-lo à criança, sobretudo à noite, porque há embalagens muito parecidas, o que pode levar a trocas de medicamentos.

Quais cuidados os médicos devem indicar para a correta aplicação dos remédios?

  • Fazer prescrição legível para que o cuidador e o funcionários da farmácia não cometam equívocos. É boa norma pedir ao cuidador que leia a receita.
  • Informar sobre o remédio: função; se já vem pronto ou necessita de algum preparo, como é feito o preparo, conservação, quais os efeitos indesejáveis, resposta esperada e outros aspectos.
  • Explicar, quando mais de um remédio for receitado, se eles podem ser usados juntos e se existe interação entre eles.
  • Saber se os clientes já consumiram o medicamento receitado, qual foi o resultado e se houve intolerância ou reação alérgica.

É importante ler a bula?

A Anvisa tem feito um grande esforço para oferecer ao brasileiro bulas mais fáceis de serem compreendidas. Bulas que tragam informações que ajudem os familiares a entender a função de determinado medicamento, a usar o produto com maior precisão e a monitorar os seus possíveis efeitos adversos. O objetivo da Anvisa é envolver mais os familiares com a saúde e com o controle dos medicamentos. Isso pode ser visto na página eletrônica http://www.bulário.bvs.br, na qual também é encontrada uma descrição de cada remédio usado no Brasil. Os médicos ficarão muito felizes com essa participação que tornará o seu trabalho mais profícuo, mais fácil e menos sujeito a erros.

E o uso dos medicamentos fora do prazo de validade?

Cada remédio tem ingredientes ativos (terapêuticos) e inativos (para dar sabor ou para cumprir outras finalidades). Esses ingredientes, sobretudo o princípio ativo, têm prazo de validade. A indústria farmacêutica tem que determinar a data de validade de cada produto. E isso depende de muitos fatores: característica química dos produtos ativos/inativos, apresentação (em pó e diluídos para uso têm validade menor que os comprimidos) e de outros fatores. Vencido o prazo de validade, o remédio passa a perder potência e esse é o primeiro prejuízo. Quanto mais importante a doença, mais valiosa é essa noção. Imaginem o que é tratar meningite com antibióticos fora do prazo de validade. O consumo de produtos após a data de validade apresenta outros riscos, sobretudo aumento da toxicidade. Então é arriscado tomar remédios após o prazo de validade do produto; mudanças físicas (cor, odor, sabor, aspecto da suspensão) comprimidos, drágea ou cápsulas úmidas e/ou se desintegrando são indicadores de que o remédio não deve ser usado.

Sempre confiram o prazo de validade dos remédios, mesmo que o produto seja adquirido hoje na farmácia. Isso é de máxima importância para aqueles que são guardados por meses na farmacinha da casa;

Os produtos com validade vencida não devem ser despejados no sanitário, pois podem contaminar os mananciais de água e não devem ser colocados no lixo, face ao risco de serem usados por outras pessoas. O ideal é que fossem tratados como resíduos sanitários para ter um destino correto.

Isso é válido para as vacinas?

Essas recomendações são válidas para todos os produtos usados com finalidade preventiva ou curativa. O cuidado é maior com o prazo de validade de vacinas como as que contêm organismos vivos como a Sabin e a antirrábica. Esses organismos morrem depois do prazo estabelecido e não funcionarão. Isso é tão importante que a vacina, antes de ser aplicada, deve ser mostrada aos familiares com destaque especial para o prazo de validade.

A conservação do remédio é importante?

É importantíssima. Cada produto deve ser conservado de acordo com as recomendações do fabricante. Em áreas tropicais, quentes e úmidas, esse cuidado deve ser maior ainda, pois os produtos podem se deteriorar mais cedo do que o prazo estabelecido se a conservação não for apropriada. Os remédios não devem ser guardados em ambiente quente, úmido, e sem ventilação. Devem ser estocados em lugar ventilado, o mais fresco e o menos úmido possível. Os produtos em pó para ser diluído, como a amoxicilina, são mais bem conservados, após a diluição, na porta do refrigerador. Vacinas, soros e outros medicamentos devem ser conservados sob condições bem definidas. É sempre importante consultar a bula sobre esse aspecto, sobretudo quando os remédios usados são de elevada potência como os antibióticos e aqueles usados para câncer. Os remédios não diluídos têm um prazo de validade maior e vale o que está definido na embalagem quando estocados adequadamente. Os remédios diluídos têm um prazo de validade muito menor.

Podemos usar o resto do antibiótico para a próxima vez?

O antibiótico que resta, findo o tratamento, deve ser descartado. Os medicamentos que devem ser mantidos em casa, desde que obedecidos os prazos de validade e as condições ideais de estocagem, são os antifebris e alguns outros que serão debatidos no capítulo Farmacinha.

E a guarda dos remédios?

Os acidentes com remédios são dos mais graves e comuns nas crianças. Um “simples” remédio para desentupir o nariz que é deixado ao alcance de uma criança pequena, se ingerido, pode ser causa de morte. Portanto, os remédios, todos eles, sem exceção, querem sejam para uso das crianças ou dos adultos, devem ser guardados em um lugar muito seguro, como um armário alto, trancado a chave. E vocês devem manter em casa o mínimo de produtos tendo sempre o cuidado de descartar os que foram usados ou com prazo de validade ultrapassado. Nunca falar que remédio é bombom que induz as crianças a consumirem o produto. Dizer que remédio é remédio, que só pode ser dado por papai e mamãe ou outro adulto autorizado.

Qual a diferença entre remédio genérico, similar e de marca?

Os produtos genéricos seguem legislação específica e são protegidos por uma série de dispositivos para tentar torná-los baratos e confiáveis. Os similares não seguem a legislação aplicável aos genéricos e estão mais sujeitos a variações indesejáveis. Há indústrias confiáveis e que comercializam similares de alta qualidade. A amoxicilina similar é vendida por várias indústrias idôneas. O remédio de marca é comercializado pela indústria que descobriu o princípio ativo, é habitualmente mais caro e submetido a controles muito rígidos para que sua potência não seja prejudicada e para que não seja falsificado. A nossa legislação ainda está defasada, pois ainda não compramos a quantidade a ser consumida. É inaceitável pagar por 100mL de um produto quando a quantidade a ser usada será de 80mL. Recomendação valiosa é adquirir os medicamentos nas farmácias confiáveis, pois a falsificação existe.

Como deve ser a diluição do remédio em pó?

Erros ocorrem quando os familiares têm de diluir um produto em pó. Muitos antibióticos são vendidos assim. Alguns fabricantes acrescentam o líquido a ser adicionado para a diluição correta. Outros acrescentam um medidor para o preparo preciso. A maioria não faz isso e os familiares encontram no rótulo um nível com informações duvidosas: “água até este nível”. Não é assim. O correto é: acrescentar água com o cuidado de não ultrapassar a marca citada, agitar bem e verificar se a mistura está abaixo da marca, acrescentar mais água sempre com cuidado para que a marca não seja atingida e agitar bem, colocar mais água até que a marca seja atingida e aí a mistura estará correta.

É importante agitar o frasco antes de dar o remédio?

Todos os frascos com os remédios em suspensão devem ser agitados antes de ministrar ao paciente para garantir uma perfeita distribuição do produto ativo.

Dar remédio de 6/6 horas é chato! Podemos dar de 8/8 horas?

Todos os remédios têm que ser usados conforme a prescrição médica. Horário, tempo de uso, ingestão junto de alimentos ou não e várias outras peculiaridades são importantes e devem ser destacadas pelo profissional. A bula ajuda. Há medicamentos que devem ser dados com regularidade como os antibióticos. Têm que ser usados por período definido, na maior parte das vezes por sete ou dez dias. Há outros medicamentos, como os produtos para vermes, que podem ser usados com flexibilidade. É valioso ler a bula ou conversar com o médico sobre o assunto. “Na dúvida, não ultrapasse” também é válido para o uso dos medicamentos.

Temos que dar o remédio de madrugada?

Acordar crianças resistentes ao uso dos remédios aumenta o grau de dificuldade. O médico deve planejar os horários para que isso não ocorra. Em certas doenças (pneumonia, por exemplo) não se deve protelar o início do tratamento. Se a primeira dose foi dada num horário que complica a continuação, o médico ajusta as próximas doses para facilitar.

Como medir o remédio?

As prescrições dos pediatras eram assim: “dar uma colher das de chá de tantas em tantas horas...”. Isso mudou. A indústria está facilitando muito a vida dos médicos e dos familiares ao fornecer mecanismos que garantem o uso preciso dos remédios em suspensão. As embalagens desses medicamentos oferecem mecanismos que permitem o correto cumprimento da prescrição: pipeta, seringa (os melhores), copo e colher todos graduados em mililitros. Quando isso não ocorre, os familiares devem usar uma seringa plástica (sem a agulha obviamente) para medir o produto. A seringa facilita a administração do remédio que pode ser feita pela própria criança, lá pelos 4 anos de idade. Evidentemente um adulto deve estar por perto. Os remédios em gotas devem ser empregues com mais rigor, pois a quantidade do remédio por unidade de medida é maior do que nos produtos em suspensão. Não é recomendável usar o conta-gotas de outro remédio, pois o de um pode conter 30 gotas por mililitro e de outro 20 por mililitro.

Podemos usar os remédios de pele livremente?

Não. Os remédios para uso local, como os para as doenças da pele, olho, ouvido e genitália devem ser usados com critério, pois podem ser maléficos. O uso dos corticoides na pele, por longo período, produz malefícios. O emprego de colírios com antibióticos no olho é um mecanismo que gera resistência nas bactérias. Qualquer remédio deve ser usado com prescrição médica por familiares conscientes.

Como dar o remédio por via oral na criança rebelde?

Boa parte das crianças durante um período da vida rejeita o uso de medicação oral, a nebulização, a câmara para uso dos sprays, o remédio de nariz e o de garganta. Lá vão alguns conselhos para tentar superar esta dificuldade:

  • Alguns remédios podem ser repetidos se a criança vomita. A maior parte das penicilinas pode ser dada de novo sem risco. Outros antibióticos e vários produtos como os antifebris não devem ser repetidos de forma liberal, pois há o risco de intoxicação medicamentosa. O médico indica o que fazer.
  • Misturar o remédio com o alimento não é boa norma. O alimento é mais importante que o remédio. A adição de qualquer produto muda o sabor do leite, por exemplo, o que pode dificultar a tomada do alimento. Além disso, se a criança deixar de tomar todo o alimento, uma quantidade desconhecida do remédio não é ingerida. Camuflar o remédio em algo que não faça parte da rotina alimentar pode ser aceitável. Misturar com leite condensado, mel de abelha ou mel de ameixa são tentativas válidas. É sempre aconselhável que os familiares expliquem que o remédio está ali, misturado ao produto, pois a “mentira tem perna curta” e deseduca.
  • É terrível quando a mãe está tentando dar o remédio e a avó se mostra insegura ou lamuriosa. É importante que quem for dar o remédio às crianças rebeldes o faça com determinação, com certeza de que isso é valioso para a melhoria. A manutenção desse comportamento determinado, muito carinho, e o emprego de métodos não traumáticos de contenção, feitos repetidamente, devem vencer a resistência da criançada mais rebelde. Evidentemente, algumas palavras sobre a importância da tomada do remédio são sempre muito úteis. As ameaças (“tome para não tomar injeção”, “tome ou te levo para o médico”) são absurdas.
  • Poucos médicos aceitam o uso do supositório quando essa alternativa existe. Mas a via retal não deve ser usada abusivamente. Antes de usar o supositório, todos os esforços devem ser empregados para que a criança aceite o uso oral.
  • A via muscular (injeção) é usada como opção, em certos casos.

Existe algum mecanismo para evitar isso?

É possível que grande parte das crianças não aceita tomar os remédios orais porque foi forçada na primeira vez em que foi preciso usá-los. Assim, recomendamos ser importante que os adultos:

  • Conheçam o sabor dos produtos antes de oferecê-los às crianças.
  • Procurem, quanto mais cedo melhor, conversar com elas e informar que, vez ou outra, os remédios dados pela boca poderão ser importantes.
  • Demonstrem que o sabor dos remédios não é ruim. Deixem que elas toquem com o dedo nos produtos a serem usados e as estimulem a experimentar.
  • Tentem fazer com que as rebeldes, quando estiverem sadias, provem o sabor dos remédios que mais provavelmente serão usados. Exemplo: escolham um remédio de febre e após passado o quadro agudo, tentem demonstrar a elas que não é tão difícil aceitar. O mesmo pode ser feito com a nebulização. No intervalo das doenças, nebulizem as crianças com soro fisiológico para tentar fazer com que aceitem. Pode ser feito também com as câmaras de inalação (ou espaçadores). As crianças devem manusear as câmaras em fases distintas daquelas em que estão doentes e os familiares podem simular a aplicação dos medicamentos e assim quebrar o receio do uso do equipamento.
  • Ensinem sempre que remédio é remédio e que apesar de “docinho” só pode ser usado com a presença das mamães e dos papais.

Mas os vômitos podem ser ocasionados pelo remédio, não é?

Os vômitos e outros fenômenos digestivos e gerais podem ser provocados pelo próprio medicamento e não depender da birra ou da dificuldade de tomar o remédio. Quando a causa dos vômitos for intolerância ao remédio, o médico deve ser avisado, pois há alguns “truques” que ele pode recomendar — reduzir a dose, aumentar o espaço entre as tomadas, dar um remédio para aumentar a tolerância ao medicamento — ou até recomendar a suspensão ou a substituição. Mas reafirmamos que os familiares sempre devem conversar com o médico.

E as reações alérgicas?

Toda medicação apresenta efeitos colaterais. Perguntem sempre aos médicos quais as boas ações, mas perguntem também sobre as más. Sobre qualquer medicação, até sobre os aparentemente inofensivos remédios contra a febre. E leiam a bula e consultem a internet. Várias reações alérgicas na pele e em outros órgãos, estomatites e glossites (inflação da boca e da língua), diarreias e outros problemas podem ser produzidos pelos remédios. Atenção e cuidado são sempre remédios acessórios quando as crianças estão sendo medicadas.

E a injeção?

O emprego da medicação injetável é exceção na prática pediátrica. A maior parte dos remédios para as crianças é por via oral e, raramente, há necessidade de usar por injeção. O uso da injeção muscular dos remédios contra a febre que é prática comum em algumas emergências é aspecto criticável e uma das causas da febrefobia e do temor que as crianças têm dos médicos.

Muitos familiares vão ao médico e não usam a medicação!

Isso é comum. A melhor maneira e, talvez, única de esclarecer as dúvidas é conversar com o profissional. Se vocês acham que o antibiótico não deve ser dado ou se a vovó ficou com dúvida sobre a real utilidade do medicamento, perguntem a ele. Se vocês acham que 10 dias é muito tempo de medicação, perguntem. Se vocês acham que é melhor dar o genérico no lugar do remédio de marca, perguntem. Se vocês acham que é melhor dar o antibiótico de 12/12 horas ao invés de 8/8 horas, perguntem. Se vocês acham que é exagero o planejamento dietético, perguntem. Ou consultem outro profissional para mudar a orientação. Os médicos são os únicos aptos para prescrever medicamentos e outras condutas. Vamos exemplificar: há pessoas que “morrem de medo” dos antibióticos e chegam a não os administrá-los corretamente. Algumas dessas pessoas dizem: “olha doutor, ele ficou bom do ouvido sem o antibiótico que o senhor prescreveu”. Isso é conhecido, muitas infecções são autolimitadas, curam sem antibiótico. Vai depender da carga bacteriana e da defesa imunológica da criança. Mas o que deve ser perguntado é se vale correr esse risco. Da mesma forma que o organismo venceu, poderia ocorrer o contrário. A otite média pode se complicar com osteomielite do osso mastoide ou até com meningite.

Quais os efeitos adversos mais comuns dos medicamentos?

São muitas os efeitos maléficos que o emprego correto e, sobretudo excessivo de remédios, causa ao ser humano:

  • Reações alérgicas — Frequentes e algumas vezes mais importantes que a doença que motivou o uso do medicamento (urticária, edema de glote, choque).
  • Reações locais — Frequentes, existem sintomas gastrointestinais (dor, vômitos e diarreia) nos remédios usados pela boca e sintomas locais (dor, vermelhidão) naqueles aplicados no músculo ou na veia.
  • Sensibilidade individual — Exemplos: intolerância à metoclopramida (produto contra vômitos) que pode desencadear quadros neurológicos, efeito paradoxal de alguns sedativos que produzem excitação em certos clientes.
  • Infecções por bactérias resistentes — Exemplos: diarreias graves, pneumonias e outras doenças que dependem da substituição das nossas bactérias normais por outras altamente perigosas.
  • Prejuízo para a resolução normal da doença — É documentado que uma doença febril viral que deveria durar poucos dias poderá ter seu curso prolongado pelo uso excessivo de remédios de febre e de anti-inflamatórios.
  • Mau exemplo — Tendência a recomendar a outros o “remedinho” que “curou” uma gripe que seria curada sem drogas.
  • Gasto desnecessário de dinheiro.

Os medicamentos antigos são mais seguros que os novos?

Os médicos conhecem mais os remédios descobertos e usados há décadas do que os descobertos e usados apenas nos últimos anos. As penicilinas, empregadas há mais de 60 anos, em milhões e milhões de pessoas, são muito mais estudadas e conhecidas do que a azitromicina e outros antibióticos lançados recentemente. As penicilinas são evidentemente preferidas quando são adequadas ao tratamento das infecções. Outro exemplo é a preferência que alguns médicos têm pela dipirona e pelo paracetamol. Eles acham que essas últimas drogas usadas há muito tempo são mais seguras que os derivados do ibuprofeno. A última droga e alguns anti-inflamatórios não hormonais (por exemplo, diclofenaco) devem ser destinados para algumas situações especiais.

São frequentes as alergias aos remédios?

São muito frequentes. Cerca de 5 a 10% das pessoas que usam remédios para febre, anti-inflamatórios, antibióticos e anticonvulsivantes apresentam reações alérgicas. Repetimos: reações que podem ser muito mais graves, mas muito mesmo, que as doenças que motivaram o uso do medicamento.

Os dados pela veia são mais perigosos que os dados pela boca?

De uma forma geral, os produtos injetados na veia ou no músculo tendem a causar as reações mais graves. Os supositórios e os produtos aplicados na pele, no olho e no ouvido também induzem fenômenos alérgicos. Os remédios por via oral, pelo fato de serem os mais usados, são os que causam mais reações. Enfim, o medicamento usado em qualquer local do corpo, sob qualquer forma, por qualquer via, pode provocar reação alérgica que pode ser grave.

Qual a lista dos remédios que mais provocam alergias?

Na pediatria, os principais são os antifebris e os antibióticos. Dos antifebris, o acetaminofen (paracetamol) e a dipiriona, os mais empregados, são os principais responsáveis pelas reações adversas. Dos antibióticos, os derivados das penicilinas, também os mais usados, produzem os quadros mais comuns. Mas qualquer outro remédio para febre (ibuprofeno, por exemplo), assim como todos os antibióticos não citados anteriormente e os quimioterápicos (eritromicina, sulfas, furadantina, quinolonas, azitromicina, cefalosporinas e outros) causam alergia. Todos os antiparasitários (mebendazol e tiabendazol para uso oral e até os produtos para sarna aplicados na pele), todos os anti-inflamatórios (aspirina, naproxeno, diclofenaco, por exemplo) também causam. Todos os anticonvulsivantes (fenobarbital, carbamazepina, entre outros), os antissépticos locais (como o merthiolate e os iodados), as insulinas, os anestésicos locais (inclusive os usados pelos dentistas), os contrastes iodados empregados pelos radiologistas, os soros (antitetânico e outros) e as vacinas (tríplice viral, é exemplo), para citar os mais comuns, são causas de alergia e intolerância.

Puxa, a lista é enorme! É para ter medo?

Esse medo que leva a um estado de alerta é benéfico. Por isso, a informação é importante. É inaceitável que o médico que prescreve um remédio não informe sobre os efeitos benéficos e maléficos. É importante ler na internet e até na bula sobre os cuidados a ter quando se usa um remédio, qualquer que seja. Mesmo que o medicamento seja um creme ou uma pomada para a pele, para a genitália, ou umas gotinhas para o olho ou o ouvido.

E o corante do remédio?

A intolerância e a reação alérgica podem ser provocadas pelos outros componentes usados para dar cor e sabor aos remédios. Isso é comum quando o princípio ativo usado não causa alergia. Quando se emprega um xarope antiasmático, cujo componente básico não causa alergia, e surge urticária, é possível que a real causa do problema seja um dos aditivos usados no xarope.

O que ocorre no nosso corpo que causa essa alergia?

A genética predispõe os indivíduos à reação alérgica. Filhos de pais com alergia à penicilina têm maior chance de ter o problema. É raro que a alergia ocorra na primeira vez que se usa um remédio e a exposição repetida é que causa o problema. Geralmente, após o primeiro contato é que o corpo produz o anticorpo responsável pela alergia que surgirá num próximo contato.

Como é a alergia ao remédio?

As reações variam de leves a graves. Pode ser apenas uma “coceirinha” e discreta vermelhidão onde foi usado um creme cutâneo. Mas pode ocorrer uma reação cutânea gravíssima, parecida com uma queimadura ou um problema circulatório com choque e risco de morte após a ingestão ou aplicação muscular de um medicamento. Vamos dividir as reações em locais e gerais ou à distância:

  • Locais — Acontecem em qualquer local onde o remédio é aplicado e a reação mais comum é na pele. Podem acontecer quando os remédios são usados no olho, ouvido externo, genitália, mucosa bucal, pleura, líquor e assim por diante. O que se observa é que a doença que motivou o tratamento não cura, persiste ou agrava. Na pele, são observados edema (inchação), secreção, vermelhidão e coceira. A coceira é o melhor marcador da reação alérgica.
  • Gerais ou à distância — Consistem nas alterações gerais — febre, queda da pressão arterial, coceira e placas de alergia por todo o corpo — e/ou em locais distintos daquele que teve contato com o medicamento. Surgem, predominantemente, o quadro urticariano caracterizado por placas cutâneas avermelhadas que coçam intensamente. Podem ser observadas áreas inchadas nas pálpebras, nos lábios, na genitália. Manifestações de rinite e de asma também acontecem. O edema de glote decorre da reação na laringe e é grave, o choque anafilático e a doença do soro são outros quadros graves.

Gostaríamos de saber mais sobre as reações mais graves.

O problema cutâneo que parece uma queimadura é importante, grave, e necessita tratamento médico qualificado. O edema de glote aparece subitamente, após a medicação, e o indivíduo fica rouco com dificuldade para respirar. Pode surgir até cianose (cor azulada) dos lábios e dos dedos. A pessoa deve ser socorrida rapidamente. O choque anafilático é grave. Surge subitamente após o uso do produto e o indivíduo apresenta sudorese, desmaio a ponto de cair, cor arroxeada nos lábios e nos dedos, torpor mental e queda da pressão arterial. É preciso socorro médico imediato. A doença do soro surge uma semana após o uso de medicamentos, soros ou vacinas. Febre, dor nas articulações e aumento dos gânglios são as principais características.

Como evolui o quadro de alergia aos medicamentos?

Os sintomas decorrentes da alergia habitualmente são resolvidos em poucos dias. Em poucos casos, a melhoria é lenta e pode durar até semanas ou meses. E, nestes casos, há necessidade de orientação terapêutica contínua, com frequente participação de um dermatologista e/ou alergista competente.

Como vocês concluem que a reação é devida ao remédio?

É preciso ter segurança para fazer diagnóstico preciso. Se é definido erroneamente que a causa da alergia foi a penicilina, está sendo eliminado do arsenal terapêutico para a criança o principal grupo de antibióticos. No futuro, quando houver necessidade, serão usados medicamentos mais tóxicos, mais caros e com mais efeitos colaterais. Se é definido erroneamente que a alergia não foi produzida pela penicilina, uma grave reação pode ocorrer se o medicamento é usado. Em alguns casos, o diagnóstico é simples, fácil e definitivo. Noutros não. É comum em Pediatria o surgimento de erupção cutânea numa criança que está com febre e está usando antitérmico. O dilema é se a erupção cutânea foi causada pela própria doença que motivou o uso do medicamento, se é uma reação produzida pelo remédio ou se ainda depende duma interação dos dois. Essa última situação é frequente na mononucleose infecciosa quando a erupção cutânea é muito mais comum quando o cliente está usando penicilina. História familiar (os pais têm alergia?), exame clínico e exames laboratoriais podem ajudar.

Como saber se a reação é do remédio ou dos corantes?

Quando o médico pensar que os outros componentes da fórmula podem ser a causa da reação adversa, ele pode indicar outro produto com o mesmo princípio, mas com outros aditivos. As farmácias de manipulação auxiliam nessa tarefa. Isso deve ser feito com total segurança, pois se a causa da alergia for o princípio ativo, mesmo num produto especialmente formulado, poderá ocasionar reação.

O que fazer se ficar comprovado que há alergia a um remédio?

A próxima exposição ao medicamento poderá implicar uma reação mais grave, então a resposta é não usar. Isso é tão importante que a informação deve ser registrada com muita atenção. Registrar na memória e:

  • Usar uma plaquinha com a informação pendurada no pulso ou no pescoço.
  • Registrar a ocorrência na ficha médica, na emergência e na escola.

E não será possível usar o remédio em hipótese nenhuma?

Quando for imperativo usar a droga que causou reação alérgica, pode ser tentada a dessensibilização por alergista, habitualmente no hospital. No domicílio ou mesmo no consultório médico, não é prudente dar qualquer remédio que produziu significativa reação alérgica numa determinada pessoa.

Uma vez alérgico sempre alérgico?

Algumas vezes é possível, depois de algum tempo, usar o produto que antes havia sido rotulado como causador de reação alérgica. Obviamente, como dito antes, isso deve ser feito com extrema cautela.

Como é o tratamento? Quando ouvir o dermatologista?

É óbvio que o primeiro cuidado é suspender o medicamento que causou o problema. O pediatra é competente para resolver a grande maioria dos casos. Ele lança mão de antialérgicos e, algumas vezes, de corticoide. Quando o caso for grave ou quando houver dúvida diagnóstica, a participação do dermatologista, se existem manifestações cutâneas, e do alergista são recomendadas.

Como evitar o excesso de medicamentos nas nossas crianças?

Lá vão alguns conselhos:

  • Ler sobre as principais enfermidades da criança. Estimular a ocorrência de reuniões na escola e em outros locais para debater assuntos da saúde.
  • Usar apenas um remédio quando existe febre. Não cobrar do médico o uso de antibiótico e de outras drogas nas doenças mais simples.
  • Evitar o excesso de remédios na pele, nos olhos, na genitália, no ouvido.
  • Usar os tratamentos mais simples. Exemplos: para tosse, mel, lambedor ou xarope caseiro, xaropes fitoterápicos. Para nariz entupido e catarro nasal, soro fisiológico. Para olho irritado e com secreção, soro fisiológico ou água boricada. Para secreção e irritação genital, asseio com água com vinagre. Feridas na pele, água e sabão.

E as muitas outras reações causadas pelos medicamentos?

Além da alergia, existem muitos outros malefícios produzidos pelo uso de medicamentos. Para exemplificar citamos duas situações:

  1. No uso adequado de um remédio, pode haver reação indesejável mesmo que todos os rigores da medicina tenham sido obedecidos. Exemplos: é possível notar o aparecimento de diarreia numa criança que está usando uma penicilina corretamente recomendada para tratar uma pneumonia. Os medicamentos para as crises de asma provocam aumento da frequência cardíaca, tremores, excitação e outros efeitos indesejáveis. É sempre a relação custo/benefício que indica o caminho.
  2. O uso inadequado de medicamentos é uma realidade lamentável e comum, frequentemente resultando em reações adversas em crianças submetidas a tratamentos de indicação duvidosa ou errônea. Um exemplo claro é o cloranfenicol, que apresenta menos efeitos colaterais no tratamento da febre tifoide, sua verdadeira indicação, do que quando usado para enfermidades de cura espontânea. Parece, assim, que a natureza nos protege quando os fármacos são utilizados para seus fins originais.

A análise do custo-benefício é interessante?

Todos os médicos deveriam pensar nisso quando solicitam exames e receitam medicamentos.

  • Ao invés de solicitar antibiótico para as crianças com febre, exijam o diagnóstico preciso.
  • Ao invés de exigir remédio para tosse, entendam que esse sintoma cede em poucos dias, sem drogas ou apenas com mel e hidratação.
  • Ao invés de cobrar dos médicos remédios antigripais, percebam a gravidade das reações produzidas pelos produtos “inventados” pela indústria farmacêutica e vendidos a “rodo”, por todo o país, com a “inocente” participação de vocês.
  • Ao invés de cobrar ações “milagrosas” dos médicos, entendam que a maior parte das doenças das crianças cura sem drogas.
  • Ao invés de tentar desobstruir o nariz das crianças com drogas que oferecem o risco de graves efeitos colaterais, saibam que o soro fisiológico funciona muito bem e não oferece perigo.

14.1A “farmacinha” doméstica

É valioso definir uma lista básica de remédios que devem ser mantidos em casa ou levados numa viagem. Evidentemente, serão listados apenas o que vocês devem ter para usar nas doenças ou situações mais simples e menos graves. Vamos deixar para a reflexão dois avisos importantes:

  1. Existe maior risco de acidentes com remédios nas casas onde existem muitos medicamentos. O excesso de produtos também favorece o uso errôneo. Em casas onde existe Sorine Adulto e Sorine Infantil, por exemplo, pode ocorrer o uso nas crianças do produto para os mais velhos. O erro pode produzir graves problemas, pois o remédio dos adultos pode conter substância que não deve ser usada nas crianças.
  2. Os cuidadores devem ter consciência do seu limitado poder de reconhecer as doenças e de medicar as crianças. Essa é tarefa complexa e cada capítulo deste livro tem tentado definir esse limite mostrando os riscos de retardar a assistência médica apropriada para as doenças das crianças.

Quais remédios contra a febre e dor a farmacinha deve ter?

Os produtos para as duas situações são os mesmos e devem constar na farmacinha. E as doses e periodicidade também. O capítulo Febre, neste livro, recomenda os remédios. Vocês também devem ter na farmacinha bolsas para água fria ou quente que são usadas nos traumas e nas dores abdominais, de ouvido e de cabeça.

E o termômetro?

Ajuda, mas a “mão” da mãe já é um excelente termômetro, quase nunca falha. Atualmente, há no comércio vários tipos de termômetros: axilar eletrônico, cutâneo frontal eletrônico, auricular eletrônico e termômetro retal eletrônico. O cutâneo frontal eletrônico é pouco preciso e não recomendamos. O retal não faz parte de nossa cultura e o auricular é muito caro. Sendo assim, o mais prático ainda é o axilar eletrônico, devendo ser mantido por um período mínimo de três minutos para a aferição correta da temperatura axilar.

Podemos ter um spray ou pastilha para dor de garganta?

Podem. Um spray com própolis pode ser usado quando houver dor de garganta. Para os maiores, de 8 anos ou mais, uma dessas pastilhas simples, sem drogas, é útil. Também podem ter um antisséptico para gargarejos e bicarbonato de sódio que deve sempre existir. O uso dos sprays que contém anestésicos deve ser evitado. Seu uso pode induzir uma reação alérgica aos anestésicos.

A farmacinha deve ter o que para o nariz entupido e a coriza?

O produto básico para uso nasal é o soro fisiológico. É o mais barato, o mais útil e que não apresenta efeitos adversos. Existem no comércio flaconetes de 10mL com soro fisiológico. É bom ter alguns que não precisam ser estocados no refrigerador. Quando necessário, despejar o conteúdo de uma ampola em um frasco com aplicador de medicação nasal (frasco usado de rinosoro ou Sorine, por exemplo). Esse soro fisiológico colocado em um frasco deve ser usado por no máximo 48 horas. Assim, após esse prazo, é indicado desprezar o restante, lavar bem o frasco e despejar o conteúdo de outra ampola no frasco. Quem desejar pode ter uma das soluções comercializadas de soro fisiológico para uso nasal, sobretudo as que liberam um jato mais potente. Preferir sempre os soros sem conservantes, sobretudo o cloreto de benzalcônio usado para evitar a contaminação bacteriana. Esse conservante pode ser responsável pelo desencadeamento de alergia em algumas pessoas e “perenizar” os sintomas alérgicos respiratórios altos em outras. O capítulo Rinite e sinusite, coriza e obstrução nasal, neste livro, traz informações adicionais.

Para a tosse, o que deveremos ter em casa?

Devem ter mel de abelha e um ou dois xaropes naturais, fitoterápicos. Lembrar que o mel de abelha só deve ser usado após o primeiro ano de vida.

E para a asma?

Os familiares têm que seguir orientações precisas sobre a identificação precoce da crise, sobre a medicação a ser usada e sobre o reconhecimento da resposta. O programa para cada asmático deve ser individualizado e só o médico pode fazer isso. Mas é essencial que o cuidador de cada asmático saiba como identificar os sinais iniciais da asma e qual medicação usar. Esse remédio deve estar presente na farmacinha e na necessaire levada nas viagens.

Qual colírio deve-se manter na farmacinha?

Apenas o soro fisiológico. As mesmas ampolas antes referidas para uso nasal também servem para quando a criança apresenta secreção ou irritação ocular. Colírios com antibióticos e outras substâncias, como a cortisona, não devem fazer parte da farmacinha.

Para os vômitos, o que a farmacinha deve ter?

Os produtos para vômitos são potencialmente tóxicos, têm eficácia duvidosa na maior parte das doenças agudas que produzem vômitos e devem ser recomendados pelos médicos após consultar as crianças. Vejam o capítulo Vômito, neste livro, para mais detalhes.

E para a diarreia?

Também não devem existir remédios para parar a diarreia, na farmacinha. A maior parte das diarreias cura sem remédios. Leiam o capítulo sobre o problema.

Soro para a hidratação oral deve fazer parte da farmacinha?

Para quem mora numa fazenda, por exemplo, é prudente ter alguns envelopes de um dos soros em pó. Se há diarreia, é só diluir o conteúdo do envelope na quantidade indicada de água fervida e dar às crianças. Os soros apresentados na forma líquida, prontos para usar, são menos práticos para serem guardados por longo tempo.

Para os gazes?

Os produtos que estão aí comercializados e largamente usados pelos familiares, em si mesmos e nas crianças, não têm eficácia provada. Chás (boldo, preto e outros) fazem o mesmo efeito. Assim, é a melhor opção dar os chás que os remédios.

Para o intestino preso?

Os supositórios de glicerina podem fazer parte da farmacinha. Existem para as diversas idades. Não devem ser usados repetidamente, pois a criança que assim está sendo cuidada precisa mesmo é de avaliação médica para melhor definição da conduta. Vejam o capítulo Constipação intestinal.

O que devemos ter em casa para os probleminhas da pele?

Além de água e sabonete glicerinado neutro, que são os principais produtos para a pele sadia e até para a pele doente, vocês devem ter pasta d’água que pode ser usada livremente na maior parte dos problemas da pele das crianças das regiões mais quentes. Uma pomada com neomicina deve estar sempre pronta para uso. Mas atenção que ela contém antibiótico e deve ser empregada quando houver algum indício de infecção como secreção amarelada na lesão e vermelhidão cutânea ao redor. A maior parte das feridinhas cura sem remédios.

E o mercuriocromo e o merthiolate?

São potencialmente tóxicos e não devem existir no lar.

Então o que deveremos ter para limpar as feridinhas?

Água em abundância e sabão são os mais importantes elementos para o asseio da pele íntegra e da pele ferida ou doente. O permanganato de potássio deve ser adquirido quando o médico prescrever e não deve existir na farmacinha.

Rifocina spray é indicada?

É um erro usar excesso de antibióticos na pele ou em qualquer outro local do corpo (como os colírios com antibióticos e outros produtos). O spray de rifocina, tão popular entre as mães, não deve fazer parte da farmacinha.

Podemos ter uma pomada com cortisona?

Nas crianças sabidamente alérgicas, o médico pode orientar os familiares a ter uma pomada ou creme com cortisona. Mas esses produtos não devem fazer parte da farmacinha para todas as crianças. Mesmo na pele, a cortisona pode ser maléfica.

A farmacinha deve ter um antialérgico?

De rotina, não. Quando o médico diagnosticar um quadro alérgico, ele indicará um produto antialérgico e as condições de uso. E poderá orientar sobre o futuro uso e sobre a necessidade de manter o remédio em casa para uso em outro episódio alérgico. Então, essa é uma recomendação que deve ser programada para os alérgicos e o profissional detalha um programa específico para cada cliente. E aqui nós incluímos também os produtos com cortisona, o mais poderoso antialérgico, que alguns médicos orientam certas famílias muito bem selecionadas para usar em situações muito especiais, por exemplo, crise asmática importante.

Existe o caso especial da anafilaxia — sintomas de obstrução das vias aéreas, que têm início com coceira na garganta, pigarro, edema de lábios e dificuldade para respirar — que pode ser fatal em um curto período de tempo. Nesses casos, a adrenalina auto injetável é uma medida salvadora. Então, para crianças com esse antecedente ou que sejam muito alérgicas, seria recomendado que os pais tivessem ao seu alcance, principalmente quando estivessem em locais mais isolados (fazendas, longas viagens, etc). Entretanto, essa adrenalina autoinjetável ainda não é disponibilizada aqui no Brasil.

E para secreção no ouvido e para a secreção genital?

Os especialistas não recomendam pingar qualquer tipo de gota no ouvido. Isso prejudica o exame e faz a criança sofrer mais quando o médico precisa retirar o que foi colocado para ver qual a doença apresentada. Para a secreção genital nas meninas e nos meninos, basta o asseio adequado e, quando for o caso, a avaliação médica apropriada.

É prudente ter algum antibiótico?

Não. O antibiótico deve ser receitado pelo médico após examinar o cliente. Só após avaliar vários aspectos — órgão ou órgãos afetados, necessidade de exames complementares, intensidade do quadro, bactérias envolvidas, necessidade de controles e outros — é que o profissional indica a medicação.

Qual o material de curativo que deveremos ter?

Vocês devem ter sempre gaze, algodão e esparadrapo que permitem a realização de um curativo simples.

E a farmácia para os adultos?

Os remédios para os adultos são potencialmente muito mais tóxicos para as crianças do que os que fazem parte da terapêutica pediátrica. Antidepressivos, sedativos, anti-hipertensivos e vários outros produtos muito perigosos são muito usados pelos adultos. Mesmo os remédios mais simples voltados para o tratamento dos adultos, que possuem componentes perigosos (Sorine adulto) ou em doses muito altas (paracetamol e dipirona comprimidos), são potencialmente tóxicos para as crianças. Os remédios que os adultos devem manter em casa para eventuais “probleminhas” não devem conter componentes perigosos para a gurizada (Sorine adulto, afrin adulto e outros remédios pela boca para desentupir o nariz). É preferível usar apenas soro fisiológico no nariz. E os comprimidos para dor e febre (como dipirona) devem ser guardados como citado a seguir. Os remédios que os adultos usam para problemas especiais (antidepressivos e remédios para o sono, por exemplo) devem ser mantidos num armário bem alto, trancado a chave.

Nossa farmacinha vai ficar muito pobre?

Acreditamos ser mais seguro para seus filhos que a farmacinha seja pequena mesmo, com poucos remédios, que vocês sabem usar com segurança. E para encerrar, aí vai mais uma vez os que vocês devem ter: a riqueza dessa farmácia está justamente na sabedoria da utilização de poucos remédios para serem utilizados eventualmente.

O que deveremos levar nas viagens?

Acreditamos, de início, que todos deveremos ter um seguro saúde confiável que nos assista nos problemas de saúde quando estivermos longe das nossas casas. Todos nós poderemos vivenciar situações importantes (acidentes, apendicite e outras) que devem ser resolvidas de pronto, onde estivermos, e um bom seguro saúde é uma garantia de que poderemos ser atendidos nos melhores hospitais por profissionais competentes. Nas viagens para o exterior, essa recomendação é ainda mais importante. Nesses casos, é sempre importante ter um seguro internacional que cobre apenas o período da viagem. Confiar nos seguros que nos assistem no Brasil podem causar situações indesejáveis. E os remédios que vocês devem levar são os mesmos antes recomendados para a farmacinha doméstica.

Devemos levar um antibiótico numa viagem?

Não aconselhamos. A indicação do antibiótico (tipo, dose, frequência e tempo de uso e outras variáveis) depende do diagnóstico (local afetado, gravidade da infecção, tipo de germe envolvido). E só o exame médico pode definir isso.

Onde devemos guardar os remédios? Alguma recomendação especial?

O armário para a guarda dos remédios não deve estar ao alcance das crianças e deve ser trancado com chave. Não deve ficar no banheiro, pois a temperatura elevada e umidade dificultam a conservação dos produtos e se for na cozinha deve estar longe das fontes de calor. A temperatura ideal para a conservação dos remédios é em torno de 15 a 27 graus centígrados. O armário ainda deve ser ventilado e livre de muita luz.

Algumas outras recomendações?

  • Guardar os remédios na embalagem original com a bula. Há alguns produtos que exigem refrigeração e, nesses casos, devem ser preservados no fundo do refrigerador para evitar as mudanças de temperatura que ocorrem quando se abre a porta do eletrodoméstico.
  • Classificar os remédios em categorias, por exemplo, para dor e febre, para o nariz, para facilitar a busca quando necessário.
  • Revisar uma ou duas vezes ao ano a farmacinha para avaliar quais remédios estão fora do prazo de validade.

Onde localizar a farmacinha?

A farmacinha não deve ser localizada na cozinha nem no banheiro. O calor e a umidade prejudicam a conservação dos remédios. O excesso de luminosidade também pode atrapalhar. Um armário alto e trancado a chave para evitar que as crianças se acidentem e que atenda às condições anteriores é o melhor local para a guarda dos produtos farmacêuticos.

Como saber se o produto que compramos não é falso?

Esse é um dos problemas mais críticos atualmente. No Brasil, a falsificação de remédios é problema gravíssimo. A “raspadinha”, aquele quadradinho com tinta branca ou metalizada é hoje obrigatório. A tinta quando raspada revela o selo do fabricante e a palavra qualidade e isso garante a originalidade do produto.

Para terminar, lembramos mais uma vez que as graves intoxicações produzidas na casa pela ingestão acidental de remédios. Uma farmacinha organizada, pensada e bem cuidada por pessoas responsáveis e que conhecem o perigo dos medicamentos é peça importante na prevenção de perigosíssimas intoxicações nas crianças.

Lembramos sempre que este texto faz parte de uma proposta educacional e não visa a substituir a orientação médica individualizada.

14.2Relato de uma cuidadora que pingou remédio com nafazolina para desobstruir o nariz do filho

“Nunca imaginei que teria um susto tão grande por causa de um remédio que coloquei no nariz de meu filho de 2 anos e 5 meses. Antes de mandá-lo para a escolinha, às 7h, percebi que ele estava gripado, com o nariz entupido. Pinguei umas duas gotinhas de Sorine no nariz dele, pois sempre achei que remédio no nariz era tudo igual. Levei o garoto para a escola e fui para a faculdade. A professora ligou e disse que havia alguma coisa estranha acontecendo, porque o meu filho estava mole, gelado e só querendo dormir. Perguntou inclusive se podia levá-lo ao hospital.

Na hora nem me lembrei do tal medicamento que sempre me pareceu inofensivo. Corri para a escola e vi que meu filho parecia um boneco de pano. O pediatra, pelo telefone, diagnosticou o que estava ocorrendo e a criança foi levada imediatamente ao consultório onde foi monitorada, pois seu batimento cardíaco estava lento. Passei horas angustiantes e, após cerca de três horas, a situação do garoto foi voltando ao normal e ele, à tarde, estava normal. Através deste depoimento espero que vocês mães prestem muita atenção no uso dos medicamentos nos seus filhos e evitem a automedicação”.

O que ocorreu com o garoto?

Os sintomas foram causados pela nafazolina. A mãe usou no filho a apresentação do Sorine indicada para os adultos. E essa apresentação continha a nafazolina, produto com reconhecidos efeitos colaterais, sobretudo sobre o coração e a circulação. O erro era comum. E o pediatra, experiente, diagnosticou o problema pelo telefone.

Outro depoimento

“Lembro que minha filha usou um remédio no nariz que ela tinha mania de colocar sozinha. Não vi quando, nem quanto ela colocou. Mas de repente ela foi ficando branca e “esmorecida”, parecia um molambo. Acho que foi a pressão que caiu muito. Liguei imediatamente para o médico que perguntou sobre as medicações que estava fazendo e eu disse nenhuma, até que ele perguntou por medicação nasal. Quando falei que sim, o médico mandou que eu visse e bula e verificasse se tinha uma tal substância da qual não lembro o nome. E tinha! De imediato, o médico mandou que eu jogasse fora e algum tempo depois falou que essa substância já tinha causado mortes. O médico ainda me recomendou que eu contasse o caso e divulgasse o nome da maldita substância para todas as mães. ”

Para ilustrar ainda mais o assunto, transcrevemos dois alertas da Anvisa, descritos a seguir:

  1. Sobre a fenilpropanolamina:

O Ministério da Saúde, através da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, suspendeu por meio da Resolução 96, a fabricação, distribuição, manipulação, comercialização e armazenagem de medicamentos com o princípio ativo denominado FENILPROPALAMINA. A medida foi tomada depois que a “Food and Drug Administration” (FDA), dos Estados Unidos, constatou que a substância vinha provocando reações adversas, FATAIS, em usuários americanos (hemorragia cerebral). No Brasil, a suspensão é preventiva, uma vez que não existem casos relatados.

A FENILPROPALAMINA está presente em 21 medicamentos, especialmente nos antigripais. Os medicamentos suspensos são os seguintes: Bernadryl dia e noite; Contac; Naldecon Bristol; Acolde ; Rinarin Expectorante; Deltap; Desfenil; HCl de fenilpropalamina; Naldex; Nasaliv; Decongex Plus; Sanagripe; Descon; Descon AP; Descon Expectorante; Dimetapp; Dimetapp Expectorante; Ceracol Plus; Ornatrol; Rhinex AP; Contilen; Koide D.

2. Sobre os fitoterápicos:

Em setembro de 2011, a Anvisa proibiu o uso e a comercialização no País de nove medicamentos fitoterápicos. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União. Além do uso e comercialização, a agência proibiu a fabricação e distribuição dos produtos em todo o território nacional. Na lista de proibidos, estão o Chá Sete Ervas 130 g (Rouxinol Produtos Naturais), indicado para queima de gordura; o xarope Flor da Índia (500 mL), da Nutri Plantas, para prisão de ventre; o xarope Flor do Sertão (500 mL), da Elis Natus, para úlcera e pedra nos rins; Flor da Catingueira (500 mL), da Bonature Com. de Produtos Naturais; Umburana Composta (500 mL, sem fabricante informado), para infecção mL), da Natureza Viva ME, indicado para evitar derrame; Elixir de Pai João (250 mL, sem fabricante informado) e Tayucaroba (250 mL, sem fabricante informado), para eliminar cravos e espinhas.

Essas observações devem alertar sobre os efeitos adversos de produtos alopáticos e fitoterápicos. O algodoeiro usado como estímulo à produção de leite contém o produto gossipol que pode ocasionar problemas. Estejam atentos.

É importante consultar sempre os médicos assistentes dos seus familiares antes de usar substâncias desconhecidas, mesmo se rotuladas de fitoterápicas.

Tire dúvidas(81) 95168-8247