O uso de drogas que alteram o estado mental acompanha a história do ser humano. Utilizadas muitas vezes por razões religiosas, culturais e recreativas, ou como forma de enfrentamento de problemas pessoais e sociais, ou para transgredir ou transcender, enfim, o ser humano sempre usou substâncias psicoativas e sempre usará. Porém, essa relação do indivíduo com a droga pode, dependendo do contexto, ser inofensiva ou apresentar poucos riscos, como também pode trazer prejuízos biológicos, psicológicos e sociais.
Assim, a relação entre o usuário de droga e a substância psicoativa vai desde o uso social, passando pelo uso problemático ou abuso de drogas, em que, embora o usuário não apresente nenhum grau de dependência, tem problemas decorrentes do uso da droga, até a dependência, cujo diagnóstico é multifatorial, incluindo a compulsão até o abandono das atividades sociais.
A determinação da dependência química deverá ser realizada de acordo com os padrões médicos aceitos internacionalmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e de acordo com o Tratado de Proteção de Pessoas Acometidas de Transtorno Mental e a Melhoria da Assistência à Saúde Mental, sendo que nunca devem ser fatores determinantes para o diagnóstico de um transtorno mental: os conflitos familiares ou profissionais, a não conformidade com valores morais, sociais, culturais, políticos ou religiosos da comunidade da pessoa, ou, por si só, uma história de tratamento anterior ou uma hospitalização como usuário.
Desse modo, o diagnóstico é importante para a escolha da estratégia de enfrentamento. Vale lembrar que, no Brasil, até a segunda metade do século XIX, não havia nenhum tratamento médico específico para pessoas com sofrimento mental. Apenas em 1841 foi construído o primeiro hospital psiquiátrico brasileiro e, somente em 1886, iniciou-se o ensino regular de Psiquiatria aos médicos generalistas. Já em 1902, um inquérito revela que esse hospital era uma casa de detenção de “loucos”, sem tratamento adequado, porém, até 1920, há um crescimento vertiginoso dos estabelecimentos destinados à internação especificamente dos “loucos”.
Em 1923, no Rio de Janeiro, foi fundada a Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), cujo objetivo inicial era melhorar “a assistência aos doentes mentais através da renovação dos quadros profissionais e dos estabelecimentos psiquiátricos” (Costa, 2006). Porém, de 1928 a 1934, os psiquiatras tendem a ser mais e mais higienistas e, nesse período, o principal objetivo nos programas de higiene mental era a eugenia, baseada no modelo de Psiquiatria organicista alemão, que posteriormente serviu como fundamento para os campos de concentração nazistas.
Nesse passo, acompanhando a tendência da Revolução de 1930, que se esforçou para criar uma nova sociedade para o homem médio, em 1930, o Ministério da Educação e Saúde centralizou todos os serviços psiquiátricos do país, e a eugenia só crescia. A crise nesse sistema, no Brasil, iniciou-se em 1978 com a greve de várias unidades da Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM), seguida de centenas de demissões, e recebeu apoio do Movimento de Renovação Médica (REME) e do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES). Assim, nasceu o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), o qual teve forte participação popular e se caracterizou pelo perfil não institucional.
As denúncias foram desde crimes cometidos nas unidades, como estupros, maus-tratos, trabalho escravo e mortes não esclarecidas, até precariedade das condições de trabalho, defasagem salarial e falta de recursos humanos.
No ano de 1978, com a realização do V Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que trouxe grandes pensadores das reformas ocorridas no exterior, o movimento tornou-se nacional e, dentre as moções lá aprovadas, estava o repúdio à privatização do setor, que vinha ocorrendo com grande desvio de recursos para entidades privadas que prestavam serviços públicos. Daí também se consolidou a questão de que o modelo dos grandes hospitais psiquiátricos públicos é um reduto de marginalizados e não de tratamento.
Após esse congresso, vários outros encontros se realizaram até que, finalmente, foi instituída uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Congresso Nacional para apurar as distorções na assistência psiquiátrica no Brasil, bem como rever a legislação penal e civil que se relacionava com o tema.
Nesse contexto, no início dos anos 1980, foi estabelecido um novo convênio, denominado cogestão, entre o Ministério da Previdência e Assistência Social e o Ministério da Saúde, na tentativa de acabar com a priorização de compra de serviços de saúde pública em hospitais privado, pela Previdência Social (Amarante, 1995).
Logo, a cogestão implantou um novo modo de administração de recursos e hospitais públicos, priorizando o tratamento ambulatorial e a reinserção social do internado a longo prazo. Por outro lado, recebia críticas ferozes de seus principais opositores, os ‘empresários da loucura’ — proprietários de hospitais psiquiátricos, os quais se organizaram no Setor de Psiquiatria da Federação Brasileira de Hospitais (FBH), órgão que acabou por realizar críticas infundadas ao modelo público, no afã de reaver a grande parcela de lucro que haviam perdido com a implantação do novo modelo. Mesmo assim, o MTSM decidiu pela realização do II Congresso Nacional, lembrado como um momento de ruptura, no qual não só os atores do movimento participavam, mas também as associações de usuários e familiares, pedindo a extinção dos manicômios, com base no projeto de desinstitucionalização italiano.
Foi nesse efervescer de ideias e ações concretas, bem como da constatação de maus-tratos e mortes não esclarecidas nos hospitais psiquiátricos, que surgiu o primeiro Centro de Atenção Psicossocial Professor Luiz da Rocha Cerqueira (CAPS), na cidade de São Paulo, em 1982, e o primeiro Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS), em 1989, na cidade de Santos, os quais passaram a ser modelos de atuação para todo país.
O Relatório Mundial sobre o Uso de Drogas Ilícitas (2022) do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) relata que a legalização da cannabis em algumas partes do mundo tende a indicar um aumento do uso e dos impactos relacionados à saúde. O documento também revela um aumento recorde na fabricação de cocaína, expansão de drogas sintéticas para novos mercados e falhas contínuas na disponibilização de tratamentos para usuários de drogas, especialmente para as mulheres.
De acordo com o relatório, cerca de 284 milhões de pessoas — na faixa etária entre 15 e 64 anos — usaram drogas em 2020, 26% a mais do que 10 anos antes. Os jovens estão usando mais drogas, com níveis de uso em muitos países superiores aos da geração anterior. Na África e na América Latina, as pessoas com menos de 35 anos representam a maioria das pessoas em tratamento devido a transtornos associados ao uso de drogas.
Globalmente, o relatório estima que 11,2 milhões de pessoas no mundo estavam consumindo drogas em 2020. Cerca da metade deste número possuem o vírus da hepatite C, 1,4 milhões eram portadores do HIV, e 1,2 milhões viviam com ambos.
Importante destacar que álcool e tabaco são drogas lícitas no Brasil e dentre as ilícitas, a maconha é a mais consumida. Cerca de 7,7% de todos os brasileiros entre 12 e 65 anos já usaram maconha pelo menos uma vez na vida. Em termos de usos habituais, cerca de 3,2% de todos os brasileiros consumiram alguma substância ilegal, o que equivale a quase 5 milhões de pessoas. São dados de novembro de 2021. Vejam que o levantamento inclui jovens de 12 anos. Alerta!
No Brasil, há carência de dados estatísticos sobre o assunto, porém vale destacar dois estudos:
- O VI Levantamento sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio das Redes Pública e Privada de Ensino nas 27 Capitais Brasileiras (2010), realizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (CEBRID) incluiu as redes pública e privada de ensino das 26 capitais brasileiras e Distrito Federal.
- A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) — 2009, 2012 e 2015, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a qual considerou duas amostras: A) estudantes do 9º ano do ensino fundamental e B) estudantes de 13 a 17 anos.
Os dados revelados foram: maior prevalência de uso do álcool (uso na vida de 60,5%) e do tabaco (16,9%) e solventes (8,7%); uso de medicamentos sem prescrição médica, como ansiolíticos e anfetaminas, também foi referido por uma parcela considerável de estudantes; o consumo da maconha foi citado em 5,7% , a cocaína em 2,5% e o crack em 0,6% dos estudantes; maior prevalência entre o gênero masculino, enquanto mulheres apresentaram maior prevalência de uso de medicamentos controlados (ansiolíticos e anfetaminas); estudantes mais velhos apresentaram maiores prevalências, contudo, destaca-se que cerca de 1/3 das crianças de 10 e 12 anos relataram ter consumido álcool ao menos uma vez na vida; estudantes da rede pública apresentaram maior prevalência de tabaco, cocaína e crack, enquanto a privada teve maiores índices de álcool, solventes e medicamentos.
Esses achados foram similares aos encontrados na PeNSE. Entre os anos de 2004 e 2010, houve redução do relato de consumo na vida de álcool, tabaco e anfetamínicos. Entretanto, observou-se aumento de uso do uso de diferentes drogas psicotrópicas entre 50.890 estudantes.
As drogas, inclusive o fumo, que causam dependência, afetam milhões de brasileiros e ameaçam a sociedade, desestruturam famílias, aniquilam valores éticos, abalam física, social e emocionalmente e até matam os consumidores.
O que preocupa é a forma insidiosa com que o uso de substâncias químicas que causam dependência vem se infiltrando entre os jovens, até nas escolas, graças ao trabalho sorrateiro dos traficantes.
Mas, muito antes disso, o álcool e o fumo já penetravam nos lares. Mais recentemente, a mídia que “faz a cabeça” do povo tem estimulado o consumo desses tóxicos. Os comerciais de bebidas são muito criativos, inteligentes e sedutores. Envolvem pessoas bonitas, bem-sucedidas e sorridentes. As crianças que não têm senso crítico guardam as imagens de satisfação e de alegria associada à bebida. É lamentável que pessoas famosas façam apologia do uso das drogas. É comum pais beberem e fumarem na presença dos filhos. Nos bares, serve-se bebida alcoólica sem o menor controle a qualquer grupo etário.
Estudo realizado numa universidade americana demonstrou que quem fuma ou bebe um drinque por mês tem dez vezes mais chance de usar drogas ilícitas do que os que não bebem e não fumam. Assim, o assédio das drogas começa a ocorrer muito antes de as crianças terem despertado o real interesse por ela e qualquer atitude preventiva deverá envolver mudança de comportamento do contexto familiar.
Vamos então conversar um pouco sobre as drogas mais comuns, sobre seus efeitos deletérios e sobre como prevenir a dependência química.
Por que a dependência?
O álcool, o cigarro e todas as outras drogas que causam dependência agem numa área cerebral muito antiga encarregada de receber estímulos de prazer e transmitir essa sensação para o corpo todo. É a área de recompensa. Nela as drogas causam uma “ilusão química” de prazer que induz ao uso compulsivo. A repetição do consumo desestrutura as fontes naturais de prazer e o viciado passa a ser “falsamente recompensado” com o uso repetitivo do tóxico, mesmo que isso ameace a sua vida. As drogas interferem com a química cerebral normal e produzem seus efeitos deletérios. A dependência envolve aprendizado. O fumante fica irritado e o cigarro “normaliza” a situação. Em seguida, o quadro retorna e novamente o cigarro alivia os sintomas. A dependência é fruto desse mecanismo psicológico que induz o indivíduo a buscar o prazer e evitar o desprazer, tudo causado por alterações da química cerebral que a droga provoca. O “mix” de aspectos psicológicos e químicos determina o perfil dos sintomas. Essa é uma explicação muito simples.
O álcool e a maconha são drogas também?
Ambos causam dependência:
- Álcool — O alcoolismo constitui grave problema de saúde pública, acarreta transtornos físicos, psicossociais, econômicos, familiares e interfere, inclusive, nas atividades profissionais dos indivíduos. O agravante é que seu consumo é amplamente aceito e até mesmo incentivado. Os efeitos agudos do consumo do álcool vão desde a fase estimulante (euforia, desinibição e loquacidade) até a de depressão (falta de coordenação motora, sono e coma quando o consumo é exagerado), causa risco de acidentes de trânsito, a longo prazo, poderá desencadear várias doenças digestivas (fígado gorduroso, hepatite alcoólica, cirrose, gastrite, diarreia crônica, dificuldade na absorção dos alimentos e pancreatite), cardiovasculares (hipertensão arterial, coração dilatado, arritmias e insuficiência cardíaca), neurológicas (neurite, demência alcoólica dentre outras), psiquiátricas (alucinação, amnésia, e o terrível delírio tremens) e graves problemas gerais (desnutrição e deficiência de vitaminas).
- Maconha – É lamentável que pessoas “esclarecidas” alimentem a ideia de que a maconha seja inócua. Cresce o número de adeptos pela sua legalização, inclusive, entre grupos mais conservadores, não raro informações banalizam seus efeitos, em detrimento do conhecimento científico que ratifica o real significado do problema. A maconha usada no passado por hippies continha concentrações baixíssimas do princípio ativo (tetrahidrocanabinol – THC), hoje os produtos usados têm alta concentração do THC. A maconha é a principal porta de entrada para o consumo de outras drogas. O usuário, por curiosidade ou pelo desejo de tentar “novas experiências”, torna-se presa fácil dos traficantes das drogas “mais pesadas”. Ela é droga psicoativa capaz de alterar a mente e o comportamento, o professor Içami Tiba diz que “o casamento com a maconha é sempre destrutivo”.
Mas o álcool não pode ser comparado à maconha?
Um grave equívoco é a permissividade com que a sociedade trata o tabaco e o álcool, denominadas drogas lícitas. A tolerância é principalmente com o álcool, pois hoje existem importantes restrições ao uso do tabaco. O álcool é o maior produtor de dependência química. Isso faz com que ele seja a droga que provoca mais doenças, mais desajuste familiar, mais falta ao trabalho e mais acidentes de trânsito. E ainda pode induzir o usuário, principalmente o jovem, a experimentar drogas mais ”pesadas”. Tolerância, no caso de uso de drogas lícitas, é sinônimo de utilização precoce. Em pesquisa feita em Maceió-AL, em estudantes pré-adolescentes e adolescentes, entre 10 e 19 anos, de ambos os sexos, constatou-se que 79% (de um total de 1009) já haviam consumido bebidas alcoólicas pelo menos uma vez na vida, sendo que 64,5% deles tinham 10 a 12 anos quando experimentaram as bebidas alcoólicas pala primeira vez. A pesquisa mostrou ainda que, dessa meninada, 43% beberam, pela primeira vez, em suas casas, e 30% deles consumiram a bebida oferecida por seus familiares. O hábito de beber fora de casa aumentou com a idade. As bebidas fermentadas foram as mais consumidas por ambos os sexos e por todos os grupos etários, sendo a cerveja a preferida por 46,5%. Espantoso, não? Pois isso é o que acontece, em nosso dia a dia, com relação às bebidas alcoólicas e parece que não percebemos. E isso não acontece só em Maceió! Os números apresentados no Recife, em Salvador e em todas as regiões do Brasil são muito semelhantes.
Quais os efeitos maléficos da cocaína e do crack?
A cocaína ativa o circuito da recompensa de forma excepcional. Eleva os níveis de certas substâncias cerebrais e gera enorme prazer e grave dependência. Aumenta também a frequência cardíaca e a pressão arterial. Pode provocar ataques cardíacos, derrames e psicose. O crack é cinco a sete vezes mais potente do que a cocaína e é também mais mortífero. Desestrutura a personalidade e provoca enorme dependência psicológica. Há risco de hemorragia cerebral, alucinações, convulsão, infarto do miocárdio e morte.
Quando devo suspeitar que meu filho está usando drogas?
Quanto mais precoce a detecção da drogadição, maiores serão as chances de recuperação e menores serão as sequelas físicas e psicossociais. É importante que todos conheçam os sinais de alarme que variam de droga para droga. Os usuários muitas vezes lançam mão de disfarces para enganar os pais. Em geral, somente após um a dois anos do uso da maconha é que os genitores suspeitam do problema. O uso da cocaína e do crack é descoberto mais precocemente porque os sinais são mais evidentes e os prejuízos mais imediatos. Vejam os sinais de alerta para a maconha e a cocaína:
Maconha:
- Olhos vermelhos: o THC provoca dilatação das artérias das escleróticas, do “branco do olho” e ocasiona vermelhidão que pode persistir por minutos até uma ou duas horas. O uso de colírio descongestionante ocular pode reverter essa alteração em menos de um minuto.
- Hálito característico: respiração e hálito com cheiro da droga. O uso de essências, mascar balas com cheiro forte ou fumar cigarro depois, constituem disfarces comuns.
- Boca seca: saliva escassa, branca e espumosa. Para ativar a produção de saliva, o usuário, masca chiclete, bebe muito líquido, sobretudo refrigerantes, e come bastante para saciar a “larica”, a fome química provocada pelo THC.
- Cheiro nos dedos: para dissimular o odor característico na ponta dos dedos, os usuários usam sabonetes fortes, perfumes ou trituram plantinhas com os dedos.
- Dedos “amarelos”: resultam da impregnação da resina do THC. Os usuários friccionam os dedos na parede para dissimulá-los.
- Pupilas dilatadas (Midríase): as pupilas permanecem dilatadas por uma a três horas.
- Rastreamento e pestanejamento: os olhos perdem a capacidade de acompanhar movimentos rápidos e o movimento de piscar os olhos, se torna mais lento no indivíduo que acabou de usar a droga
- Pálpebras semicerradas: as pálpebras não sobem completamente, ficam semicerradas. Para disfarçar, massageiam as pálpebras e apertam o globo ocular.
- Fala pastosa: lembra a embriaguez alcoólica em menor intensidade, fala vagarosa e grossa.
E, ainda, rosto sem expressão, transpiração com odor característico e aumento dos batimentos cardíacos. Os usuários podem ter ilusões, delírios e alucinações. É importante ter atenção para atitudes suspeitas: evitar encontrar-se com os pais, comer exageradamente e depois deitar-se, sair de casa, após telefone-ma incompreensível, e permanecer duas a três horas fora, deitar-se no quarto com ar condicionado e ventilador ligados, a fim de dissipar o cheiro e a fumaça do “baseado”, nome popular do cigarro de maconha.
Cocaína: Olhos brilhantes, com pupilas dilatadas, boca seca, língua com uma camada grossa de saburra (cobertura esbranquiçada sobre a língua), agitação psicomotora, hábito de fungar e limpar o nariz com as costas das mãos, pois a coriza é constante, insônia, transpiração excessiva, alterações do humor (irritabilidade e agressividade), tonturas, às vezes acompanhada de tremores e até convulsões, desconfiança (ideia de perseguição, paranoia), perda do apetite.
Onde foi que eu errei?
Frequentemente, os pais são os últimos a saber. E logo vem o questionamento, fruto do sentimento de culpa: meu Deus, onde foi que eu errei? Na verdade, no afã de proporcionar o melhor para os filhos, os pais, muitas vezes, se tornam demasiadamente permissivos: relevam os erros do filho, não impõem limites — até porque não raro são ausentes, passam a maior parte do tempo fora de casa, são workaholics (viciados em trabalho) e, ao voltar para casa, procuram agradar a todo custo: cometem os chamados erros de amor. Já se foi o tempo em que as mães eram do lar e, agora, por força das circunstâncias, muitas crianças já começam a frequentar a escola aos 2 anos de idade. Evoluímos do autoritarismo do passado para o liberalismo total, nos dias atuais. E o acesso à droga é facílimo, graças à ação dos mini, micro e macrotraficantes que se encarregam da distribuição das drogas, muitas vezes, dentro da própria escola.
E o que fazer se descobrirmos que o filho usa droga?
A partir da suspeita do problema, o primeiro passo na abordagem é reconhecer a impotência perante as drogas e buscar a ajuda dos mais experientes: médicos e psicólogos familiarizados com o assunto, clínicas especializadas e grupos de autoajuda. Entre esses, destacam-se os AA (alcoólicos anônimos) e os NA (Narcóticos Anônimos). A participação dos grupos, o apoio e o envolvimento familiar são de grande importância para a manutenção da recuperação do dependente químico. Existem ainda, os grupos de apoio aos pais e aos outros familiares a exemplo do Nar-Anon.
No Brasil, atualmente, seguindo o modelo construído durante a Reforma Psiquiátrica, o tratamento deve estar apoiado no projeto terapêutico singular, que segue as premissas estabelecidas pelo National Institute on Drug Abuse (NIDA), dos Estados Unidos, e inclui não apenas os aspectos médicos ou biológicos, mas prioriza abordagens psicoterapêuticas e psicossociais em tratamento ambulatorial, já que o tratamento visa a reinserção social do usuário.
No caso dos que não têm suporte social e familiar e apresentam problemas psíquicos graves, a internação pode ser necessária, porém, essa deve seguir os preceitos da OMS e Tratados Internacionais de Direitos Humanos, ou seja, apenas em caso de surto ou para desintoxicação, por períodos curtos, e sempre tentando uma abordagem voluntária, por meio da técnica de motivação, uma vez que pacientes que têm suas necessidades abordadas e profissionais empáticos alcançam melhores resultados.
Tal abordagem pode ser realizada por equipe multiprofissional por meio da busca ativa, prevista na Portaria n. 336/02, ou ainda pelos profissionais de redução de danos e consultórios de rua para aqueles que não mais residem com sua família (Xavier, 2011).
Atenta a essas premissas, a lei n. 11343 de 2006, mais conhecida no âmbito do direito penal, é um avanço em relação a todas as demais leis que tratam do tema. Ela instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas — Sisnad, que prescreve medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas.
As atividades de prevenção, de acordo com a lei, são todas aquelas direcionadas para a redução dos fatores de vulnerabilidade e risco, bem como para a promoção e fortalecimento dos fatores de proteção, já que o sistema por ela implantado fundamenta-se nos problemas que levam ao uso de entorpecentes e não ao uso em si.
A lei ainda avança no que se refere ao objetivo do tratamento, adequando-se às recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Assim, o intuito final do tratamento pode ser tanto o “não uso”, o “retardamento do uso”, quanto a redução de riscos do uso de drogas, sempre pensando na reinserção do usuário.
O tratamento deve também respeitar as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), de modo que as portarias que regem o sistema devem ser integradas ao Sisnad. Há, ainda, de acordo com a Lei n. 11343/06, necessidade de projeto terapêutico individualizado, detectando-se a necessidade de cada paciente. A portaria n. 3088, de 23 de dezembro de 2011, instituiu a Rede de Atenção Psicossocial para pessoas com sofrimento ou transtorno mental e com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas, no âmbito do SUS.
O que devo fazer para prevenir o uso de drogas?
O diálogo entre pais e filhos é fundamental. É importante preservar a autoridade paterna, estabelecer limites necessários, incutir valores éticos e morais nos filhos e evitar o uso da violência dos citados erros de amor. É muito salutar monitorar o crescimento e desenvolvimento dos filhos com a ajuda dos pediatras, de outros profissionais e inclusive dos educadores. É necessário acompanhar de perto as atividades escolares, comparecer às reuniões de pais e mestres, dialogar com os professores, privilegiar as atividades recreativas saudáveis e o esporte, e estimular os bons hábitos alimentares. Estejam atentos e selecionem as companhias dos filhos e incentivem a participação em grupos de jovens. E, certamente, com a força de uma sólida estrutura familiar, vocês estarão no caminho certo da prevenção.
O trabalho de autores da Psicologia Existencial apresenta cinco fases sucessivas do processo da dependência até a cura: antes do insight, o insight; a preparação, a ação, a perseverança.
Na primeira fase (antes do insigth) a dependência não é percebida e nem admitida pelo dependente apesar de já ter sido percebido por pessoas de sua convivência. A segunda fase (o insight) é importante pois já é percebido e admitido pelo dependente, porém o dependente protela qualquer ação para solucionar o problema. A terceira fase (a preparação) é aquela em que o dependente estabelece, por pensamentos, propósitos positivos para se libertar da dependência. Na quarta fase (a ação) ocorre o início da reorganização do comportamento. Para isso é necessário que se invista tempo e energia. Na quinta fase (a perseverança) caracteriza-se a luta pela coragem e pela consolidação da abstinência, assim como a manutenção do que já foi conquistado. (Lukas, 2012) A respeito das fases descritas, Lukas (2012) diz que embora elas revelem um engajamento dos pacientes para alcançarem seu objetivo, não informam nem explicam o que motiva a pessoa a querer superar a doença. Sobre essa motivação Lukas recorre ao estudo de Harald Klingemann, de 1991, no qual procuraram e pesquisaram os chamados “autocurados” (ex-dependentes) que conseguem se libertar das drogas sozinhas sem ajuda de terapia. Em Lukas (2012), descreve-se basicamente as mesmas fases do estudo anterior, porém acrescidos com conhecimentos sobre a motivação. As três fases relatadas pelo “autocurados” são: fase da decisão, fase da transposição e fase da estabilização. Entende-se que na fase da decisão a pessoa já tenha tido o insight, contudo a consciência do problema não é o que vai levar ao processo de cura. Na fase da transposição os pesquisados descreveram métodos pessoais para abandonar a droga, porém, predominavam estratégia de auto embuste e de substituição além de técnicas de distanciamento de antigos amigos e o isolamento. Já na fase da estabilização mostrou-se mais diferenças entre os pesquisados. Entretanto, houve um ponto em comum: todos os “autocurados” preencheram o vazio deixado pela droga, de forma concreta e persistente, com novos conteúdos de sentido. Frequentemente enfatizavam ainda que suas ações autônomas e sua vida profissional e familiar assumiam cada vez maior importância para eles (Lukas, 2012, p.31).
A dependência química, uma doença crônica, é algo que pode trazer ao paciente o sofrimento diante de sua realidade. E, da mesma forma que um outro doente ou qualquer pessoa que sofre, o dependente pode executar seu valor de atitude e se aproveitar da oportunidade de encontrar nesse sofrimento um sentido. Importante ainda falar do fenômeno humano que Frankl chama de autotranscedência. Nas palavras do autor, o ser humano, quando transcende “sempre aponta para algo além de si mesmo, para algo que não é ele mesmo – para algo ou para alguém: para um sentido que se deve cumprir, ou para um outro ser humano, a cujo encontro nos dirigimos com amor. Em serviço a uma causa ou no amor a uma pessoa, realiza-se o homem a si mesmo. Quanto mais se absorve em sua tarefa, quanto mais se entrega a pessoa que ama, tanto mais ele é homem e tanto mais é si mesmo. Por conseguinte, só pode realizar a si mesmo à medida que se esquece de si mesmo, não repara em si mesmo” (Frankl, 2015, p.15). A busca de sentido é algo que está presente no ser humano. Seja pelo amor, pelo trabalho ou pelo sofrimento, todo ser humano tem a oportunidade de encontrar novos sentidos. “Nenhum psiquiatra, nenhum psicoterapeuta — também nenhum logoterapeuta — pode dizer a um paciente qual é o sentido; contudo, pode muito bem afirmar que a vida tem um sentido” (Frankl, 2015, p. 27). “E esse se conserva em quaisquer circunstâncias: no sofrimento, no que faz ou cria, ou ainda nas experiências que vive em amar alguém. E ainda pode descobrir, eventualmente, um sentido em uma situação desesperadora com a qual se defronta. Mesmo se sentindo desamparado, o que conta é a firmeza e a atitude diante da situação. Mesmo em situações de aspectos negativos da existência humana, tal como a tríade trágica culpa sofrimento e morte, é possível obter algo positivo mediante atitude e firmeza adequados” (Frankl, 2015).
Onde podemos ler mais sobre o assunto?
Anotem a relação:
CARDOSO FILHO, Pedro. Álcool & drogas ilícitas. João Pessoa: UFPB/Editora Universitária, 2004.
MARCONDES, Bell. Estou viva, não uso mais drogas: o inferno de Bell. São Paulo: Semente, 2006.
MENEZES, Mara S. Carvalho. O que é amor exigente. São Paulo: Edições Loyola, 1992.
TIBA, Içami. Anjos caídos: como prevenir e eliminar as drogas na vida do adolescente. São Paulo: Gente, 1999.
TINOCO, Leônidas S. Alcoolismo: como entender e ajudar. São Paulo: Paulinas, 2001.
Pareceu-nos importante debater o tema, mesmo que de forma parcial, face à importância da problemática nos nossos tempos. Recomendamos que todos busquem ajuda profissional quando houver dúvida sobre o comportamento dos filhos, pois a intervenção precoce é um dos pilares mais básicos para o sucesso.
Para dar continuidade à grande tarefa educacional sobre o tema, transcrevemos a informação que recebemos, pela internet. Indicamos a fonte para que todos acessem um material sobre como abordar o uso das drogas na infância. É excelente. Pode ser encontrado no endereço http://www.monica.com.br e o título é Uma história que precisa ter fim. O material é útil para os familiares, os amigos, os colegas, os colaboradores e principalmente para as crianças em início de formação. Temos que ajudar a acabar com esse mal que destrói muitas famílias.
