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Conversando com o Pediatra

Parte II — Principais problemasCapítulo 41 de 46

Distúrbios ortopédicos

Pé chato, pernas arqueadas, joelhos juntos, andar na ponta dos pés: o que é só uma fase normal do crescimento e o que merece avaliação do especialista.

  • AutoriaAlexandre Adolfo Romero Machado, Constantino Giovani Braga Cartaxo, João Guilherme Bezerra Alves, Otelo Schwambach Ferreira, Regis Carneiro Andrade Filho e Rodrigo Bezerra Tenório (in memorian)
  • Leitura22 min · 4,616 palavras
  • No livropáginas 977–989
  • Conversa34 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

Pé chato, pés rodados para dentro, pernas arqueadas ou joelhos que se tocam: neste capítulo, os autores mostram que muitas dessas preocupações são variações normais do crescimento, que desaparecem com o passar dos anos. O texto ensina a diferenciar o pé plano postural do estrutural, orienta sobre sapatos e o valor de andar descalço e explica o pé torto congênito, o andar na ponta dos pés, o genu varo e o genu valgo.

A conversa passa ainda pela coluna — escoliose, cifose, lordose, peso das mochilas e dor nas costas — e por quadros como a pronação dolorosa, a sinovite transitória do quadril, a distensão muscular e a controversa “dor do crescimento”, além do valor da atividade física e do esporte. O capítulo fecha com dois depoimentos: o de uma paciente que usou colete para tratar a escoliose e o de uma mãe que insistiu até chegar ao diagnóstico da filha.

Para quem: Para pais que se preocupam com o formato dos pés, das pernas ou da coluna dos filhos e querem saber o que é normal.

pé planogenu varogenu valgoescoliosesinovite transitóriador do crescimento

41.1Pé, perna, coluna vertebral e pronação dolorosa, dor de crescimento, sinovite transitória do quadril, andar na ponta do pé, distensão muscular

As preocupações com o pé, a perna e a coluna vertebral, e outros temas da ortopedia, são assuntos corriqueiros nos consultórios dos pediatras e dos ortopedistas. E há outros temas importantes no aparelho osteomuscular que precisam ser debatidos. Além de comuns, os assuntos ortopédicos merecem reflexão especial face a ocorrência de condições absolutamente normais que são motivo de valorização, até excessiva, dos cuidadores.

Os pés e as pernas mudam a medida que a criança fica mais velhinha?

Sim. É o que justifica muitos dos questionamentos dos familiares que desconhecem que os aparentes problemas das pernas (genu valgo e genu varo) e dos pés (pés planos) da criança não são doenças. São aspectos normais durante uma fase da vida e desaparecem com o passar dos anos, A maior parte das intranquilidades sobre o assunto é resolvida com uma conversa com o pediatra e/ou ortopedista. Mas, algumas vezes, existem doenças que precisam diagnóstico e tratamento apropriados.

É difícil saber o que é normal e o que é anormal.

O médico sempre precisa dedicar atenção ao que os familiares relatam e ser cauteloso nas condutas. Algumas vezes precisa seguir o paciente por algum tempo para definir se as condições observadas são normais ou não. O maior erro é a padronização rígida. Os pés precisam ter curvinhas e as pernas devem ser retinhas. O corpo da criança sofre alterações durante os anos. O que se observa e que preocupa hoje não existe após alguns anos. Muito tempo das consultas é empregado para explicar as variações do normal, as mudanças que os anos vão produzir e a não necessidade de tratamento.

Gostaríamos de saber mais!

Durante o processo de amadurecimento dos sistemas nervoso, ósseo e muscular a criança normal assume postura e apresenta aspectos físicos que não existem nos adultos. Vale destacar:

  1. Muitos aspectos dos membros inferiores, na criança novinha, são decorrentes da posição intrauterina, de certa flacidez muscular, da frouxidão das articulações e do processo de ossificação. Quase todo recém-nascido apresenta os pés marcadamente rodados para dentro e os ossos da perna arqueados. Isto ocorre face à posição fetal e à adaptação ao útero materno que exerce um importante papel de molde. Essas características dos pés e das pernas desaparecem normalmente ao longo das primeiras semanas, sem fisioterapia, sem bota, sem tratamento médico.
  2. A criança herda características morfológicas dos pais de forma que o conceito de normalidade deve levar em conta os padrões familiares.
  3. Criança saudável apresenta, durante uma fase da vida, aspectos que chamam a atenção dos familiares: pé chato, pés rodados para dentro, desvios das pernas e dos joelhos que se constituem nas principais causas de atendimento ortopédico.
  4. O mesmo ocorre com algumas curvaturas da coluna vertebral.

O que é pé plano?

Também citado como pé chato é a ausência ou diminuição do arco longitudinal interno, ou da cava do pé. É mais notado quando a criança fica de pé. Os pés ficam esparramados e rodados um pouco para fora. Existem dois tipos de pés chatos: o tipo funcional ou postural e o tipo estrutural. O primeiro não é doença. O segundo é.

O que é o pé plano postural?

O pé chato postural, ou funcional ou pé plano valgo flexível é o mais comum tipo de pé observado na criança menor. É normal, não precisa tratamento. É parte integrante da morfologia dos membros inferiores da criança novinha normal. Esse pé é flexível, é móvel e funciona normalmente. A ausência de rigidez é que define a normalidade. Ocorre na maior parte da criançada até os 3 ou 4 anos de idade. É causado pela imaturidade das estruturas que mantém o arco ou a cava dos pés e pela deposição de gordura a esse nível. Caracteristicamente, acentua-se com o peso do corpo, principalmente em crianças abaixo de 2 anos. Perto de 95% dos casos regridem sem tratamento até a idade de 5 ou 6 anos de idade. Dos 5% restantes, uma pequena parcela precisa intervenção ortopédica.

As crianças com esse tipo de pé sentem dor?

Essa condição é também chamada fisiológica e faz parte das características normais dos menores de 5 anos. Portanto, como toda condição fisiológica, não apresenta sintomas. O pé plano postural não causa dor nem outras queixas. As crianças correm, brincam, pulam, sobem e descem obstáculos, são ágeis e nada há que indique problemas.

O que devemos fazer?

Esse tipo de pé não precisa de tratamento. A formação do arco se dá espontaneamente com o crescimento. É aconselhável estimular a criançada a andar sem sapato, na terra, na areia e na grama. E brincar de andar na ponta dos pés e sobre os calcanhares, correr livremente, praticar esportes como o futebol e a natação.

Botas e as palmilhas podem ser usadas?

Não há prova científica de que as botas ou as palmilhas favoreçam ou apressem o surgimento da cava. É completamente desprovida de fundamento a necessidade, que parece criada artificialmente pelo comércio, do uso de botas, ou sapatos, ou sandálias ou palmilhas ditas “ortopédicas”.

As botas fazem mal?

Fazem. Além de caras, são pesadas, desconfortáveis e quentes. Dificultam a locomoção livre e gostosa, o correr, o subir em muros e o chutar a bola que tanto agradam a criançada. Há os que falam que o uso das botas pode causar risco inclusive de atrofia muscular.

Quando começar a usar o sapato?

Os sapatinhos dos bebês e das crianças de poucos meses exercem pouca função na proteção ou na função dos pés. O contato dos pés sem os sapatos com os diversos pisos é essencial para o aprendizado da marcha, para o desenvolvimento da proteção individual (as quedinhas, a dor e os tropeções iniciais são importantes) e para o desenvolvimento das inúmeras funções relacionadas à adaptação à vida de bípede. Os pés desnudos devem ter contato com o piso regular, com poucas texturas e praticamente sem desníveis. Também precisa contato com o piso irregular, com várias texturas, pleno de irregularidades da terra, da areia e da grama nos ambientes fora da casa. A criança, quando estiver aprendendo os primeiros passinhos, deve ter a oportunidade de experimentar todos esses pisos e as sensações obtidas com o contato. Na maior parte do tempo, elas devem estar sem sapatos. Ir aos encontros sociais com os sapatinhos é a norma geral. Fora da casa é que os pés entram em contato direto com os diversos pisos (areia, terra, seixos, grama e outros), repetidamente, por muito tempo. Isso ajuda no desenvolvimento da função e na forma dos pés e também na formação dos arcos plantares. Evita os pés chatos.

Qual o tipo de sapato para a meninada?

O sapato deve ser visto apenas como proteção para os pés e nunca como medida preventiva ou curativa de um certo transtorno. Na criança de menor idade, os sapatos devem ser flexíveis e com solado que não escorregue. Nas de maior idade, os sapatos são indicados de acordo com as atividades desenvolvidas. Mas o solado sempre deve ser antiderrapante.

Quando o pé chato merece atenção especial?

Devem ir para avaliação médica as crianças com pés chatos que não estão apresentando as modificações esperadas após os 5 ou 6 anos de idade. Aquelas que estão tendo alterações mais importantes com o passar do tempo, que reclamam de dor e continuam tendo problemas após os 8 anos de idade.

E o outro tipo de pé chato? O estrutural?

O pé chato estrutural, mais raro que o que discutimos antes, não é fisiológico e não desaparece com o passar dos anos. É decorrente de problemas ósseos, neurológicos e musculares. Esse pé não é flexível, não é corrigível com o manuseio. É um pé rígido. Causa dor e limitação funcional. É doença. O pediatra e o ortopedista separam os dois tipos de pés planos com facilidade. O pé chato de natureza estrutural não melhora com o crescimento e necessita de tratamento ortopédico.

E os pés rodados para dentro?

Há dois aspectos a ressaltar sobre esse assunto:

  1. No recém-nascido e na criança de poucas semanas — O útero exerce ação modeladora sobre os membros inferiores dos fetos que nascem com ambas as pernas e os pés encurvados rodados para dentro. Algumas vezes, a posição de um ou dos dois pés chama tanto a atenção dos familiares que existe a preocupação com a existência do pé torto. Na alteração postural, é facílimo fazer com que o pé volte para sua posição normal com o manuseio. No pé torto, não é possível corrigir a deformidade com a manipulação. O problema postural logo desaparece, sem manuseio, sem fisioterapia, sem tratamento.
  2. Na criança que já anda — O outro aspecto diz respeito à ocorrência dos pés rodados para dentro em crianças que já andam. Esse tipo de pé existe desde o nascimento, mas é notado apenas quando a criança começa a andar. Também denominados “pés de periquitos”, são acompanhados de desvio dos joelhos para dentro e certo grau de arqueamento das pernas (genu varo). O que chama a atenção dos familiares são os pés, mas o que causa esse desvio é uma característica do fêmur no encaixe no quadril. Essa característica regride quase sempre espontaneamente, em torno dos 8 anos. O ortopedista é consultado nos casos acentuados, quando há prejuízo do andar e um pé pode tocar no outro. Ele pode indicar tratamento especializado. É raro que isso ocorra.

O que é o pé torto congênito? Qual é o tratamento?

O pé torto congênito é uma má formação complexa que envolve ossos, músculos, tendões e vasos sanguíneos de um ou dos dois pés. O pé acometido é geralmente pequeno, voltado para dentro, rodado para cima e apresenta o calcanhar elevado. A deformidade ocorre em cerca de um para 1000 nascidos vivos e é bilateral em metade dos afetados. Os meninos são duas vezes mais acometidos do que as meninas. O pé torto negligenciado, consequência da falta de tratamento precoce da doença, é a causa mais grave de incapacitação dentre todos os defeitos musculoesqueléticos congênitos. Portanto, o tratamento ortopédico adequado deve ser instituído o mais cedo possível para evitar sequelas. Mais dados sobre essa grave doença podem ser obtidos no site http://www.petorto.com.br

Existem outros tipos de pés que merecem atenção médica?

O calcâneo valgum existe quando, ao nascimento, o pé toca a frente da perna e o talo vertical ou em mata-borrão. Necessita atenção médica.

Algumas crianças andam na ponta dos pés. O que é isso?

Há criança normal que, no início do aprendizado da marcha e ainda por algum tempo depois, anda na ponta dos pés. Esse tipo de pisada pode ser favorecido pelos adultos que seguram a criança por uma das mãos e a obriga a ficar na ponta dos pés quando estão aprendendo a andar. O proibido andador que faz a criança usar as pontinhas dos pés para se movimentar também pode facilitar a postura. Essa é mais uma razão usada pelos profissionais para não indicar o uso do andador. O andar na ponta dos pés tende a desaparecer até os 3 anos de idade quando a criança já terá tido tempo suficiente para aprender que é mais fácil e seguro, e menos cansativo, andar com os dois pés apoiados no chão. Essa marcha tende a desaparecer sem tratamento.

Quando andar na ponta dos pés é problema?

Os médicos devem afastar, dentre várias doenças, as neurológicas e as ortopédicas, para assegurar que o problema desaparecerá e que nada tem a ser feito. Constitui motivo de preocupação a criança que anda com um pé corretamente apoiado no chão e com o outro incorretamente posicionado, andava corretamente e passou a ter esta postura ao caminhar, persiste com essa característica após os 3 anos de idade. Há casos em que o tratamento cirúrgico é indicado. Fisioterapia e aparelhos ortopédicos ajudam em certas situações.

Como evitar o problema?

A profilaxia desse problema é conseguida evitando o andador, segurando as crianças que estão aprendendo a andar de forma tal que elas possam tocar o piso com toda a planta dos pés. Bom é segurar a criança com um pano bem forte passado por baixo das axilas e o adulto, por trás da criança, segura o pano e permite que ela ensaie os primeiros passos.

E os desvios das pernas e dos joelhos?

Esses desvios são queixas frequentes, principalmente nas crianças que têm peso acima do normal. Existem duas formas: o genu varo ou varum (afastamento dos joelhos e aproximação dos tornozelos) e o genu valgo ou valgum (aproximação dos joelhos e afastamento dos tornozelos). Nas duas situações, é importante lembrar que a influência genética é muito relevante.

Falem primeiro sobre o genu varo.

Uma posição em varo, na qual os joelhos estão muito afastados e existe um arqueamento dos membros inferiores, é normal em criança até 2 anos de idade. Geralmente, a correção natural, sem tratamento médico, ocorre até final do terceiro ano de vida. De uma maneira geral, a característica não merece preocupação quando a criança tem menos de 3 anos, é bilateral, a deformidade regride com o crescimento e existe em outros membros da família. Mas é importante ter atenção quando a deformidade é mais acentuada em uma das pernas, ocorre após os 2 ou 2 anos e meio, e continua a se intensificar ao longo dos meses. Nesses casos, são necessários avaliação radiológica e outros exames.

Agora falem sobre o genu valgum.

A posição em valgum, na qual os joelhos estão muito próximos, é notada em 74% das crianças acima dos 3 anos de idade. Elas são trazidas para o médico não só pela estética, mas porque caem com facilidade e apresentam um andar esquisito, jogando as pernas um pouco para o lado. Com isso, evitam que os joelhos se toquem. A história da evolução do genu valgum é o desaparecimento espontâneo aos 7-8 anos de idade.

Há alguma condição especial que causa esses desvios?

O genu varo e o genu valgum são comuns no raquitismo que é uma doença por carência de vitamina D e por raras doenças metabólicas. Para evitar a enfermidade por carência da vitamina é essencial a boa alimentação e os banhos de sol pela manhã. Mas é fundamental a avaliação médica.

Há algum problema se a criança senta sobre as pernas?

Essa posição deve ser evitada. Afrouxa as estruturas de sustentação dos joelhos. Na criança que têm os pés rodados para dentro, essa posição de sentar deve ser evitada com mais rigor. Também deve ser evitado que ela sente ajoelhada com as nádegas em cima dos pés.

O que é a escoliose?

É curvatura sempre anormal da coluna vertebral. É suspeitada quando vemos a criança ou o adolescente de costas ou de frente. Os dois ombros normalmente devem estar na mesma altura e a escoliose faz com que um deles esteja mais baixo que o outro. O desvio é reconhecido pelos professores de educação física, de ballet e pelas costureiras. Os cuidadores e os próprios colegas notam o problema em algumas crianças. Todas devem ir ao médico que realiza o exame clínico e solicita radiografia da coluna. A escoliose pode ser congênita ou adquirida e, clinicamente, existem dois tipos básicos:

  • Causa desconhecida: surge após o nascimento e corresponde a quase 80% de todos os casos. Sem motivo, algumas crianças saudáveis começam a desenvolver o desvio da coluna. É durante o intenso crescimento da adolescência que a maior parte dos portadores do desvio é diagnosticada.
  • Causa conhecida: defeitos ósseos da coluna e da bacia, redução do comprimento de uma das pernas ou outro problema podem ser a causa do desvio. O tratamento da doença que causa a escoliose é importante.

Como é o tratamento da escoliose de causa desconhecida?

Pode ser apenas com acompanhamento periódico, pois alguns desvios não progridem e podem até regredir espontaneamente. Algumas vezes, o médico indica o uso do colete ortopédico e até cirurgia nas situações mais graves. É importantíssima em todos os casos a realização regular de uma atividade física, em especial a natação, para facilitar o desenvolvimento harmonioso do tronco.

E da escolicose de causa conhecida?

O tratamento do desvio depende do tratamento, quando possível, da doença causal.

O que são a cifose e a lordose?

Apesar de serem curvaturas normais da coluna vertebral, os casos acentuados podem exigir atenção ortopédica. Quando vemos a criança ou adolescente de lado é que podemos perceber essas curvaturas. A lordose é uma curvatura com concavidade posterior e a cifose é com concavidade anterior. Os quadros mais acentuados, patológicos, são chamados de hiperlordose e hipercifose. A cifose mais importante é notada nas crianças acima dos 10 anos. Na grande maioria dos casos, decorre de um vício postural principalmente nas meninas que curvam o tronco para a frente na época do crescimento das mamas. O mesmo acontece nas crianças que ficam muito mais altas que os colegas da mesma idade.

As mochilas para escolares podem fazer mal?

Qualquer peso excessivo que a criança carrega pode fazer mal. Uma lei do município de São Paulo determina que o peso da mochila não deve ultrapassar de 10% do peso da criança que a carrega. As mochilas com rodinhas, por exigirem esforço de apenas um lado do corpo, podem ser prejudiciais. O consenso dos especialistas para a melhor forma de transportar carga é junto ao corpo e de forma simétrica. Assim, o ideal é que as crianças levem sua mochila, sem excesso de peso, presa por duas alças nos ombros e presas também com cinto abdominal.

Uma perna curta pode causar problema na coluna?

Pode. Esse e outros problemas — neurológicos, musculares, defeitos congênitos — podem causar desvios da coluna. É essa a razão maior para a consulta ao ortopedista. Definir a causa para que o tratamento seja especificado.

RPG e fisioterapia ajudam a tratar esses problemas?

Como citado antes, o tratamento dos problemas da coluna depende da intensidade da causa. Mas independente disso e de outros tratamentos indicados pelo ortopedista, como antes definido, as medidas posturais, a reeducação postural global (RPG), os exercícios de alongamento, a hidroginástica e outras medidas fisioterápicas específicas auxiliam na melhoria dos sintomas. O ortopedista e o fisioterapeuta que conhecem o problema são as pessoas mais indicadas para planejar quais medidas adotar para cada caso.

Criança tem dor nas costas?

Tem e é comum que as dores nas costas estejam relacionadas à postura, à falta de atividade física e a hábitos ruins como o uso de mochila muito pesada. Os pediatras e os ortopedistas devem intervir se a queixa de dor nas costas é muito frequente, pois ela pode significar doença.

O braço de minha sobrinha sai do lugar. O que é isso?

Essa condição conhecida como pronação dolorosa, “mal da babá” ou “cotovelo de ama” decorre da luxação da cabeça do rádio, osso do antebraço. Ocorre em criança até 3-4 anos de idade e surge quando uma criança é puxada bruscamente pela mão ou quando tropeça e é segurada pela mão para não cair. A cabeça do rádio, no cotovelo, sai do lugar e causa a dor e a imobilização do membro que são os aspectos típicos. Uma conversa com a babá ou com quem estava com a criança, antes absolutamente sadia, pode revelar o que ocorreu. Pode acontecer uma única vez, mas há criança que apresenta episódios repetidos. O quadro é de fácil diagnóstico e o tratamento é feito com uma manobra muito simples. Nos quadros repetitivos o próprio cuidador aprende a fazer a redução.

O que é a sinovite transitória do quadril?

A sinovite é inflamação da sinóvia que é a estrutura que reveste cada articulação do corpo. A sinovite transitória do quadril atinge a articulação coxofemural. A denominação transitória define que o problema é passageiro, embora essa característica de transitoriedade só pode ser firmada após a cura. Ocorre entre 1-5 anos de idade, principalmente nos meninos mais ativos que brincam mais e pulam mais. A criança que estava muito bem, sem febre, sem ter sofrido trauma, sem ter recebido vacina recentemente e sem qualquer outra anormalidade, começa subitamente a mancar. Ela sorri, brinca e anda para lá e para cá, mancando. Entretanto, algumas crianças não conseguem apoiar o pé no chão e nem andar. Esse quadro faz supor algo mais importante e essas crianças devem ter uma avaliação médica imediata para afastar situações mais graves, como uma artrite séptica do quadril. Essa última doença é uma emergência médica. Se não devidamente tratada nas primeiras horas do adoecimento, a articulação pode ser comprometida definitivamente. Na sinovite transitória, os médicos apenas encontram dificuldade de realizar alguns movimentos da articulação coxofemoral. A ausência de febre, de outros sinais e de acometimento de outras articulações são aspectos que afastam enfermidades outras. Os exames de sangue nada revelam e o ultrassom da articulação pode mostrar elementos da sinóvia doente. A resolução do problema é espontânea, habitualmente em menos de cinco dias, mas há quadros mais prolongados. Os médicos prescrevem medidas para reduzir a atividade física das crianças afetadas. Habitualmente, nem os analgésicos são indicados. Os anti-inflamatórios não devem ser prescritos. Seus malefícios são muito grandes. O aspecto mais importante, sem dúvida, é o acompanhamento médico, pois a sinovite deve ceder em poucos dias. Se os dados clínicos persistem, é importante questionar o diagnóstico e buscar outra explicação para o problema.

A distensão muscular ocorre na meninada?

A criança mais traquina, que mais pula e que mais se “aventura” pode, vez ou outra, usar excessiva ou inapropriadamente seus músculos e ossos, e sofrer consequências em função disso. Uma delas é a distensão muscular que se manifesta por dores musculares que são relatadas por aqueles que têm mais idade. Nos menores, o que se encontra é uma criança chorosa que evita fazer determinados movimentos. Os familiares, no entanto, devem estar muito alertas, pois outros diagnósticos mais importantes podem justificar a queixa (fraturas, artrites e outras doenças) e os pediatras devem sempre ser avisados se o quadro não cede em dois ou três dias.

O que vocês acham sobre a dor do crescimento?

Alguns aspectos para reflexão:

  • Todas as crianças crescem e só algumas apresentam a “dor do crescimento” o que é estranho, não?
  • É tema polêmico e existem respostas diferentes de profissionais distintos o que denota falta de uniformidade sobre o assunto.
  • Quando existe um cisto ósseo ou outro problema definido por uma radiografia ou outro método, o diagnóstico de dor do crescimento não deve ser pensado.
  • O médico fala que certa criança tem “dor de crescimento”, mas é difícil que ele dê um atestado informando isso. Ele, no máximo, diz, não atesta, que na falta de outro diagnóstico existe “dor de crescimento”.
  • O cuidador deve ficar com um razoável grau de desconfiança quando a criança recebe esse diagnóstico.

Como é esse quadro?

A dor surge após o desempenho de atividades comuns. Também surge em dias de muita atividade física. Ora a queixa é numa perna, ora na outra. Em alguns momentos, a criança aponta para a perna como o ponto mais doloroso e outras vezes para a coxa. Algumas vezes, doem as articulações e outras vezes isso não é notado. Não há febre nem outros dados que indicam doença mais geral. Não há atrofia muscular pelo desuso o que seria observado se houvesse uma doença definida.

Na maioria das vezes, os médicos examinam, questionam e nada encontram. Examinam clinicamente várias vezes e nada demonstram. Fazem raio-x dos ossos das pernas e outros exames para várias enfermidades e nada encontram. Os profissionais falam, por exemplo, em fibromialgia que é dor provocada pelo uso excessivo dos músculos e das outras estruturas dos membros.

O mais importante é que, quando não se firma nenhum diagnóstico, os médicos devem orientar para que os familiares observem a criança portadora de dor do crescimento, mantenham uma postura de observação, pois o diagnóstico não é definitivo. Devem recomendar que se preste atenção nos detalhes, de forma precisa, isso pode ajudar num diagnóstico certeiro no futuro.

Muitas crianças deixam, depois de algum tempo, de apresentar essa queixa. Mas, algumas vezes, o quadro continua e familiares e médicos são surpreendidos com a descoberta de uma doença que não foi definida antes.

Vale lembrar que a medicina evolui a cada dia e que será possível explicar, no futuro, muitos dos problemas inexplicados hoje.

Qual o valor da atividade física e da prática esportiva?

Os exercícios do dia a dia da meninada — correr, pular, jogar bola, subir em obstáculos, rolar, nadar, sobretudo com os pés na terra, na areia — são essenciais para o desenvolvimento das habilidades motoras, do equilíbrio, da musculatura e da ossatura. O desaparecimento da maior parte dos problemas dos membros inferiores (pés planos, genu varo e genu valgo) é mais rápido se a criançada tem vida ao ar livre, nas praças, na praia ou no campo.

A prática esportiva rotineira (natação, equitação, dança dentre outras) também soma para a melhoria de todos os problemas, mas, sobretudo, para os da coluna. E está associada com a prevenção de doenças, como afecções alérgicas, infecciosas e mentais, entre outras.

Além disso, a movimentação física na infância tende a se perpetuar por toda a vida, ou seja, cria o hábito e a inatividade aumenta o risco de obesidade, hipertensão, diabetes, alguns tipos de câncer e várias doenças mentais. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a atividade física é o melhor remédio do mundo, pois é bom para todo o organismo (coração, pulmões, músculo, ossos, articulações...), ajuda tanto na prevenção, como no tratamento e recuperação das doenças, todas as pessoas podem praticar e o custo é praticamente zero.

41.2Depoimentos

“Usei o colete de Milwaukee por quase seis anos e tive alguns problemas após o uso. Por se tratar de um aparelho que se usa 23h por dia, a musculatura das minhas costas ficou atrofiada e cerca de quatro a cinco anos após o encerramento do tratamento, eu comecei a sentir muitas dores musculares.

Comecei o tratamento aos 10 anos, mas desde os 3 anos minha mãe notava que eu tinha um lado diferente do outro. Seis anos depois, aos 9 anos de idade, o pediatra solicitou um raio-x que confirmou a escoliose. Tenho uma perna um pouco maior que a outra e comecei o tratamento com uma palmilha. Como não deu certo, passei para o colete. Mesmo após três anos de uso, a escoliose não parava de aumentar e quase fui operada. Consegui terminar o tratamento sem precisar da cirurgia.

Mesmo tendo feito exercícios físicos (volei e natação) fiquei com a musculatura atrofiada. Só quando iniciei os exercícios seguindo o método pilates é que parei de sentir dores. Portanto, na minha opinião, a recomendação seria do pilates e não da natação. Esse método consegue trabalhar a musculatura mais diretamente.”

“Estou escrevendo por acreditar que minha experiência poderá ajudá-las e a seus filhos. Quando minha filha mais velha tinha 2 anos de idade, apareceu com o dedo indicador apresentando inchaço. O médico dela, de início, achou que não era nada, pois a garota movimentava o dedo, não tinha dor, nem febre. Só que eu, apesar de não ser médica, tinha minha sabedoria de mãe e não me conformei com o diagnóstico. Levei-a a um ortopedista que tirou uma radiografia da mão e descartou qualquer problema ósseo.

Segui em frente, mas sempre com uma sensação de que existia algo mais sério por trás do inchaço. Um belo dia, ao acordar, ela falou que quando fechava a mão sentia uma dor. Corri para o pediatra que disse: ‘dor não é normal, vamos pesquisar’.

Na época, o Recife não tinha nenhum pediatra com formação em reumatologia. Socorri-me, então, por uma reumatologista de adultos. Quando eu saí do consultório dessa médica, sabia que tudo o que ela dizia e propunha não fazia sentido. Voltei ao consultório do médico da garota e, através de um pediatra do Rio de Janeiro, cheguei a uma reumatologista de crianças. A Dra., logo na primeira consulta, diagnosticou que ela era portadora de artrite reumatoide juvenil.

Essa é a primeira mensagem. Quando vocês desconfiarem que algo não vai bem com seus filhos, busquem ajuda competente. No meu caso, foi Impressionante a diferença em ser recepcionada por uma especialista tranquila, esclarecedora e segura.

Bom, a vida seguiu... Há dois anos, a reumatologista, em uma consulta de rotina, notou que minha filha estava desenvolvendo uma escoliose, à época, mínima. Orientou-me a procurar um ortopedista especialista em adolescentes para acompanhá-la.

O primeiro contato com o ortopedista foi decepcionante. Ele mal falou, mas examinou a menina e disse que aquilo não era nem escoliose. Na segunda consulta, ratificou o posicionamento, fiquei ‘tranquila’.

Acontece que, em pouco tempo, o desvio da coluna aumentou, como é comum ocorrer, hoje eu sei, na escoliose do crescimento. Procurei mais dois outros médicos e eles disseram que, infelizmente, não havia mais nada a ser feito, pois, a época para o uso do colete corretivo já havia passado.

Entrei em contato com um importante especialista de coluna no Brasil. Ele informou que a correção da coluna só poderia ser feita através de cirurgia. Mas, como no caso da minha filha o desvio é pequeno, a indicação é fazer muito exercício para fortalecer a musculatura das costas e aula de RPG para melhorar a postura.

Atualmente, ela vem fazendo exercícios, acompanhada de uma “personal”, e tendo sessão de RPG duas vezes por semana, o que, visualmente, melhorou o seu quadro. Novamente, reforço o que disse antes. Quando vocês sentirem que algo errado está ocorrendo com seus filhos insistam com os pediatras, busquem apoio.”

O texto faz parte de um projeto educacional que não substitui a consulta médica, sobretudo não substitui o seguimento pediátrico contínuo e sistematizado.

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