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Conversando com o Pediatra

Parte II — Principais problemasCapítulo 40 de 46

Anemia

O que é anemia, por que a falta de ferro é a causa mais comum na infância, quais alimentos ajudam e quais mitos, como o da beterraba, não resolvem.

  • AutoriaJoão Guilherme Bezerra Alves, João Medeiros Filho e Otelo Schwambach Ferreira
  • Leitura12 min · 2,625 palavras
  • No livropáginas 969–976
  • Conversa20 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

Neste capítulo, pediatras explicam que a anemia é a redução da hemoglobina, a proteína que leva oxigênio aos tecidos, e que a criança anêmica não cresce normalmente, não brinca bem e não aprende como esperado. Um guia prático lembra que toda anemia merece atenção médica e que a anemia aguda e intensa por sangramento exige socorro imediato. A conversa percorre os valores que definem anemia em cada idade, as causas mais comuns — sobretudo a carência de ferro —, os sinais, como a palidez, e os papéis do pediatra e do hematologista.

Os autores listam alimentos que ajudam a evitar a falta de ferro, apontam o que atrapalha seu aproveitamento e desfazem mitos como o da beterraba e o da panela de ferro. Também tratam dos remédios com ferro, de seus efeitos colaterais e dos riscos de usá-los por conta própria. O capítulo termina com dois depoimentos sensíveis: o de uma jovem com anemia congênita e o de uma mãe que aprendeu a conviver com a anemia da filha.

Para quem: Para famílias que querem prevenir a anemia por falta de ferro e entender quando o problema pede investigação médica.

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40.1Guia prático

  1. O portador de anemia aguda e intensa decorrente de sangramento importante de um ferimento ou de sangramento de uma víscera — estômago, grosso intestino, gravidez tubária, hematoma em uma cavidade corporal — necessita imediato socorro médico. Pode ser inclusive causa de morte.
  2. O paciente com a anemia crônica que evolui lentamente também pode ter sintomas de doença grave e necessitar ação médica imediata.
  3. Todo paciente com anemia necessita atenção médica.

40.2Conversando...

A hemoglobina é a responsável para levar o oxigênio dos pulmões aos tecidos corporais. É o componente principal das hemácias do sangue. Anemia é a redução da hemoglobina e a quantidade normal dessa proteína é fundamental para o bom desempenho de praticamente todas as funções corporais. A redução da hemoglobina causa diminuição da oxigenação dos órgãos e tecidos e, dependendo da intensidade e da rapidez da sua instalação, produz importantes transtornos. A criança é particularmente sensível à queda da hemoglobina. Quanto mais novinha ela é, mais significativo é o problema.

A anemia é sintoma de várias doenças e a causa deve ser definida. Mas, independentemente da causa, a criança que está com baixa da hemoglobina não está bem. Não cresce normalmente, não brinca bem, não corre como seus colegas, não aprende como esperado e não tem a resistência normal contra as infecções. Está triste e sem ânimo. Anemia requer cuidados e a causa pode ser uma doença grave.

Quando existe anemia?

Existe anemia se a hemoglobina no sangue é menor que 11g/dL dos 7 meses aos 5 anos de idade, menor que 11,5g/dL entre os 6 e os 9 anos e menor que 12,0g/dL nos adolescentes femininos e 12,5g/dL nos masculinos. Assim, a quantidade normal de hemoglobina varia com a idade e nos primeiros meses de vida, quando existe uma “anemia fisiológica” — a definição de uma anemia real só pode ser feita com hemoglobina menor que 10,0g/d/L.

Quais são as causas da anemia?

As mais comuns nas crianças e nos adolescentes são:

  • Carência de ferro: é a mais comum e a causa usual é a alimentação pobre no mineral. Vermes e sangramentos ocultos (do estômago, do intestino e menstrual nas adolescentes) também produzem a anemia carencial. Essa anemia, de uma forma geral, é facilmente evitada, diagnosticada e tratada.
  • Outras: doenças congênitas (anemia falciforme e do mediterrâneo), doenças imunológicas (anemia por incompatibilidade sanguínea entre a mãe e a criança, uso de drogas e diversas enfermidades como o lúpus eritematoso), doenças da medula (leucemias, destruição celular por raios-x e quimioterápicos), infecções (infecção urinária e outras).

A anemia é comum na criançada?

Cerca de 30% da população mundial apresenta o problema. Mesmo nos países ricos, a anemia por carência de ferro é comum e pode atingir até 12% das crianças com menos de 5 anos de idade. Nas regiões pobres, é muito mais comum e alcança até 70 a 80% nos menores de 2 anos. A anemia por deficiência de ferro é mais comum dos 6 meses aos 2 anos de idade. As outras formas de anemia são menos frequentes

O recém-nascido pode ter anemia?

Ele pode ter anemia por múltiplas causas. Hemorragia placentária ou do cordão umbilical, incompatibilidade entre o sangue da mãe e o do bebê, infecções congênitas (sífilis, rubéola e outras) são algumas das principais. Nessa idade, a anemia é sempre um aspecto extremamente importante para a saúde.

E nas crianças de poucos meses?

Após os 6 meses de idade, a deficiente ingestão de ferro é a mais frequente. Se a mãe foi bem nutrida e a gravidez foi normal, a anemia por carência de ferro não ocorrerá nos primeiros meses de vida. O leite materno ajuda a prevenir essa doença. O leite de vaca não contém ferro em quantidade para evitar o problema. A indústria adicionou o mineral em muitos dos leites e a outros alimentos infantis. Criança novinha que toma exclusivamente leite de vaca sem acréscimo de ferro precisa receber complementação alimentar com produtos ricos nesse elemento ou tomar remédio para suprir a necessidade do mineral.

Quais são as principais causas de anemia na adolescência?

Nessa idade, em ambos os sexos, ainda predominam as causas da anemia por carência de ferro. Na menina, o sangramento menstrual excessivo é um dos problemas.

O que a criança apresenta? O que sugere a anemia?

Há dois grupos de crianças anêmicas:

  • Sem sintomas: é o grupo mais numeroso e a anemia não é evidenciada no exame clínico. As crianças não têm nível de hemoglobina muito baixo, usualmente o problema é descoberto no exame de sangue e essa é a razão que mostra a importância do exame médico periódico e da suplementação preventiva de ferro para evitar essa carência. Alguns médicos recomendam com certa periodicidade verificar como está o nível de hemoglobina no sangue.
  • Com sintomas: os familiares e os médicos percebem palidez que é sinal de anemia com hemoglobina menor que 9g/dL. A palidez é um sinal tardio do problema que deveria ter sido diagnosticado e tratado antes. A meninada com esse nível de hemoglobina está triste, dormindo muito, parada, sem ânimo, sem topar as brincadeiras, cansando com facilidade.

Os sintomas de uma anemia por hemorragia são diferentes?

A perda crônica de sangue vai acontecendo aos poucos — doença do refluxo gastroesofágico, menstruação — e o tipo de anemia é igual ao da anemia carencial. A perda aguda de sangue — lesão acidental de uma artéria — é situação potencialmente muito grave e necessita imediata intervenção médica.

O que o médico faz quando descobre a anemia numa criança?

A missão do profissional é chegar à causa da anemia. Para isso, ele verifica quais alimentos a criança tem ingerido nos últimos meses para detectar carência nutricional do ferro, avalia se há dados de doenças que produzem perda sanguínea, tenta descobrir sinais de infecção ou de outras doenças como as que aumentam o baço e o fígado e solicita exames diagnósticos.

Quando ir ao hematologista?

O pediatra é competente para resolver 95% ou mais das anemias da criançada. O hematologista deve participar da investigação diagnóstica e do tratamento quando o pediatra tem dúvida sobre o diagnóstico. Ele solicita o parecer do especialista se é anemia falciforme, se é anemia do mediterrâneo, anemia por destruição da medula, entre outras.

A criança com anemia pode precisar de transfusão de sangue?

Nas anemias muito intensas e, sobretudo, nas que ocorrem por hemorragia aguda (traumas, por exemplo), a transfusão de sangue pode ser salvadora. Nas anemias que vão se instalando lentamente, nas que dão tempo para o coração e os outros órgãos desenvolverem alguns mecanismos adaptativos, a transfusão de sangue não é indicada.

Quais alimentos dar para evitar a anemia por falta de ferro?

Aí vai uma lista: leite materno nos primeiros seis meses de vida, leites e cereais enriquecidos com ferro (existem várias marcas e é sempre bom consultar a composição dos alimentos ofertados às crianças), vísceras (fígado, coração, moela, rim), ameixa, uva, maçã, mel de engenho; carne, miolo, ovo (gema), espinafre, couve, alface, milho e feijão. Os alimentos ricos em vitamina C (laranja, limão, tomate) ajudam no aproveitamento do ferro da dieta.

Devo evitar algum alimento?

Alguns alimentos atrapalham o aproveitamento do ferro da dieta: o excesso de farinhas, de café e de chá. Crianças que tomam exclusivamente leite de cabra têm anemia por falta do ácido fólico (vitamina). Os alimentos mais ricos em ácido fólico são fígado, rim, vegetais de folhas verdes, feijão e cereais integrais.

Interessante que vocês não falaram na beterraba. Por quê?

As mães realmente sempre perguntam sobre a beterraba. A fama dela é tão grande que com frequência é o primeiro alimento que citam quando perguntadas sobre quais as comidas que as crianças devem comer para curar ou prevenir a anemia. A cor vermelha, parecida com a do sangue, é que deve justificar a fama. Mas a beterraba contém pouquíssima quantidade de ferro.

E o preparo dos alimentos na panela de ferro?

Este é outro “mito”. As mães também falam em colocar um prego na fase de preparo do alimentos para curar a anemia. Nada disso tem valor.

Quando dar os remédios com ferro?

Eles são prescritos pelo médicos quando o diagnóstico de anemia por carência do mineral for firmado e quando o reforço alimentar com produtos ricos em ferro não for suficiente para resolver o problema. Nas anemias com hemoglobina em torno de 10g/dL, a alimentação rica em ferro, por muito tempo, corrige a deficiência. Mas há crianças que resistem e não aceitam a alimentação rica no mineral e há aquelas com hemoglobina abaixo de 9g/dL em que a correção é feita com a alimentação e medicação. Há uma série de informações sobre o uso desses remédios — aceitação, tolerância, efeitos colaterais — que precisam ser detalhados pelo médico. O uso desses medicamentos é por 60 a 90 dias.

Existem muitos efeitos colaterais com o uso do ferro?

Muitas crianças recusam os produtos com ferro que não têm sabor agradável. Vômito, náusea, dor abdominal, constipação intestinal e diarreia são eventos comuns e algumas vezes dificultam o tratamento. É comum a coloração escura dos dentes que pode ser retirada com gaze umedecida em suco de limão.

Como o médico define se o tratamento funcionou?

Evidentemente, para cada causa de anemia, há um controle próprio. Mas na anemia por carência de ferro, a maior parte dos pediatras controla a melhoria do cliente com o próprio exame clínico. Mas alguns solicitam, dois ou três meses após o início do tratamento, um hemograma de controle para definir a resposta.

Podemos dar o remédio de verme com ferro todo ano?

Alguns médicos indicam o remédio de verme periodicamente. Mas outros não indicam e vocês não devem usar por decisão própria os remédios que contém ferro. O mineral é um dos produtos mais tóxicos que a medicina conhece. O ferro em excesso se acumula no fígado e em outros órgãos do corpo e pode causar importantes transtornos para a saúde. É essa também a razão para que o médico defina o diagnóstico com precisão. Receitar ferro e transfusões de sangue nas crianças que têm anemia falciforme é um erro.

Como tratar as anemias de outras causas?

O tratamento é dirigido para a causa. A anemia falciforme é orientada de uma forma completamente diferente da anemia produzida pelo excesso de sangramento menstrual na menina. A anemia da ancilostomose, uma parasitose que produz a doença, é conduzida de uma maneira e a anemia por uma infecção urinária crônica é conduzida diferentemente.

40.3Contribuição de pacientes

I. Contribuição de paciente (20/02/23)

“Anemia: o que dizer? Fígado, beterraba, brócolis? O prato é cheio, e o menu de histórias também. O fato é que conviver com a anemia diuturnamente nem sempre é fácil, mas garanto que rende uma boa conversa, sobretudo se você é inquilina de uma super avó e de uma mãe coruja.

Lembro-me bem, aos idos dos meus jovens 8 anos, de flagrar minha querida avó adicionando sorrateiramente suculentas fatias de beterraba na minha sopa. Ora, eu odiava beterraba — e ainda odeio. Mas odiava ainda mais o fato de toda a minha alimentação orbitar em torno da minha eterna companheira, a anemia.

Do latim, anemia quer dizer carência de sangue ou ausência de sangue. Pergunto-me ainda hoje por que sangrava tanto ao ralar o joelho quando caía de bicicleta, se possuía tão pouco sangue. E quando menstruei pela primeira vez? Penso que minha avó acreditava que, junto ao meu sangue, meu corpo inteiro seria absorvido pelo always com abas noturno, afinal, era fígado todos os dias.

Mas confesso que nem sempre as histórias são divertidas ou leves. Na verdade, há sempre um fantasma na espreita, esperando comédia se transformar em terror. Como disse no preâmbulo desta conversa, o menu de histórias é vasto, e nem sempre elas são agradáveis.

Foram transfusões de sangue, merticoten, combiron, vitamínicos, viagens a São Paulo e EUA na tentativa de tratar minha síndrome, a Blackfan-Diamond, uma anemia congênita. De fato, essas tentativas lograram êxito, cá estou, mas apenas o travesseiro sabe quantas noites em claro minha mãe passou acordada preocupada com a filha recém-nascida que viera com pouco sangue.

A grande questão é que sangue é vida. Mas pouco sangue não quer dizer pouca vida. Isso a minha história demonstrou. Eu era uma criança normal: brincava, estudava, praticava esportes. Hoje, adulta, no auge dos meus 24 anos de idade, também me considero normal — diga-se de passagem — estudo, trabalho, viajo, possuo ciclos de amizades, relacionamento estável. Enfim.

É possível conviver com a anemia. Aliás, é possível viver com a anemia, viver no sentido mais profundo que essa pequena palavra possa comportar. Mas nesse processo é necessário um bom viver, um viver com certo equilíbrio, inclusive se desequilibrando de vez em quando. É uma dança, e não uma guerra: alguém com uma anemia crônica como a minha não vence a anemia, dança um foxtrot com ela.

Confesso-lhe que não sou uma exímia cozinheira, mas conheço inúmeras receitas diferentes com fígado, espinafre, beterraba e brócolis. Se eu puder lhe dar um conselho e lhe passar uma receita com esses ingredientes, eu diria: coloque um headphone, tenha calma e dance conforme a música. Nem sempre a hemoglobina vai ser 12 — e está tudo bem.”

II. Contribuição de cuidador (23/03/23)

“Anemia. Que bicho é esse? Mãe de uma bebê com anemia congênita, sei apenas que é possível viver e ser feliz. Sou testemunha e coadjuvante de como os filhos nos ensinam coisas incríveis... A filha não é uma anêmica! Ela nasceu com “um traço” de anemia. A anemia nunca vai lhe significar, lhe reduzir.

Para anemia, eu pude contar com grandes recursos que me foram oferecidos nas conversas, ricas conversas com o pediatra e outras mães de bebês que superaram os seus desafios. Sim. Saber ir atrás e estar aberta a se expor, cuidadosamente e carinhosamente, para buscar vivências. Com o pediatra e sob a regência dele, construímos uma base de estudo e compreensão sobre como cuidar de uma bebê que é a experiência mais rica que pude viver até hoje. Otelo e a sua pediatria construtivista... Coisa linda de se vivenciar.

A experiência de estar entre mães que se ajudam aconteceu pela primeira vez em minha vida por causa da anemia. Há um saber além das academias de medicina que não é considerado pela indústria farmacêutica! Se ligue nisso! Há um saber que faz toda diferença em qualquer que seja o problema. Por isso, mães, pais e familiares vão atrás das trocas de experiências. Selecione de tudo apenas o que tem sabor de vida e saber de afeto e amor em cuidar.

Há um ser intuitivo dentro de você. Ouça essa voz que a amorosidade traz e canta ‘coisas’ em nossos ouvidos. Para ajudar ao sangue circular nas micro veias e fazer a limpeza dos tecidos e órgãos da filha, mesmo com pouco sangue circulando, intuitivamente me vi fazendo massagem na bebê, e ajudando ao sangue circular bem em todo o corpo, massageando-a. Aprendi a fazer massagem pelo prazer de fazer massagem dengosas e delicadas nela. Era muito bom o toque e o cuidado. Hoje as massagens são maravilhosas! Todos que conhecem a amam! E não parei aí, veio a acupuntura, ioga.

A bebê não é anêmica, nem é coitadinha, nem é frágil, ela é gente e poderá ter isso ou aquilo, mas não reduza e nem deixe a família tratar com carimbos. Ela é vida capaz de se organizar conforme os estímulos oferecidos.

O bicho que é silencioso pode ser controlado sim. E em vez de fazer um monstro, resolvemos ‘encarar’. A anemia aqui em casa nos fez ser mais criativas na cozinha, com temperos, ervinhas cheirosas, rica alimentação em ferro, vitaminas, banho de sol sagrado, atividade física, estímulos sonoros visuais, intelectuais, muitos passeios na natureza, que nos despertava a ‘vontade de comer’ e a ‘vontade de viver’. Falando assim parece que foi simples ou que sou uma supermãe? Não. É árduo mesmo. Mas é possível. E depois que você engata...

Respeitar os gostos do bebê que tem o direito de não comer o que seu paladar não quer. Parece que é uma birra, mas não é. Os bebês que têm traços de anemia, muitas vezes, são inapetentes e tantos mais não gostam daquilo que justamente mais precisam! É de matar o coração de quem cuida! Então tinha o momento de comer o que gostava e tinha sopa! Sopa de tudo mais que era importante e necessário ter para suprir as suas necessidades nutricionais. Mas não corra do ‘bicho’ não. Que quanto mais tranquilidade e coragem de enfrentar você tiver, mais rápido será o processo de lidar com a anemia.

A pergunta que fiz na primeira linha desse texto, eu não encontrei resposta. Sinceramente não. E faz muito tempo que deixei de procurar. Eu optei pela convivência pacífica e cordata. Hoje o bicho está ‘domesticado’!”

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