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Conversando com o Pediatra

Parte II — Principais problemasCapítulo 21 de 46

Febre

Por que a febre é aliada do corpo, como observar a criança além do termômetro, quando procurar o médico e o que fazer diante de uma convulsão febril.

  • AutoriaJoão Guilherme Bezerra Alves, Magda Carneiro-Sampaio e Otelo Schwambach Ferreira
  • Leitura69 min · 14,503 palavras
  • No livropáginas 609–650
  • Conversa62 perguntas respondidas

Resumo do capítulo

Os autores partem de uma ideia central: a febre é um mecanismo de defesa do organismo, e o verdadeiro adversário é a doença que a provoca. Depois de um guia prático — com sinais de alerta, cuidados como hidratação e meios físicos, e tabelas de doses de antitérmicos por peso e por idade —, o capítulo segue em perguntas e respostas: o uso racional do termômetro, o “doençometro” dos cuidadores, a chamada “febre dos dentes”, quando procurar o médico, por que antibiótico não é remédio para febre e quais medidas são proibidas, como banhos de álcool e aspirina em menores de 12 anos.

Há ainda seções sobre hipertermia, febrefobia, tipos de termômetro e as apresentações de dipirona, paracetamol e ibuprofeno, além de uma parte dedicada à convulsão febril: como reconhecê-la, como agir e por que ela, em geral, não deixa sequelas nem aumenta o risco de epilepsia. Depoimentos de mães e pais — incluindo um caso de febres periódicas (PFAPA) — dão voz a quem viveu essas situações.

Para quem: Para pais e cuidadores que se angustiam com a febre dos filhos e querem saber quando observar, medicar ou procurar ajuda.

febrefebrefobiaantitérmicostermômetroconvulsão febrilPFAPA

21.1Guia prático

Mantenham postura calma, de observação e de ação, e:

  1. Verifiquem se o paciente foi vacinado recentemente, se ocorreu contato com portadores de doenças febris (escola? Reuniões sociais? etc.) ou se houve outro(s) episódios febris recentemente.
  2. Procurem os sinais da doença (coriza, garganta irritada, dor de ouvido, tosse, vômitos, diarreia, manchas na pele, dificuldade ao urinar e outros).
  3. Avaliem o estado geral. É mais importante do que o grau da temperatura. Verifiquem se a criança está disposta, ativa, esperta e com apetite. Abatimento, desinteresse e apatia consideráveis, apetite muito reduzido e outros dados de decaimento geral, mesmo com febre baixa, podem indicar doença significante.
  4. Ofereçam muitos líquidos (água, chás, sucos ou refrescos de frutas, água de coco) e a alimentação usual, sem forçar.
  5. Observem o andamento da doença com atenção. Grande parte das crianças febris, nos primeiros dois ou três dias, não apresenta sintomas que indiquem a doença. É recomendável que cada criança febril seja monitorada por um adulto experiente.
  6. Informem aos médicos sobre a ocorrência da febre e sigam as instruções e avisem sobre qualquer novo aspecto observado.
  7. Procurem rapidamente uma emergência pediátrica em caso de convulsão, vômitos repetidos, dor de cabeça, manchas na pele, grande decaimento geral e outros dados significativos.
  8. Levem para avaliação médica criança febril de baixa idade.
  9. Usem os meios físicos se a temperatura está acima de 38°C: roupas leves, banhos com água levemente aquecida e compressas com água (sobretudo nas axilas e nas virilhas). Evitem medidas agressivas como os banhos frios nas madrugadas. O álcool em compressas ou banhos é proibido.
  10. Deem a medicação recomendada pelos pediatras e que o paciente tolerou sem efeitos adversos, na dose antes usada.
  11. É aceitável dar antifebril se a temperatura alcançou 38°C ou mais, até o contato com o médico, usando o seguinte esquema: paracetamol gotas (200 mg / 20 gts por ml), dipirona gotas (500 mg / 20 gts por ml) e ibuprofeno gotas (100 mg / 20 gts por ml).

De acordo com o peso:

Paracetamol1 gota / 1 kg8 kg – 8 gts12 kg – 12 gts20 kg – 20 gts
Dipirona1 gota / 2 kg8 Kg – 4 gts12 kg – 6 gts20 kg –10 gts
Ibuprofeno1 gota / 1 kg8 kg – 8 gts12 kg – 12 gts20 kg – 20 gts

De acordo com a idade:

ParacetamolDipironaIbuprofeno
Antes dos 6 mesesconsultar médicoconsultar médicoconsultar médico
6 –12 meses6 a 10 gotas3 a 6 gotas6 a 10 gotas
1 ano – 3 anos10 a 15 gotas6 a 8 gotas10 a 15 gotas
3 anos – 5 anos15 a 20 gotas8 a 10 gotas15 a 20 gotas
Após 5 anos20 a 25 gotas10 a 12 gotas20 25 gotas
  • Usar a medicação indicada pelo médico assistente em menores de 6 meses.
  • As doses são para as apresentações citadas. O ideal é dar um único medicamento, na menor dose, 6/6 horas, se preciso.
  • Importante falar com o médico.

21.2Conversando...

Antes de começar as perguntas e as respostas, lembramos que a febre é um sintoma de doença, usualmente infecciosa. Mas muitas outras enfermidades causam febre. A elevação da temperatura não é o inimigo a ser combatido. A doença é o real adversário e essa noção é de extrema importância. Pensem sempre nisso e valorizem ao extremo a importância da descoberta da causa. Agora podemos conversar sobre o tema febre:

Qual a importância da febre? E quais as principais causas?

Febre é elevação da temperatura corporal como resposta a uma doença. É um dos mais fantásticos mecanismos de defesa do nosso organismo. A elevação térmica é um sinal de alerta de que o corpo está sendo agredido e estimula uma série complexa de mecanismos de luta contra o inimigo, usualmente um agente infecioso. Vírus, bactérias, fungos, protozoários e até os vermes podem produzir doenças que geram febre, além de várias outras manifestações clínicas. Mas fármacos, como os antibióticos e os quimioterápicos, radiações ionizantes, quimioterapia anticâncer, as leucemias e os tumores também podem gerar febre. E ainda há mais doenças causadoras de elevação da temperatura corpórea.

Como os médicos descobrem a causa da febre?

As informações prestadas pelos cuidadores, familiares ou não, que conhecem a criança e ao adolescente, fornecem os principais dados sobre o que está acontecendo. É bem demonstrado que o cuidador percebe o local afetado (garganta, ouvido, via aérea — coriza, tosse falta de ar —, pele — manchas de vários tipos —, tubo gastrointestinal — vômitos, diarreia —, urina — dor ao urinar...) e a importância do acometimento (decaimento geral significativo ou não, sonolência, falta de apetite…). O exame clínico e os exames laboratoriais são menos importantes que as observações dos cuidadores, mas são decisivos em certas situações. Tudo isso é para dizer sobre a importância das observações cotidianas e qualificadas dos que cuidam da rotina de cada criança ou adolescente. E para dizer que só após o diagnóstico é que o pessoal da saúde define o tratamento. Lembrar sempre que antibiótico não é remédio contra febre. Antibiótico, quando indicado, é remédio para a causa da febre.

O que a febre modifica no nosso corpo?

A biologia montou no ser humano esse extraordinário mecanismo para resolver muitos dos nossos problemas de saúde, principalmente os infecciosos. A elevação térmica aumenta o metabolismo, torna o organismo mais ágil e mais alerta para o embate, estimula a produção de vários fatores de defesa (leucócitos, anticorpos, vários hormônios e outros produtos), incrementa a reparação tecidual, diminui o tempo de vida dos agentes microbianos para reduzir o tempo de doença, mantém o cérebro mais alerta, avisa o próprio indivíduo ou ao seu familiar que algo errado está ocorrendo e produz ainda outros benefícios cientificamente comprovados.

A criança pode passar dias com febre sem prejuízo?

Milhões e milhões de crianças tiveram febre por alguns dias sem que a medicina tenha mostrado malefícios atribuíveis à elevação térmica. O que causa malefícios, na verdade, são as doenças que originam a febre. Sempre é importante repetir: a febre é amiga, é protetora, é aviso, é solução. A doença é a inimiga, é adversária, é agressora, é o problema.

É possível não usar remédios para baixar a febre?!

Alguns médicos experientes, atualmente, têm recomendado uma postura extremamente tolerante com a febre na criança ou no adolescente. Essa postura tolerante inclui, inclusive, o não uso de remédios. Eles têm recomendado o uso de meios físicos, racionalmente. Isso não inclui desatinos como acordar o enfermo durante a noite e dar banho com água fria. Esses médicos conservadores enfatizam, sobretudo após o exame clínico, quando nada especial foi observado, a busca pelo diagnóstico e o monitoramento qualificado e contínuo até o fim do ciclo febril da doença.

Há, sem questionamentos, o uso abusivo de remédios para a febre. Antes do advento do ibuprofeno era visto o emprego quase que rotineiro da dipirona e do paracetamol, de forma alternada na criança febril. Agora com a intensa propaganda desse terceiro produto para febre, muitos familiares estão usando os três produtos de forma alternada, durante a mesma enfermidade febril. Isto não é defensável. Aumenta a chance de efeitos colaterais. Dificulta a avaliação do médico. Se o paciente apresenta algum problema de intolerância ou de alergia, restará a dúvida: qual produto é a causa. E aumenta os custos.

Não consigo aguentar meu filho com 39°C!

Milhões e milhões de mães mundo afora pensam assim. E em função desse medo, do pavor de que algo grave aconteça causado pela febre, medicam excessivamente seus filhos. E não é errada essa sensação de perigo. Isso torna o familiar ou outro cuidador mais alerta, ajuda a definir a causa da elevação térmica e a adotar outras medidas para amenizar os efeitos deletérios da febre. E todos os textos científicos para médicos, dos tempos atuais, orientam o uso dos antifebris. Não dar pode parecer utopia, mas usar remédios com parcimônia não é.

O fato é que fomos orientados a ver a febre como um inimigo terrível, daí o termo febrefobia. E a emoção de constatar a anormalidade que, por si só, causa ansiedade, medo, e quando o termômetro marca 38, em seguida 39, e logo 39,5, o receio de problema grave explode nos que cercam o paciente. Tudo isso é realmente estressante. É inquestionável.

Ouvi que a febre mata os micróbios! É verdade?

Há evidências científicas nesse sentido. Na gripe influenza, os remédios para febre aumentam o tempo de duração dos sintomas, a quantidade dos vírus eliminados e o tempo de eliminação dos vírus pelas secreções. Todas essas são ações obviamente indesejáveis. Em todas as doenças infecciosas, o aumento da temperatura estimula a produção de células e de substâncias químicas que, na maior parte das vezes, elimina o agente causal do problema.

Existem malefícios produzidos pela febre?

A febre aumenta a perda de água do corpo. Assim a hidratação adequada é um dos aspectos importantes dos cuidados com as crianças febris. Também estimula o gasto de calorias. Ela causa mal-estar, vômitos, dor de cabeça, dor no corpo, moleza, dificuldade para dormir, inquietação, irritabilidade e até pesadelos e alucinações. Muitas dessas manifestações são causadas pela doença que produz a febre. São clássicas a astenia, a moleza, o mal-estar, as dores no corpo e outras manifestações das doenças virais respiratórias. Esses sinais nas crianças febris podem ser causados pela doença e/ou pela febre. A febre também pode causar, em poucas crianças, a convulsão febril que será um dos tópicos debatidos adiante.

Ouvi que há doenças que se manifestam por repetidos episódios de febre! É real?

Solicitamos que o professor André Cavalcanti, experiente reumatologista de crianças e de adolescente respondesse a essa questão.

“A maioria das febres na criança é de origem viral. A ‘virose’ é habitualmente de cura espontânea e a febre, em geral, cede em até três dias. Como as ‘viroses’ são comuns vez ou outra a criança tem elevação térmica por essa causa. As infecções bacterianas compõem o segundo maior conjunto de causas de febre na infância. É incomum o paciente ter febre de evolução prolongada ou muito repetida. São muitas as causas destas febres: artrite reumatoide, doenças tumorais como a leucemia, infecções crônicas (como a tuberculose), dentre outros problemas.

Nesses casos, os pais devem ficar atentos para as queixas que o filho apresenta, além da febre. Sendo assim, a criança pode queixar-se de dor abdominal, dor de garganta, dor no peito, dor nas articulações, algumas aftas na boca, olhos vermelhos e inchados e manchas vermelhas na pele. Então, é muito importante os pais ficarem atentos a essas manifestações clínicas e relatarem na consulta médica com o pediatra. É comum a criança não apresentar sinais de infecção viral, como tosse e coriza. Outro ponto importante que os pais devem fazer é a chamada curva térmica. Trata-se de anotar num papel o dia, hora e a temperatura do seu filho quando estiver com febre.

É através da curva térmica que o pediatra consegue entender o padrão desses episódios febris, ou seja, a duração em dias da crise e a sua recorrência. Esse grupo de doenças é chamado de “febres periódicas”. Dentre essas doenças, uma das mais comuns é a síndrome PFAPA, que significa febre periódica com estomatite aftosa, faringite e adenite. Como o próprio nome diz, a PFAPA é caracterizada por episódios recorrentes de febre, acompanhados por úlceras aftosas, faringite e adenite cervical. Uma vez que o pediatra suspeite de PFAPA, deve ser feito o encaminhamento para o reumatologista pediátrico, especialista responsável pelo tratamento da PFAPA e das outras febres periódicas. ”

Por que algumas criança ficam arroxeadas durante a febre.?

Durante as rápidas elevações térmicas, é comum observar a tonalidade arroxeada das extremidades dos dedos e lábios, sobretudo na criança pequena. Essas alterações não têm valor especial, não sinalizam infecção ou outra doença importante. A cor arroxeada decorre de mecanismos que o corpo usa para redistribuir as trocas de calor com o meio exterior quando a temperatura corporal está anormalmente elevada. É produzida pela diminuição da circulação sanguínea nessas regiões.

Como avaliar a temperatura do corpo?

A mãe conhece que o filho está com febre mesmo antes de o termômetro registrar temperatura elevada. Ela conhece a temperatura usual da criança. O contato corpo a corpo permite esse conhecimento. O dorso da mão encostado ao corpo é a maneira mais prática de avaliar a temperatura. Para a quase totalidade das infecções, basta que as mães usem essa percepção. Importa pouco se a temperatura corporal chega a 38ºC ou 39ºC. Nada muda, se a criança está bem, com febre, mas brincando, ativa, e não apresenta sintomas importantes de acometimento de um dos seus órgãos como manchas na pele, falta de ar, vômitos, diarreia, abatimento exagerado e outros dados.

Vocês estão sugerindo que não usemos o termômetro?

Estamos dizendo que o termômetro é dispensável em boa parte das vezes. Isso foi cientificamente demonstrado. O ser humano está na terra há cerca de 200 mil anos. O termômetro para avaliar a temperatura corporal foi inventado há 400 anos. Assim os povos antigos não dispunham desse instrumento e sobreviveram por milhares de anos e estamos aqui para contar a história. Na criança susceptível a crises convulsivas febris, é importante reforçar a vigilância com relação ao aumento da temperatura. Aqui o uso do termômetro é defensável. O que defendemos é o uso racional do instrumento. Sem que se crie a “neurose do termômetro” — tomada da temperatura a cada 10 ou 15 minutos, por exemplo.

Como usar o termômetro racionalmente?

É usar o termômetro a cada duas, três ou quatro horas. E não de 15 em 15 minutos, por toda a noite. A febrefobia leva os familiares a agirem assim. Isso em nada ajuda. Produz ansiedade na criança e na família. Também não auxilia os médicos a tomarem decisões. A maior parte das mudanças no corpo ocorre lentamente. É prudente recomendar que se controle a temperatura com o dorso da mão e que o termômetro seja usado de forma correta. Não mais do que isso. Mais importante que manter o termômetro, é manter o “doençometro” ligado.

Nosso “doençometro” não é bem desenvolvido! O que fazer?

A mãe, o pai, a tia, a avó e outro cuidador que conhecem bem a criança percebem se a doença é ou não importante. Todos vocês têm um “doençometro” razoavelmente bem desenvolvido. Seguramente, o “doençometro” aplicado ao filho de cada um de vocês funciona melhor do que quando aplicado a uma criança estranha. Repetimos que a temperatura corporal não é bom indicador de gravidade da enfermidade. Mais importante é o estado geral. O médico sempre pergunta quando a mãe informa que o filho está febril: “está brincando? Está feliz, ativo, interessado no que ocorre ao seu redor? Está comendo? Ou está triste, deitado, abatido, sem sorrir, sem interesse pelo ambiente? A sra. acha que ele está muito diferente do que é?” É essa leitura geral do paciente que deve ser sempre enfatizada e não simplesmente a informação do termômetro.

Qual termômetro usar?

O tema é visto mais adiante neste capítulo.

Existe a famosa “febre dos dentes”?

O rótulo “febre dos dentes” existe desde antes da descoberta dos vírus e das bactérias produtoras da maior parte das enfermidades febris do ser humano e antes do desenvolvimento do extraordinário poder que a medicina desenvolveu para o diagnóstico das doenças. A prática médica que deve estar sempre cientificamente embasada tem certo cuidado em aceitar a “febre dos dentes”.

Por quê?

As doenças infecciosas febris da criança acontecem predominantemente entre os 6 meses e os 5 anos de idade. Essa é a fase do nascimento da maioria dos dentes. Muitas enfermidades febris curam espontaneamente sem que qualquer alteração ou apenas uma leve coriza — que pode significar infecção viral — foi observada. E nessas situações, onde o fato mais marcante era a erupção dental, o diagnóstico de “febre dos dentes” é “óbvio”. É importante lembrar que, nesse período, a criança leva tudo à boca para diminuir a coceirinha da gengiva. A chupeta que cai no chão ou qualquer outro objeto, comestível ou não, são levados à boca. Isso pode levar ao aumento de probabilidade de infecções virais e bacterianas, as verdadeiras responsáveis pela febre.

Mas não há mal em falar em febre dos dentes! Não é?

Essa interpretação “mágica” do fenômeno biológico — “febre dos dentes” — é usada por alguns médicos para convencer as famílias a manterem uma atitude de tolerância e de menos agressividade contra a febre. Sobretudo, para não se dar antibiótico. Os médicos não devem estimular esse pensamento simplista, mágico, que pode prejudicar a criança. O diagnóstico de “febre dos dentes” pode encobrir uma infecção renal que causará hipertensão arterial mais tarde e outras doenças, até tumorais. Então, há que se ter cuidado ao rotular a elevação térmica como “febre dos dentes” e não agir para diagnosticar o que realmente está ocorrendo.

Mas a erupção dos dentes pode dar uma febre baixinha?

Repetimos que a erupção dental é um evento normal do organismo e não uma agressão. É verdade que, em algumas situações, esse processo causa certo desconforto principalmente quando há considerável reação da gengiva. Há estudos mostrando até aumento de certas substâncias químicas liberadas em maior quantidade durante a erupção dental e que podem interferir no organismo. Pode-se pensar que, nesses casos, ocorra febre baixa, irritabilidade, dificuldade com o sono e inapetência. O capítulo sobre Cuidados com os dentes também aborda o assunto.

Existe criança que tem mais febre que outra! O que ocorre?

Cada criança tem um padrão de resposta. Até na resposta ao mesmo vírus, duas crianças respondem diferentemente. Uma reage com coriza, nariz entupido e 37°C. A outra reage com diarreia, vômitos e 40°C à infecção e não tem coriza, nem nariz entupido. A mesma infecção apresenta-se, sob o ponto de vista clínico, completamente diferente em pessoas distintas. É provável que a criança que tem a febre de 40°C deva ter uma reação parecida frente a outras infecções, sempre com temperatura muito alta. É característica do corpo de uma criança. Não significa que uma é mais doente do que a outra que quase não tem febre.

Algumas febres cedem logo e outras não. O que há?

Cada agente de doença infecciosa provoca uma resposta corporal particular. Assim algumas “viroses” com febre alta duram mais tempo do que outras. Também há febres infecciosas, mais resistentes aos remédios. A resposta biológica é complexa e é possível que o comportamento diferente aos remédios tenha ocorrido por outras razões que nada têm a ver com a agressividade viral.

Por que vocês não passam logo o anbibiótico?

Antibiótico não é para febre. Antibiótico é para tratar uma infecção bacteriana, causa de uma doença específica. A maioria das infecções é viral e o antibiótico não é indicado. Para febre: paciência, observação e antitérmico.

E a terrível convulsão?

Existe capítulo para tratar do tema e orientamos que seja lido.

Quando procurar o médico se a criança tem febre?

Imediatamente:
  1. A criança febril menor de 6 meses.
  2. A criança febril de qualquer idade que está “diferente”: choro contínuo, irritação, prostração, manchas no corpo, dificuldade de respirar, incapacidade de engolir a saliva, salivando excessivamente, com vários episódios de vômitos, diarreia profusa, dores nas juntas, convulsão, aparência de estar muito doente.
Após 24 horas de doença:
  1. A criança febril entre 6 e 24 meses e que não tomaram vacina.
  2. A criança febril de qualquer idade e que está largada, abatida, “diferente”, sem brincar, sem se alimentar, com dor ou dificuldade ao urinar; sem sinais gripais ou outros dados que ajudem a definir a doença causal ou com algum fenômeno inexplicado.

Quando há febre que persiste por mais de 72 horas, que cedeu e após algum tempo reapareceu, e existe história anterior de convulsão febril. Quando a criança está com dor de ouvido, respiração difícil, micção dolorosa ou urina diferente ou qualquer outro fato que chame a atenção, é sempre importante manter o pediatra informado, mesmo por telefone, sobre o andamento de todo o quadro.

E se a criança está com 39°C! O que vocês recomendam fazer?

Usar medidas gerais e remédios

  • Medidas gerais — Alguns cuidados simples baixam a febre e, às vezes, auxiliam a usar menos ou até mesmo dispensar o uso de drogas. Também são benéficos para manutenção de um bom estado geral. São importantes: opção por um lugar arejado e pouco vestuário o que permite trocas de calor com o ambiente. É infundada a crença de que o ambiente ventilado agrava a doença (vejam que não se está orientando para ir a local com vento ou chuva). Água fresca e suco ou refresco de frutas repõem a perda de líquidos provocada pela febre (não forçar nem insistir, basta oferecer. A criança toma quando sentir sede). Devem ser evitados banhos frios ou compressas frias ou com álcool. São medidas que provocam reação de “rebote” do organismo. Após a queda da temperatura, há rápida elevação da temperatura.
  • Remédios — Todos devem ser empregados com critério, com cuidado, tentando controlar a febrefobia. Além do mais, é importante atenção muito especial para o uso da dose correta, para evitar superdosagem e intoxicação.

Quais são os remédios para combater a febre?

Os usados de rotina são: dipirona, acetaminofen e ibuprofeno.

E os chás? E a homeopatia?

Febre é tão frequente, no mundo todo, que cada povo tem a sua maneira peculiar de enfrentar a dificuldade. No Brasil, há várias medidas populares. No Egito, por exemplo, existem outras soluções que o povo usa para baixar febre. No Canadá, por sua vez, já é diferente. De uma forma geral, podemos resumir a posição da medicina sobre as mais comuns medidas empregadas no Brasil. São proibidos os banhos de álcool. O álcool é absorvido pela pele e o paciente pode apresentar grave intoxicação. São aceitos os outros meios físicos (banhos d’água morna, os de colônia, as compressas nas regiões por onde passam grandes veias e artérias — axilas e virilhas) podem ser confortáveis, relaxantes e roubar um pouco de calor do corpo. São úteis os chás com acônito, de folha de laranja, e outros, com açúcar — eles ajudam a hidratar.

Existem algumas medidas maléficas ou mesmo proibidas?

Sim! Vejam algumas: aspirina, melhoral, aas, acetin e outros produtos com aspirina ou ácido acetil-salicílico são proibidos em menores de 12 anos. Cobertor é contraindicado, exceto se houver calafrios intensos. Exposição a correntes de ar e a mudanças bruscas de temperatura aumenta o gasto de energia para manter o calor — o calafrio é reação intensa que o corpo usa para produzir calor, febre, para combater a doença. Banhos frios, água gelada e outras medidas físicas intensas para baixar a temperatura causam desconforto, produzem efeitos fugazes, pois atuam, basicamente, apenas na pele e fazem o organismo despender ainda mais energia. Envoltório de álcool é proibido, como foi dito antes. Interrupção do sono, pois o repouso é necessário para a cura. Interromper o sono daquele que dorme tranquilamente e que está com aspecto normal, só porque a temperatura está em 38°C, é um absurdo e uma agressão. Interromper o sono com tomadas excessivas da temperatura, ou para dar remédio, é contraindicado.

E quando a temperatura baixa muito após o remédio?

Temos uma discussão interessante no capítulo Hipotermia.

21.3Hipertermia e febre

Nosso corpo produz calor e, em condições normais, o ser humano mantém a temperatura entre 36,4°C e 37,5°C. Nós somos homeotermos e dispomos de extraordinários mecanismos para manter a temperatura estável. Há duas situações distintas quando a temperatura corporal sobe:

Hipertermia: ocorre quando a temperatura corporal chega até 38°C ou mais, sem que exista doença. Isso acontece devido a exercício intenso, banho quente e em dia de muito calor. Isso é hipertermia. Não é febre que é reação a uma doença.

Febre: existe febre quando há temperatura corporal elevada (por exemplo: axilar acima de 37°C) e doença. Então, as duas condições são importantes para que exista febre. Infecção é a causa principal. Mas existem causas não infeciosas e algumas são enfermidades complexas. Então o cuidador deve estar sempre atento e informar ao médico a ocorrência de aumento da temperatura corporal, mesmo que nada pareça ser significante.

Associada à elevação térmica, geralmente existe moleza, dor de cabeça, alteração do humor, respiração e coração acelerados e, às vezes, calafrios. Também há sinais da doença que cause a febre (diarreia se é infecção intestinal, e tosse e falta de ar se é respiratória).

A febre produz aumento da atividade dos glóbulos brancos e ativa inúmeros fatores para o combate à infecção, ainda reduz a multiplicação viral e produz a morte das bactérias. Enfim, febre é importantíssimo mecanismo de luta contra as doenças infecciosas. O aumento da temperatura ajuda a identificar a doença. A normalização térmica é um dos indicadores de que o problema foi ou está sendo superado.

A moderna biologia não vê a febre como inimiga. Ao contrário, ela deve ser vista como parceira, como amiga. Portanto, todos devemos pensar e agir assim quando um filho nosso está febril. Por isso, é importante questionar o combate da febre com o uso intempestivo de antitérmicos, uma prática usual nos nossos dias.

A elevação da temperatura na criança, desde que adotadas algumas medidas como a hidratação, não produz malefícios, ainda que possa provocar desconforto, dores no corpo, dor de cabeça e, em alguns casos, aumentar o risco de convulsões. O uso indiscriminado dos antifebris e dos anti-inflamatórios pode ser danoso.

Assim, se mudarmos a visão sobre a elevação térmica e passarmos a vê-la como de grande valia para a defesa do nosso organismo, também deveremos mudar a forma de agir. Essa modificação na forma de agir implica, sobretudo, não empregar mecanismos agressivos para baixar a temperatura do corpo, bem como não usar abusivamente de antitérmicos com objetivo de reduzir a temperatura para menos que 37,5°C. Poucas crianças podem ter indicação de tratamento mais “agressivo” da febre, o que seguramente será motivo de pergunta.

E devemos sempre lembrar que a febre não é o inimigo a ser combatido. A doença é o real adversário. Essa noção é de extrema importância, porque a febre é um alerta para que o quadro geral de saúde da criança seja observado.

21.4Febrefobia

Cerca de 80% dos pais pensam que febre causa lesão cerebral ou outros danos para a criança. As frases: “ele está queimando de febre”, “ela está fervendo”, “está pegando fogo”, “está vermelho que nem uma brasa” e outras atitudes ansiosas mostram a fobia, a febrefobia que acomete os pais quando têm que lidar com esse fenômeno biológico natural e benéfico. É tão forte esse sentimento que os pais esquecem a doença. Pensam apenas na febre. Um dos motivos a justificar esse comportamento é o uso do termômetro que permite ao familiar aferir a temperatura e admitir que a criança que tem temperatura de 40°C tem doença mais grave do que aquela que tem 37,5°C. Em biologia não é assim, a que tem menos febre pode ter doença mais grave.

Nós gostaríamos que os pais dispusessem de um doençometro para medir a doença e não o termômetro. Pensem bem nisso. Vamos dar um exemplo bem simples. A criança com apendicite, uma doença significante que é tratada com cirurgia, apresenta temperatura corporal normal ou não muito elevada.

Esses conceitos errôneos são os responsáveis pelo abuso dos antitérmicos, dos antibióticos e por muita tensão emocional. Muitas vezes, a família pressiona tanto, vai a um, a dois, a três médicos, pela mesma doença febril. E o terceiro, depois de tanta pressão, e talvez por inexperiência, às vezes, cede aos anseios e prescreve antibiótico.

Já falamos que a temperatura não se correlaciona com a gravidade da doença. A aparência geral, sim. Criança com 39°C que brinca e sorri não deve ter problema importante. A outra com 37,5°C.que não brinca e não sorri, que “não está bem”, seguramente pode ter problema importante, sendo melhor procurar logo um médico.

As infecções virais ocasionam cerca de 95% das doenças febris na criança. É o organismo e não o medicamento que cura as enfermidades febris. E a febre ajuda o processo de cura. Antes mesmo de completar o ciclo do vírus no corpo doente, a febre termina, quase sempre, antes de completar 72 horas de duração. Por isso. é que o médico repetidamente diz: “mãe, espere três dias. Conte direitinho, são 72 horas. Fique vigilante. Telefone se acontecer algum problema ou se a febre passar dos três dias». As infecções bacterianas, várias delas tratáveis com antibióticos, também apresentam febre dentre os seus sintomas. Por isso é sempre bom manter uma postura de alerta e avisar sempre o médico sobre as preocupações e observações feitas.

Há muitas outras causas de febre: excesso de exposição ao sol (insolação), desidratação, reação alérgica (a antibióticos, por exemplo), resposta a substâncias introduzidas no organismo (quimioterapia anticâncer), trauma, cirurgia, corpo estranho, tumores, doenças neurológicas e reação a vacinas.

21.4.1Os termômetros

As informações a seguir expostas foram colhidas na internet, no site maconequi.com.br.

Termômetros Analógicos (mercúrio)

O líquido prateado que mencionamos é o mercúrio, uma substância que expande quando é aquecida. Assim, quando o termômetro analógico é colocado em contato com o corpo, o líquido sobe em consequência dessa expansão. A escala impressa no tubo de vidro permite que a temperatura seja determinada.

Há duas razões pelas quais o uso dos termômetros desse tipo não mais é recomendado. A primeira delas é o risco de quebra do dispositivo, que libera mercúrio (um metal tóxico) no ar. A segunda é a falta de precisão desses instrumentos, principalmente daqueles com maior tempo de uso.

Sabendo que desde de 1º de janeiro de 2019 está proibida em todo o Brasil a fabricação, a importação e a comercialização de termômetros que utilizam coluna de mercúrio, hoje são utilizados os seguintes:

Termômetro Digitais — Equipados com sensores de temperatura, esses instrumentos mostram a temperatura em uma pequena tela. As versões mais modernas apresentam memória interna para guardar os últimos registros. O termômetro digital é preciso na medição e não contém mercúrio.

Infravermelho — Todo corpo emite calor e é isso o que um termômetro infravermelho mede. O equipamento é preciso, desde que ele seja usado de acordo com as instruções do fabricante. Assim como os modelos digitais, também mostra o resultado em um display. De nada adianta ter um equipamento moderno e preciso, se você não usá-lo de maneira adequada. Alguns dispositivos permitem uma única forma de leitura, enquanto outros são mais versáteis. Conheça as diferentes vias de utilização dos termômetros:

Axilar — A maneira mais comum de medir a temperatura é colocar o termômetro na axila, mantendo o braço fechado. A maioria dos instrumentos digitais emite um aviso sonoro ao final da leitura, que leva cerca de três minutos

Figura 1Termômetro Axilar Digital LCD Com Beep GTECH [Modelo de termômetro axilar].Fonte: Amazon.com (c2021-2025).

Auricular — O termômetro infravermelho de ouvido realiza a medição instantaneamente. Basta posicioná-lo na entrada do ouvido e apontá-lo em direção ao nariz. A medição pode ser atrapalhada se houver excesso de cera ou inflamação. Usa infravermelho para medir a temperatura no interior do canal auditivo. Com rapidez, gera o resultado, entre 1 e 2 segundos em média. Cuidados especiais para crianças: é preciso apontar diretamente no canal auditivo e para que isso ocorra deve-se puxar levemente a orelha para cima e para trás.

Figura 2Termômetro Digital de Ouvido G-Tech [...] [Modelo de termômetro infravermelho de ouvido].Fonte: Amazon.com (c2021-2025).

Bucal — A medição pela boca pode ser feita com termômetros tradicionais. Para isso, o instrumento deve ser posicionado sob a língua durante o tempo necessário para leitura. Há, ainda, termômetros em forma de chupeta, muito úteis para medir a temperatura de bebês.

Figura 3Termômetro de Chupeta Digital – Geratherm [Modelo de termômetro bucal].Fonte: Magazine Luiza S/A.

Retal — Inserir o termômetro no reto é o método mais indicado para verificar a temperatura de bebês. É preciso ter atenção redobrada com a higiene do dispositivo, que deve contar preferencialmente com uma ponta flexível.

Sem contato direto com a pele — Alguns termômetros com tecnologia infravermelho funcionam à distância. Basta apontar o aparelho para a testa para que a medição seja realizada instantaneamente.

Figura 4Termômetro Digital de Testa Laser Infravermelho [...]

Fonte: Magazine Luiza.
Instruções de uso de termômetros sem contato:

Medição da Temperatura Corporal (Testa): a leitura medida pela testa, equivale a temperatura medida pela boca. Para isso, é necessário certificar-se que a lente da sonda esteja totalmente limpa, sem qualquer fragmento que possa alterar sua leitura. Para uma leitura eficiente é necessário que a testa esteja limpa, sem suor, uso de qualquer produto químico (como base, pó compacto e ou qualquer tipo de cosméticos) , cicatrizes etc. Além disso, certifique-se antes de iniciar a leitura que o paciente não tenha tomado banho ou feito exercício físico por pelo menos 30 min e permanecido em condições estáveis por pelo menos 5 min.

Considerações para a compra: os termômetros podem ser facilmente encontrados em farmácias e lojas de produtos médicos, sejam elas físicas ou virtuais. Eles são um item muito importante na montagem de um bom kit de enfermagem para estágio. Por conta da grande variedade de modelos disponíveis, você pode ter dúvidas na hora da compra. Para te ajudar, vamos listar algumas dicas que podem ajudar você a fazer a escolha:

  • Prefira os modelos digitais, que não contêm mercúrio.
  • Verifique as instruções de uso.
  • Avalie o tempo de resposta do instrumento.
  • Procure comprar equipamentos resistentes.
  • Considere a idade de quem usará o termômetro e a forma como será feita a medição.

Quais cuidados devo ter na compra do termômetro?

  • Verificar se o sinal sonoro que indica o final da medição está funcionando.
  • Preferir modelos com capas protetoras descartáveis para a proteção da área de contato com o corpo.
  • Dar preferência aos que apresentam visor maior para facilitar a leitura.
  • Perguntar se a bateria é substituível, pois há aparelhos que não permitem isso, o que impede a utilização após o fim da carga.
  • Verificar se as instruções são em português e se há telefone ou site do SAC para tirar dúvida.

21.4.2Remédios usados para o controle da febre

Produtos com dipirona por via oral e retal
  • Dipirona em gotas —Todos os produtos disponíveis no comércio têm 500 mg do medicamento por 20 gotas. A dose usual é de 1 gota para cada 2 quilos de peso por dose. Assim criança de 10 Kg deve receber 5 gotas e outra de 20 Kg deve tomar 10 gotas. A dose máxima recomendada para uso dessas apresentações é de 25 gotas por vez para adolescentes com peso igual ou maior que 50 Kg. Para os pacientes com mais peso, é prudente usar a dipirona em comprimidos. A tabela que se segue mostra as doses dos remédios com dipirona em gotas de acordo com o peso das crianças.
Doses por peso de produtos com dipirona em gotas na apresentação de 500 mg por 20 gotas *
Peso (em quilos)Doses (em gotas), 6/6 horas, se preciso
Menos de 6falar com o médico
63
105
157
2010
3015
4020
50 e mais25 (dose máxima)

* Para os pesos intermediários, exemplo, para crianças entre 10 e 15 Kg, deem a dose intermediária, nesse caso 6 gotas. Observem os comentários sobre os produtos com dipirona.

  • Dipirona em solução oral (xarope) — A apresentação oferece 50 mg / 1 mililitro ou ml e a quantidade a ser usada é de 1 mL para cada 3 quilos de peso por dose. Assim, uma criança de 10 kg deve tomar 3 mL. A dose máxima para uso dessa apresentação é de 10 mL, por vez, para uma criança de 30 kg. Para a com mais peso, é prudente usar outro produto.

A seguir são fornecidas as doses por peso.

Doses por peso de produtos com dipirona em solução oral ou xarope na apresentação de 50 mg / mL ou 250 mg / 5 mL *
Peso (em quilos)Doses (em mililitros), 6/6 horas, se preciso
Menos de 6falar com o médico
62
103
155
207
3010 (dose máxima)
mais de 40usar outra apresentação

* Para os pesos intermediários, usem uma dose intermediária. Em crianças de 8 Kg, por exemplo, deem 2,5 mL. Observem os comentários sobre os produtos com dipirona.

  • Dipirona em comprimidos * — Os produtos disponíveis contêm de 500 mg da substância por comprimido. A dose é de 1 comprimido por dose para os adolescentes com peso igual ou maior que 50 kg. A dose máxima para uso dessa apresentação em adolescentes é de 1 comprimido por vez.

* Observem os comentários sobre os produtos com dipirona.

  • Dipirona em supositórios * — Os remédios disponíveis no Brasil destinados ao uso das crianças contém grande quantidade da substância dipirona (300 mg). Cada supositório de uso pediátrico é indicado para as crianças de 30 Kg. Assim, se for indicado o uso dessa apresentação em crianças com peso inferior a 30 Kg, a recomendação é dividir o supositório. Para as de cerca de 10 Kg é recomendado usar 1/3 do supositório pediátrico. Para as de 15 a 20 kg, a dose é de ½ do supositório pediátrico.

* Confiram se o supositório contém 300 mg da dipirona. Observem os comentários sobre os produtos com dipirona.

Produtos com paracetamol por via oral
  • Paracetamol em suspensão oral — Existem duas formulações disponíveis no mercado brasileiro:
  • Na primeira, o paracetamol é ofertado em maior quantidade por cada mililitro da medicação. Essa apresentação é denominada “bebê” pela indústria que a fabrica. Permite dar 100 mg do paracetamol por cada 1 mL. O produto vem com uma prática pipeta dosadora que facilita o uso, evitando erros de dosagem. A dose a ser dada, em mililitros, corresponde ao peso da criança marcado na pipeta. É de 0,5 mL para cada 5 quilos de peso por dose. A dose máxima recomendada para uso dessa apresentação é de 2,5 mL, por vez, para criança de 20 kg. Para crianças com mais peso, usar outro produto. A seringa dosadora permite dar a dose precisa sobretudo em crianças pequenas. Basta encher a seringa até a marca do peso e dar a medicação. Há uma outra escala que define a quantidade de medicação a ser dada.

* Observem os comentários ao fim da apresentação sobre os produtos com paracetamol

  1. Na segunda apresentação, 160 mg do paracetamol são ofertados por 5 mL do xarope. Uma das indústrias que produz o medicamento a denomina “criança”. Essa apresentação habitualmente também oferece copo medidor com marcas de 2,5mL, 5mL, 7,5mL e 10mL. A dose é de 1mL para cada 3 Kg de peso por dose. Exemplo: para crianças com 30 quilos, a dose é 10mL. Acima desse peso, é recomendável usar outra apresentação.

A seguir são fornecidas as doses por peso.

Doses por peso de produtos com paracetamol suspensão oral ou “criança” (xarope) na apresentação de 160 mg / 5 mL *
Peso (em quilos)Doses (em mililitros), de 6/6 horas, se preciso
Menos de 6falar com o médico
62
103
155
206
3010 (dose máxima)
Acima de 30usar outra apresentação de paracetamol

* Nos pesos intermediários, usem doses intermediárias. Assim, em crianças 17 Kg empreguem 5,5 mL dessa apresentação do paracetamol. Observem os comentários ao fim da apresentação sobre os produtos com paracetamol.

  • Paracetamol em gotas — Todos são na apresentação de 200 mg por 20 gotas. A dose usual é de 1 gota para cada quilo de peso por dose. A dose máxima para essa apresentação é de 30 gotas por vez para crianças de 30 kg. Para crianças de mais de 30 kg, é recomendável usar outro produto.

A seguir são fornecidas as doses por peso dos remédios com essa apresentação.

Doses por peso de produtos com paracetamol gotas na apresentação de 200 mg / 20 gotas *
Peso (em quilos)Doses (em gotas), 6/6 horas, se preciso*
Menos de 6falar com o médico
66
1010
1515
2020
3030 (dose máxima)
Acima de 30usar outra apresentação de paracetamol

* Usem doses intermediárias nas crianças com os pesos nas faixas intermediárias. Nas crianças de 12 Kg, usem 12 gotas dessa medicação. Observe os comentários ao fim da apresentação sobre os produtos com paracetamol.

  • Paracetamol em comprimidos * — Os comprimidos são usualmente de 500 mg da substância ativa. Existem outras apresentações do paracetamol com comprimidos, alguns mastigáveis ou que se dissolvem na boca. A dose da apresentação de 500 mg é 1 comprimido para adolescentes com 50 kg. Esta é a dose máxima para adolescentes e para essa apresentação por cada 6 horas, aproximadamente.

* Observem os comentários ao fim da apresentação sobre os produtos com paracetamol.

Produtos com ibuprofeno por via oral
  • Ibuprofeno em suspensão (xarope) — Uma apresentação ofertada tem 100 mg por 5 mL do produto. A dose é de 1mL para cada dois quilos de peso por dose. Assim, uma criança de 10 kg deve usar 5 mL. A dose máxima para uso dessa apresentação é de 10 mL por vez para criança de 20 kg ou mais peso.

A seguir são fornecidas as doses dessa apresentação segundo o peso.

Doses por peso de produtos com ibuprofeno suspensão ou xarope gotas na apresentação de 100 mg / 1 mL *
Peso (em quilos)Doses (em mililitros), 6/6 horas, se preciso
Menos de 6falar com o médico
63
105
157
2010 (dose máxima)
Mais de 30usar outra apresentação de ibuprofeno

* Nos pesos intermediários, deem doses intermediárias. Nas crianças de 12 Kg, usem 6 mL da medicação. Consultem o texto ao final da apresentação sobre os produtos com ibuprofeno para conferir avisos importantes sobre o uso dessa medicação.

  • Ibuprofeno em gotas — Existem três formulações:
  • Uma com 50 mg do ibuprofeno por 20 gotas. A dose usual é de 2 gotas por Kg de peso e por dose. Assim, nas crianças de 10 Kg, a dose é de 20 gotas que pode ser usada de 6 em 6 horas. A dose máxima para essa apresentação é de 40 gotas por vez para as crianças de 20 Kg. Para as com mais peso, usar comprimido de 400 mg ou usar outra apresentação em gotas do ibuprofeno como a que contém 100 mg por 20 gotas. A seguir, são fornecidas as doses por peso indicadas para a apresentação do ibuprofeno de 50 mg por 20 gotas.
Doses por peso de produtos com ibuprofeno gotas na apresentação de 50 mg por 20 gotas *
Peso (em quilos)Doses (em gotas), 6/6 horas, se preciso
Menos de 6falar com o médico
612
1020
1530
20-4040 (dose máxima)
Mais de 40usar outra apresentação do ibuprofeno

* Nos pesos intermediários, deem doses intermediárias. Nas crianças de 12 Kg, usem 25 gotas da medicação. Consultem o texto ao final da apresentação sobre os produtos com ibuprofeno para conferir avisos importantes sobre o uso dessa medicação.

  1. Outra oferece 100 mg do ibuprofeno por 20 gotas. Vejam então como é fundamental estar atento para usar o produto na apresentação correta, como é importante estar alerta para a orientação do médico. Esse produto oferta o dobro do ibuprofeno oferecido pela apresentação anterior. Assim, a dose dessa apresentação é 1 gota por Kg de peso, a cada 6 horas, se indicado. As crianças de 12 Kg devem receber em cada vez 12 gotas do remédio. A dose máxima recomendada para o uso dessa apresentação é de 25 gotas. Para as crianças com peso maior ou para os adolescentes, o ideal é uso do comprimido de 400 mg do ibuprofeno. Vejam as doses por peso.
Doses por peso de produtos com ibuprofeno gotas na apresentação de 100 mg / 1 mL ou 20 gotas *
Peso (em quilos)Doses (em gotas), 6/6 horas, se preciso
Menos de 6falar com o médico
606
1010
1515
2020
30-5025 (dose máxima)
mais de 50usar outra apresentação

* Nos pesos intermediários, deem doses intermediárias. Nas crianças de 12 Kg, usem 12 gotas da medicação. Consultem o texto ao final da apresentação sobre os produtos com ibuprofeno para conferir avisos importantes sobre o uso dessa medicação.

  1. A última apresentação contém 200 mg do ibuprofeno por 20 gotas. Mais uma vez, prestem atenção como é importante conferir a quantidade do princípio ativo do remédio que está sendo dado. Essa apresentação do ibuprofeno oferece quatro vezes mais remédio do que a primeira apresentação em gotas. E duas vezes mais do que a segunda. A dose então, por cada Kg de peso, é quatro vezes menor do que a primeira e duas vezes menor do que a segunda. É de 1 gota para cada 2 quilos de peso por dose. As crianças de 10 kg devem receber 5 gotas. A dose máxima para essa apresentação é de 20 gotas por vez para crianças ou adolescentes de 40 Kg de peso. Os com mais peso devem usar comprimidos de 400mg. Vejam as doses por peso.
Doses por peso de produtos com ibuprofeno gotas na apresentação de 200 mg / 1 mL *
Peso (em quilos)Doses (em gotas), 6/6 horas, se preciso*
Menos de 6falar com o médico
63
105
157
2010
3015
4020 (dose máxima)
50 e maisusar outra apresentação de ibuprofeno

* Nos pesos intermediários, deem doses intermediárias. Nas crianças de 12 Kg, usem 6 gotas dessa medicação. Consultem o texto ao final da apresentação sobre os produtos com ibuprofeno para conferir avisos importantes sobre o uso dessa medicação.

  • Ibuproneno em comprimidos de 400mg — A dose recomendada é: ½ comprimido para os adolescentes de menos de 40 Kg e de 1 comprimido para os com mais de 50 Kg. A dose máxima é de 1 comprimido por dose, de 6 / 6 horas.
Comentários sobre os produtos com dipirona, paracetamol e ibuprofeno
  • As doses recomendadas nas tabelas são para os produtos e para as apresentações discriminadas. Portanto, não se aplicam a outros produtos nem a apresentações distintas dos produtos aqui citados.
  • As doses apresentadas são as menores com efeito terapêutico. É prudente iniciar com a menor dose terapêutica. Essa recomendação algumas vezes conflita com as bulas que usualmente recomendam doses mais elevadas. Cabe aos pediatras indicarem doses diferentes das aqui citadas.
  • Os remédios devem ser dados com o máximo de precisão. Para os produtos em solução oral (xarope), o ideal é medir a quantidade a ser dada com dosador. O copinho com as graduações de 2,5 e 5,0 mililitros também podem ser úteis, mas sua precisão é menor do que o dosador.
  • Quanto menor o peso ou a idade, maior o cuidado com os remédios. Os pediatras podem indicar doses maiores.
  • Os remédios contra a febre para as crianças de menos de três meses de idade podem ou não ser indicados pelos pediatras após exame clínico.
  • O remédio pode ser empregado de 6/6 horas se a febre persistir. Quando preciso, os médicos poderão receitar outro esquema.
  • Os produtos em solução oral (xarope) contêm muito açúcar e não devem ser usados em diabéticos.
  • A dipirona e o paracetamol podem ser usados em casos de dengue. O ibuprofeno não deve ser empregado.
  • Os principais efeitos colaterais dos remédios contra a febre são: vômitos, reações alérgicas de pele, alterações sanguíneas, hepáticas e renais, asma e hipotermia.
  • Produtos exclusivamente com dipirona nas apresentações citadas: dipirona, anador, conmel, magnopyrol e novalgina.
  • Produtos em que o paracetamol é ofertado como único remédio nas apresentações antes citadas: paracetamol, dorico, tylenol.
  • Produtos que apresentam exclusivamente o ibuprofeno nas apresentações antes citadas: buprofeno, advil, alivium, artril, motrin, termol, uniprofen, dalsy, febralgin, doretrin.
  • Essas listas foram retiradas da versão eletrônica, em setembro de 2011, do Dicionário de Especialidades Terapêuticas (http://www.epuc.com.br/DEF).
  • A dipirona é o único antitérmico comercializado em supositórios. Os outros podem ser feitos em supositórios nas farmácias de manipulação.
  • Existem produtos em que esses remédios contra a febre estão associados a outros remédios. Essa nossa revisão não trata desses produtos que não estão indicados com antifebris.
  • Essas orientações não substituem a consulta médica.

Quais outros cuidados devemos ter?

  • O uso de dois antifebris aumenta o risco de efeitos indesejáveis. Além disso, haverá dificuldade na definição de qual produto ocasionou o problema. Só o médico tem autoridade para receitar dois remédios de uso concomitante.
  • Não usar o remédio por via retal ou muscular sem antes tentar a via oral. É importante ensinar à criança que o remédio é para ser tomado pela boca. Muitas crianças protestam, brigam, cospem e vomitam o antifebril. Mesmo assim, a via oral é a preferível. Escolham um remédio com sabor menos ruim. As gotas são usualmente mais difíceis de serem aceitas que os xaropes. Usem certa energia para dar o remédio. Digam que é preciso e ofereçam com conta-gotas ou dosador, aos pouquinhos.
  • Não usar remédio pela boca se existem vômitos repetidos e não usar supositórios se existe diarreia significante.
  • Quando a criança vomita, repetir a metade da dose, ainda pela boca, meia hora após. Se o vômito acontece de novo e a febre continua alta, fazer o supositório. Mas veja bem: na próxima vez, dê pela boca e, se vomitar, repita metade da dose, sempre dizendo: “você está dodói e precisa do remédio”.
  • A medicação pode ser repetida se a febre continua ou volta a ficar alta, quatro a seis horas após a dose anterior. Esperem o tempo necessário para que o remédio funcione o que ocorre após 30 minutos do uso. É possível que a temperatura suba um pouco após essa meia hora. Assim não é necessário outro remédio logo após a dose anterior.

E as doses para as várias idades?

O uso correto dos medicamentos para as crianças exige o conhecimento do peso. Não é prudente medicar usando a idade, pois crianças da mesma idade apresentam grande variação de peso. Apresentamos no guia prático uma tabelinha simples que valoriza a idade quando o peso não é conhecido. Orientamos que usem essa tabela para a primeira dose, mas logo procurem saber o peso da criança para medicar corretamente. É importante ter o peso atualizado de cada criança para facilitar o uso adequado dos medicamentos.

Essas tabelinhas dispensam os médicos?

Nossa proposta visa orientar os familiares a adotar as medidas iniciais para os problemas de saúde das crianças e dos adolescentes, tentar mostrar que a maioria dos problemas de saúde é resolvida com medidas muito simples e de baixo custo, procurar evitar que muitos dos erros vistos pelos pediatras e relativos ao uso de medicamentos e a outras práticas com a saúde sejam cometidos, mostrar aos familiares que as medidas domiciliares para a solução dos problemas de saúde têm limites e frequentemente há que se buscar assistência médica, demonstrar que todas essas orientações devem ser adotadas com extremo critério, com muito cuidado e até com certo temor, fazer com que todos saibam que nada substitui a orientação médica criteriosa.

Falem mais sobre os remédios sob a forma de supositórios?

No Brasil, todos os supositórios contra a febre e disponíveis nas farmácias contêm dipirona. As recomendações são as seguintes: dipirona em supositórios (magnopyrol ou novalgina supositórios para crianças) — menos de 1 ano: não usar; 1 a 2 anos: 1/3 do supositório que é a dose máxima por vez; 2 a 4 anos: 1/2 do supositório que é a dose máxima por vez; 4 a 6 anos: 1 supositório que é a dose máxima por vez. Podem ser usados, se preciso, a cada 6 horas. Há médicos que orientam o uso de supositórios de paracetamol preparados nas farmácias de manipulação.

Existem remédios para uso muscular ou venoso?

Existem e todos contêm dipirona. Devem ser usados em situações especiais, importantes, e ministrados em hospitais ou emergências sob supervisão médica. Portanto, não discutiremos o assunto aqui.

Qual desses remédios é o melhor para o controle da febre?

A prática pediátrica atual indica que o acetaminofen e a dipirona são os dois produtos preferencialmente usados. Eles têm a vantagem de serem usados há muitas décadas. O ibuprofeno vem sendo cada vez mais empregado. É um produto que não tem a tradição dos outros dois. Há muitos pediatras que preferem indicar um dos produtos mais antigos, mais tradicionais, mais conhecidos. Todos eles apresentam reações adversas que são próprias a cada produto. A hipotermia, que é abordada num capítulo próprio neste livro, é uma consequência que pode ser comum a todos os medicamentos antifebris. É importante ler o capítulo Hipotermia.

Posso usar um remédio e na próxima doença outro?

Não é boa prática fazer isso. Há várias razões que justificam o uso de apenas um tipo de antifebril, na mesma apresentação ao longo da vida da criança. É mais fácil memorizar a dose a ser usada e reduzir a chance de erros. O fato de o remédio e a apresentação terem sido bem tolerados anteriormente diminui muito os fenômenos de alergia e de tolerância medicamentosa. É mais fácil e mais barato manter apenas um antifebril em casa. O risco de intoxicações também é menor quando se tem menos drogas em casa. Assim, recomendamos que aprendam a manusear um produto, numa única apresentação.

E a aspirina?

Produtos com aspirina ou ácido acetil-salicílico (melhoral infantil, aas, bayaspirina) são atualmente contraindicados. Além de causarem reações comuns (dor do estômago, vômitos, às vezes com sangue, reações alérgicas de pele), causam, raramente, uma doença neurológica e hepática grave. Ocorre, sobretudo, quando usados em algumas viroses (catapora e gripe, por exemplo). É por esse motivo que, no mundo todo, a aspirina é recomendada para doentes com mais de 12 ou 13 anos de idade. Antes dessa idade, é remédio proibido para tratar a febre. Após os 12 anos, já podem ser dados para a febre comprimidos de 0,5 g um dos produtos como os antes citados para uso adulto. Doses para adolescentes: 1 comprimido de 500 mg de 6/6 horas.

Não existem remédios novos? E o Nisulid e o Cataflan?

Os produtos com ibuprofeno, antes citados, podem ser rotulados como “novos”, pois têm sido usados nos últimos anos. E, sem dúvida, a “idade” é um fator a ser considerado quando escolhemos remédios para nós e nossas crianças. Assim, os dois últimos citados têm muito mais tradição que o ibuprofeno e devem ser os preferidos. Os produtos com nimesulinda e diclofenaco não devem ser utilizados rotineiramente. São empregados em ocasiões muito especiais — exemplo alergia aos antitérmicos comuns — e devem ser receitados pelo médico. Não são para serem usados de rotina como os que foram detalhados na nossa discussão.

E os anti-inflamatórios?

Os últimos medicamentos citados, nimesulida e diclofenaco, e muitos outros, de uma classe de remédios denominados anti-inflamatórios não hormonais, não devem ser usados para febre nas crianças. Seus efeitos colaterais (hemorragia digestiva, erupção cutânea e outros) são de tal magnitude que quando se faz o estudo dos riscos/benefícios é evidente que os riscos são demasiadamente elevados para justificar o uso.

21.4.3Depoimentos

Depoimento de mãe em setembro de 2022

“Queridas mamães, conto minha experiência sobre febre, como mãe de 2 meninos (4 e 7 anos). No dia do bicentenário da independência, todos animados para o feriado, meus dois pequenos amanheceram com febre. Não uma febre normal, mas aquelas de enlouquecer a mãe. Nunca aconteceu, aliás, só ocorreu uma vez na vida, dos dois adoecerem no mesmo dia, desta vez, na mesma hora.

Acordaram molinhos. Peguei em um e achei quente, coloquei o termômetro e lá estava a tão temida febre. Fiquei acompanhando um e quando dei um beijo no outro, senti quente também. Passei a medir a temperatura deles de 20/20 minutos (contrariando o que o pediatra recomenda) pois a febre deles, principalmente do mais novo, sai de 37 para 39 em poucos minutos. Foi o que aconteceu naquele dia com os dois. Uma febre que o maior nunca tinha tido igual. Remédio de 3/3 horas, alternando a droga e mesmo assim ela sequer baixava, pelo contrário, ministrava o remédio em 38.5 e daí só fazia subir, chegou a 39.4 e só baixou um pouco (38.9) com compressa de fralda molhada na testa e na virilha.

A mãe, nessa hora, já está enlouquecida com dois filhos doentes e uma febre incessante. Coração dispara, perna treme!!! O que fazer com esse tão temido sintoma de doença? Mil coisas passam a sua cabeça, que doença será? Vírus? Bactéria? O que está causando essa febre tão intensa nos dois amores da minha vida?

Coração bate forte, você se vê desorientada, desnorteada, sem ter o direito de ficar, pois nesse momento eles dependem mais do que nunca do seu bom senso e da sua calma. Mas não é fácil ver seus dois meninos elétricos, que passam o dia correndo e fazendo barulho pela casa, deitados, sem levantar-se nem para comer, sem aceitar alimentos, só um pouco de água aqui e outro ali, com uma febre sem precedentes, como você se sentiria? Atônita, desesperada, sentindo-me incapaz de fazer algo que os tirem do estado de prostração e de sofrimento que seus dois tesouros se encontravam.

Acho que não existe dor maior para uma mãe do que ver um filho sofrer, imagina dois? Rezava para passar os minutos, para ver a temida febre ceder e nada. Temor dobrado, angústia singular, primeiro de ver os meninos com tanta febre, porque febre dói e sabia que eles estavam sofrendo e segundo a ansiedade de saber o que estava por traz daquela situação, além do medo de convulsão com temperaturas tão altas.

As horas se passavam e o medo aumentava e nessa hora que viramos 100% emoção, resolvi chamar a minha razão. Uma pessoa a qual mantenho uma total relação de confiança (isso é muito importante), pois a ele entrego o que tenho de mais precioso, meus filhos. Liguei para o pediatra e como todas as vezes ele me respondeu: febre é resposta normal do corpo agredido, habitualmente é benéfica, é coisa de Deus, falou ele!!! Mas em meu coração, naquele momento, febre era sinal de doença, só nós mães sabemos o quanto é ruim e doloroso ver seu filho doente, coração de mãe não aguenta.

O pediatra recomenda remédio a partir de temperaturas acima 38.5, e assim o faço, para dar oportunidade do corpinho deles se defenderem, pois, o corpo esquenta para matar o intruso que está causando o mal e desse modo, tento dar o mínimo de remédio possível. Apesar de ele dizer que nos países desenvolvidos não se usa mais remédio de febre, não consigo ver os números do termômetro subirem e não pensar logo em dar o remédio para me livrar o mais rápido da febre, como se me livrando dela, em meu psicológico, me livrasse também da doença que está acometendo meus pequenos. Tirando a febre estou me livrando de ver meus filhos sofrerem, estou fazendo com que eles voltem a sorrir e eu consiga respirar um pouco aliviada.

No dia seguinte a tão temida febre espaçou bem mais, e cumprindo meu papel de mãe, levei para a avaliação do pediatra que verificou a garganta inflamada e passou exames (que deram normais) e as coisas começaram a se acalmar, pois já conhecia a doença e os sintomas ficaram mais brandos. Mas mesmo sabendo que terminaria tudo bem, como em outras viroses, e mesmo sabendo que temos que ter paciência para aguardar o ciclo do vírus (2/3 dias), tenho certeza de que me desesperaria de novo na mesma situação.

Cuidem dos seus filhos, pois não existe amor maior, no meu caso, o amor é tão grande que não cabe no coração e escorre pelos olhos. Término com um ditado judaico: ‘Deus não podia estar em todos os lugares, então ele criou as mães’”.

Outro depoimento (setembro 2022)

Dias após o adoecimento das duas crianças da Erica, o menino mais novo da Letícia, de 9 meses, apresentou roséola que é uma das doenças com maior elevação térmica que a pediatria conhece. E Letícia assim falou:

“Normalmente eu sinto quando a febre surge com o toque na testa e no rosto do bebê. A barriga e as costas também esquentam e esse normalmente é o primeiro sinal que detecto. Meço uma primeira vez com o termômetro para saber o nível de febre que está iniciando. Acompanho a criança até que apresente algum sinal de melhora ou piora no quadro para medir novamente. Caso eu não sinta ou não detecte mudança, em torno de 1:30h meço novamente. Caso ele esteja dormindo, o procedimento é o mesmo. Aprendi a não ter medo da febre, mas sim de acompanhar o seu desenvolvimento. Se o estado geral da criança é bom, ou seja, não está afetando suas atividades e, estando a febre dentro do limite de segurança, deixo evoluir. A febre é um sinal de doença, mas também de defesa do corpo. Se eu posso acompanhar o meu filho, me sinto mais segura em deixar a febre até o limite de segurança para poder ter pistas do tipo de doença que estamos enfrentando.

E sei que as manifestações clínicas são essenciais para definir o uso do remédio contra a febre. É claro que existe um limite que é considerado de ‘segurança’ dependendo da idade da criança e do histórico de saúde. Mas se meu filho está brincando, disposto, e a febre não está limitando suas atividades, eu acompanho a febre e seus sinais até que seja necessário intervir com o antifebril. O mesmo para quando o bebê está dormindo. O sono é muito importante para a saúde do bebê, e o cansaço limita ainda mais a resolução das doenças. Por isso, de noite, só intervenho quando a febre chega próximo ao limite de segurança, para que eu também tenha um sono tranquilo. Se a mãe não dorme, também não consegue ajudar a criança. Tento fazer o máximo para não despertar a criança a noite para dar o remédio. Nesses 13 anos de consultas, o pediatra acompanhou meus quatro filhos e me ensinou a ter segurança sobre o meu feeling em relação ao estado deles, me ensinando a ter esse olhar clínico que é definitivo para auxiliar nos caminhos que o médico vai tomar durante a doença.”

Comentários da equipe médica sobre esses dois últimos depoimentos

“A febre e qualquer outro desvio da saúde normal impõe uma carga emocional nos cuidadores da criança, sobretudo na mãe que se sente e é, verdadeiramente, a maior responsável pela higidez dos pequenos. A mãe do primeiro depoimento demonstra uma vivência mais angustiante com a febre dos dois filhos. E nenhum de nós pode dizer que há erro nesta conduta. Muito bem Erika, mantenha esse tônus para bem cuidar dos seus dois tesouros. A mãe do segundo depoimento adota uma postura mais tolerante, vendo a febre de forma menos dramática, mas, sabemos nós, muito qualificada. Também está certo. Parabéns, Letícia.”

Depoimento de mãe de garota que apresentava episódios repetidos de febre — Ayrla Luiza Cruz A de Souza (setembro de 2022)

“Desde os primeiros anos de vida minha filha, Helena, sofria com crises de garganta reincidentes, usualmente tratadas com antibióticos. Quando ela completou 5 anos, começou a ter episódios de febre alta, cada vez mais frequentes e menos espaçados, chegando à marca de 15 em 15 dias, invariavelmente.

A febre tinha uma periodicidade exata, ao ponto de anotarmos no calendário do mês seguinte o dia em que iniciaria a ‘crise’. Sempre com duração de três dias, alta e com dificuldade de baixar, ao fim do terceiro dia, a febre sumia inexplicavelmente.

Foram muitas as idas à emergência de hospitais, muitos remédios administrados e nada fazia cessar os episódios a cada 15 dias, o que afetava a qualidade de vida de Helena de forma angustiante, assim de como toda a família.

Em agosto de 2021, Helena foi consultada por experiente pediatra que de pronto sinalizou que precisaríamos de uma reumatologista pediátrico para auxiliar na investigação da doença, assim como de um oncologista, em razão de alguns resultados nos exames de sangue e imagem. No que toca à suspeita de câncer, ela foi avaliada pelo Dr. Francisco Pedrosa, que aprofundando os exames, descartou qualquer doença oncológica.

Helena foi avaliada pelo Dr. André Cavalcanti, reumatologista, que logo nos apresentou uma doença de nome incomum, que jamais tínhamos ouvido falar: PFAPA (sigla em inglês para febre periódica, aftas orais, faringite e adenite cervical). Após realização de alguns exames e seguirmos um protocolo indicado pelo Dr. André e, na crise seguinte, foi fechado o diagnóstico.

Embora não seja uma doença genética, a PFAPA possui algumas características hereditárias e, ouvindo meu histórico quando criança, Dr. André informou que é possível que eu também tenha tido a síndrome e, assim como tantas crianças, fui equivocadamente tratada com uso de inúmeros antibióticos por toda minha infância.

Esse mês completa um ano do diagnóstico de Helena, que fez um tratamento medicamentoso por 90 dias, e desde o primeiro dia de uso da medicação até hoje, não teve uma única crise, graças a Deus.”

Comentários da equipe médica sobre o último depoimento

“É evidente a falta de assistência médica sequenciada, programada, contínua, com registro dos eventos mórbidos apresentados pela criança. Emergência hoje, outra emergência no próximo episódio de doença, um pediatra agora, outro depois, antibióticos com frequência, sem diagnóstico preciso. E o tempo passa e a criança continua adoecendo com crises de enfermidade febril.

Esse é provavelmente o exemplo típico de como não deve ser a assistência médica prestada a qualquer um de nós. Os cuidados médicos com a nossa saúde devem ser pensados, programados e executados de modo racional, inteligente.

Na assistência à saúde da criança, o modelo ideal pensa no acompanhamento de longo prazo por um único serviço de saúde, com registro adequado dos desvios apresentados e com as intervenções adotadas.

Se essa orientação tivesse sido adotada, é possível que o mesmo pediatra que acompanhou a criança por muito tempo tivesse achado estranho o comportamento biológico apresentado, febre com estranha frequência, e adotado uma postura de investigação.

Torna o assunto, na situação demonstrada, ainda mais relevante, o fato de a mãe ser altamente diferenciada e ter boa condição social. Imaginem, portanto, a dimensão do problema na comunidade carente onde as mães têm, habitualmente, escolaridade deficiente.

Temos sempre lembrado que os textos fazem parte de um projeto educativo e não substituem a consulta pediátrica presencial onde muitos outros aspectos, como os de ordem emocional, são abordados. E esta abordagem geral, ampla, é essencial para o bom resultado da intervenção médica. Não pretendem substituir a consulta médica individualizada onde muitos outros aspectos, como os de natureza emocional, são avaliados para a definição da melhor orientação para cada enfermo.”

21.5Convulsão febril

21.5.1Guia prático

Se a criança pode estar apresentando convulsão, com ou sem febre, ajam assim:

  • Removam rapidamente, sem demora, o paciente para o hospital mais próximo.
  • Deitem a criança numa superfície plana, de lado, para evitar dificuldade com vômito ou saliva.
  • Não coloquem nada na boca. Não deem banhos, não tentem respiração boca a boca, não façam compressão no tórax nem executem qualquer outra manobra de ressuscitação.
  • Não tentem restringir os abalos musculares. Isso pode facilitar traumas.
  • Tentem manter a calma.
  • Avisem ao pediatra assistente.

21.5.2Conversando...

A convulsão febril é preocupação dos que levam as crianças que estão febris aos pediatras. O tema merece debate amplo.

Por que se fala tanto em convulsão febril?

A convulsão febril ocorre em cerca de 3% a 5% das crianças com desenvolvimento normal de 3 meses a 5 anos de vida. É um evento extremamente traumatizante e os pais ficam com receio da criança apresentar novamente.

Como sabemos que está ocorrendo uma convulsão?

Não é preciso experiência com convulsão nem ter lido sobre o assunto para ver que algo muito estranho, diferente e importante está acontecendo. A criança irá apresentar algo até então inédito.

Descrevam como é a convulsão.

Seguem as principais características de um episódio convulsivo febril:

  • O início é súbito. Ocorre a qualquer hora, em qualquer local e circunstância
  • Antes da crise, a criança pode ficar um pouco mais apática, “molinha”. Logo a criança fica inconsciente, “desmaiada”, com olhar fixo ou “vago”.
  • Em seguida, o corpo fica enrijecido e há abalos musculares nos quatro membros.
  • Pode surgir coloração azulada (cianose) na face e nos membros.
  • Pode ocorrer liberação esfincteriana durante a crise.
  • Decorridos poucos minutos, espontaneamente, os abalos musculares cessam, a criança chora, a cor volta ao normal e é retomado o contato com as pessoas e com o ambiente. Em alguns casos, há sonolência ou vômitos após a crise.
  • A duração da crise típica usualmente é de menos de cinco minutos.

E existe a convulsão febril não típica?

São menos frequentes. Podem ser mais prolongadas, durar 15 minutos ou mais, e são caracterizadas por diferentes manifestações convulsivas: além da inconsciência podem surgir abalos musculares apenas em um lado do corpo, ou então a convulsão se limita ao desvio dos olhos sem movimentos nos membros. E, em alguns casos, pode ocorrer mais de um evento no mesmo dia.

A criança pode estar sem febre no momento da crise febril?

Sim, não é obrigatório a criança estar com febre no momento da crise, contanto que apresente evento febril nas 24 horas que antecederam ou sucederam a crise.

Como vocês médicos sabem que a convulsão é febril?

Deve ser excluído outras causas da crise convulsiva: checar glicose, conferir o desenvolvimento neurológico da criança. A convulsão febril ocorre até os 5 anos, tem características próprias e surge no curso de doença febril. Também é caracterizada pela ausência de outra causa de convulsão (meningite, distúrbio metabólico, etc.) e pela rápida recuperação. A ocorrência em outros membros da família ajuda a definir ainda com mais precisão o problema. Habitualmente, não são necessários exames de ressonância magnética e nem de eletroencefalograma para o diagnóstico.

Crianças que tiveram convulsão não febril no passado e que agora apresentam crise convulsiva na vigência de febre não devem ser rotuladas como portadoras de convulsão febril. Mas pode haver uma ou outra situação em que o pediatra fique com dúvidas. Nesse casos o neurologista infantil deve ser consultado.

Convulsão mostra que o sistema nervoso é anormal! Correto?

Nem sempre a presença de convulsão demonstra anormalidade no sistema nervoso. Está demonstrado por todos os cientistas que estudaram o tema que o cérebro das crianças que apresentaram convulsão febril é normal. Elas terão habilidades, competência intelectual, desempenho escolar, características emocionais e todas as outras funções do sistema nervoso absolutamente idênticas às das crianças que não tiveram o quadro. Isso não pode ser dito das crianças que sofreram convulsão não febril. Muitas delas podem ter alguma alteração do sistema nervoso central.

O que ocorre com o cérebro dessas crianças?

Tem uma causa multifatorial. Existe uma predisposição genética e certas famílias apresentam mais convulsão febril que outras. Se os dois pais tiveram convulsão febril, um filho do casal terá 40 a 80% de probabilidade de ter. Se apenas um dos pais teve o problema, a chance de um filho ter o quadro cai para 20, 30%. A convulsão febril ocorre entre os 3 meses e os 5 anos de idade. O pico de ocorrência é aos 2 anos. Acontece numa fase especial do amadurecimento do cérebro em que a febre desencadeia o quadro. É uma situação mais vista em meninos que em meninas. Após 5 anos de idade, o quadro não ocorre mesmo com febre alta e mesmo em quem apresentou a convulsão.

Mas a crise pode deixar sequelas, não é?

Apenas em raríssimos casos de crises prolongadas, com um tempo de duração acima de 40 minutos. Por isso, em caso de crise convulsiva em vigência de febre, a criança deve ser levada à emergência para interrupção da crise. Na enorme maioria dos casos não deixará nenhuma sequela.

E qualquer febre pode produzir a convulsão?

Na idade citada, qualquer febre, produzida por qualquer doença e até pela vacina, pode desencadear a convulsão. Surge com uma maior incidência no primeiro dia da febre, na fase de rápida elevação da temperatura. Em muito casos, os pais não percebem que o filho está com febre, só irão perceber durante ou depois da crise.

É real que a febre da vacina pode causar convulsão?

Citamos antes que sim. Mas há convulsões após as vacinas, mesmo que exista a febre, que podem ter outra origem. Existem convulsões que podem ser causadas por outros processos surgidos após a vacinação e não pela elevação térmica. Assim os médicos devem sempre ser avisados quando as crianças apresentam eventos convulsivos relacionados à aplicação das vacinas.

É a rápida elevação da temperatura que causa o quadro?

Algumas vezes, é a convulsão que denuncia a febre. O que ocorre é que a elevação térmica surge inesperadamente e a convulsão surge. É a rápida elevação da temperatura num curto período de tempo que causa o episódio convulsivo. Quando a temperatura alcança um nível elevado, por exemplo, 40°C, sem a ocorrência da convulsão, o risco de surgimento do quadro é menor.

Podem explicar de novo?

A convulsão ocorre principalmente quando a temperatura sobe rápido, mas pode acontecer quando a criança está há horas com temperatura alta. A convulsão também pode aparecer no segundo ou no terceiro dia de febre.

Quem teve uma pode ter mais crises de convulsão febril?

Criança que apresentou um episódio pode ter outros. O risco é maior se a primeira crise foi antes dos 12 meses de idade e se há familiar acometido. O médico pode evidenciar outros fatores que aumentam o perigo do quadro se repetir. Essa é uma das razões para a avaliação criteriosa de cada criança.

Como procedemos quando a criança convulsiva tem febre?

É absolutamente natural e entendível que os familiares, sobretudo, os que presenciaram o quadro convulsivo, fiquem preocupados. O medo da febre e da repetição do problema, que realmente existe, é o marco principal dessa fobia. A conversa com o médico de confiança, se necessário, várias conversas, e o tempo é que desmancharão esse receio.

Como agir se a criança convulsiona?

Algumas recomendações são essenciais:

  • Deitar a criança numa superfície plana, de lado, para evitar dificuldade com vômito ou saliva.
  • Não colocar nada na boca, nem tentar abrir a boca criança, não colocar o dedo ou chaves entre a boca. Não tentar respiração boca a boca, não fazer compressão no tórax nem manobra de ressuscitação.
  • Não tentar restringir os abalos musculares, pois pode facilitar traumas.
  • Se estiver utilizando roupas apertadas, soltar os botões da camisa, tirar a bermuda, cintos.
  • Tentar, embora seja difícil, manter a calma.
  • Providenciar remoção para o hospital mais próximo. Não é prudente esperar em casa que o quadro ceda. Ninguém tem certeza, nem mesmo o médico, se a crise durará cinco, dez, ou mais minutos. Mesmo o médico, no momento da crise, é incapaz de dizer se a doença que causa a febre é meningite. O importante é a criança ser examinada logo pelo pediatra para o diagnóstico da causa da febre.

O que será feito no hospital?

No hospital, são adotadas medidas para:

  • Tentar parar, com medicamentos, se o quadro convulsivo for prolongado.
  • Baixar a febre.
  • Investigar a causa da febre.
  • Definir se a convulsão é realmente do tipo febril ou se provocada por uma doença que atinge o sistema nervoso. A doença mais importante a ser pensada é meningite. O médico assistente deve e pode ajudar nessa fase.

Após a crise, é preciso internar a criança?

É necessário manter o paciente em observação por pelo menos seis horas. Após a crise geralmente a criança vai estar sonolenta e acabar por dormir. É de bom tom esperar a criança despertar e alimentar-se. Algumas horas no hospital facilitam o diagnóstico da causa da febre (hemograma, exame de urina e outros) e permitem que o médico e os familiares amadureçam sobre a conduta futura. É possível que seja mais prudente internar a criança quando a crise ocorre à noite para garantir melhor observação.

É importante fazer eletro ou outros exames?

Logo após o quadro convulsivo, os exames poderão ser necessários para definir a causa da febre. Dias após, superada a fase convulsiva e definida a causa da febre, o médico assistente deve revisar o ocorrido e definir o que fazer. Ele é que pensará com o familiar a necessidade de eletroencefalograma, de consultar o neurologista ou de adotar outras medidas. Em casos de atraso do desenvolvimento ou de crises convulsivas, na ausência de febre é necessário a realização de exames complementares.

Quando levar a criança ao neurologista?

O tema convulsão febril, principalmente se ocorreu apenas uma crise, é de competência do pediatra. Ele tem condições de levantar o perfil de risco para a repetição do quadro, de recomendar o que fazer nos próximos episódios febris e de como agir caso ocorra outro episódio. O pediatra da família é quem define a necessidade de consultar o especialista, quando ocorre casos de crises anteriores na ausência de febre. Mas é ideal que a orientação final, usar ou não usar drogas anticonvulsivantes e a adoção de outras medidas, seja sempre discutida entre o pediatra, o neurologista e os familiares.

Falem mais sobre o risco da repetição da convulsão febril.

Cerca de 60% das crianças acometidas têm apenas um episódio. Das 40% restantes, a maior parte tem duas crises e uma parte bem menor terá três ou mais episódios. A segunda crise acontece, em 70% das vezes, no primeiro ano após a primeira e, em 90% das vezes, até o fim do segundo ano. A possibilidade de repetição é maior se existem um ou mais dos seguintes fatores: quadro semelhante em familiar próximo (pais, irmãos, tios) e convulsão abaixo dos doze meses de idade.

Como agir na criança que teve convulsão febril e está febril?

Os familiares devem rever, com o médico, o plano que inclui medidas para:

  • Tentar diagnosticar e tratar precocemente, se possível, a enfermidade causal da febre. É o mais importante e precisa de auxílio médico.
  • Tentar reduzir a temperatura corporal com mais rigor e precocemente: dar remédio e usar outras medidas quando a temperatura alcançar 37,5°C ou estiver em rápida ascensão.
  • Estabelecer um programa, caso ocorra convulsão, principalmente no caso de crianças cuidadas por babás. As seguintes medidas podem ser praticadas: manter pessoa com poder de agir ao lado da criança, definir o hospital mais próximo, deixar disponível dinheiro para táxi, proibir a adoção de medidas caseiras que retardam a ida ao serviço médico.
  • Algumas vezes, o pediatra e o neurologista indicam alguns medicamentos que têm ação preventiva.

Devemos aplicar vacinas nas crianças que tiveram convulsão?

Sim, as crianças devem manter o cartão vacinal atualizado. Pode ser utilizado medicamento antitérmico um pouco antes ou logo após aplicação da vacina, para diminuir o risco da crise convulsiva febril.

Existem remédios para evitar as crises?

Existem, mas não são recomendados para quem apresentou apenas uma crise. No século passado, era utilizado anticonvulsivantes de uso diário, porém o uso dele não é mais recomendado. Outra opção terapêutica, para as crianças que apresentaram inúmeras crises febris, é o uso de medicamentos que só devem ser utilizados nos períodos em que a criança apresente febre. Porém, têm uma eficácia reduzida e podem ter efeitos colaterais, principalmente sonolência. Por isso, o uso de medicamentos controlados deve ser utilizado com cautela e decidido conjuntamente com a família.

Convusão febril é epilepsia?

Não, o fato isolado da criança ter apresentado crise febril não significa que ela desenvolverá epilepsia. Ela também não tem uma maior chance de desenvolver epilepsia em relação a uma criança que nunca teve crise febril.

21.5.3Colaboração de cuidadores

Falam os cuidadores

“Somos mãe e pai de um garotão normalíssimo, agora, em outubro de 2010, com 4 anos e 3 meses de idade. Não temos dúvida da sua normalidade. Sentou-se e andou nas datas certas, brinca, pula, corre, joga bola com seus amigos, ouve e fala normalmente como os da sua idade, dorme e come bem, está perfeito na escola e os professores informam que o rendimento é semelhante ao dos coleguinhas. É afetuoso, carinhoso, a alegria da nossa vida.

Mas ele teve oito convulsões durante algumas das doenças febris que apresentou até agora. A primeira convulsão aconteceu aos 11 meses de vida quando teve a primeira febre. Foi desesperador, terrível. Nunca imaginamos ter que passar por circunstância tão inesperada e assustadora.

A convulsão logo cedeu e não tivemos tempo de fazer nada. O pediatra nos aconselhou ir a uma emergência e após comparecermos ao consultório. Como ele tinha apenas 11 meses de idade, o profissional opinou que deveríamos consultar um neurologista de crianças. Esse profissional nos informou sobre o problema, enfatizou que a criança era absolutamente normal, que o quadro poderia se repetir até os 5 anos de idade e falou sobre várias providências que deveríamos adotar em caso de febre e de repetição da convulsão. Mas o neurologista prescreveu uma medicação contra a convulsão que deveria ser usada durante as doenças febris.

Aí surgiu outro problema. O nosso filho não aceitava, como não aceita ainda hoje, medicação pela boca. Então, seis meses após a primeira, em outra doença com febre veio a segunda convulsão. Novo trauma, nova angústia, apesar da experiência anterior. Um mês após essa segunda, ocorreram dois episódios, um muito leve e outro mais forte. Sempre durante febres e sempre com a mesma dificuldade de dar a medicação oral. Houve um quinto episódio e um sexto, mesmo usando supositório de um remédio contra convulsão. O neurologista passou o supositório, pois o garoto continuava sem tomar medicação oral. Então, mesmo com o remédio retal a convulsão ocorreu.

Não é necessário repetir que cada crise nos enchia de incertezas e de angústias. Às perguntas antigas, novas eram somadas face às conversas com os parentes e com as outras pessoas da nossa relação.

Algumas convulsões inclusive nos informavam que nosso filho estava com febre. Assim, antes de percebemos a febre, a convulsão acontecia. A partir de 38°C já podia ter convulsão. Percebemos também que as convulsões só ocorriam nas primeiras 24h do estado de febre.

Até os 3 anos de idade, foram seis convulsões, quando o neuropediatra suspendeu a medicação para proteger contra a convulsão que só era feita no estado febril. Após essa decisão, sofremos uma ansiedade quase insuportável com medo de que a convulsão ocorresse. E assim foi durante um ano e seis meses. E, nessa fase, ele teve quatro episódios de febre inclusive altíssima de 40°C sem que tivesse uma convulsão.

Estávamos tranquilos pensando que o problema havia sido superado.

Agora, neste mês de outubro, quando o garoto tem 4 anos e 3 meses de idade, durante doença com febre alta variando entre 39,5°C e 40°C, mesmo com medicação antifebril e banhos, teve duas convulsões com intervalo de seis horas nas primeiras 24 horas da doença que mais tarde se revelou ser escarlatina. Foi um tormento, pois já não acreditava e nem esperava que tivesse mais.

Ficamos extremamente surpresos. Pior ainda foi ouvir do neuropediatra que não deveríamos dar a medicação anticonvulsiva. A dificuldade de dar remédio oral continuava a mesma e tivemos de recorrer à emergência para baixar a febre. O pediatra e o neurologista mantiveram a posição de não aplicar medicação contra a convulsão, mesmo com as dúvidas do médico da emergência. Passamos doze horas no hospital, a doença foi tratada com antibiótico e a convulsão não voltou a ocorrer. O menino, logo após o antibiótico, ficou sem febre e tudo voltou ao normal.

Assim passamos nossa experiência para vocês. Nunca mudamos de pediatras. Nunca mudamos de neurologista. Eles sempre nos informaram que a criança era absolutamente normal e que o problema dependia de uma imaturidade cerebral que desapareceria com o tempo. Lemos muito sobre o assunto e sempre obtivemos as mesmas informações. Esse tipo de convulsão ocorre em crianças normais que serão normais no longo prazo.

E temos certeza de que nosso filho é normal. Imaginem que, quando nós achávamos que ele estava curado, aparecem esses dois episódios. A fase difícil já passou consegui perceber que realmente a convulsão febril é benigna por todos os episódios que meu filho foi acometido. Repito que ele é uma criança saudável, esperta, inteligente, normalíssimo com todas as nuances e intempéries de uma criança da sua idade.

Acrescentamos ainda que o neurologista nunca solicitou exames e, quando questionado, sempre informou que tudo o que a moderna medicina dispõe, até agora, não mostra anormalidades. Assim não seriam necessários eletro, nem tomografia, nem ressonância, nem qualquer outro tipo de exame. Outro aspecto que ressaltamos é que o especialista sempre nos disse que uma das razões para o uso da medicação contra a convulsão era para diminuir a ansiedade dos pais.

Outro fato que nos tranquilizou foi conhecermos uma família cuja filha teve 14 episódios de convulsão febril. Todos os exames da garota foram normais e hoje ela é uma mocinha de 12 anos absolutamente sadia e há muitos e muitos anos nada apresenta de anormal.

Queremos passar para outros familiares que vivem essa realidade que acreditem em seus médicos e não se angustiem desnecessariamente, pois é nesta hora que precisamos ser fortes e equilibrados por eles e por nós para não desencadear outros males psicológicos, porque estes sim podem ficar por toda a vida.”

Falam os profissionais

‘“Destacamos que o filho deles, que apresentou grande número de convulsões é uma criança e, como se relata e como os médicos afirmam, é absolutamente normal. Ressaltamos a segurança dos profissionais responsáveis pela assistência médica da criança que não solicitaram exames desnecessários, alguns inclusive que necessitariam de sedação, nem empregaram remédios anticonvulsivos nos dois episódios. Enfatizamos a segurança dos familiares que apesar de angustiados com a situação sempre acreditaram na conduta profissional honesta e bem-posta. Relatamos o curso caprichoso do quadro convulsivo apresentado pelo garoto. Depois de mais de um ano sem episódios convulsivos, quando voltou a tê-loslaspecial de certas crianças. A, na vigência de uma doença especial, a escarlatina, voltou a convulsionar. Isso mostra que a convulsão febril não depende só da febre e de uma resposta especial de certas crianças. Ela depende também da doença apresentada. Há doenças febris que provocam mais doenças que outras. Assim a medicina é complexa o que dificulta o trabalho dos profissionais que trabalham na área.”

Colaboração de uma cuidadora em março de 2023

“Miguel completa hoje um 1 e 9 meses, ele é inteligente, esperto e sobretudo resiliente, está estudando no infantil 1 e tem um desenvolvimento normal. Era maio de 2022, faltavam 13 dias para que Miguel completasse 1 ano. Pela região que moramos, a cidade de Caruaru (PE), as temperaturas já estavam baixas, e com isso Miguel resfriou. Achamos normal, toda criança tem resfriados, ele ficou muito secretivo, sem apetite, com febres persistentes, naquela noite insistimos em alimentá-lo, pelo menos com a mamadeira. Tomou pouco, estava febril, medicamos, fizemos uma última lavagem nasal e fomos dormir. Devido ao excesso de catarro, minha irmã decidiu colocá-lo para dormir de bruços em seu colo, em poucos instantes ela percebeu um barulho estranho, ela pediu logo para que eu acendesse a lâmpada. Começava aí experiência mais intensa de nossas vidas, era a convulsão febril. Miguel convulsionava, nunca antes havíamos visto algo daquele tipo, a sensação era de morte, ele não se debatia, apenas tremia como um calafrio, olhos ausentes, uma zoada estranha, pouca baba, fez xixi e evacuou, começou imediatamente a ficar roxo, ligamos para o SAMU, que orientou levarmos a Unidade de Saúde mais próxima, esperar seria demasiadamente perigoso.

Moramos no 25º Andar, o elevador não chegava, queríamos ir pela escada, nada parecia acontecer, o tempo acelerava, e os movimentos eram lentos, eu, mãe, fui dirigindo, era a vida de meu filho, minha irmã entrou com ele, fomos direto para sala vermelha. Ele já estava para nós sem sinais vitais básicos, tão roxo, toda equipe se mobilizou, um bebezinho naquele estado, eu fiquei lá, desesperada, ele havia broncoaspirado o leite e a medicação. Precisavam estabilizá-lo e conseguiram, aspiraram, a saturação foi normalizada. Foi realizado um raio X, tudo voltava ao normal, não sabíamos ainda se haveria sequelas.

Falamos com o médico que o atendeu e pedimos autorização para levarmos a Unidade de Saúde particular e, sem termos noção da gravidade, levamos no carro mesmo. Chegando lá foram feitos exames e se optou pelo internamento. Ele estava com pneumonia em decorrência da bronco aspiração. Lá se passaram 10 dias de internamento até a tão esperada alta.

A partir de então era entender o que aconteceu, meu filho tinha epilepsia? O que tinha acontecido? Várias opiniões, leituras, começamos a buscar de médico em médico uma explicação, e nada me deixava na condição de mãe segura. O primeiro “neuro” que levei meu filho passou gardenal de uso contínuo, sem se quer pedir um exame, agradeci pela consulta e me retirei. O segundo, sugestionou depakene, explicando a mim os riscos de uma nova convulsão, aceitei, e começamos a dar, mas achava ainda que faltava algo. Esse mesmo solicitou um eletroencefalograma, fomos a um outro, que se quer tocou em meu filho, disse que se tratava de convulsão febril, que ele iria ter, bastaria a nós administrarmos, sem acolhimento, sem empatia, sem esclarecimentos. Saí do Hospital Esperança chorando copiosamente.

Seguimos para um exame, havíamos buscado ainda um pediatra da capital, vários profissionais indicaram o médico da cidade, que de logo informou o que era a convulsão febril, esclareceu várias dúvidas e nos pediu para procurarmos um neuropediatra. Uma amiga já tinha falado em um neuropediatra, jovem, que tinha muita atenção e empatia pelos pacientes, que fora referendado também pelo pediatra, logo mais cedo, Dr. Lucas Alves. Já fomos com exame em mãos, a consulta, foi esclarecedora, olhou meu filho da ponta da unha ao fio de cabelo, esclareceu minhas dúvidas, falou da possibilidade de repetição e passou uma medicação para uso em vigência de febre, combinada o antitérmico de costume.

Após essa primeira convulsão febril, aconteceram mais quatro convulsões, em um período de nove meses, a cada vez temos um novo aprendizado, somos menos afobados. Já sabemos que devemos colocá-lo do lado direito, com as vias aéreas livres, se ele está em vigência de febre evitamos alimentá-lo, como o antitérmico tarda a fazer efeito, fazemos compressas nas coxas, axilas, barriga, pescoço e cabeça, que ajudam significativamente a baixa rápida da temperatura.

A convulsão mais duradoura ocorreu por quatro minutos, em um mesmo dia ele chegou a ter duas convulsões, mas em razão desta ter ocorrido em menos de 12 horas entre uma e outra, é considerada apenas uma. Já tivemos convulsão dentro do hospital, lá estabilizaram com diazepam e oxigênio e subimos para UTI.

Na UTI conheci um médico que atendeu meu filho, que tem um filho que na infância também teve convulsão febril, isso há 26 anos, hoje o filho dele é médico, ouvi muitos relatos, muita empatia e acolhimento por uma infinidade de pessoas.

A convulsão febril é chamada de benigna, fomos bem esclarecidos que não deixará sequelas. Neste mesmo período da UTI, realizamos novo eletroencefalograma, mais demorado, fizemos ressonância, fizemos exames na medula, e todos, absolutamente todos não mostram nada. Normalíssimos.

A convulsão de Miguel ocorre apenas no primeiro dia de febre. Miguel já teve outros episódios febris nesse período, por vacina, por exemplo, contudo, não convulsionou. Fazem nove dias da última convulsão de Miguel, ele passou oito dias internado e cada internamento para ele é um parque de diversões, ele já retornou à escola. Miguel é uma criança como qualquer outra, cheia de alegria, faz bagunça o dia todo, cheio de birras, sem sequelas.

Que outros pais de Miguels, Helenas, Josés, Marias e tantos outros que experienciem a convulsão febril, e vejam esse relato, consigam administrar melhor a situação e acalmar o coração. Vai ficar tudo bem!”

A febre da minha filha

“Sou mãe de filha única, fui mãe ‘velha’ e a nossa garota viveu os primeiros anos da vida em Fernando de Noronha. Seguramente são aspectos que complicam a equação. Precisamos desapegar totalmente do ‘normal’ na criação dela. Consultas mensais no pediatra?!?! Doce ilusão. Íamos quando dava, ou melhor ainda, quando precisava. Ela teve uma primeira infância bem tranquila. Tínhamos contato com o pediatra ‘oficial’ via telefone quando era necessário. Aprendemos desde cedo a não sermos desesperados em relação ao que aparecia. Tosses eram tratadas com lambedor (receita da bisa nordestina). Febres com muito banho fresco e quando víamos que poderia ser alguma coisa mais séria, aí sim íamos para o continente. Fora isso a garota foi criada com muito banho de mar, muita areia, sol e muito peixe fresco. O pediatra sempre falou, criança saudável é criança que se alimenta bem, que brinca, que se movimenta. Levamos isso a sério.

Em abril de 2024, já morando no Recife, vivenciamos a pior febre da nossa garota. Chegou a apresentar 39,5°C. Honestamente essa febre nos assustou um pouco. Com isso de cara já medicamos, variando de remédios. No segundo dia, ligamos para o pediatra e ele sempre muito calmo disse: ‘mãe, a febre mais alta não quer dizer que o problema é pior, quer dizer que o corpo da garota está lutando contra o que está errado. Observe!’. E assim foram cinco dias de febre. Continuamos no remédio e até banho de mar rolou nesse meio tempo. E continuamos dando dipirona e paracetamol. No quinto dia resolvemos levar no consultório. O pediatra examinou e não achou nada de errado. Era só febre mesmo! Mas cinco dias!?! O que fazer?!? E então vem novamente a voz da sabedoria com uma recomendação que nos deixou assustados: ‘vamos deixar sem remédio e deixar o corpo da menina resolver, ok?’.

Eu e meu marido, que escolhemos o pediatra e confiamos, abraçamos a causa. Isso era logo cedo, a menina estava com 38,5°C. Passamos o dia hidratando muito e com banhos frescos, sem remédio. Foi dormir com febre, no meio da noite continuava com febre. 24 horas depois, logo cedo, fui ver a nossa filha. Coloquei a mão na testa, e a criança estava fresca, 36,5ºC. A febre tinha ido embora e a criança pulou da cama pedindo para ir para a escola!! E assim foi. No sexto dia, zero febre, sem nenhum sintoma foi para a escola! E agora ficou a lição para as próximas febres e para as amigas mães. Sempre observar e avaliar toda a situação. A febre é a uma das maneiras como o corpo lida com o que está errado. Muitas vezes o remédio antitérmico e outros remédios podem mascarar uma situação e até ajudar a doença. E confiem no seu pediatra!”

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